MAVUTISINIM: A origem dos gêmeos Sol e Lua (Kamaiurá)
Mavutsinim disse às suas filhas que ia à aldeia da onça tirar embira para fazer corda de arco. As mulheres aconselharam ao pai que não fosse, dizendo que o pessoal de lá era muito perigoso. No dia seguinte Mavutsinim saiu para fazer a viagem que pretendia. Perto da aldeia da onça encontrou o pau de embira e começou a tirar. Quando estava desgrudando a casca do segundo pau que encontrou, as onças ouviram o ruído, saíram correndo e cercaram Mavutsinim. Este, vendo-se cercado, aproximou-se do Chefe das onças e falou:
- Você por aqui. meu tio? Não deixe seu pessoal me matar, que eu vou mandar minhas filhas para casar com você.
A onça, ouvindo isso, mandou que Mavutsinim fosse embora.
- Anda depressa senão o pessoal mata você.
Mavutsinim saiu correndo. As outras onças, que tinham visto o morerequát [chefe] conversar com Mavutsinim, foram perguntar para onde este tinha ido. Disse a onça-chefe:
Foi embora, e vocês não vão alcançar mais.
Mavutsinim andou depressa. Com o sol a pino chegou à aldeia dele, no Morená. Lá, contou para as filhas o que havia acontecido com ele, dizendo que quase tinha sido comido pelas onças.
Nós já sabíamos, e foi por isso que pedimos para você não ir disseram elas.
Mavutsinim, depois de explicar como tinha sido salvo, perguntou às filhas qual delas. queria casar com a onça. Nenhuma quis, dizendo temer a mãe da onça.
Se a gente casar, ela vai nos comer.
Está bem. Vocês estão certas.
No outro dia Mavutsinim saiu para o mato, falando para as filhas que ia cortar pau e fazer uma porção de coisas. Lá no mato, cortou madeiras de cerne: dois toros de kuarup, dois de camioá, dois de mavu. e dois de uaiacaêp. Trouxe os paus para a aldeia e os colocou dentro de uma casa bem fechada. Lá dentro cobriu os toros com as folhas cheirosas de enemeóp, e começou a encantação para que os toros se transformassem em gente. E os paus viraram gente mesmo. Mavutsinim, então, olhou para eles e viu que não tinham cabelo nem dentes. Foi para o mato, tirou fibra de buriti para fazer cabelo. Depois de colocar nas mulheres, olhou e não gostou: ficou muito claro. Foi, então, à procura do tsitsicá [passarinho preto], e pediu o cabelo dele. O tsítsicá deu. Mavutsinim colocou na cabeça das mulheres e gostou porque era bem preto. Os dentes, ele fez primeiro de concha. Depois de colocar no lugar, mandou que as mulheres rissem. Elas riram e ele achou feio porque ficaram muito escuros. Experimentou em seguida semente de mangaba. Mandou rir. Elas riram e Mavutsinim achou bonito. Ficaram bem claros. Mavutsinim, então, observou: "Ficou bom mas esses dentes não vão durar muito. Vão apodrecer logo e doer também". Depois dos dentes, Mavutsinim fez cintos de fibra de buriti, indo em seguida para o mato à procura de embira para fazer protetor de sexo. Experimentou primeiro embira de pindaíba, e não gostou por ter ficado muito áspero. Fez depois de tameaóp [outra entrecasca], e achou bom. Era macia e clara. Finalmente, Mavutsinim foi ao mato, cortar taquara para fazer órgão genital nas mulheres. Depois de pronto, voltou ao mato e trouxe o jiquiá [cipó] para copular com elas. O jiquiá teve relações com as oito mulheres. Mavutsinim ficou alegre e disse: "Agora são mulheres, mesmo". E perguntou a elas em seguida:
Vocês querem ir casar com a onça?
Cinco das oito disseram que sim. No outro dia se prepararam para partir. Mavutsinim mostrou o rumo, e recomendou antes delas saírem:
Esperem a onça no porto. Não convém ir à casa dela. Ela vai se banhar na lagoa.
Depois de ouvir essa recomendação, as cinco mulheres partiram. Já estavam longe quando uma verificou que tinha esquecido o pente e voltou para buscar. Como estava demorando muito para voltar, as outras reiniciaram a viagem, dizendo:
Deixa que ela fique por ai mesmo e vire uma coisa qualquer.
E essa não voltou mais. Perdeu-se e virou iavurê-cunhã [duende da mata]. Continuando o caminho, as outras encontraram na frente o jaburu.
Você por aqui? Mostra por onde passa o caminho da aldeia da onça.
Ensino, mas primeiro vocês têm que ter relações comigo.
No contato, as mulheres tingiram o pescoço do jaburu de urucu, para ele ficar feio. O jaburu ensinou o caminho e elas continuaram andando. Mais adiante encontraram um pé de buriti. Uma delas subiu na palmeira para tirar o broto, a fim de fazer cinto. O broto, jogado lá de cima, caiu de pé e fincou no chão. As mulheres que estavam embaixo tocaram uma mutuca contra a que estava trepada. Esta, ao espantar a mutuca, despencou lá do alto, caiu sentada no broto e morreu. As três restantes retomaram o caminho, encontrando com a anta mais na frente.
Aonde vocês vão? perguntou a anta.
Vamos indo para a aldeia da onça, e queremos saber o caminho,
Eu ensino, mas primeiro quero ter relações com vocês.
As mulheres aceitaram a proposta, morrendo aquela que se juntou à anta. Morreu porque o membro da anta era muito grande. Ficaram só duas mulheres que continuaram a viagem, até atingir o porto da aldeia da onça. Lá, subiram numa árvore e ficaram esperando, sentadas num galho. Muita gente apareceu para tomar banho. As duas de cima da árvore estavam vendo. Por último veio o anum. Saiu da lagoa com uma cabaça de água na cabeça. Quando já ia caminhando de volta para a aldeia, as moças mandaram uma mutuca contra ele. Ao tocar a mutuca, o anum deixou cair a cabaça. As moças acharam graça e riram. O anum ouviu e, virando, viu as duas mulheres trepadas na árvore. Disse.
Por que vocês estão escondidas ai e não chegam logo?
De volta à aldeia, o anum contou à onça que havia duas moças no porto procurando alguém.
Acho que sou eu que elas estão procurando disse a onça.
Dito isso, seguiu para o porto jogando flechas de assobio, mas as moças não apanharam nenhuma. E a onça voltou, dizendo:
Talvez não seja a mim que elas procuram.
Ai, o auaratsim [lobo] foi para o porto jogando flecha também.
Aí vem outra onça disseram as moças.
Quando pegaram as flechas jogadas, o auaratsim falou:
Sou eu mesmo que vocês procuram.
E as moças seguiram com ele para a sua casa. No meio do caminho elas sopraram um vento para levantar o pelo do auaratsim e, vendo que sua bunda era vermelha, uma disse para a outra: "Está vendo? Esse ai não é onça, é lobo". Chegando em casa o auaratsim deu frutas para as mulheres comerem. A mãe do lobo explicou que o filho só comia fruta. Não comia outra coisa. As mulheres não aceitaram as frutas oferecidas. Porém mais tarde resolveram comer, comentando entre si:
Temos de comer isso mesmo, hoje. Amanhã vamos pedir polvilho na casa da nossa tia, a onça de verdade.
