Novas gentes. Quem seriam?

Os habitantes do Japão, da China, que Marco Polo visitou? Os descendentes de uma das trilbos perdidas de Israel? Os homens £abulosos de Tule, dos quais se falava desde a Antigüidade, desde que um navegador marselhês, chamado Píteas, ao voltar de um périplo pelo grande oceano do Oeste, tinha contado coisas incríveis? Mas todos sabem como os marselheses exageram.

Seriam de urna raça nova, jamais vista por alguém? Aquela ilha, que os espanhóis chamam de Hispaniola, uma das primeiras onde aportou Colombo, a primeira em que - para infelicidade de todos - ele encontrou indígenas com enfeites de ouro nas orelhas, não seria a ilha de Ofir, a que se refere a Bíblia, onde Salomão mandava buscar o mais importante dos metais?

Seriam os temíveis guardiães das maçãs de ouro das Hespérides, cujo jardim tornou-se finalmente acessível? Os descendentes dos marinheiros de Jasão? Ou os escravos dos Titãs?

Seriam os litófagos, o povo que comia pedras, os habitantes dos Antípodas --- que caminham com a cabeça no chão, apesar de Aristóteles o ter negado -, os que têm urna bocarra aberta até o meio do peito, uma larga cauda no fim das vértebras, um olho vermelho atrás da cabeça? Seriam os que têm os pés voltados para trás?

Seriam talvez os homens com cabeça de cão, os ferocíssimos cinocéfalos, que se alimentam de carne humana bem fresca?

Seriam talvez criaturas infernais, visto que a maior parte do tempo vivem nus, sem pudor algum? Teriam, por acidente, chegado ao reino do Diabo?

Outros diziam o contrário - e o próprio Colombo não estava longe de pensar assim, ele que se dizia um mensageiro escolhido por Deus -, que diante de árvores tão altas, de um ar tão cálido, podiam estar nas paragens exatas do paraíso, que diziam com certeza estar localizado bem no alto de uma imensa montanha, no fim do mundo; um paraíso verdadeiramente terrestre, isto é, situado na Terra, de onde a água corria por quatro rios gigantescos, e se podia beber na Fonte da Juventude.

Outra prova, distante da idéia de monstros: o estado de natureza, de completa inocência e graça, vivido pelos habitantes daqueles lugares quentes e verdejantes. Frutos desconhecidos pendiam das árvores, animais estranhos - poupados pelo dilúvio, que por ali não fora cruel - corriam pelas florestas e giravam nos espetos. Diziam até que certas aves falavam correntemente línguas humanas, pássaros anteriores a Babel, portadores de que segredos? Não faltava nem a serpente, que se encontrava a cada passo: criatura por excelência do paraíso.

Mas por que Deus, guia seguro da armada cristã, teria conduzido os espanhóis (sob a chefia de um genovês) até aquelas plagas milagrosas? Com que objetivo, claro ou oculto? Para estabelecer, enfim, o triunfo da verdadeira fé, conduzindo aquelas estranhas naus até as portas das origens do mundo? Mais simplesmente, para enriquecer os cofres do rei e, por tabela, os da Igreja? Porque o ouro é uma coisa esplendorosa. como dizia o mesmo Colombo. Nisso ele tem razão. O ouro pode servir a vários fins, "inclusive para conduzir almas ao paraíso".

O paraíso? Mas nesse caso, quem são esses habitantes? Primos de Adão e Eva, até então desconhecidos? Os corpos ressuscitados dos cristãos de outras eras, absolvidos pelo supremo tribunal? Anjos com asas invisíveis?

Quem serão?

As primeiras versões logo se dissiparam. Era possível catalogá-los entre as espécies humanas? Sem dúvida alguma. O primeiro soldado que pulou sobre uma mulher e a engravidou deu uma rápida demonstração disso. E eles também sorriam - no começo, pelo menos -, imitavam os gestos e também as palavras dos que os haviam descoberto. A noite, fechavam os olhos e dormiam. Não conseguiam respirar debaixo d'água, como demonstrou a experiência, nem encarar o sol. Eles berravam quando alguém os machucava. Cansados, repousavam.

