Teatro profano e religioso
O teatro no Brasil colonial
Décio de Almeida Prado
Brasil. Professor aposentado de Literatura Brasileira
na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São
Paulo; crítico e historiador de teatro. Publicou em 1993 as obras: Peças. pessoas, personagens e Teatro de Anchieta a Alencar.

O teatro no Brasil colonial
I
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O |
teatro chegou
ao Brasil tão cedo ou tão tarde quanto se desejar. Se por teatro entendermos
espetáculos amadores isolados, de fins religiosos ou comemorativos, o seu aparecimento coincide com a
formação da própria nacionalidade, tendo surgido com a catequese das tribos
indígenas feita pelos missionários da recém-fundada Companhia de Jesus. Se, no
entanto, para conferir ao conceito a sua plena expressão, exigirmos que haja
uma certa continuidade de palco, com escritores, atores e público relativamente
estáveis, então o teatro só terá nascido alguns anos após a Independência, na
terceira década do século XIX.
Entre os projetos que os jesuítas traziam de Portugal. ao criar a
Província do Brasil em 1552, logo
estaria o de realizar representações escolares que, reafirmando o ponto de
vista católico contra os protestantes, na linha da Contra-Reforma, dessem ainda
aos alunos de seus colégios a oportunidade de praticar o latim, a exemplo do
que se fazia na Europa. A precariedade cultural do Brasil, todavia, nesses
bravios tempos de colonização em que os próprios idiomas europeus podiam
figurar como estrangeiros, levou os responsáveis pela Companhia a transigir,
admitindo em seus espetáculos, ao lado do português e do espanhol, até mesmo o
tupi, ou língua geral, a única capaz de atrair aquela porção do público, a
indígena, que mais interessava aos jesuítas conquistar.
Se já em 1557 o padre Manuel da Nóbrega, o
primeiro provincial do Brasil, escreve um diálogo sobre a conversão do gentio, o teatro propriamente dito vai expandir-se
sobretudo a partir de 1567 (data
aproximada), quando o padre José de Anchieta, por sugestão de Nóbrega, faz
representar em São Paulo de Piratininga uma peça intitulada (por motivos que só
podemos conjeturar) Pregação universal, da
qual não sobrevivem mais do que duas estrofes. Entre esse modesto início e o
final do século, alguns historiadores, valendo-se de referências passageiras,
chegam a enumerar vinte e cinco espetáculos, incluindo-se neles peças e simples
diálogos, montados pelos jesuítas ~. Número certamente
significativo, mas que devemos dispersar não só por algumas décadas como por
meia dúzia de postos avançados da civilização cristã. A Companhia de Jesus
mantinha “escolas de ler e escrever” ou colégios de humanidades em Pernambuco,
Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Vicente e São Paulo (“sertão e cabo
do mundo”, no dizer do padre Fernão Cardim2, porque era a única vila
afastada da orla atlântica). Todo esse pequeno acervo dramático estaria
provavelmente perdido não fossem certas circunstâncias bastante especiais, como
veremos, terem conservado oito textos, todos eles, de resto, atribuídos a um
único autor, José de Anchieta (15341 59’7).
Porém, antes de
analisar tais peças, convém, para
melhor compreendê-las, delinear, ainda que um tanto obliquamente, as condições
em que elas puderam germinar, até chegar ao palco, ou a algo semelhante. Sobre
esse ponto contamos afortunadamente com um testemunho idôneo e explícito: a
carta que o padre Cardim endereçou a Lisboa em 1585, relatando a viagem de
inspeção que vinha fazendo havia já dois anos na Província
do Brasil, na qualidade de secretário do padre visitador Cristóvão Gouveia. Por
onde passava a ilustre comitiva, que tinha caráter quase oficial, era recebida
num ambiente de grande festividade, com muita comedoria, muita música vocal e
instrumental (dentro dos limites da colônia) e também algum teatro. Fora, claro
está, as cerimônias religiosas, organizadas, geralmente, em torno das preciosas
relíquias — uma cabeça das Onze Mil Virgens, um braço de São Sebastião — , que
a Companhia enviará à colônia, para reforço da fé e prova de consideração.
Impressiona. no relato espontâneo de Cardim, o grau de interpenetração
existente entre arte e religião, bem como o ambiente de confraternização
estabelecido por tais festas entre a cultura européia e a cultura indígena,
quando se tratava, bem entendido, de tribos já cristianizadas e amigas dos
jesuítas.
Eis uma amostra da
recepção oferecida pela cidade da Bahia, em que os protagonistas. segundo tudo
indica, eram portugueses ou filhos de portugueses:
Trouxe o padre uma cabeça das Onze Mil Virgens, com
outras relíquias engastadas em um meio como de prata, peça rica e bem acabada.