No dia seguinte a mãe do auaratsim, vendo que as moças não queriam alimentar-se com frutas, pediu a elas que fossem à casa da onça pedir polvilho. "Lá eles têm", disse a velha. Bem cedo as moças foram e ficaram lá fazendo beiju. A mãe da onça disse a elas que o auaratsim não tinha roça, que só comia fruta. Na casa da onça, o pessoal de lá estava se preparando para caçar. A velha, dona da casa, pediu então às moças que viessem no outro dia ajudar a fazer beiju para os caçadores. Estes saíram no dia marcado para a caçada combinada. A onça foi também mas, no meio do caminho, disse que não podia continuar a viagem porque estava ruim dos olhos. Seus companheiros mandaram que voltasse: "Você está doente e não precisa ir assim". Mas a onça não estava doente, não. Estava mentindo para ficar sozinha na aldeia. Na volta, ao se aproximar de casa, começou a jogar flechas na direção dela.
Vamos pegar as flechas disseram as moças.
Saíram da casa e apanharam as flechas. A onça, então, acabou de chegar e levou as mulheres para a casa dela. Lá deu serviço a elas, mandando preparar beiju e mingau. De tarde voltaram os caçadores. Mataram muita caça: paca, veado, porco-do-mato e outros bichos, O auaratsim, dando por falta das mulheres, perguntou à mãe onde estavam. Sabendo que tinham ido à casa da onça, pediu à velha que fosse chamá-las. Ela foi mas as moças não quiseram voltar, e convidaram a velha para esperar a fim de tomar mingau. No mingau que estavam preparando puseram espinho de pequi. Quando a velha tomou o mingau ficou com a boca cheia de espinho.
Vai, pelo caminho você tira tudo disseram as moças.
A mãe do auaratsim saiu gritando e as moças falaram:
É bom você virar bicho e ficar sempre assim mesmo.
Na mesma hora, tanto a velha como o auaratsim se transformaram em bichos. A onça falou, por sua vez, dirigindo-se a auaratsim:
Não foi você que mandou Mavutsinim embora para que o pessoal não o comesse. Eu é que salvei o pai dessas mulheres.
As moças ficaram na casa da onça e casaram com ela. Uma delas, a mais nova, ficou prenhe, estava com filho na barriga. Um dia, quando já estava perto de nascer o filho, o marido foi à roça arrancar mandioca com a outra mulher. A mais nova, que estava com o filho na barriga, ficou na casa fazendo beiju. A sogra dela levantou da rede coçando a cabeça e falou assim:
Quem quer catar meus piolhos?
Agora eu não posso, porque estou fazendo beiju - respondeu a nora.
A velha ficou sentada na porta esperando. Quando a mulher acabou de fazer beiju, foi catar piolho na cabeça da sogra. Começou a catar e comer os piolhos. Numa das vezes a moça arrancou um fio de cabelo junto com o piolho e, levando à boca para comer, procurou cuspir fora o cabelo. A velha se virou, dizendo para a nora que ela cuspiu porque estava, com nojo. Não adiantou a nora explicar que estava cuspindo só o cabelo. A sogra, enraivecida, mordeu a nora no pescoço e a matou. Com medo do que tinha feito, colocou o corpo na cumeeira da casa e foi se esconder no mato. Lá na roça, a outra mulher sentiu que a irmã tinha sido morta e falou para o marido:
Está vendo? Sua mãe matou minha irmã.
A onça ficou muito zangada quando chegou em casa de volta. Procurou a mãe, mas não encontrou. Ela estava bem escondida. A onça desceu o corpo da cumeeira e pediu às formigas para tirar o filho da barriga dela. Eram duas crianças, muito pequenas ainda. O pai fez uma cesta grande e dentro dela colocou uma cabaça com as crianças. A cesta foi pendurada no alto, longe do chão. E a mulher foi enterrada. Quando a onça e a mulher saíam para a roça, as crianças sempre desciam para comer peixe e beiju. Já estavam grandinhas. A onça, então, fez uma rodilha de carregar cabaça e depositou perto da cesta onde estavam as crianças, para ver se elas pegavam, mas não pegaram. Aí a onça fez dois arquinhos e flechas pequenas, e colocou no lugar onde estavam as rodilhas, perto da cesta. Na sua ausência as crianças desceram e apanharam os objetos. Com isso, a onça ficou sabendo que os filhos eram homens. Agora queria ver os meninos. Para isso, fingiram, ele e a mulher, que iam sair. Afastaram-se da casa um pouco e voltaram. Escondidos, ficaram espiando. Passado um pouco, os meninos desceram para o chão. O pai quis pegá-los, mas eles se esconderam atrás do esteio da casa. A onça, vendo isso, falou:
Não, meninos, não precisa esconder. Vocês têm que ficar aqui no chão mesmo.
Eles atenderam e permaneceram no chão. Dai em diante passaram a andar de um lugar para outro e a matar calango e passarinho. Quando mataram calango pela primeira vez, cortaram a mão dele e acharam parecida com mão de gente, e acharam isso interessante. Um dia mataram uma paca e assaram. O cheiro do assado chegou até ao nariz do pai. Este disse:
Está muito cheiroso, quero comer.
Você precisa comer mesmo, matamos para isso.
Um outro dia os dois irmãos encontraram o tatu, que perguntou qual era o nome deles. Responderam que não tinham nome.
Fique então com o meu disse o tatu.
O mais velho ficou chamando Tapeacanã, e o mais novo, Tapéiaú, que eram os nomes do tatu. De volta para casa começaram a se tratar por esses nomes. Ao ouvir, o pai perguntou:
Quem pôs esse nome em vocês?
Foi o tatu.
Os meninos nos seus passeios iam sempre à roça do cuiatetê [perdiz] arrancar amendoim. Certa vez, quando estavam lá, apareceu o cuiatetê. Vendo-o aproximar-se, disse um para o outro: "Aí vem o dono do amendoim". Falando isso, correram e se esconderam numa moita. O cuiatetê começou a falar:
Que meninos bobos esses, estão comendo o meu amendoim. Eles não têm mãe. Só têm tia.
Quando os meninos ouviram, saíram do esconderijo e pediram ao cuiatetê que contasse essa história para eles: "Queremos saber".
O cuiatetê contou tudo, então. Contou que a mãe deles estava enterrada no meio da aldeia; que tinha sido morta pela avó, e que esta estava escondida atrás da casa onde eles moravam. Depois de ouvir, os meninos disseram: "Agora nós já sabemos tudo". E voltaram para casa, mas não entraram. Ficaram chorando do lado de fora. A tia perguntou por que estavam chorando, mandou que entrassem para dentro. Os meninos não quiseram, continuaram chorando. A tia disse por fim:
Quem contou para vocês que a sua mãe morreu?
Nós sabemos que você não é nossa mãe. Nossa mãe de verdade morreu.
Disseram isso e continuaram chorando. O pai e a tia, então, foram chorar com os meninos. Mais consolados com isso, estes entraram para dentro de casa. Aí a tia confirmou o que o cuiatetê disse, que a mãe deles tinha sido, mesmo, morta pela avó. Os meninos perguntaram onde a mãe estava enterrada. O pai mostrou o lugar. Então, um dos meninos perguntou:
Como vamos fazer com a nossa mãe?
Vamos ver primeiro, depois resolvemos o que fazer respondeu o outro.
Foram até o túmulo e lá ficaram chorando, passando em seguida a chamar a mãe: "amá, amá, amá ..." Lá no fundo da cova a mãe respondia com um gemido. Cada vez que os meninos chamavam, ouviam essa resposta. Em seguida começaram a remover a terra da cova. Queriam desenterrar o corpo da mãe. Cada vez que ela respondia, eles cavavam mais, até que descobriram o corpo.
Que vamos fazer agora? perguntou um deles.
Vamos tirar tudo para fora, e ver como é que está respondeu o outro.
Alçaram a mãe do buraco e verificaram que o pescoço dela estava todo estragado. Vendo isso, o mais velho disse:
Nossa mãe não tem mais jeito, está muito machucada. Se o pai tivesse falado isso antes, nós a teríamos curado e ela teria vivido outra vez.