Homens e mulheres. Mas de que espécie? Pertencentes a que categoria? O distante pensamento de Aristóteles ainda domina a razão. Mesmo que a natureza por vezes se engane. se nem sempre podemos contar com ela, é evidente que, no momento da criação e da expansão da raça humana, vários estágios foram previstos. Por exemplo: uns são civilizados, os outros bárbaros. Uns nasceram para comandar, outros para obedecer.

A bem da verdade, não demoraram muito a dizer que os povos recém-descobertos tinham por vocação a obediência. De aparência grosseira, sem escrita, sem arquitetura visível, sem religião organizada. eles eram escravos inatos, verdadeiros escravos por natureza.

Por isso, começaram a reuni-los, a recrutá-los, a pô-los rudemente para trabalhar, a algemá-los, para que não tivessem a menor tentação de fugir, a bater-lhes e até matá-los quando não escondiam o que eram, ou seja, quando se mostravam desobedientes e queriam viver à sua maneira.

Pouco importava a sua existência. Uma antiga tradição de escravatura, amplamente sustentada durante toda a Antiguidade por intermináveis cortejos de cativos - verdadeira moeda de troca internacional -, preparava a maior parte dos espíritos para esse novo episódio da exploração, algumas vezes ensandecida, do homem pelo homem; uma coisa era clara, e sem sombra de dúvida: as vidas situadas no topo da escala têm infinitamente mais valor que as situadas, pela natureza, nos patamares mais baixos.

De qualquer forma, espanhóis e portugueses sabiam perfeitamente que ao longo da Idade Média esse comércio nunca deixou de existir, que os habitantes do Saara, e do norte da África, não pararam de conduzir pelo deserto caravanas de escravos negros, conquistados ou comprados no Sul, e destinados aos reinos do Norte, aos turcos, evidentemente, aos persas, aos mouros, e também, vez por outra, aos cristãos.

Deus, pela descoberta providencial daquilo que iria se chamar América (nome herdado de um outro navegador, Américo Vespúcio, amigo de Colombo), dava então aos brancos cristãos. em terras novas, uma nova população de servos. Graças a Deus.

Para dizer a verdade (tentar dizer, em todo caso), se a maior parte dos aventureiros embarcados nas caravelas - e eles se multiplicam nos anos seguintes - não demonstrava nenhum tipo de escrúpulo ao maltratar os indígenas, muito menos bem armados, outros europeus se comoveram desde os primeiros tempos. A primeira bula papal, por exemplo, que reconhece desde o fim de 1492 a soberania da Espanha sobre as novas terras do Oeste, a que chamam Índias (no ano seguinte esses territórios serão divididos entre Espanha e Portugal), fala de indígenas "pacíficos", que, antes de tudo, têm de ser levados à fé católica.

Ainda orgulhosos do prestígio da reconquista da Espanha aos mouros - pois a queda de Granada se deu em 1492, no mesmo ano em que Colombo chegou ao novo continente -, soberanos muito católicos, símbolos da Espanha unificada, Fernando e Isabel, enviam missionários, sobretudo monges agostinianos, franciscanos e dominicanos, para pôr cm prática o que dizia a bula papal.

E isso no exato momento em que a visão paradisíaca se apaga com grande velocidade. Afinal de contas, aqueles indígenas não suplantam os europeus em nada. Fala-se também de antropofagia, de brigas brutais, de bebedeira, de doenças decorrentes do abuso do sexo. Não havia por que poupá-los.

Os primeiros monges-missionários, que partiram entusiasmados, ficaram surpresos e muitas vezes decepcionados com o paraíso. Alguns entre eles, já naquele momento, protestaram contra o tratamento rude demais. Não conseguiram impedir que se disseminasse a escravidão e nem mesmo que quinhentos índios fossem empilhados num porão de navio, com mulheres e crianças, para serem enviados - butim de guerra. assim o queria a antiga tradição - até a Espanha.

Chocada, a rainha Isabel convocou uma reunião de teólogos, interrogou-os, escutou-os, e tomou a correta decisão de libertar os supostos escravos.