A cidade e os estudantes lhe fizeram um grave e alegre recebimento: trouxeram
as santas relíquias da Sé ao Colégio em procissão solene, com frautas, boa
música de vozes e danças. A Sé, que era um estudante ricamente vestido, lhe fez
uma fala do contentamento que tivera com sua vinda; a Cidade lhe entregou as
chaves; as outras duas virgens, cujas cabeças já cá tinham, a receberam à porta
de nossa Igreja; alguns anjos as acompanharam, porque tudo foi a modo de
diálogo. Toda a festa causou grande alegria no povo, que concorreu quase todo3.
Agora, em
contraposição, três exemplos de manifestações indígenas, ocorridas em ocasiões
diversas, que transcreveremos longamente, em seqüência, quase sem cortes, para
não prejudicar o pitoresco a --- cor local dos românticos — de quadros tão
graciosamente pintados, que servem para nos restituir o passado em toda a sua
espessura material e espiritual:
Chegamos a
aldeia à tarde; antes dela, um bom quarto
de léguas, começaram as festas que os índios tinham aparelhadas, as quais
fizeram em uma rua de altíssimos e frescos arvoredos, dos quais saíam uns
cantando e tangendo a seu modo, outros em ciladas saíam com grande grita e
urros, que nos atroavam e faziam estremecer Os cunumis, scilicet meninos, com
muitos molhos de frechas levantadas para cima, faziam o seu motim de guerra e
davam a sua grita, e pintados de várias cores, nuzinhos, vinham com as mãos levantadas
receber a benção do padre, dizendo em português, "louvado seja Cristo”.
Outros saíram com uma dança d’escudos à portuguesa, fazendo muitos trocados e
dançando ao som da viola, pandeiro e tamborim e frauta, e juntamente
representavam um breve diálogo, cantando algumas cantigas pastoris. Tudo
causava devoção debaixo de tais bosques, em terras estranhas, e muito mais por
se não esperarem tais festas de gente tão bárbara. Nem faltou um Anhangá,
scilicet diabo, que saiu do mato: este era o índio Ambrósio Pires, que a Lisboa
foi como padre Rodrigo de Freitas. A esta figura fazem os índios muita festa
por causa de sua formosura, gatimanhos e trejeitos que faz: em todas as suas
festas metem algum diabo, para ser deles bem celebrada. [...]
Debaixo da ramada se representou pelos índios um
diálogo pastoril, em língua brasílica, portuguesa e castelhana, e têm eles
muita graça em falar línguas peregrinas, maximé a castelhana. Houve boa música
de vozes, frautas, danças, e dali em procissão fomos até a igreja com várias
invenções. [...]
Véspera da Conceição da Senhora, por ser orago da
aldeia mais principal, foi o padre visitante fazer-lhe a festa. Os índios
também lhe fizeram a sua: porque duas léguas da aldeia em um rio muito largo e
formoso (por ser o caminho por água) vieram alguns índios morubixába, scilicet principais. com muitos outros em vinte canoas
bem equipadas, e algumas pintadas, enramadas e embandeiradas, com seus
tambores, pífaros e frautas, providos de mui formosos arcos e frechas mui
galantes; e faziam a modo de guerra naval muitas ciladas em o rio, arrebentando
poucos e poucos com grande grita, e prepassando pela canoa do padre lhe davam o
Ereiupe, fingindo que o cercavam e o
cativavam. Neste tempo um menino, prepassando em uma canoa pelo padre visitador,
lhe disse em sua língua: Pay, marápe
guarinîne nanda popeçoari? ,scilicet, em tempo de guerra e cerco como estás
desarmado? e meteu-lhe um arco e frechas na mão. O padre assim armado, e eles
dando seu alaridos e urros, tocando seus tambores, frautas e pífanos, levaram o
padre até a aldeia, com algumas danças que tinham prestes. [...]
Acabada a missa houve procissão solene pela aldeia,
com danças dos índios a seu modo e à portuguesa; e alguns mancebos honrados
também festejaram o dia dançando na procissão, e representaram um breve diálogo
e devoto sobre cada palavra da Ave Maria, e esta obra dizem compôs o padre
Álvaro Lobo e até ao Brasil chegam suas obras e caridades4.
Temos
aí, esboçados por Fernão Cardim, alguns dos princípios fundamentais da encenação
e,
portanto,
da dramaturgia - jesuítica: o teatro concebido como parte de uma festa maior,
que nem por ser religiosa deixa de ter lados francamente profanos e divertidos:
o constante deslocamento no espaço (observável também nas festividades indígenas),
como suporte de diálogos ocasionais, não necessariamente ligados entre si, que
faziam a procissão estacionar por minutos; as figuras simbólicas, quando não
sacras (a Sé, a Cidade, o Anjo); o cenário quase sempre natural; os papéis
interpretados por alunos de vários níveis, sem exclusão dos indígenas; o diabo
visto como fonte de comicidade, à maneira indígena (e portuguesa, se lembrarmos
de Gil Vicente); a comunicação de natureza sensorial, proporcionada pela música
e pela dança, com os instrumentos indígenas de sopro e percussão sendo
equiparados aos correspondentes europeus (frauta, tambor); e, antes e acima de
tudo, o aspecto lúdico do teatro, entendido como jogo, brincadeiras, porta
imaginária através da qual entravam com enorme entusiasmo os índios, simulando
ciladas, declarações de guerra, combates navais. Sem esquecer esse curioso
Ambrósio Pires, levado a Lisboa, especialista no desempenho de Anhangás, em
quem devemos saudar o primeiro ator brasileiro a merecer as honras de uma
citação nominal. Que cômico moderno não se reconhecerá em seus “gatimanhos e
trejeitos”?