Colocando novamente o corpo na cova, disseram:
Agora vai ser sempre assim, a gente morre e não volta mais, acaba duma vez.
Depois deste segundo enterro, mandaram o pai pescar. A onça foi e voltou de tarde com muito peixe, que no outro dia foi distribuído entre o pessoal. Nessa ocasião, houve cantos para que o espírito da morta fosse embora. No outro dia os irmãos mandaram o pai pescar de novo, para encerrar o luto. A onça foi e, de volta à aldeia, assou todo o peixe que pescou, para ser novamente distribuído. Feita a distribuição, os dois meninos, acompanhados do pai e da tia, foram banhar-se para acabar o luto. O rapaz que tinha aberto a cova para enterrar a morta pediu à onça que mandasse o pessoal se pintar, para homenagear a mãe deles. Terminada a cerimonia, os dois irmãos se vestiram de calango e foram procurar a avó. Procuraram até encontrar. A velha, vendo os netos, chamou-os para brincar no seu colo. Brincou com um, primeiro, levantando-o e o baixando contra o peito. O outro, o mais velho, tinha posto uma pedra na sola do pé. Quando a avó o baixou contra o peito, ele bateu duro com o pé e a matou. De volta a casa contaram à tia o que tinham feito. A avó não foi enterrada. Deixaram ela lá mesmo onde mataram. Dai os meninos disseram à tia:
Fizemos nossa avó pagar pela nossa mãe. Ela precisava morrer.
Saíram depois disso a matar veado. Mataram um, cortaram os dedos que ele tinha e, vendo que não era parente deles, assaram para comer, dizendo que era bicho e por isso podia ser comido. Num outro passeio que fizeram encontraram o kuaráiuminhã [cigarrinha], que perguntou o nome deles.
Tapeacanã, é o meu nome disse o mais velho. O do meu irmão é Tapéiaú.
São feios esses nomes disse o kuaráiuminhã é melhor vocês ficarem com o meu nome.
Qual é o seu nome?
É Kuát e Iaë. O mais velho vai chamar Kuát [Sol] e o mais novo laë [Lua].
Os meninos acharam bonitos os nomes e ficaram com eles. Quando chegaram em casa de volta, começaram a se tratar por Kuát e Iaë. A tia perguntou quem tinha posto neles esses nomes.
Foi o nosso avô kuaráiuminhã responderam.
O Sol e a Lua andavam caçando muito. Todos os dias eles saiam para caçar. A tia, vendo isso, aconselhou-os a deixar de mexer com o pessoal do pai deles:
Vocês estão matando muito. É preciso parar de fazer isso.
A onça, também contrariada com os meninos, advertiu-os:
Qualquer dia vou transformar vocês em gente igual a nós, para deixarem de mexer com o meu pessoal.
Depois desta observação os irmãos ficaram pensando o que iam fazer. O Sol sugeriu à Lua:
Vamos buscar taquari para transformar em gente brava e matar todo o pessoal daqui.
Combinaram e foram para o mato cortar taquari. Cortaram muito e trouxeram para junto da aldeia. Picaram os taquaris em pedacinhos e espalharam em torno das casas. Era muito taquari. No dia marcado pela onça o pessoal pegou o Sol e a Lua e os levou para o meio da aldeia. Quando as onças começaram a apertar a mão dos meninos, para dar forma de mão de onça, eles gritaram. Nesse momento os. taquaris se transformaram em gente, invadiram a aldeia e mataram todo o pessoal de lá. O Sol havia encerrado o pai dentro da casa. Depois de morto todo o pessoal, a Lua perguntou:
O que vamos fazer do nosso pai?
Vamos mandá-lo embora respondeu o Sol.
Foram até a casa e disseram para ele:
Agora nós vamos mandar você embora.
Está bem.
O Sol, então, juntou bastante cinza e soprou-a contra a casa. A onça teve medo e subiu para o céu com a mulher, a tia dos meninos.
E agora, o que vamos fazer com esse pessoal que nós fizemos? perguntou a Lua.
Temos que mandar embora daqui respondeu o Sol.
Para isso o Sol e a Lua reuniram todos no terreiro da aldeia e mandaram que seguissem, uns poucos para cada lado. Na saída deram fogo para que fossem queimando em todas as direções. O Sol e a Lua ficaram sozinhos muito tempo. Mavutsinim, o avô deles, quando soube, mandou buscá-los. E eles foram para o Morená onde morava Mavutsinim. Lá, falou-lhes o avô:
Vocês têm que voltar lá depois, para fazer o kuarup da sua mãe.
Passado algum tempo os irmãos disseram ao avô que iam subir para fazer o kuarup. Mavutsinim, depois de concordar, aconselhou-os:
Podem ir, mas não briguem com os outros. É preciso tratar bem a todos. Ser amigo de todo mundo.
O Sol e a Lua, acompanhados do pessoal do avô, seguiram então para a antiga aldeia da onça, onde a mãe tinha morrido. Lá, cortaram os paus para a festa. Fizeram grande pescaria, prepararam beijus e mingau. Depois de tudo pronto, enviaram os pariát [mensageiros], para convidar os peixes e outras gentes para a festa. Destinados ao Morená, seguiram os peixes carícarí, o pirarrucú e a pomba pecaú. Os convidados perguntaram que dia podiam sair. Disseram os pariát que no dia seguinte. Na madrugada do outro dia, partiram os peixes para atender ao convite do Sol. Outros pariát foram convidar a aldeia dos caratú-aruiáp. O chefe dos caratú-aruiáp disse aos mensageiros que não podia ir porque não aguentava mais andar, mas mandaria dois dos seus filhos. Estes alcançaram os peixes ainda no Morená, e seguiram juntos, rumo à festa do Sol. Começaram a viajar subindo o rio. No primeiro dia passaram pelo Anariá. Logo depois pelo lugar chamado Maracutaví. Ai se rasparam com dente de peixe-cachorro. Fizeram sangria. Pouco depois, rio acima, passaram pelo Iacaré e logo depois pelo Iauapé e Kranhãnhã. Nesse último lugar dançaram o oát [dança de flautas], durante a noite. No outro dia atingiram a lagoa Marivarrét e dormiram lá. Estavam todos muito contentes porque viajavam com eles os dois caratú-aruiáp, que eram grandes lutadores. Parte do pessoal ficou no Marivarrét. Os outros seguiram a pé e de canoa. Mais na frente encontraram o catsinim, que estava pescando. Os peixes começaram a passar por ele. O catsinim estava olhando. Passou o tucunaré, depois o peixinho vermelho chamado ararapirá. Os que estavam na frente disseram para os que vinham atrás:
Olha ai o catsinim que está pescando.
O catsinim, quando ouviu, ficou admirado. O ararapirá pôs a cabeça fora da água e falou para o catsinim:
Vamos para a festa do Sol.
O catsinim ficou com medo da água. Os peixes o puxaram para dentro da água, dizendo:
. Não precisa ficar com medo que você não vai morrer, não.
O catsinim seguiu com os peixes. Mais acima um pouco pararam para dormir. Nessa altura as ariranhas começaram a perseguir os peixes. Estes chamaram a atenção do catsinim:
Você está ouvindo os cantadores?
Estou sim.
Aqueles cantadores têm as mãos, os pés, parecidos com os de você. Têm pernas, têm braços iguais aos seus. São a mesma coisa que você.