Ela foi a primeira a tentar organizar a defesa dos povos indígenas. Mas morreu em 1504. E a exploração dos caraíbas continuou. Um apelo irresistível vinha do Oeste. Depois da reconquista, a conquista. Barcos navegavam ao longo da costa, reconhecendo pouco a pouco a realidade de um continente imenso, até então desconhecido, insuspeitado, que bloqueava a rota para a China e ia dar talvez nas terras que se chamavam austrais, sem deixar nenhuma espécie de passagem que permitisse dar a volta ao mundo. Mas nada que não pudesse ser vencido.

De Sevilha, no que dizia respeito aos espanhóis, a famosa Casa de Contrataction comandava em nome do rei a exploração das novas terras. Bem rapidamente - conquanto o ritmo das viagens continuasse muito lento -, fazia-se um cadastro, iniciava-se o cultivo da terra, cavavam-se minas. Havia ouro além daquele encontrado nas orelhas dos habitantes. As ondas de aventureiros não paravam de crescer. Nada havia que os intimidasse, nem o medo do naufrágio, nem o temor a Deus.

Desde 1501, por iniciativa de Isabel, pratica-se a encomienda, doação que a Espanha já pusera em prática na Andaluzia, nas terras que tinham sido recuperadas dos mouros. Um sistema muito simples, quase simples demais: entregam-se aos capitães espanhóis lotes de terra, geralmente bem extensos, com aldeias, rios, subsolo, populações. Os habitantes, reconquistados ou submetidos - ou simplesmente conquistados -, ficam à livre disposição dos novos senhores. Trabalham e pagam impostos. Um quinto de toda a riqueza vai para o rei. Sistema brutal, de um feudalismo bem arcaico no começo do século XVI, que confere ao chefe total poder sobre os bens e as pessoas. Mas o que se contava à rainha - quem vem de longe conta o que quer - era que as populações, refratárias aos métodos da verdadeira civilização, eram muito ariscas e fugiam para as montanhas. Que forma melhor de reagrupá-las senão essa encomienda, logo cercada e guardada por cães ferozes?

Desde 1511, um dominicano chamado Córdoba, ainda muito jovem, na recém-construída catedral de São Domingos a capital de Hispaniola, faz um sermão violento contra os colonizadores. Um sermão arrasador. Publicamente, e dentro de um lugar sagrado, ele afirma que os indígenas são injustamente muito maltratados. Chega mesmo a dizer que eles são homens, dotados de uma razão, de uma alma, e que ele negará de agora em diante a absolvição aos espanhóis que ficarem com os bens roubados.

É o início de uma longa batalha, bem no Centro do mundo espanhol. no momento preciso em que a "lenda negra", as primeiras histórias de atrocidades, começa a ser divulgada por toda a Europa pela boca dos viajantes - histórias imediatamente exploradas pelos inimigos da Espanha, que a transformam num país cheio de torturadores.

Os colonos protestam duramente contra o sermão do jovem monge. Este volta à Espanha, é recebido pelo rei viúvo, consegue comovê-lo. Uma vez mais, teólogos, que jamais haviam posto o pé nas novas terras, se reúnem e propõem em 1512 o que ficou conhecido como as "leis de Burgos": na realidade, uma regulamentação que propunha reduzir o horário de trabalho nas encomiendas, insistindo uma vez mais na necessidade de dar urna educação católica aos filhos dos caciques.

Trabalho inútil. Ninguém alimentou a menor ilusão quanto ao poder de aplicação de uma regulamentação tão distante:

tanto que as leis de Burgos, no ano seguinte, foram complementadas pela instituição do requerimento, que faria a Europa rir e chorar.

Como criar um poder legal sobre indígenas tão recentemente descobertos? E muito simples, dizem alguns teólogos. Basta dirigir-se a eles, sob a boa proteção de uma escolta munida de fuzis (arma que eles ignoram e que os aterroriza), e ler diante deles um texto oficial em nome do rei, às vezes mesmo em espanhol, sem intérprete, em que se conta numa página a história geral do mundo desde a Criação e o estabelecimento da fé verdadeira com a vinda de Cristo à Terra. Breve e afirmativa leitura da verdade, que podemos imaginar na clareira de alguma floresta tropical, ante os índios boquiabertos, ou em alguma angra, na areia, perto do mar, e que termina assim: O papa Alexandre VI, representante de Deus, e agindo em seu nome. deu ao rei da Espanha direito sobre estas novas terras- Estas terras, ipso facto, deixam de pertencer aos índios (que só estavam ali por acaso, ou por erro, esperando a chegada dos verdadeiros donos) e passam para as mãos espanholas. Os índios ficam assim notificados com esta leitura. Conseqüentemente, eles são "convocados" a se submeter e cumprir dali em diante as ordens que lhes fossem dadas. De outra forma, cuidado. Poderiam ser tratados, naquilo que os espanhóis achavam ser terra deles, "a ferro e fogo".

