A PERFORMANCE AFRO-AMERÍNDIA
Zeca Ligiéro
Grandes teóricos internacionais nos ensinaram que o teatro surgiu na Grécia antiga e lá se espalhou pelo Mundo. Entretanto, a partir do começo do século XX, alguns pesquisadores do teatro abriram uma nova perspectiva para compreensão do fenômeno teatral, estudando as tradições orientais. Estudos estes focados principalmente nas tradições teatrais da Índia, da China e do Japão, onde foram redescobertos textos escritos durante os primeiros séculos da era Cristã, reportando a uma tradição teatral tão rica e complexa quanto a grega, e possivelmente muito anterior à esta. Caindo por terra a idéia de que o teatro surgira na Grécia. Nestes modelos, não europeus, o conceito de teatro tornou-se mais abrangente, incluindo entre as suas técnicas, disciplinas como a dança, a acrobacia, a percussão, o canto. As propostas deste teatro não ocidental incluía um extremo rigor formal, aliado a uma filosofia com princípios estéticos altamente elaborados. Neles a relação com os deuses, a mitologia e a religião era e é evidente.
A partir da década de sessenta, pesquisadores como Jerzy Grotowski, Peter Brook, Richard Schechner e Eugênio Barba, encontram na palavra "performance" a propriedade para definir este teatro multicultural, includente (música, dança e percussão) e em muitos casos ritualizado; diferenciado-o do teatro ortodoxo praticado no ocidente, modelado no teatro grego. O conceito "performance" tem sido usado também para compreender o teatro feito pelo povo iletrado, seguindo a tradição oral, alheia aos modelos greco-romanos que permearam a construção da estética dominante. Desta forma, performance tem sido usada como um sinônimo de apresentação e representação, quase sempre possuindo caráter festivo e/ou religioso mas em muitas destas formas preservando o seu alto grau de ritualismo.
Nossos historiadores brasileiros, muitos deles seguindo a trilha dos estudiosos do Velho Mundo, concluíram que o teatro brasileiro teve início quando o Padre José de Anchieta encenou seus primeiros autos para os índios brasileiros. Não percebendo as performances existentes no Brasil seja a nativa ou a trazida pelos milhões de africanos logo nos primeiros anos de colonização da costa brasileira ou mesmo antes disto, como provam as recentes descobertas feitas a partir das escavações a poucos quilômetros do aeroporto de Confins em Belo Horizonte, Minas Gerais. Em um sítio arqueológico chamado de Lapa Vermelha, em Lagoa Santa foi encontrado o mais antigo fóssil das Américas, uma mulher batizada com o nome de Luzia, de baixa estatura, morta aos 20 anos, motivo desconhecido, e que viveu durante um período no século 10.000 ou 11.000 antes de Cristo, o fóssil foi encontrado a 13 metros de profundidade numa caverna. Transportado para o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, esquecido entre caixas no acervo da instituição. O arqueólogo Walter Neves o encontrou há alguns anos atrás. Os traços anatômicos de Luzia não tem nada em comum com os traços mongolóides dos nossos indígenas, mas pertencem nitidamente aos grupos negroides, habitantes da África e da Oceania. A reconstituição do rosto de Luzia realizada através das mais modernas técnicas da computação, por cientistas especializados da Universidade de Manchester, Inglaterra, não deixa nenhuma duvida, Luzia era uma negra. Mas de onde veio Luzia? Como vivia Luzia e seus semelhantes? Em muitos sítios arqueológicos da mesma época podemos encontrar desenhos e pinturas rupestres. Estão registrados rituais, danças, caças e lutas. Em outros sítios mais recentes, como o homem de Kennewick encontrado na cidade de Tequendama nos Estados Unidos e o "espírito do homem da caverna" na Terra do Fogo na Argentina, (todos eles de cerca de 9.000 anos ) que não apresentam os traços mongolóides ancestrais dos ameríndios, mas demonstram de forma persistente que antes da larga ocupação dos atuais índios, existiu uma grande ocupação dos tipos que hoje chamamos de africanos. Teriam os últimos sido dizimados de forma total os que aqui estavam vivendo, ou com eles desenvolveram novas civilizações? Talvez isto explique a diversidade das etnias ameríndias, estimadas somente no Brasil em mais de 200 etnias.
A performance Ameríndia é de uma variedade e teatricalidade palpável e estarreceu os primeiros europeus que aqui aportaram, de Jean de Lery a Hans Staden. Os elementos da dança e suas complexas coreografias, o uso de máscaras e elaborados desenhos corporais, a arte plumária, o canto e a dramatização de animais selvagens e seres encantados mitológicos, o profundo sentido ritualístico, são suas características básicas. As formas teatrais do índio de fato não possuíam nenhuma relação com o Europeu, mas muito semelhante ao teatro Asiático e Africano.