Disseram e continuaram a viagem. Bem para cima encontraram uma cachoeira. O cascudo quis pular mas ficou preso. O acarí também não conseguiu. Pulou e ficou enganchado. O papa-terra veio, pulou e passou para o outro lado. O tucunaré também transpôs o obstáculo. Aí chegaram os filhos do caratú- aruiáp. Os peixes que não conseguiram passar perguntaram aos caratú-aruiáp se podiam abrir caminho para eles. O caminho foi aberto e todos transpuseram o salto. Mais adiante encontraram outra cachoeira e ficaram esperando os caratú - aruiáp, que vinham atrás. Estes abriram caminho e os peixes começaram a passar. Transposta a cachoeira, falaram outra vez com o catsinim:
Está vendo, catsinim? Aqueles cantadores são parecidos com você.
A essa altura já estavam perto da aldeia do Sol. Já estavam quase chegando. De tarde chegaram e acamparam perto da aldeia. Do acampamento, começaram a pedir mingau. Este foi servido e eles beberam tudo, Depois pediram fogo aos pariát, os mensageiros que tinham ido convidá-los. E como os pariát estavam demorando muito, cinco dos visitantes foram até a aldeia buscá-los. Encostaram na casa do veado e ficaram chamando pelo dono. Duas moças saíram e disseram que lá não tinha ninguém. Só estavam elas. Os cinco, então, entraram e perguntaram se podiam ficar e ter relações com elas. As mulheres concordaram e eles ficaram. Enquanto isso, os pariát levaram fogo para os visitantes, dizendo que os companheiros destes estavam na aldeia com as mulheres. Os outros ficaram zangados, dizendo que então não precisavam voltar mais. Pegaram as redes dos cinco e armaram longe do acampamento. Não queriam que eles voltassem mais.
As ariranhas vinham chegando atrás dos peixes.
No Outro dia os visitantes começaram a se pintar. As mulheres também se pintaram. Quando o Sol apareceu de todo, os pariát foram buscar os peixes. Trouxeram todos para o meio da aldeia. Os cinco que no dia anterior tinham ido namorar, não puderam comparecer. Quando todos estavam reunidos no meio da aldeia, começou a dança.. Foi o pessoal do Sol que dançou primeiro. Depois foi a vez dos peixes. No fim, o catsinim dançou também junto com os outros. Terminada a dança, começou a competição de lutas. O Sol lutou primeiro com um dos caratú-aruiáp e perdeu. O outro caratú-aruiáp ganhou de todos os melhores lutadores da aldeia do Sol. Findas as primeiras lutas, teve início a competição geral. A onça pintada lutou com o poraquê e arrancou todos os enfeites que este trazia nos braços. O Sol lutou de novo com um grande lutador e foi jogado para cima, caindo de cabeça no chão. Nesse momento terminaram as lutas. O Sol, quando levantou, perguntou quem o tinha jogado para cima. Disseram que o lutador que havia feito isso já tinha ido embora. Esse lutador, logo que jogou o Sol para o alto, correu e se escondeu num buraco. Depois da luta o pessoal começou a dançar o uruá [dança de flautas] . O carícarí e o acari dançaram acompanhados de mulheres. A que dançava com o acari começou a fazer-lhe cócegas para que ele caísse. O acarí prendeu o braço dela e levou para dentro da água. Terminada a dança, foi servido mingau. Nessa altura as ariranhas começaram a aparecer. Os peixes correram a se esconder. Ficou só o catsinim no meio da aldeia. Aí as ariranhas perguntaram a ele onde estava o pessoal, dizendo que estavam vendo muitos rastros e não viam ninguém. O catsínim disse que não sabia e, chegando perto das ariranhas, soltou um vento com ruído. As ariranhas perguntaram:
Por onde você soltou isso?
Pela bunda respondeu o catsinim.
As ariranhas continuavam perto dele. Instantes depois, o catsinim soltou outro vento. As ariranhas sentiram o cheiro de fezes e ficaram curiosas, perguntando outra vez:
Por onde você fez isso?
Pela bunda voltou ele a dizer.
Depois, o catsinim bebeu mingau e teve vontade de cagar. Quando se afastou para fazer as necessidades, as ariranhas seguiram atrás, para ver por onde ele ia cagar. Chegaram perto e viram. Pediram, então, ao catsinim que fizesse, nelas, uma saída igual á dele. Queixaram-se dizendo que elas não tinham aquilo e que, por isso, tudo que precisavam pôr para fora tinha que ser vomitado. Daí pediram:
Nós queremos cagar como você e não pela boca, como fazemos.
Está bem disse o catsinim. Vou fazer vocês ficarem iguais a mim.
Falando isso, tirou a corda do arco e fez uma ponta bem feita numa das extremidades. Virando-se para as ariranhas, falou:
Agora vocês podem ficar com a bunda pra cima e tapar a cara com as mãos.
Quando as ariranhas ficaram nessa posição, ele começou a furar. Uma delas perguntou:
Será que nós vamos morrer de uma vez?
Não disse o catsinim morre um pouquinho mas volta de novo.
E o catsinim continuou furando. Os peixes estavam todos escondidos no tapãim. Quando o catsinim se preparava para furar a última ariranha, um peixe falou do esconderijo:
Catsinim, pode matar tudo.
A ariranha, a última que restava, ao ouvir isso saltou na água e o catsiním mal pôde alcançar o traseiro dela com a ponta do arco. Essa que fugiu criou outras, com ânus pequeno como foi feito nela. Se o peixe não tivesse falado aquilo, tinham acabado todas as ariranhas. O catsinim zangou com os peixes, quando saíram do tapãim, dizendo:
Se vocês não tivessem falado, eu teria acabado com tudo.
Os peixes que subiram para a festa do Sol não voltaram mais. Acharam muito longe. Só o Sol e a Lua voltaram para o Morená, onde era a aldeia de Mavutsinim.
KUATUNGUE: A origem dos gêmeos Sol e Lua (Kuikúru)
Kuatungue foi caçar e tirar embira para fazer rede de pesca. Estava tirando embira quando apareceu a onça e o pessoal dela. A onça na frente, o pessoal atrás. Assim que o pessoal percebeu Kuatungue, começou a querer cercá-lo. Kuatungue, com medo de ser comido, procurou escapar antes que o cerco se fechasse. O pessoal da onça continuava a fazer o cerco para Kuatungue, quando este viu a onça e foi conversar com ela:
O que é que você quer fazer comigo? Você quer me comer? Não faça isso. Eu tenho filhas bonitas e dou para você.
Vá embora depressa respondeu a onça antes que o pessoal chegasse.
Isso porque o seu pessoal estava chegando cada vez mais perto. Kuatungue fugiu, foi embora. O pessoal da onça chegou e foi-lhe perguntando:
Que dê ele?
Fugiu.
Por que você não o prendeu logo?
Eu não vi nada.
Kuatungue fugiu depressa, ficou muito cansado. Tudo era escuro. O sol ainda não existia. Kuatungue chegou em casa muito tarde e muito cansado. Ele tinha duas filhas, moças bonitas. Kuatungue começou a pensar como podia cumprir a promessa feita à onça, isto é, dar a ela uma de suas filhas. "Como é que eu vou fazer?" Deitado, só pensava na promessa. No outro dia levantou cedo e foi para o mato procurar uégovi, o Chefe dos paus. Depois de caminhar muito encontrou um pau amarelo, vatá, do qual cortou dois toros. Mais adiante achou o pau-de-leite, icú, cortando deste também outros dois toros. Finalmente cortou também dois toros de uégovi, o primeiro que havia procurado. Feito isso, começou a esculpir, nos toros que tinha cortado, imagens de gentes, com pernas, braços, cabeça. Terminado o trabalho, Kuatungue trouxe os paus para casa, onde os deixou bem escondidos atrás de uma tapagem. Concluído isso, Kuatungue fez também um banco que guardou junto com os bonecos, na tapagem. Aí deixou também redes prontas para serem usadas. Assim que escureceu, Kuatungue foi dormir. No meio da noite os paus foram virando gente. Quando ele se levantou, começou a ouvir barulho de conversa dentro da tapagem. Devagar, foi espiar para ver se os toros tinham virado gente mesmo, como ele queria. Vendo que tudo tinha saído de acordo, falou:
Ó minhas filhas, eu sou o seu pai. Fui eu que fiz vocês. Como é que vocês estão? Estão com saúde ou estão fracas?