Todos sabem perfeitamente - pelo menos do lado espanhol - o que essas duas palavras querem dizer.

É hábito, quando se conta a história de uma dominação, de uma conquista, colocar em primeiro plano o comerciante, seguido do missionário e do soldado, que vêm juntos. Não se pode esquecer o tabelião, cujo papel é fundamental. Basta ler algumas cartas de Cícero para seu protegido Trebácio, durante as guerras gaulesas, para ver até que ponto é importante levar aos bárbaros as maravilhas do direito romano, toda espoliação é feita dentro da lei. Aqui também.

Como se sabe, essa incrível formalidade não serve para nada, nem do lado dos habitantes, que fogem para o mais longe possível dos "longos bastões carregados de fogo", nem do lado dos monges, alguns dos quais se põem a protestar vivamente, a denunciar o escândalo. Quanto aos colonizadores espanhóis -salvo algumas exceções -, continuam, sem demonstrar nenhuma crise de consciência aparente, a considerar os indígenas como um bando de animais domésticos. Em Cuba, por exemplo, trocam-se oitenta deles por um jumento.

Na Europa, a lenda negra fica ainda mais negra.

Em 1519, Martinho Lutero entra abertamente em luta contra o papado. À nova religião, que se diz cristã mas reformada, espalha-se rapidamente pelo norte da Europa, apoiada por príncipes, banqueiros, pensadores. Uma vez mais, em nome de uma correção das crenças, os povos vizinhos, que se conhecem e se misturam há séculos, agora se confrontam. Nações inteiras abandonam Roma.

Corno interpretar o sucesso inquietante dessa heresia, que vai até o cisma, e que logo será seguida. a partir de 1534, pela secessão retumbante da Igreja da Inglaterra? Por que esses sinais de divisão e de abandono? Deus acaba de conceder à fé cristã tradicional, aquela que se acha fiel a Roma, um triunfo espetacular sobre os mouros, expulsos da Espanha. O Islã parece perdido. Não lhe dão muito tempo de vida.

Outra prova da assistência divina: a descoberta daquele novo mundo, claramente destinado à verdadeira fé de Cristo. Descoberta que, reforçando a derrota de Boabdil em Granada, levou a Espanha a uma tentativa de purificação fora do comum. Firmados em sua certeza cristã, os soberanos católicos, desde 1492, obrigaram os judeus da Espanha a se exilar, a menos que eles quisessem se converter, dando todas as provas de sinceridade.

Dez anos depois, em 1502, o poder real agiu da mesma forma - mas com outros métodos - com os muçulmanos que não tinham abandonado sua religião. O exílio ou a cruz: cabia- lhes escolher. E para se ter mesmo certeza de que tudo estava sendo cumprido, instalou-se o tribunal da Inquisição, cujo trabalho era examinar qualquer erro, qualquer recaída. Chegava-se até a pedir aos novos cristãos, aos conversos, provas da "pureza de seu sangue", quando eles pretendiam fazer parte das ordens religiosas, militares; pedia-se, sobretudo aos antigos muçulmanos, que freqüentemente continuavam a invocar seu deus do jeito que achavam correto.

Tudo conduzia a Espanha - mesmo a conquista de Navarra em 1512 e a esmagadora vitória sobre os franceses em 1525, em Pávia, onde o rei da França em pessoa, Francisco I, foi feito prisioneiro e depois encarcerado em Madrid - ao caminho da certeza. E Deus, visivelmente, caminhava a seu lado. Então, por que Lutero? Por que Henrique VIII? Por que a hostilidade dos senhores alemães? Por que aquele recuo da fé? Simples prova da tenaz barbárie do Norte? Ou seria o quê?