Mas ainda não nos
despedimos de Fernão Cardim, guia admirável nessas terras ainda mal conhecidas
e nesses territórios artísticos pouco explorados. Será dele mais uma situação, que nos transportará de tais formas
escassamente teatrais, ou parateatrais, a uma cena genuína de teatro, ainda que
engastada, como de hábito, num contexto festivo mais vasto. Estamos no Rio de Janeiro, comemorando a chegada de uma
relíquia de São Sebastião, padroeiro da cidade. Já se realizou no mar uma
escaramuça naval, réplica longínqua das naumaquias romanas, a que não faltaram
nem "grita” por parte dos índios, nem
"arcabuzaria" e "artilharia grossa” por parte dos portugueses. A
inevitável procissão termina em frente à Santa Casa:
estava um teatro [no sentido de palco, tablado,
acreditamosJ à porta da Misericórdia com uma tolda de urna vela, e a santa relíquia se pôs sobre um rico altar enquanto se apresentou um
devoto diálogo do martírio do santo, com choros e várias figuras muito
ricamente vestidas; e foi asseteado um moço atado a um pau: causou este
espetáculo muitas lágrimas de devoção e alegria a toda a cidade por representar
ao vivo o martírio do santo, nem faltou mulher que não viesse à festa [alusão provavelmente
ao fato de a presença feminina não ser bem acolhida pelos jesuítas, nem sequer
entre o público].
Seguem-se um sermão, um desfile público para beijar a relíquia, rematando-se a festa com um final alegre:
era para ver uma dança de meninos índios, o mais
velho seria de Oito anos, todos nuzinhos, pintados de certas cores aprazíveis,
com seus cascavéis nos pés e braços, pernas, cintas e cabeças com várias
invenções de diademas de penas, colares e braceletes.5
A coerência e a
homogeneidade não constituíam como se percebe traços distintivos dos
espetáculos jesuíticos, se é que desse modo podemos considerar. Começava-se no
mar, com o simulacro de uma batalha naval, transpunha-se, já em terra, o martírio do santo, a homenagem às suas
relíquias, o sermão do dia e chegava-se, como fecho que modernamente
chamaríamos de divertissent, à ingênua
exibição coreográfica dos indiozinhos nus. Tudo encadeado, impulsionado pelo
ritmo da procissão, ora estático, ora dinâmico, com o público na dupla condição
de participante e espectador.
Passando
às peças de Anchieta, o tom muda, torna-se mais severo.
Não que as cartas de
Cardim não contenham informações ameaçadoras, alusivas a males presentes ou
futuros. Assim, a referência ao mar litorâneo, “infestado de franceses e
ingleses”, corsários que um dia, sob a capa das guerras de religião,
aprisionarão o próprio Cardim, só o libertando, após demorado cativeiro,
mediante pagamento de resgate. Assim, o perigo constante representado pelo
assédio dos Guaimorés (Aimorés na versão moderna), aliados dos franceses no
ataque desfechado poucos anos antes ao Rio de Janeiro. Assim, a constatação,
sem comentários, de que “os portugueses têm muita escravaria destes índios
cristãos”, levantando a suspeita de que a conversão freqüentemente não era um
bom negócio para o índio. E assim, para terminar este leve esboço das
dificuldades enfrentadas pelos jesuítas, a dúvida que parece insinuar-se no
espírito do nosso missivista com relação à possibilidade de obter-se uma
verdadeira modificação na alma e nos costumes dos indígenas, quando ele, após
entremear elogios e descrições objetivas, deixa escapar um suspiro de
desalento, “enfim por milagre tenho o domar-se gente tão fera”6.
Tais
obstáculos e preocupações perpassam pelo teatro de Anchieta, em primeiro ou em
segundo plano. A diferença entre os dois escritores não é essa, portanto. Onde
Cardim opta pelo otimismo, por essa afabilidade de pensamento e de escrita que
é a constante de suas cartas, Anchieta, nas peças, apresenta-se impregnado pela
vertente pessimista do cristianismo — a do pecado
original, do homem enquanto lodo —, embora sem omitir, nem poderia fazê-lo, a redenção
tornada possível pelo sacrifício de Jesus. E difícil dizer se se trata de uma
marca pessoal, de um certo ceticismo gerado por três décadas de sofrida
experiência missionária ou se tudo não passa de recursos retóricos (o que não
significa insinceros), próprios de textos que, devendo funcionar como sermões
dramáticos, não aceitavam qualquer desfalecimento da vontade perante o mal. A
condenação impiedosa do pecador, a presença do castigo eterno pairando sobre a
cabeça de todos, e não apenas dos infiéis, talvez fosse uma das regras do gênero, se não a sua regra básica.