Estamos bem. Estamos fortes.
Kuatungue examinou bem e viu que estava faltando cabelo. "Ah! Como é que vou fazer?", pensou. Aí ele saiu à procura de qualquer coisa de que pudesse fazer cabelo. Primeiro ele trouxe fibra do broto de buriti e pôs nas cabeças das moças. Depois de olhar bem, achou que não estava bom. Achou muito branco. Novamente saiu ele à procura de outra coisa, até que viu na água um capim que lhe pareceu melhor. Trouxe o capim e também cabelo de milho seco. Pôs tudo na cabeça das moças e achou que desta vez ficou bom. As moças riram e ele viu, então, que elas não tinham dentes. Kuatungue saiu para procurar e voltou trazendo dentes de piranhas. Colocou os dentes nas moças e trouxe comida para ver se ficaram bons, e como elas comiam. Reparou que elas comiam muito depressa, como se fossem ariranhas ou mesmo piranhas. Kuatungue não gostou, tirou os dentes e saiu à. procura de coisa melhor. Logo encontrou semente de mangaba. Chegando de volta, com muito cuidado colocou as sementes de mangaba na boca das filhas. Antes, porém, de pôr os dentes, Kuatungue pôs um bichinho dentro da semente. E é por isso que dente estraga, não fica bom toda vida. Aí Kuatungue mandou que elas rissem. Elas riram e ele achou que tinham ficado muito bons. Kuatungue saiu novamente procurando, agora, embira para fazer um protetor para os órgãos genitais. Andou bastante até que chegou à aldeia da pindaíba. Na hora em que chegou, todos lá estavam lutando. Ele esperou que terminassem. Todos conheceram que era Kuatungue e disseram:
Que será que ele quer?
Kuatungue chegou no meio do terreiro e, vendo-se cercado por todos, falou:
Eu tenho seis filhas. Estou precisando de embira para fazer cintos para elas. Quem quiser ir comigo, pode vir.
Kuatungue regressou para casa um pouco triste porque ninguém o acompanhou; mas não ficou bravo. Novamente em casa contou tudo o que aconteceu. No outro dia saiu para nova procura. Andou, andou até que chegou na aldeia da embira branca [túim]. Lá encontrou também todos lutando. Ele esperou que parassem as lutas e, indo para o meio do terreiro, falou:
Eu tenho seis filhas e estou precisando de embira para fazer cintos para elas. Quem quiser ir comigo, pode vir.
Todos aceitaram o convite de Kuatungue mas só seis o acompanharam até à aldeia. Chegados lá, Kuatungue tirou a casca dos paus, estaqueou e pôs para secar na beira do fogo. Assim que as embiras ficaram bem secas, tornando-se bem brancas, Kuatungue fez os cintos protetores. Feito isso explicou às filhas como colocar e usar o protetor [túim], recomendando a elas que tirassem na hora de urinar para que a fibra não se estragasse. Aí Kuatungue mandou que todas fossem dormir, recomendando que levantassem cedo e fossem tomar banho. Ensinou-lhes ainda como sentar. De madrugada as moças se levantaram, foram se banhar e conversaram muito. Elas tinham uma coruja. Na hora que a coruja cantou elas começaram a rir. Uma delas perguntou:
Ó meu pai, você não está ouvindo o passarinho cantar? O que é que ele está cantando?
Ó minha filha, quando eu fui buscar fibra para fazer rede de pesca, encontrei a onça e ela quase me comeu. Aí eu disse pra ela: "Não me coma que eu dou minhas filhas para casar com você". Como é, vocês querem ir para lá?
Elas ficaram tristes e responderam que não queriam, que preferiam ficar ali mesmo. Kuatungue tornou a falar, mas só que desta vez falou duro. Diante disso as moças concordaram. Kuatungue mandou, então, que elas fossem. Quando tudo estava pronto elas saíram. Viajaram até ao meio-dia. Até essa hora não haviam encontrado água. Elas levavam, cada uma, uma esteira pequena feita da parte mais grossa do talo da folha do buriti. A tarde elas encontraram água, mas não era boa, era suja e envenenada. Uma delas experimentou porque estava com muita sede. Bebeu e morreu. As outras não quiseram experimentar dessa água, preferiram continuar com sede. A noite elas, cansadas, adormeceram logo. Antes, porém, enterraram a irmã que morreu. Elas choraram muito. De manhã continuaram a viagem. Depois de andar muito encontraram o martim-pescador, que perguntou:
Aonde vocês vão?
Vamos indo para o lugar da onça. Será que está muito longe?
Está longe sim. Vocês vão demorar ainda uns cinco dias.
Despediram-se mas, na hora de sair, o martim-pescador segurou uma delas como pagamento das informações que tinha dado. As Outras quatro foram embora. A que tinha ficado saiu, depois de ter relações com o martim-pescador, para alcançar as irmãs. Depois de viajar muito, as cinco irmãs encontraram uma irara tirando mel.
Aonde vão vocês? perguntou ela.
Vamos para o lugar da onça. Será que ainda está longe?
Daqui a quatro dias vocês vão chegar.
A irara ofereceu mel e as moças aceitaram. Uma delas engasgou com o mel e caiu debatendo-se no chão. A irara, aproveitando a ocasião, teve relações sexuais com ela. A irara é que tinha provocado o engasgo, soprando na moça. Logo que terminou as relações, a moça ficou boa e seguiu viagem com as outras. Andaram mais um pouco e pararam para dormir. No dia seguinte, depois de viajar bastante, encontraram uma anta.
Moças, aonde vão vocês? perguntou a anta.
Nós vamos para o lugar da onça.
Quem foi que mandou vocês?
Foi nosso pai. Será que ainda está longe?
A anta ensinou o caminho mas queria ter relações com elas, em pagamento das informações. As moças não quiseram, mas uma delas foi agarrada pela anta. Esta morreu porque o membro da anta era muito grande. As outras choraram e foram espiar a irmã morta. Como ela estava toda aberta, as moças viram que eram feitas de pau.
Ah! por isso que nosso pai nos mandou. Nós não somos gente. Ele não gosta de nós. Por esse motivo ele nos mandou para a onça.
Com a morte desta, ficaram só quatro. Elas continuaram viajando até que encontraram o tatupeba. Este explicou direito o caminho e disse que elas iam demorar só dois dias para chegar. Quando estavam saindo o tatupeba segurou uma delas porque queria ter relações com a moça. Verificando que o membro não enrijecia, o tatupeba mandou que elas esperassem, que ele ia buscar na casa dele uma coisa que o deixaria em condições de ter relações. Assim que ele saiu as moças fugiram.
Vamos embora logo disseram.
Daí a pouco o tatupeba voltou e começou a chamar:
- Ó vocês! Onde estão? Já cheguei.
Cansado de chamar, o tatupeba ficou zangado e gritou:
Podem ir embora. Vocês vão morrer no caminho.
Aí o tatupeba, com o membro duro e balançando, voltou zangado para casa. Tudo era escuro e fazia frio, pois ainda não havia sol, o sol ainda não tinha nascido. As quatro moças continuaram viajando. Andaram até que encontraram uma água rasa, mas de fundo muito liso. Por causa disso foram andando bem devagar. Nesse córrego as moças se banharam e tomaram bastante água. Uma delas, porém, caiu, bateu com a cabeça no fundo e morreu logo. As outras choraram muito e depois de enterrar a irmã continuaram a viagem. Agora só eram três.