Contra essa revolta herética, em que a política e o comércio, bem depressa (e como de hábito), se misturam com a teologia, a Igreja de Roma parece enfraquecida. Ela sofre com a corrupção dos papas Bórgia e com as orgias do Vaticano. Sofre para reencontrar sua vocação espiritual, sua ressonância sobrenatural - e isso apesar da contribuição considerável dos jesuítas, que virão em socorro, obedecendo ao papa "como seres mortos" e logo apaixonados pelas Índias do Oeste, pela educação, pela formação, pela conversão das sociedades primitivas à civilização crista.

É quando, em 1519, como por uma estranha compensação do destino (dizia-se mais apropriadamente Providência), os espanhóis chegam com toda força ao litoral do México. Aqui, não se trata mais de povos inocentes, que viviam nus no meio da floresta. Trata-se de um império verdadeiro, dominado - faz pouco tempo, diga-se - pelos astecas, que oprimem urna boa dezena de outros povos. Trata-se de uma reunião de Estados metículosamente organizados, com cidades, um imperador, uma religião definida, ritos, impostos, escravos. Não dá mais para se falar nem de paraíso nem de selvagens. Cortês insiste na "plena ordem" que se vê nas grandes cidades. Adeus, inocência, adeus, tempos primitivos.

Diante dessa nova situação, urge encontrar outras definições. O imaginário às vezes condescendente do começo, que ia do encantamento à crueldade, da ternura à zombaria, cede pouco a pouco o lugar para a história.

Fenômeno único no desenrolar dos séculos: dois impérios se encontram, ambos muito bem organizados, e que, no entanto, nunca se conheceram, nem por ouvir dizer. A Terra abrigava, pois, milhões de desconhecidos. Dos dois lados, estupefação; como se seres de aparência humana desembarcassem de um outro planeta. Não se tratava mais de estar diante de pessoas diferentes, de clãs, grupos, tribos. Estava-se diante de urna sociedade complexa, muito bem organizada em tudo.

Somente uma pergunta permanece imutável: Quem são eles?

Indubitavelmente, Deus desembarca no México com Cortés e seus soldados. Ele não abandona os espanhóis, pelo contrário. A vitória deles é rápida e sumária. A capital asteca, Tenochtitlan - que será o México -,cai em 1521. O resto também cairá. Riquezas fabulosas se anunciam, o que faz prever ali uma futura colônia com vários territórios anexados. Cortês, aliás, se faz nomear vice-rei. Ao jogar habilmente com o povo dividido e sua oposição ao imperador asteca, recorrendo a suas armas de fogo, a seus cavalos, aproveitando-se das novas e devastadoras doenças que são como aliados, apoiando-se em algumas antigas profecias que o apresentam como um semideus que retornou, ou, no mínimo, como seu mensageiro, ele estende as fronteiras do império espanhol em todas as direções possíveis, e até no espírito e no coração dos indígenas. E uma conquista prodigiosa (algumas centenas de soldados vão dominar cerca de vinte milhões de homens), mas que logo passa a fazer parte da longa história das guerras. No começo, existe em ambos os lados uma curiosidade legendária, que leva alguns cavaleiros espanhóis a nunca pisar o solo para dar a impressão de que homem e cavalo são uma só criatura, fabulosa e indivisível. Os índios, por sua vez, mergulham na água os cadáveres espanhóis e os observam atentamente para ver se vão apodrecer ou se conservar eternamente como se fossem deuses. Mas essas histórias logo vão desaparecer. O que há na verdade são dois grupos humanos que a história pôs brutalmente em confronto.

A imaginação se solta. Os sonhos se transportam então para as imensas florestas do Sul, para as montanhas que - os conquistadores começam a se dar conta - são como uma armadura sólida protegendo todo o continente, de cima a baixo. Naquelas terras, há rios tão vastos que se confundem com o mar. Ás vezes, a água desses rios volta para as nascentes. As árvores são mais altas que as catedrais. Pedras falam. Com freqüência, sereias exibem-se sem nenhum pudor quando os navios passam, seios a mostra, nos turbilhões das águas revoltas. De onde vinham aqueles gigantescos volumes de água? E aquelas enormes montanhas que tocavam os céus? Colombo perguntava-se, então, se o Orinoco não tinha sua nascente no paraíso. Ou seria o Ganges, um dos quatro grandes rios do mundo?