Duas peças avultam,
até pela extensão, como tem sido acentuado, na produção de Anchieta: Na festa de São Lourenço (1.493 versos)
e Na vila de Vitória (1.674 versos).
Tentar datá-las sem margem de erro seria exercício de imaginação, alicerçado
sobre dados indiretos e rarefeitos. Mas parece certo que ambas foram redigidas
entre 1583 e 1586, quando o escritor
andava por volta dos cinqüenta anos, no mesmo decênio e provavelmente nos
mesmos anos em que Fernão Cardim percorria a província do Brasil.
Em
conjunto as duas interessam muito ao crítico, menos enquanto teatro, mais pela
Luz que lançam sobre a mente missionária — e nossa intenção é conhecê-la, não julgá-la. M. de L.
de Paula Martins, que as editou, primeiro separadamente, depois reunindo-as às
demais peças e poesias de Anchieta, traduzindo pela primeira vez de forma
sistemática os trechos em tupi, salientou as semelhanças que as unem, achando
que as variações existentes entre elas “indicam, na realidade, mudança de
público, apenas”7. Ela não diz mas a inferência é óbvia: a primeira,
mesclando tupi, português e castelhano, dirigir-se-ia de preferência aos
índios; a segunda, na qual o tupi não comparece, ao público de origem européia.
Na festa de São Lourenço congrega um
elenco de personagens tão disparatadas, tão dilatadas no espaço e no tempo,
quanto se possa desejar. Desfilam em cena, nos papéis principais, Guaixará e
Aimberê, conhecidos chefes tamoios que haviam lutado em 1566-1567 ao lado dos
franceses, contra portugueses e jesuítas, entre os quais se encontravam,
correndo risco de vida, Nóbrega e Anchieta; Décio e Valeriano, imperadores
romanos dos primeiros séculos; São Sebastião e São Lourenço. mártires cristãos
desse período — um ,morto a flechadas, o outro, “assado na grelha”
(práticas, seja dito de passagem, que não deviam surpreender nem chocar o público
indígena); um Anjo; o Temor e o Amor de Deus, figuras simbólicas (como todas de
certo modo o são), inseparáveis porque complementares. A volta deles
estende-se uma rede de referências ainda mais ampla, colhendo desde César,
Pompeu e Nero, até Esculápio, Plutão e Júpiter.
Esse
verdadeiro caos histórico, ou a-histórico, vai do infinitamente grande ao
infinitamente pequeno, do divino ao humano, do material ao imaterial, do
passado remoto ao presente imediato, do local ao universal, formando um bloco
cultural complexo a que unicamente os padres da Companhia de Jesus (e talvez
nem todos) estavam em condições de ter acesso. Mas o caos organiza-se, adquire
sentido, torna-se compreensível mesmo a cérebros jejunos de teologia e antiguidades
clássicas, se, ignorando as épocas e passando por cima das individualidades,
separarmos as personagens, como faz idealmente a peça, em apenas dois grandes e
bem caracterizados grupos: os amigos e os inimigos da Igreja católica.
De um lado, no
centro do conflito, São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, e São Lourenço,
padroeiro da aldeia homónima, vizinha da atual Niterói, onde a peça foi
representada. Do outro, Guaixará e Aimberê, velhos inimigos dos jesuítas,
promovidos agora, por suas últimas façanhas, a demônios graduados, tendo por
auxiliares uma série de diabos menores arrevezados a ouvidos europeus:
Saravaia, Tataurana, Urubu, Jaguaruçu, Caborê. Em plano dramático inferior, com
menos participação, os dois imperadores romanos, chamados às falas por crimes
cometidos nos albores do cristianismo.
A unidade dramática
é das mais precárias, porém a de ordem pessoal adivinha-se qual seja. O tema
“São Lourenço”, com as suas duas conotações, a geográfica e a histórica, a da
vila e a do santo, chamou por contigüidade, por associação de idéias, todos os
nomes que lhe eram correlatos no pensamento e na vivência de Anchieta, não
importando se por fatos ocorridos há vinte ou há muitas centenas de anos. A
peça, como todo bom ajuste de contas, não quer outra coisa senão reviver no presente,
em tom triunfalista, batalhas ganhas ou perdidas no passado pela Igreja.
A moral em vigência é a do Velho Testamento: olho por
olho, dente por dente. Não morreu assado na grelha São Lourenço ? Pois então que sofram igual pena os seus
algozes, conforme constatam tardiamente Valeriano e Décio:
Porque Lourenço Cristiano
asado
nos asará.