Lá adiante encontraram o veado parado no meio do caminho. Ele estava todo enfeitado e bonito. As moças ficaram olhando. Estavam gostando dele. Era muito bonito. Elas levavam sal e quiseram dar para o veado.
- Ó moço, aqui tem sal, você quer comer?
As moças quiseram pôr o sal na mão dele, mas ele não quis abrir a mão. Mandou que elas depositassem o sal no dorso da mão, pois se pusessem na palma, o sal muito frio o deixaria fraco. Daí ele perguntou:
Aonde vocês vão?
Vamos procurar a onça para casar com ela. Foi nosso pai quem mandou.
Será que vocês sabem onde é a casa da onça?
- Não, não sabemos.
Agora está perto. Mais uma noite e vocês chegam lá. Quando vocês chegarem na água, vão encontrar dois caminhos, um para a casa da onça, é o direto. O outro vai para a casa do lobo, é o que deriva para o outro lado.
As moças continuaram a viagem. Lá adiante encontraram um buriti. Uma delas mandou a outra subir para tirar fibra do broto, para fazer cinto protetor. Uma delas subiu, e lá do alto jogou o broto que enterrou no chão deixando a ponta para cima. Quando ela vinha descendo, as outras tiraram pedaços da unha da mão e jogaram nela. A unha virou mutuca e picou a moça que estava na árvore. Ela, para espantar a mutuca, bateu com uma das mãos, mas não conseguiu se segurar só com a outra e caiu no broto do buriti que havia ficado com a ponta para cima. E assim morreu. As outras enterraram a irmã morta e continuaram a viagem. Só restavam duas.
Depois de caminhar bastante chegaram no córrego bem no porto da onça, onde era o seu banheiro, e de onde saiam os dois caminhos. As moças subiram nas árvores e ficaram escondidas para ver quem vinha banhar. Pouco depois chegou uma seriema com uma cabaça para apanhar água. A seriema era mulher do lobo. A seriema começou a se banhar e as duas moças lá de cima da árvore ficaram olhando. Depois de banhar bem, a seriema saiu da água e ficou falando sozinha.
Ah! meu corpo está bom. Meu cabelo está comprido. Eu estou forte. Minha perna é grossa. Todo mundo está falando que não tenho cabelo e que tenho perna fina.
As duas moças estavam ouvindo e rindo. Quando a seriema ia indo embora, as moças tiraram outra vez um pedaço da unha e jogaram nela. A unha virou mutuca e picou a seriema. Esta, quando foi espantar, deixou cair a cabaça, que se quebrou. A seriema foi buscar outra cabaça e de novo encheu de água. Quando ela ia indo embora novamente, as moças tornaram a jogar um pedaço de unha que, virando mutuca, tornou a picá-la, fazendo, mais uma vez, com que a cabaça caísse e se quebrasse. Ai a seriema ouviu as duas moças rindo e ficou zangada. As moças também perceberam que a seriema tinha desconfiado. Chegando em casa a seriema Contou para o marido lobo o que tinha acontecido:
Tem gente chegando aí. Jogaram alguma coisa em mim e foi por isso que a minha cabaça se quebrou. Acho que é gente que vem para casar com você.
As moças desceram da árvore e resolveram ir embora. Combinaram seguir cada uma por um caminho. Uma pelo caminho da onça, a outra pelo caminho do lobo. Uma delas, a mais velha, porque foi feita com a parte mais baixa do tronco, seguiu pela primeira trilha e a outra, pela segunda. Combinaram o seguinte: aquela que não encontrasse a onça porque seguiu o caminho errado devia procurar a outra, a que foi pelo caminho certo. A mais velha foi sair na casa do lobo e foi por ele agarrada. O lobo gostou dela. A mais moça foi sair na casa da onça e se apresentou:
Meu pai que me mandou.
Ah! eu já estou sabendo. Eu encontrei seu pai. Aonde está a outra? Por que não vieram juntas?
Nós não sabíamos o caminho da sua casa. A minha irmã foi pela outra trilha e deve ter chegado na casa do lobo.
A onça, então, falou para a sua gente:
Daqui a pouco nós vamos sair para caçar.
Todos concordaram. Na hora da saída a onça andou um pouco e disse que não podia ir porque estava machucada:
Minha gente, eu não posso ir porque estou machucado. Vocês vão bem. Não briguem com ninguém.
Ela mesma se tinha ferido de propósito, para ficar. Ela queria ir buscar a mulher que estava na casa do outro. Ao voltar da mata, a onça vinha jogando flecha de assobio na direção da mulher que estava sentada na porta da casa do lobo. Jogava a mesma flecha e recolhia, à medida que ia caminhando. Quando já estava perto da casa, a onça jogou a flecha, que foi cair bem na frente da mulher. Esta apanhou-a. A onça, quando chegou para tomá-la, segurou a mulher peio pulso.
O moça, o que está fazendo aqui? Por que não ficou junto com a sua irmã? Seu pai mandou vocês para mim.
A mãe do lobo, que era velha, saiu atrás da onça que levava a moça. A velha ia dizendo.
Por que você está levando a mulher do meu filho? Esta é a mulher do meu filho.
A onça foi levando e dizendo:
Esta é minha. Foi o pai dela que mandou ela pra mim.
E virando para a moça disse:
Não olha pra velha, senão a cabeça dela cai.
Quando estavam chegando, ao entrar na casa da onça, a moça olhou rapidamente para a velha. E a cabeça da velha caiu.
Essa moça não vai viver muito. Vai morrer logo disse a velha.
O pessoal começou a voltar da caçada. A onça foi levar mingau para os caçadores. O lobo ficou sabendo que a mulher dele tinha sido levada pela onça e ficou triste. A velha, mãe dele, é que ficou brava.
A onça perguntou para a mulher:
Olha, mulher, o lobo mexeu com você?
Não, não mexeu.
Ele deitou com você?
Deitou.
Então ele mexeu com você. Precisa tomar remédio do mato para vomitar.
A onça foi no mato, trouxe o remédio, a mulher tomou e vomitou. A mulher já estava grávida do lobo. A onça deu remédio para ela vomitar para o filho não sair misturado. Mais tarde essa mesma mulher ficou grávida da onça. A outra não engravidava. Quase na hora de parir, a mulher grávida estava sentada na porta da casa, fiando algodão, enquanto a sogra, mãe da onça, varria a casa, soltava ventos e falava zangada para a nora:
Por que você não varreu primeiro? A casa é do seu marido. Por que você não varre?
A nora cuspia os fios de algodão que estavam na boca, mas a velha pensou que fosse por causa dos seus ventos e disse brava:
Você cuspiu por minha causa?
A velha, muito brava, tirou um pedaço da unha e jogou na nora, decepando-lhe a cabeça. A nora ficou estrebuchando no chão, ao lado da cabeça. Nesse momento chegou a irmã, que começou a chorar e a dizer para a velha:
Por que você fez isso? Por que você fez isso?
Depois pegou a irmã morta, pôs na rede e colocou a cabeça no lugar. A onça estava na roça. Quando ela chegou e viu o que tinha acontecido, falou:
O que aconteceu?
Foi sua mãe quem fez isso.
Quando a irmã foi socorrer a outra que estava gravida e morrendo, viu que estavam nascendo duas crianças: Os dois meninos nascidos eram: Rit [Sol] e Une [Lua]. Até então tudo era escuro. O sol ainda não existia. Sendo Rit o próprio sol que nascia, a claridade aumentava à medida que Rit crescia. Assim, só com Rit adulto a claridade atingiria toda a sua plenitude.
A onça, vendo tudo aquilo, ficou muito triste e disse:
Por que você fez isto, minha mãe?