Mais longe escondem-se as perigosas amazonas, enfim descobertas, que se vestem apenas com plumas e extirpam o seio direito para melhor apoiar o arco, como contavam os velhos historiadores gregos; e também povos de pele vermelha, que vivem nus sob uma chuva perene, comem macacos e serpentes, e que, no entanto, ergueram cidades enormes, cujas cúpulas foram todas construídas com o mais legítimo ouro.

Mas todas essas lendas também vão desaparecer pouco a pouco diante das investidas dos conquistadores. Colombo morre em 1506, levando consigo os sonhos puros da primeira geração de descobridores. Outros acorrem, cada vez mais numerosos, cada vez mais rapaces. Encontram-se facilmente homens de negócios para financiar uma expedição. E, logo, só o lucro importa. Pizarro, que nada tem de sonhador, conquista o império Inca por meio da mentira e da violência. Como Cortés, ele lança mão das dissensões, uma disputa de sucessão entre Huáscar e Atahualpa, dois pretendentes ao trono. Ele compreende que a dominação dos incas é recente e frágil, consegue manter seus homens com promessas de butim; apóia-se, ele também, numa antiga profecia que prometia a volta de um deus. Estranho deus, que mata os deuses, que destrói as crenças solares, que assassina o imperador, representante do além - e que, ele mesmo, morrerá pela mão de simples mortais.

Outros se embrenham pelo istmo, pela Guatemala, pela Nicarágua, outros descem pelos grandes rios lamacentos, outros se aventuram pela floresta, a morrer de calor sob suas couraças. O ouro justifica todo esse sofrimento.

Ao mesmo tempo, o novo soberano da Espanha, Carlos V, aprende a gerir essa abundância de matéria preciosa que os Céus - sem dúvida alguma - colocam diariamente ao pé da coroa. Ele comanda uma larga rede de comerciantes, de atravessadores e armadores. Os empréstimos que consegue com os banqueiros italianos, alemães - ele precisa de muitíssimo dinheiro, já que a armada espanhola é a mais bem paga da Europa -, ele os garante com seus próprios recursos, com o "quinto" do rei. Todos os credores confiam nele, às vezes até os protestantes. As minas de além-mar parecem inesgotáveis. De lá vêm também especiarias, madeiras preciosas, o cacau, e legumes desconhecidos, e o tabaco que seduzirá o mundo. A Espanha saqueia suas florestas para construir às pressas armadas de galeões. Essas frotas regulares se organizam. Quando alguns dos navios se extraviam, são logo atacados pelos primeiros piratas ingleses, financiados secretamente pelos banqueiros de Londres.

Toda conquista é complexa. Todo abalo histórico implica, apesar da curva quase inflexível sob a qual os acontecimentos se dão, uma parte de caos e de contradição. Apesar de todos os espanhóis e de todos os portugueses, até os monges, exceções à parte, parecerem concordar quanto à legitimidade da exploração da terra, apesar de todos pensarem com sinceridade que esses produtos, a começar pelo ouro e pela prata, são uma dádiva verdadeira de Deus, as opiniões logo vão divergir quanto à natureza e ao caráter dos habitantes, e, conseqüentemente, quanto ao valor de seus costumes e ao tratamento que lhes é dado.

No começo, os soldados destroem por destruir. Acham que foram para isso. Apesar dos gestos de admiração de Cortés e de muitos outros, eles põem as pirâmides abaixo - para que se edifiquem no lugar igrejas, recintos da verdadeira fé - destroem uma arquitetura original, quebram as estátuas, queimam os códices, longas séries de desenhos e de textos que contavam a história daqueles povos.

Até aí, nada de novo, O vencido não tem nenhum direito. Desde o momento em que as armas lhe são contrárias, ele é abandonado pelas forças sobrenaturais e de alguma forma desaprovado. A persistência de sua existência terrestre não tem mais importância. Que ele desapareça, Deus ou os deuses acharão isso normal. César descreveu longamente algumas de suas operações militares, reservando-se, evidentemente, o belo papel de historiador, pois entre todos os direitos do vencedor está também o de contar. Mas ele não preservou a história de um só mito gaulês.