A performance africana, foi trazida em larga escala pelos povos de origem Banto, transportados como cativos com os primeiros colonizadores. Em Portugal estimava-se que antes da colonização já existia em torno de oitenta mil escravos africanos. No Brasil os africanos recriaram o batuque, matriz de diversas manifestações teatrais tais como: coroação de reis e rainhas Congo, desdobrados em reisados, folias de reis, congadas, etc. Um teatro tão popular quanto àquele da Grécia antiga, anterior à criação do primeiro texto de Téspis, que a partir de então desencadearia o processo de transformação da maleabilidade da performance processional dionisíaca na estrutura amarrada da literatura escrita.
Coube ao povo Iorubá, instalado principalmente na Bahia, na primeira metade do século XIX, difundir a cultura africana a partir das casas de candomblé, fundadas anteriormente pelos Congo-Angolas e Geges ; transplantando para a Bahia a performance sagrada dos Orixás. No começo do século XX, as sacerdotisas baianas, líderes comunitárias e festeiras foram responsáveis pela transformação dos pastoris nordestinos em ranchos cariocas, mais tarde também ajudariam no processo de transformação destes em escolas de samba, síntese das culturas africanas do Brasil, expressão máxima da teatralidade brasileira; conversão do ritual do carnaval em pura celebração africana.
Ao longo de cinco séculos de opressão econômica, militar, religiosa e estética exercida pela elite euro-brasileira, muitos foram os momentos em que as duas tradições, ameríndias e africanas se encontraram. Natural que disso resultasse não somente a miscigenação de seus descendentes como o intercâmbio de suas tradições. Por exemplo, a palavra "caboclo" tem sido uma expressão muitas vezes empregada pejorativamente para definir esta "mestiçagem" entre o negro e índio. Catimbó, macumba, umbanda são nomes dados às manifestações religiosas comuns desses dois grupos. As religiões destas culturas adoram as forças da natureza, a medicina natural das plantas, acreditam que a alma dos mortos retorne à terra para ensinar ou para evoluir através da reencarnação. Elas tem outro ponto comum, que particularmente nos interessa, suas performances espetaculares. Em ambas notamos o mesmo cantar-dançar-batucar como um todo indivisível e inseparável. Ambas as performances são interativas e dialogam com o ambiente onde acontecem. O público permanece em roda reagindo a tudo que os brincantes ou performers fazem. A roda está presente nos desenhos de Rugendas datados de meados do século XIX, isso acontece também nos primeiros filmes registrados na selva por Rondon no começo do século XX. Atualmente, Tchydjo, mestre de danças dos índios Kariri-Xocó, ao iniciar os trabalhos, pede aos seus dançarinos e platéia que formem uma roda para começar o ritual do Toré Sagrado. Igualmente, no samba de roda, os crioulos e crioulas fazem também um circulo para realizar a sua performance. E como diz o mestre Cirilo no seu Maneiro Pau de Crato, no Ceará: Quero ver rodar Quero ver rodar Quero ver rodar enquanto cada membro do seu grupo posicionado em círculo batendo o seu bastão rodopia sobre seu próprio eixo sem perder a batida. Ou ainda, como ordena Mestre Aldemir em seu Reisado, para a sua burrinha (cavalo marinho) Roda roda cavalo pro povo olhar meu cavalo é descente das ondas do mar.
Classifico estas performances como o puro teatro popular brasileiro. A elite euro-brasileira compreende o teatro apenas no palco italiano e descarta o que não é empacotado pelas quatro paredes do edifício teatral. Afirmo mais uma vez: tradição oral é a cultura brasileira, é o nosso produto interno bruto. O estudo das performances afro-amerindias se impõe como uma nova disciplina possível para compreender as particularidades de cada performance e suas afiliações culturais bem como as suas inter-relações.
Cabe aos nossos atores, estudantes e acadêmicos entender o que é performance afro-ameríndia para poder praticá-la com toda consciência. Pois estas tradições permeiam a nossa cultura popular. Como diz sabiamente o Mestre Carnaúba, da sabedoria dos seus 99 anos de idade, poeta, curandeiro, pai-de-santo e repentista do Crato, Ceara, é preciso "abraçar os encantos". Estes encantos estão ai, bem perto da gente, nas mentes e nas bocas de nossos ancestrais afro-ameríndios e em suas performances espetaculares.
Ver: REPORTAGEM DA VEJA SOBRE A PRIMEIRA MULHER DO BRASIL