Quanto ao sangrador de São Sebastião, já se sabe que castigo o espera:
Días
ha que esta sangria
se
guardaba para vos
que
sangrabais noche y dia
con
obstinada porfia
a
los mártires de Dios.
A luta não se travava exclusivamente em sentido
figurado. A imagem que passa, e se desejava passar, é a de um combate que
começa a ser decidido na terra, a golpes de “bofetonazos” e “tizonazos”, quando
não de lances ainda mais inequivocamente marciais. E assim que Saravaia conta a
derrota de Décio:
Pensaba
dar, de revés,
espantables
cuchillazos,
mas
en fin, nuestros balazos
dieran
con él ai través,
con
muy pocos canõnazos8.
Nesse belicoso final
do século XVI, quando os jesuítas
brasileiros, acossados de tempos em tempos por tribos rebeldes, sofriam ainda
na carne a repercussão das guerras européias, tomava-se necessário provar,
pelos resultados, que a causa da Igreja era não só a única santa como a mais
forte, tendo, em postos de comando, soldados da intrepidez de um São Sebastião,
que muitos portugueses juraram ter visto brigando ao lado deles no cerco do Rio
de Janeiro. Até os anjos, por espirituais que fossem, desciam à arena, na
medida em que os demônios igualmente assumiam feições humanas. Ninguém, na
verdade, sabia dizer onde terminava a terra e onde principiava o Céu ou o
Inferno.
A ação dramática,
definida como o caminhar constante (por mais voltas que dê) para um fim
predeterminado, apresenta-se tão descentralizada, tão privada de um eixo único,
quanto o tempo e o espaço. A peça compõe-se de partes, que não chamaríamos de
atos, embora o texto o faça por uma vez, porque não têm o sentido que a
dramaturgia clássica lhes conferiu, de unidades de extensão relativamente idêntica,
com certa autonomia própria, porém fortemente ligadas entre si e subordinadas
ao todo.
Na primeira cena do
manuscrito, aliás sem título9, por ter desaparecido a página
inicial, Guaixará e Aimberê preparam-se para atacar a vila de São Lourenço. Em
seu diálogo, todo ele em língua tupi, alternam-se o medo (Aimberê: “Tenho medo,
todos os meus músculos tremem, estão ficando duros”) e a fanfarronice
(Guaixará: “Recrudesça a minha insolência antiga!”), os dois um tanto
ridículos, pela covardia ou pela pretensão, na tradição dos diabos cômicos
apreciados pelos indígenas, segundo Cardim. O episódio termina com a prisão dos
demônios, executada pelo Anjo (Anjo Custódio da cidade, semelhante ao Anjo da
guarda das pessoas), ajudado por São Lourenço e por São Sebastião. Não há
atrito entre os litigantes, resistência efetiva por parte dos diabos e talvez
nem pudesse haver, dada a disparidade de força entre Deus e Lúcifer
(pronunciado Lucifér por Anchieta). O papel do Mal era o de ser esmagado pelo
Bem, uma vez encerrada a fase dos desafios e bravatas.
Há uma curiosa
inversão a partir desse primeiro desfecho: os dois chefes indígenas, que já expressavam em uma ou outra frase a posição da Igreja
(Guaixará: “a taba inteira é pecadora”), como se tivessem consciência de que
estavam moral e religiosamente errados, mudam de campo, passando a funcionar
como servos submissos do Anjo. Serão eles, com efeito, que enfrentarão o novo
par anticristão surgido em cena, Décio e Valeriano, crivando-os de ironias, de
"amargosos chistes” (é Décio quem se queixa), a exemplo deste, lançado por
Aimberê, falando ao mesmo tempo como cidadão do Inferno e representante do Céu:
Pues me honraste,
y
siernpre me contentaste
ofendiendo
a Dios eterno,
es
justo que en el infierno,
palacio
que tanto amaste,
no
sintas mal el invierno.
Essa estranha delegação de poderes permite manter-se
a nota cômica, além de ensejar que a punição, a morte pelo fogo, seja realizada
com requintes de crueldade mental que não ficariam bem em anjos e santos. Que o
Mal seja punido pelo Mal, deixando o Bem com as mãos limpas — e o poder decisório.
Observe-se que
Lúcifer enquanto complemento da justiça divina não é conceito alheio ao universo cristão. Despojada
do Inferno, ficaria a Igreja sem possibilidade de punir o pecado. Mas um autor
hábil, de clara vocação teatral, não teria dificuldade, como não teve Gil
Vicente na trilogia das Barcas, em
separar as atribuições do Anjo e as do Diabo, tornando-os figuras
complementares exatamente por nunca transgredirem as fronteiras dos
respectivos territórios.