Se conquistei essa terra, foi porque Deus quis. Ele fez de mim o mais forte. A civilização que subjuguei. mesmo que eu não possa me impedir por momentos de a achar bela, só tem como futuro o desaparecimento. Era isso, sem dúvida, o que pensava Cortés, supondo-se que ele se preocupava com esse problema, algo difícil de comprovar.

Mas, bem depressa, alguns espanhóis se interessam verdadeiramente pelo que chamamos hoje de "culturas pré-colombianas'. Indo além de uma simples curiosidade de viajantes, eles observam, anotam, desenham e relatam. Desses homens, o mais seguro em suas opiniões será o franciscano Sahagun, que trabalhará durante mais de trinta anos numa compilação minuciosa de todos os hábitos locais. Trabalho difícil, entremeado de lutas e armadilhas de toda espécie, sempre combatido pelas autoridades: Sahagun morrerá aos noventa anos sem ver sua obra publicada.

Os anos passam, os problemas continuam. Em 1537, pela bula Sublimis Deus, a Santa Sé renova suas exortações. Lê-se claramente ali que os índios são dotados de razão e dignidade. que eles não podem ser presos arbitrariamente, nem privados de seus bens. Lê-se também que eles devem ser "convidados à fé pelo poder da palavra e do exemplo dos bons costumes".

Uma vez mais, recomendações inúteis.

A conquista do México termina em 1546 com o domínio - conquistado a duras penas - dos maias do Yucatán. Cortés morre em desgraça. em 1547, mesmo ano em que nasce Cervantes. Desde a descoberta de 1492, uma terceira geração de espanhóis chega à idade adulta. Alguns relatos deixam o Novo Mundo mais próximo. Os espíritos se habituaram pouco a pouco com a existência de um continente, esse "novo hemisfério desconhecido dos antigos" já previsto por Colombo, e que nos mapas novos pensam estar ligado à Asia, em direção ao norte. As lendas continuam a se desfazer, os monstros se diluem, os marinheiros vêem cada vez menos sereias, Já foram criados por lá vinte e três bispados. Os primeiros mestiços dos caraíbas têm cabelos brancos. Os do México já andam pelos vinte e cinco anos.

E, no entanto, o problema continua tão dilacerante quanto antes. Quem são eles? Como tratá-los de fato e de direito? As "novas leis" de 1542, logo ridicularizadas, caíram no vazio. A lei é sempre a do mais forte: hábito histórico. No entanto, tudo indica que a população indígena, sem condições de se revoltar, começa a diminuir em grande velocidade. Essa mão-de-obra gratuita, tão generosamente fornecida por Deus, irá faltar agora?

O sucesso militar e econômico da conquista é acompanhado, se se pode assim dizer, por um seríssimo fracasso humano. Todas as conquistas, disputas, missões, estudos empreendidos pelas mais diferentes autoridades e até algumas vezes por estrangeiros não desfizeram a confusão. As mesmas afirmações contrárias se chocam sem que rei e papa esclareçam a questão. Subsiste uma parte de ambigüidade e de incerteza, que dá à lenda negra uma longevidade da qual a Espanha gostaria de se ver livre. Apesar de a Reforma praticamente poupar a península. e o catolicismo, uma vez restabelecido na Inglaterra por Maria Tudor, não tardar a desaparecer de vez assim que Elizabeth assumir o trono, uma mancha permanece sobre o século de ouro, e os inimigos só tem olhos para isso.

Depois de um longo pontificado de dezesseis anos, o papa Júlio III acaba de morrer. Paulo III, que o sucede, vai se mostrar preocupado, como seu predecessor, em restabelecer o prestígio do papado, em lavar qualquer mancha, em extinguir qualquer veneno. No mesmo instante, no mês de abril de 1550. Carlos V decide sustar provisoriamente as expedições de conquista, salvo exceções devidamente avalizadas por ele. Ninguém duvida dos problemas de consciência que parecem atormentá-lo, isso sem levar em conta as pressões eclesiásticas vindas de todos os cantos, inclusive do segredo dos confessionários. Daí, aquela necessidade, desde 1550, de uma acareação que se espera definitiva, de onde brotará a verdade, de uma vez por todas clara e indiscutível. Ela vai acontecer, a mando do próprio rei, em sua capital, Valladolid.