Aí pegou a mãe e levou para perto do córrego. Ali fez um ranchinho, deixou alimentação e deu para a mãe. O ranchinho, para que ninguém fosse amolar a velha, foi cercado de cobra, marimbondo e espinho de abacaxi. Quando voltou, a onça ficou sem saber onde colocar a mulher morta. As duas crianças estavam sendo tratadas pela tia. Finalmente, a onça resolveu pôr a mulher morta em cima da casa. Pouco tempo depois os dois meninos já estavam bem crescidos. Foram crescendo rápido. Duas luas e eles crescendo; três luas e eles crescendo. Com quatro luas já estavam levantando. Com dez luas já estavam andando e chorando. A tia foi ficando enjoada e falava:
Não chorem, não. Não chorem, não. Olhem comida aqui, beiju, mingau. Fiquem quietos. Vão buscar amendoim da perdiz.
Os dois saíram para a roça. Encontraram amendoim e comeram muito. Nisso chegou a perdiz e ficou zangada:
Quem está aí estragando minha roça? Quem está arrancando meu amendoim? De onde vem essa criançada? Eu ja sei... Vocês não sabem nada. Sua mãe morreu. Quem matou foi sua avó. Aquela que está lá não é sua mãe, é sua tia.
Os meninos ouviram calados tudo que a perdiz contava. A perdiz continuou:
Vocês pensam que aquela é sua mãe? Não é, não. É sua tia. Vocês não sabem nada. Foi sua avó quem matou sua mãe. Sua mãe está em cima da casa. Foi seu pai quem pos ela ali. Ela está morta. Seu pai escondeu sua avó perto do córrego. Ele ficou com muita vergonha.
Os meninos ficaram assim sabendo que aquela não era a mãe deles, era a sua tia. Eles, que estavam escondidos, saíram de repente de perto da perdiz e a seguraram?
Como é que você falou?
A perdiz ficou com medo e disse:
Eu não falei nada. Só mandei vocês apanharem mais amendoim.
Não. Não foi isso que você disse. Você disse outra coisa.
Não. Não falei nada.
Os meninos seguraram duro a perdiz. Quando eles largaram um pouco, ela contou:
Foi seu pai quem pôs sua mãe em cima da casa. Sua avó está escondida num ranchinho perto do rio. Quando vocês quiserem entrar lá, tenham cuidado por causa das cobras.
Os meninos, zangados, disseram:
Não vamos mais chamar ele de pai. Vamos só falar anéto [chefe].
Aí os meninos pegaram a perdiz pelo pescoço e a jogaram no campo. Com o golpe ela caiu com o pescoço esticado e começou a assobiar como perdiz, tal como faz hoje. Os meninos foram embora. Foram conversando:
Vamos procurar a avó? Vamos matá-la?
Quando chegaram em casa, não entraram. Ficaram de fora. A tia chegou e foi falando:
Entrem, meus filhos. Vocês colheram bastante amendoim? Comeram bem? Por que vocês estão chorando? Não fiquem aí fora.
Não. Você não é a nossa mãe. Você é nossa tia. Nossa mãe morreu. Nossa avó matou-a. Nosso pai foi quem a pôs em cima da casa. A perdiz contou tudo direito pra gente.
Quando a tia entrou, a onça perguntou o que a criançada estava falando. A mulher respondeu:
Eles falaram que eu não sou a mãe deles. Que a mãe deles morreu e que foi a avó quem matou. Eles sabem tudo.
Quem foi que contou essas coisas todas para os meninos?
Foi a perdiz.
Os dois meninos saíram à procura da avó. Procuraram tanto que acabaram encontrando o ranchinho. A perdiz tinha ensinado tudo certo. Ela havia recomendado aos meninos muito cuidado na chegada do rancho por causa das cobras, dos marimbondos e espinhos de abacaxi.
O melhor é chamar o gavião que gosta de pegar cobras lembrou um deles.
Os gaviões vieram e atacaram as cobras. Faltavam agora os marimbondos. Os meninos lembraram de um passarinho que come marimbondos e o chamaram. Faltavam, agora, somente os espinhos de abacaxi. Para isso eles chamaram a anta, que gosta de pisar em tudo. A anta veio, pisou, pisou e ficou tudo limpo. Aí eles entraram e abriram a porta do ranchinho. A velha disse:
Ó meus netos. Venham deitar comigo.
Os meninos foram. A velha abraçou os dois e começou a brincar com eles. Os meninos haviam amarrado pedras nos pés. Dessa maneira, quando eles batiam com os pés no peito da avó, faziam como se estivessem brincando. A velha brincava com um de cada vez.
Ó minha avó, nós estávamos procurando você
A velha ia contando:
Eu que matei a sua mãe. Eu que matei a sua mãe. Eu não gostava dela.
Enquanto isso os meninos iam machucando a avó, batendo, cada vez mais forte, com os pés no peito dela. Tanto bateram, cada vez mais duro, que a velha morreu. Daí começaram a conversar:
O que vamos fazer? Vamos pôr fogo em tudo? Como é que vamos fazer? Vamos pôr fogo e dizer que era para matar marimbondo.
Os meninos foram para casa, e disseram:
O anato, precisamos de fogo.
Pra quê? perguntou ele.
Pra matar marimbondo.
Onde vocês estavam?
No mato.
Cuidado, meus filhos, é perigoso. Bichos podem comer vocês.
Os meninos pegaram o fogo e saíram correndo. Chegando lá na beira do rio, tocaram fogo na casa da avó. O fogo queimou tudo. Os dois se esconderam, com medo que estourasse alguma coisa do corpo da velha e os atingisse. Rit falou a seu irmão Une que se escondesse bem, que não olhasse.
Cuidado, alguma coisa da avó pode alcançar você.
Une continuou bem escondido atrás de uma árvore, até que uma coisa ruim da velha saiu e atingiu Une no nariz. Quando parou o fogo, eles saíram do esconderijo. Rit falou:
Por que você olhou? Eu estou falando, mas você não acredita.
Feito isso, Rit passou a mão no nariz do irmão, curando-o imediatamente. O nariz de Une ficou um pouco mais baixo, mais selado. Rit e Une tinham um nariz grande e retilíneo. Os dois voltaram para casa. A tia deles perguntou:
Como é que foi? Queimaram os marimbondos?
Queimamos. Já acabou tudo.
O pai deles, a onça, estava preocupado: "Será que encontraram a avó?" Resolveu ir olhar. Chegou lá, e não encontrou mais o ranchinho. Estava tudo queimado. "Era disso que eu desconfiava e estava com medo", pensou a onça.
Vocês queimaram sua avó, meninos? O que vocês fizeram com a sua avó? Vocês são duros demais!
A onça falou pouco porque estava com medo dos filhos, já crescidos e muito sabidos. Sabiam já mais do que o pai. A onça disse para a mulher:
As crianças queimaram a avó delas. Fui lá e não encontrei nada. Estava tudo queimado. Era para isso que eles queriam o fogo.
Rit e Une estavam muito bravos. Rit falou para o pai:
Anato, mande o seu pessoal tirar taquari e fazer flechas para nós.
Rit e Une, desde quando a perdiz contou tudo, nunca mais chamaram a onça de pai chamavam-na só de anéto.
A onça concordou e saiu gritando para a sua gente:
Vão todos buscar taquari para fazer flechas.
O pessoal ouviu, concordou e, na mesma hora, saíram para buscar taquari. Quando o pessoal voltou a mulher da onça, tia dos meninos, deu mingau para todos. O mingau foi, trazido aos poucos para o terreiro. Enquanto todos tomavam, a onça perguntou aos filhos:
Pronto, meus filhos. O que é que vocês querem ?
