A Presença da Sabedoria Africana no Novo Mundo
Os EGÍPCIOS nos deixaram seus mitos gravados nas pirâmides dos desertos; os gregos, na maestria de suas esculturas e de sua produção teatral; os iorubás por sua vez, tiveram seus registros parcialmente destruídos pelas sucessivas guerras internas, pelo excesso de umidade das florestas tropicais, pelos saques dos invasores pela escravidão imposta ao seu povo. Entretanto, numa visita ao Egito atual, percebemos que, além dos guias e dos estudiosos, ninguém mais fala de deuses como Íris e Osíris. Na Atenas atual, Dionísio ou Apolo, além de peças de museus, são nomes de restaurantes e pousadas. Essas duas tradições, tão estudadas e catalogadas como as verdadeiras heranças da cultura ocidental, não são mais professadas como fé. Mas em Benim, como em Salvador, Havana ou mesmo Nova York, os Orixás como Xangô, Exu, Ogum entre outras divindades iorubás, quase tão antigas quanto os deuses egípcios ou gregos, são cultuados até hoje por um grande número de fiéis.
Por que a tradição dos Orixás permaneceu tão forte tanto na África como no Novo Mundo, mesmo tendo sofrido tantas perseguições por parte dos colonizadores europeus? Quais as razões dessa incrível resistência?
Primeiro, temos que nos debruçar um pouco sobre a sociedade iorubá, na África, antes do processo de escravização. Robert Farris Thompson, na abertura do seu livro Flash of Spirit, nos dá uma idéia bastante interessante a respeito do mundo iorubano. Ele conta a primeira visão que R. H. Stone, um missionário americano, teve da cidade de Abeokuta, em meados do século XIX:
"O que eu vi desengana a minha mente dos muitos erros cometidos a respeito da África. A cidade se estende ao longo das margens do rio Ogum, por aproximadamente seis milhas, e tem uma população de cerca de 200.000... em vez de preguiçosos selvagens nus, vivendo da produção espontânea da terra, eles eram vestidos e trabalhadores... providenciando tudo que o conforto exigia. Os homens são construtores, ferreiros, fundidores de minério, carpinteiros, entalhadores de cabaças, tecelões, artesãos de cestos e esteiras, chapeleiros, comerciantes, barbeiros, curtidores de couro, alfaiates e sapateiros. Eles fazem tesouras, espadas, facas, enxadas, anzóis, machados, pontas de flechas, estribos...
Mulheres... bastante cuidadosas seguem as ocupações de acordo com o costume permitido a elas. Elas fiam, tecem, comerciam, cozinham e tingem tecidos de algodão. Elas também fazem sabão, tinturas, azeite-de-dendê, óleo-de-castanha, todos os produtos nativos e muitas outras coisas usadas no país."
A civilização iorubana teve um urbanismo dos mais desenvolvidos da África negra. O antigo urbanismo iorubá data da época da Idade Média, entre os séculos XII e XIII, quando a cidade sagrada de IIe-Ifé fervilhava com a força artística que mais tarde provocaria um verdadeiro assombro no Ocidente. Escultores de Ile-Ifé estavam produzindo esplendidas obras de arte em terracota, bem como em bronze. Nada comparável em qualidade estava sendo produzido na Europa nesta época. Os primeiros missionários que penetraram na cidade de Abeokuta, em 1840, ficaram abismados não somente com a produção artística mas com o prestígio de que os escultores gozavam entre os seus, exercendo liderança comunitária.
O que só mais tarde pôde ser percebido é que os conceitos de beleza, grandeza interior e riqueza, elegância, manifestados nas obras de arte iorubanas, estão amalgamados com os princípios religiosos que regiam a vida daqueles cidadãos. John Mason, babalaô em Nova York, nos dá uma excelente definição do conceito de "arte" dos iorubás no livro Orin Orisa, Songs for Selected Heads:
"O iorubá usa a palavra Ogbon para significar arte, inteligência, sabedoria, perspicácia e invenção. Esta idéia casa--se com o termo Iton para conto ou história e Ton para diáspora, propagar, investigar, irradiar, instigar; [isto] ajuda-nos a entender que para o Iorubá, Arte é a propagação e investigação da sabedoria. É feita para brilhar, ser vista, ser ouvida, instigar e causar o duplo sentido do significado, uma reinvestigação. O papel da arte é Rù: transportar você; Rù: despertar as coisas, incitar você; Rù: conduzir você tanto para a raiva como para a tristeza. Por esta definição, arte iorubá significa viajar, espalhar todas as notícias sobre as coisas sagradas e mundanas. Todas as artes começam com Deus, o Ideal."
Portanto, observamos que a civilização iorubá, cujo apogeu artístico foi ainda durante a Idade Média, continuou o seu desenvolvimento urbano até metade do século XIX. A localização das principais cidades, distantes da costa, protegeu o povo iorubá do tráfico negreiro implantado pelos europeus desde o começo do século XVI. Mas as constantes guerras com o reino de Daomé acabaram por enfraquecer as cidades iorubanas. O assédio constante dos europeus e o estímulo ao tráfico de prisioneiros de guerra em troca de gêneros de primeira necessidade acabaram transformando também o reino iorubá num celeiro de escravos.
Vejamos o tráfico negreiro África—Brasil para termos uma idéia do impacto da vinda dos iorubás, aqui chamados genericamente de nagôs.