Solucionado este
segundo conflito, que fecha o que com alguma boa vontade chamaríamos de enredo,
abre-se o caminho para uma terceira e quarta partes, já não dramáticas, no
sentido de não comportarem opositor. O Anjo faz tranqüilamente a sua prédica e
o Temor e o Amor de Deus desenvolvem as suas falas, a primeira bem mais longa
que a segunda, sob a forma poeticamente consagrada de mote (chamado tema) e
glosa. Encerra o espetáculo, à maneira descrita por Cardim, uma dança e canto de
meninos índios (talvez nuzinhos) celebrando o Senhor.
Já deve ter ficado
claro, a esta altura, que a coerência formal, ao contrário da religiosa, nunca
esteve entre as cogitações do autor de Na
festa de São Lourenço. Não admira, pois, que numa cena notável pela quebra
da verossimelhança, Valeriano se ponha a falar tupi (“aujé, xe juká jepé”),
enquanto Aimberê recebe dos imperadores romanos, com o uso do espanhol, toda a
sua carga de erudição clássica, mencionando, por exemplo, a “agua del
Flagetón”.
Não se pense, todavia, que esse surpreendente
intercâmbio de idiomas seja involuntário ou produto de desatenção. Aimberê
chega mesmo a justificá-los:
Quiero hacerme castellano
y usar de
policía
con Decio y Valeriano
porque el espanõl ufano
siempre guarda cortesía.
E quando Valeriano, pagando na mesma moeda, prorrompe
a discursar em tupi, o chefe tamoio indaga, malicioso, humoristicamente:
Vinisteis del Paraguay
que
habláis en carijó?
Buscava-se, como se percebe, um efeito cômico acessível ao público,
ainda que à custa da lógica e das regras habituais da dramaturgia. Importava o
“recado” (é a palavra empregada a respeito dos sermões do Temor e do Amor de
Deus) religioso, não a estruturação e
o acabamento artístico.
Mas qual seria esse
“recado”, em relação à área indígena, a mais específica-mente visada? Os
jesuítas tinham em mira dois fins precisos: substituir uma religião (ou
mitologia) por outra e um código moral por outro. Quanto ao primeiro ponto não
enfrentavam obstáculos maiores. Na galeria de seres sobrenaturais oferecida
pelo politeísmo tupi, segundo a interpretação da época, Anhangá ajustava-se ao
papel de Satanás, enquanto Tupã, deus do trovão, assumia posição de Deus único
e todo-poderoso, figura desconhecida entre os índios. As soluções verbais, pelo
menos, estavam dadas.
Já quanto aos
costumes, terreno ambíguo, em que a moral se emaranha com o social, as
dificuldades revelavam-se maiores. De que modo, por exemplo, passar
repentinamente de um sistema sexual relativamente livre para outro, construído
sobre séculos de ascetismo, de repressão aos impulsos da carne? Ou, então, como
incutir a idéia de que assar e comer os prisioneiros de guerra, em vez de
constituir-se uma cerimônia honrosa para ambas as partes, seria um crime
horrível contra a humanidade? A passagem para o cristianismo, na prática, não
se mostrava exeqüível senão abandonando todo o complexo modo de viver nativo.
Não sejam índios, sejam europeus - pregava a Igreja. E acrescentava: se com
isso perderem o reino da terra — da sua terra—,
ganharão o reino do Céu.
Essa incômoda
questão, até hoje não resolvida, da permuta dos “velhos maus hábitos” (a
expressão é da peça) americanos pelos novos bons hábitos europeus, percorre Na festa de São Lourenço como um fio
subterrâneo que reponta por vezes à luz do dia com surpreendente clareza.
Guaixará já a formula em sua primeira intervenção cênica,
rebelando-se contra a intrusão de “tais padres”:
Molestam-me os virtuosos,
irritando-me
muitíssimo
os seus novos hábitos.
Quem os terá trazido
para prejudicar a minha terra?
Mais adiante,
reitera a mesma perspectiva nativista:
As suas próprias coisas a gente
ama sinccramente.
E ao invocar os costumes ameaçados, entre muitos que a
ótica cristã condena — beber, matar, amancebar-se,
ser desonesto, adúltero —, enumera outros de natureza
meramente social:
É bom dançar,
adornar-se, tingir-se de
vermelho,
empenar o corpo, pintar as
pernas,
fazer-se negro, fumar [...].
Admiramos a equanimidade com que a causa indígena
está sendo colocada, até lembrarmos que Guaixará encarna na peça “o rei” dos
diabos, “o diabão assado” (como ele mesmo se qualifica). As suas falas
espelham, portanto, as razões do Mal, o que pretendem é a perpetuação do
pecado.
A conversão ao
cristianismo, para não permanecer na superfície, tinha de
mexer com toda a sociedade indígena. Os jesuítas, tendo ou não consciência
disso, valendo-se da fé ou da má-fé, raciocinavam aqui menos enquanto homens de
religião do que enquanto europeus, convencidos de sua esmagadora superioridade,
seja em armas materiais, seja em armas intelectuais. Entre a América neolítica
e a Europa do décimo sexto século da Era Cristã não se achava com facilidade e
continua não se achando — o ponto ideal de
convergência.