Precisa mandar o pessoal fazer logo as flechas Rit respondeu.
O pessoal começou em seguida a trabalhar flechas. Enquanto isso a mulher da onça ia distribuindo mingau. Rit e Une estavam sentados na porta. Quando a capivara passou levando uma cuia para a onça, Rit flechou-a na perna. A capivara morreu logo. E Rit a levou para a tia cozinhar. Depois de pronta, Rit levou-a para a onça comer, e disse:
Anéto, você precisa comer isto. Você não pode mais comer gente, se não vai acabar. Você vai mudar a sua comida. De agora em diante vai comer: veado, capivara, peixe e outras coisas.
A onça comeu. E Rit perguntou:
Anato, você gostou?
Gostei.
Depois que acabaram as flechas, Rit falou para o pai:
Anato, precisa mandar o pessoal fazer borduna.
Os pedaços de taquari que sobraram das flechas, Rit queimou, e das cinzas apurou sal e deu pra tia pôr na comida. A tia, mulher da onça, comeu e engravidou. Mais tarde as bordunas ficaram prontas. A onça entregou tudo ao filho: bordunas e flechas. E ai perguntou:
Como é, meu filho, você gostou?
Rit disse que sim, e mandou que levassem tudo para o mato. Rit conversou com seu irmão Une:
Como vamos fazer? Vamos tirar ela lá de cima da casa?
Rit mandou chamar seus amigos Kuatungue, Caiãnamá e a irmã deste, Babanhiço. Quando eles chegaram, Rit combinou tirar a mãe de cima da casa. Com muito cuidado eles tiraram. Ela estava quase morta. Estava muito fraca e magra. Com muito jeito e bem devagar, levaram-na para dentro de casa e a deitaram numa rede. Com muito cuidado deram a ela um pouco de mingau e beiju. Rit perguntou:
Minha mãe, como vai você? Você vai morrer? Come mingau. Posso deitar com você, minha mãe?
Rit deitou junto da mãe.
Minha mãe, se você for morrer, você fala para mim? Você fala para mim? Você fala comigo se for morrer?
O peso de Rit, deitado na rede junto à mãe, apertou-a até que ela morreu. Todos choraram a sua morte. Rit chamou o tatu-pequeno, o canastra, o besouro e a mamangaba e mandou que eles fizessem o buraco para enterrar a mãe dele. Os encarregados de fazer o buraco combinaram enterrar a mãe de Rit no meio do terreiro. Rit não concordou. Eles insistiram, mas Rit não queria. Eles pretendiam fazer duas covas, ligando-as no fundo por um túnel. Rit, finalmente, concordou e foi, então, pintar e enfeitar a mãe para ser enterrada. O tatu-pequeno, o canastra, o besouro e a mamangaba foram dizer a Rit que a mãe dele já podia ser enterrada. Rit concordou mas recomendou que a envolvessem bem na rede e que a levassem devagar e cantando. Rit mediu a rede e a ligação entre os dois buracos, para ver se estava na medida certa. O corpo da morta foi sendo levado devagar até a cova. Todos acompanharam chorando. Chegaram à beira da cova, depositaram o corpo no chão. Depois os trabalhadores desceram lentamente o corpo para o interior do buraco e, lá no fundo, estenderam a rede no túnel que ligava as duas covas. Em seguida cobriram o corpo com uma esteira, para depois jogar terra até encher o buraco. Todos continuaram chorando. Inclusive Kuatungue, que viera a chamado de Rit, sendo portador do chamado o graxaim. O tatu-pequeno, o canastra, o besouro e a mamangaba choraram também. O tatu-pequeno teve um ataque, caiu e começou a estrebuchar. Todos que estavam chorando começaram a rir. Rit também riu. Aí ele disse:
Todo mundo riu. Deixa assim mesmo, senão a tristeza fica muito grande. Basta ficar triste cinco dias.
Depois de enterrada a mãe de Rit, todos foram embora para as suas casas. A tia de Rit estava quase na hora de parir. Rit disse para ela:
Ó minha mãe, você está parindo aí? O melhor é ir lá pro mato onde estão guardadas as flechas e as bordunas.
Rit levou a tia para lá. A tia começou a parir mas paria gente já grande. À medida que iam nascendo, Rit ia dando arco e flecha e eles já saíam em atitude de luta, batendo o pé e fazendo ôôôôô... Rit foi dando flecha, até acabar. Foram muitos arcos. Quando acabou, ele passou a dar borduna, até acabar. Todos ganharam. Foram muitos. Daí todos resolveram matar Rit. Aí ele falou:
Vocês todos são meus filhos. Não podem fazer isso, não.
A onça não sabia de nada. Rit não falou nada. Mandou que todos fossem para o mato e ficassem quietos. Nessa ocasião já havia um pouco de dia, já havia claridade. O sol grande estava sendo criado. Quando a tia de Rit ia voltando, apanhou um filhote de mucura e o levou para casa. A onça perguntou:
Nasceu o menino?
A mulher da onça mostrou o filhote da mucura e disse:
Está tudo bem. Olha, não parece com você?
Parece sim, igual a mim.
A mulher começou a dar de mamar para o filhote de mucura. A mãe, a mucura, vinha atrás procurando o filho:
Quem pegou o meu filho? Quem será?
Tanto a mucura procurou o filho que acabou chegando na casa da onça. Lá, encontrou o filho no colo da mulher da onça. A mucura apanhou o seu filho e saiu. A onça, então, falou para a mulher.
Você mentiu para mim. Esse filho não é meu. Você pegou filho de outra. Aquele não é meu filho.
A mulher da onça ficou com vergonha porque tinha mentido para o marido. A onça ficou triste:
Onde você pôs o meu filho? Onde você o deixou? Será que morreu? Onde você enterrou?
A mulher da onça não respondeu. Rit tinha dito a ela que não falasse nada, mesmo que a onça perguntasse. Todo mundo foi dormir: a onça, a mulher, Rit, Une, todos. Para o pessoal que tinha nascido, Rit tinha falado que ficasse quieto e de noite cercasse a aldeia da onça. Quando fosse amanhecendo, instruiu Rit, atacasse a aldeia. Quando começou a clarear e o pessoal da aldeia saía para o banho, teve início o ataque. Todo mundo jogando flecha, correndo e gritando. O pessoal da onça morreu todo, menos a cutia, que era muito sabida e fugiu. Na hora da luta, Rit chamou o pai e a tia e disse:
Sentem aqui no arco. Eu vou mandar vocês pro céu. Lá é o nosso lugar. Vão para lá. A briga já começou e seu pessoal vai todo morrer.
Terminada a luta e morto todo o pessoal da onça, a gente brava ficou reunida no terreiro. Aí eles resolveram matar Rit e o irmão Une. Rit falou:
Como vocês vão fazer isso, meus filhos? Eu que fiz vocês. Como é que vocês vão matar o seu pai? Se eu não aparecesse, vocês não nasceriam.
Todos concordaram e disseram:
Ó, isso é verdade. Ele é mesmo nosso pai. Não podemos matá-lo.
Rit dividiu o povo e para cada grupo de três ele dava um nome: este é Suiá; esse Aviotó; aquele Juruna e, assim, foi designando os demais grupos Turrivissurré, Iarumá, Pitado, Atuvúoto, Tavugli, Kamaiurá, Waurá, Naruvoto, Trumái, Kaiabi, Meinacu, Auetí, Kalapalo, Kuikúru, Aipatsi, Jaualapítf, Tsuva, Uiacu, e outros.
Depois de divididos, Rit acrescentou:
Vocês não vão ficar morando todos aqui. Vão pra longe, cada um para uma direção. Quando encontrarem outras aldeias, briguem.
Feito isso Rit e Une foram para o Morená.