Em 1538, chegavam ao Brasil os primeiros escravos africanos trazidos pelos navios portugueses. Foi a primeira leva de que se tem notícia comprovada, em um período de quase quatro séculos de importação de escravos. Apesar de serem denominados uniformemente de negros, os escravos pertenciam a diferentes grupos étnicos, provenientes de diferentes regiões africanas. Genericamente, foram classificados em dois grupos principais: os bantus, compreendendo os do Congo, Angola e Moçambique; e os sudaneses, englobando os iorubás, jejes e haussás. O tráfico em direção a Salvador, antiga capital do Brasil, pode ser dividido em quatro períodos:
1. O ciclo da Guiné — segunda metade do século XVI
2. O ciclo de Angola e do Congo — século XVII
3. O ciclo da Costa da Mina — três primeiros quartos
do século XVIII
4. O ciclo da baía de Benim — entre 1770 e 1850, es-
tando incluído aí o período do tráfico clandestino.
Neste último ciclo observamos a importação em massa de iorubás para Salvador, que, mesmo não sendo a capital do Brasil desde 1763, continuava, juntamente com a nova capital, Rio de Janeiro, a ser um dos principais portos de entrada de escravos.
A vinda maciça e recente do povo nagô-iorubá seria, portanto, a causa de sua forte influência na vida baiana. A presença considerável de prisioneiros de guerra provenientes de classe social elevada e de sacerdotes comprometidos com a preservação do valor de suas tradições e imbuídos dos preceitos religiosos seria fator que impulsionaria a resistência cultural. É importante ressaltar a coincidência entre as datas da emigração em massa dos iorubás para o Brasil, a partir de 1830, e a da queda da cidade de Oyó, capital do país iorubá, vencida e arrasada pelo Daomé em 1835.
Os negros iorubás encontraram em Salvador seus "inimigos" jejes (do Reino de Daomé) e mesmo os muçulmanos (males), e um grande número de congo-angolenses, já descendentes daqueles que aportaram no Brasil durante os períodos anteriores. Com exceção dos males, cuja cultura possuía linguagem escrita, e que pregavam os ensinamentos do Alcorão, expulsos por liderarem rebeliões, a grande maioria dos escravos tinha pouca instrução e já estava assimilando a cultura católica do dominador.
Entretanto, é importante destacar que, já nesta época, existia a resistência de grupos de religiosos, os quais, clandestinamente. haviam fundado os primeiros Candomblés, estes a princípio, não eram vinculados à cultura ioruba, pois a palavra Candomblé é de origem quicongo-angola. Ka-n-dón-id-é ou Ká-n-domb-ed-e, ou. mais freqüentemente usado- Ka-n-domb-el-e, que é a "ação de orar", um substantivo derivado da forma verbal ku-dom-ba ou kulomba. orar, saudar ou invocar. Candomblé significa adoração, louvação e invocação. E, por extensão, o lugar onde as cerimônias são realizadas. . ,
O negro passou a ter alma, de acordo com a Igreja Católica, somente a partir do ano de 1741. quando a bula papal Immensa Pastorum, do papa Bento XIV, atestava que os negros, apesar de infiéis, poderiam ser convertidos como todas as outras raças. Devemos esclarecer, porém, que esta aceitação da alma no negro significava a imposição de uma espiritualidade atrelada aos conceitos do Cristianismo, uma alma branca. Jamais a Igreja poderia suspeitar quão original era a concepção de alma trazida pêlos escravos negros, a sua imbatível fé, a profundidade de seus mitos e a complexidade de seus ritos. A manifestação das crenças nativas africanas de grupos concentrados principalmente na Bahia, Pernambuco, Maranhão e Rio de Janeiro, trouxe novas formas de sentir e pensar a relação com a Terra e o Universo. Dentre os diversos grupos étnicos, os iorubás, angolas e jejes se destacaram pelas heranças deixadas, visíveis até hoje, balanceadas por uma filosofia realmente animista e por uma crença religiosa que tem como preceito a harmonização com as forças vivas da natureza, onde se pode sentir e conviver com a presença divina dos Orixás, dos inquices e dos voduns.*
Como foi possível a sobrevivência dessas tradições religiosas e culturais nas Américas e no Caribe? Gisèle Cossard chama atenção para o fato de que "na África, o indivíduo que se destribaliza e deixa sua floresta
longínqua para tentar a sorte na cidade, se desapega rápido do seu passado, abandona a sua fé tradicional e adota novos costumes". Nesse sentido, tanto o Islamismo quanto o Cristianismo "representam então um progresso, uma promoção social que favorece contatos, cada dia mais numerosos, com a civilização européia". Ela acrescenta ainda que o fenômeno se inverte no Brasil porque o escravo se "apegava às suas lembranças e possuía a força de suportar seus males dentro dessa fidelidade às suas origens".
Ao contrário do papel desempenhado pela Igreja tradicional, as religiões africanas no Novo Mundo têm atuado, desde o começo, como verdadeiros centros comunitários que zelam pelo equilíbrio psicoemocional de seus componentes e que, através de sua medicina botânica milenar, cuidam da saúde de seus membros. Igualmente notáveis têm sido as heranças deixadas às novas gerações de artesãos e artistas do binômio indissociável arte-religião.
* Nome genérico das divindades iorubas, congo-angola e daomeanas, respectivamente;é importante diferenciar o termo “ Vodum” , divindade de origem do grupo jeje, antigo reino de Daomé, atual república de Benim, do termo “ Vodu”, crença religiosa, criada no Haiti no final do século passado por descendentes de Africanos.