Na vila de Vitória amplia o foco cênico e
ideológico, abrangendo portugueses e espanhóis, além dos índios. Pouco antes,
em 1580,o trono de Portugal, havendo ficado vacante, coubera em herança a Filipe II, rei da Espanha. Segundo se
depreende da peça e de certos indícios históricos, a transmissão de poder entre
os dois países não se efetuara na pequena cidade do Espírito Santo sem
despertar alguma ebulição. O texto aproveita a oportunidade para dar em breves
palavras uma lição tanto quanto possível completa sobre a organização do Estado
e as relações entre governantes e governados.
Duas figuras
alegóricas defrontam-se em cena: o Governo, ou “o bom governo", como a seguir se define, e a vila de Vitória. Esta explica
por que, sendo portuguesa, utiliza-se do espanhol:
Porque quiero dar su gloria
a Filipe, mi señor,
yo soy suya, sin porfía,
y él es mi rey de verdad
a quien la suma bondad
quiere dar la monarquía
de la toda cristiandad.
Era fechar o debate
político antes mesmo de abri-lo. Restava não justificar a obediência ao novo
rei, que tal tipo de obediência dispensa justificativas, mas tirar dela todas
as conseqüências. O que se faz quase
automaticamente, já que do poder do rei
decorre, como a conclusão das premissas, a legitimidade dos atos de quem o
representa:
Quien
quiera a su rey honrar
debe
eu todo obedecer
al
que rige en su lugar.
Palavras sábias da
vila de Vitória, que o Governo, falando português, não pode senão apoiar,
invocando inclusive o poder divino, modelo do terrestre:
Quem o contrário disser
é dino de pena eterna.
pois Jesus nos manda ser
sujeitos, e obedecer
como a Deus, a quem governa.
Essa é a “lei
natural”, que assegura “o bom regimento” das coisas públicas, como é também o
que “ensina a Igreja Romana”.
A forma hierárquica,
princípio organizador do universo, desce do céu à terra. de Jesus, “o sumo
rei”, ao monarca, e deste a seus múltiplos representantes. Aos simples súditos
não resta senão submeter-se. Que ninguém, sobretudo, tente exorbitar da posição
que lhe coube em partilha, querendo subir mais que de direito. O assunto está
explanado com tanto detalhe, delineia um quadro social tão completo, que merece
transcrição integral:
Toda humana criatura
guarde as regras de seu estado
o
religioso encerrado,
o
sacerdote e o cura,
o solteirão e o casado,
o juiz, o v’reador
Ouvidor e capitão
o meirinho e escrivão
o escravo e o senhor,
o fidalgo e o peão.
Porque estas são leis humanas
que dependem da divina.
Tal visão da
sociedade contém em germe o argumento por excelência do conservadorismo.
Poderíamos resumi-lo assim: tudo o que existe tem alguma razão para ser como é;
logo não pode (e, por extensão, não deve) ser modificado. Dentro de um universo
historicamente estático, não existindo possibilidade de mudança, não há
propriamente justiça ou injustiça social. A ordem reinante, identificando-se
com a ordem natural, é igualmente a ordem ideal.
Não é fácil
concordar hoje com Anchieta. Mas é não só possível como necessário alegar em
sua defesa duas circunstâncias atenuantes. Pelo ângulo teológico, o imobilismo
social apoiava-se sobre a idéia de que a obra de Deus, sendo produto de um só
jato criador, saiu já pronta e acabada, pelo menos em suas linhas mestras, das
mãos do Senhor. Pelo ângulo histórico, não há como negar que a Espanha de
Filipe II, naquele momento em que a Inglaterra desligava-se do Vaticano e a
França debatia-se entre o catolicismo e o protestantismo, era a única potência
capaz de oferecer à Contra-Reforma o indispensável respaldo político.
Tempo de guerra é
tempo de cerrar fileiras em tomo do chefe mais poderoso. A própria peça, a
outro propósito, reafirma tal convicção:
Bem o sabeis vós que nas guerras
bem mais vai o sapiente
que
grande corpo de gente,
que
quem vence e ganha terras
é
um capitão prudente.
Ora, o capitão
prudente (no sentido de sábio, ponderado) só podia ser, em fins do século XVI,
Filipe II. A peça enxergava nele, conforme vimos, a pessoa destinada por Deus
(“la suma bondad”) a ser o monarca de “toda La cristiandad”. Para compreender o
zelo castelhano de Anchieta não é preciso recordar que tanto ele, nascido nas
ilhas Canárias, quanto a Companhia de Jesus deitavam raízes em terras
hispânicas. A lição da peça não fazia mais que repetir a de Santo lnácio de
Loyola, que exigia de seus comandados espirituais um sentido de disciplina já quase militar. A perspectiva política e o empenho
guerreiro, para a Contra-Reforma, constituíam a outra face da religião.
Militar e “muy
guerrero”, com efeito, não por simples coincidência, é São Maurício, chamado a
proteger a vila de Vitória, em sua condição de padroeiro da cidade. Quem a quer
tomar, como sempre, são as hostes diabólicas, desta vez representadas por
Satanás, que jura por Maomé, Lutero e Calvino, juntando no mesmo saco demoníaco
muçulmanos e protestantes e Lúcifer, ele mesmo, em pessoa, o diabo-mor, que se
gaba de ter perdido “o grande Adão” e tirado do céu “tantos mil anjos”. Volta
até certo ponto a dupla cênica de Na
festa de São Lourenço, com a sua mistura peculiar de medo e arrogância.
Jactam-se de vencer a Igreja pela força ou pela astúcia, mas sabem, como
sabemos nós e sabia o autor, que nada podem contra São Maurício, “capitán
afamado”, e que, além do mais, conta com a proteção divina. Satanás adverte em
tal sentido Lúcifer, que sai para o combate escoltado pelo Mundo e pela Carne,
tradicionais inimigos do homem:
Cuatro higas para vós!
Vos
volvereis bien pelado,
que
ese escuadrón esforzado
tiene
de su parte a Dios,
y
de fé está todo armado.
Ao desafio verbal,
em que São Maurício acusa Lúcifer, entre outros vícios mais comezinhos, de
“sodomita” (o que não surpreende, se admitirmos que todos os pecados provêm do
Inferno), segue-se a rápida derrota do diabo. Agora será a vez de Satanás, que
até troca de idioma para enfrentar o santo:
Por
eso mudé mi voz:
para hablarle castellano
y mostrarme más feroz.
O segundo demônio
não tem melhor sorte. Pensava que São Maurício, sendo grego, não agüentaria
"ba1azos” e “arcabuzazos”. Não sabia que o santo, no Brasil, tomara-se
português. Ao retomar vencido, quase partido ao meio, queixa-se como qualquer
soldado terreno:
Más que fiero cuchillazo
el Mauricio me arrojó!
Por poco que me llevo
e pescuezo y espinazo.
A sua conclusão não
é destituída de um certo humor, talvez involuntário:
Ox! que tajos y reveses
acostumbran de arrojar
estes santos portugueses!
Terminados estes
dois episódios, representados em ordem inversa à nossa, com a luta entre santos
e diabos antecedendo a discussão sobre o bom governo, inicia-se um novo
confronto, mais cômico que sério, entre a figura simbólica da Ingratidão e um
Embaixador do Paraguai, personagem supostamente de carne e osso e talvez
sugerida, como acreditam os historiadores, por alguém procedente daquela
região. Duas intenções entrecruzaram-se em cena. Uma, menos clara, de alcance
restrito, referir-se-ia aos desentendimentos pouco antes verificados entre os
defensores da causa portuguesa e os da causa espanhola. As ofensas voam de
parte a parte. Se a Ingratidão, falando português, chama o embaixador de “bujarrão”
(a versão popular de sodomita) e de “blasonador andaluz”, replica este fingindo
ver na Ingratidão um “dragón”, um “basilisco”, ou “el fiero tarascón”,
invocando assim a famosa “tarasca” das festas ibéricas, O final, que não chega
a ser bem uma conclusão, parece querer conciliar as duas nacionalidades, já
unidas sob o cetro de Filipe II, considerando-as irmãs.
A segunda intenção,
esta bastante explícita, diz respeito às relíquias sagradas que tanto espaço
ocupam nas cartas de Fernão Cardim. A vila de Vitória teria esquecido muito
rapidamente as que lhe tinham sido destinadas, depois de recebê-las com mostras
de carinho e devoção.
Esta é a face local
da Ingratidão. A face universal já abarca toda a história sagrada:
sou a velha Ingratidão
que
todo mundo cerquei,
toda
terra conquistei,
sou
mais antiga que Adão
pois
em Lucifér comecei.
A subida do
particular ao geral acaba de concretizar-se com os sermões do Temor e do Amor
de Deus, as verdadeiras bases do bom governo. Novamente, como em Na fésta de São Lourenço, o Temor não só
fala em primeiro lugar, o que se justificaria pelo desejo de concluir o
espetáculo em tonalidade menos sombria, como discorre por um lapso de tempo
consideravelmente maior.
Como interpretar tal
prioridade? Julgaria Anchieta, após trinta anos de vida missionária no Brasil,
o medo do Inferno um aguilhão mais seguro para conduzir ao aprisco o seu
rebanho? Ou a demora na rememoração do castigo eterno explicar-se-ia por ser
ele mais facilmente comunicável através da palavra? O Céu, na verdade, por sua
própria beatitude, escapa à experiência humana. Não podemos descrevê-lo nem
sequer imaginá-lo, sem diminuí-lo. O Inferno, ao contrário, firma-se sobre essa
mesma experiência. Os seus males (hambre sin nunca comer”, “sed terrible sin
beber”) são os nossos sofrimentos diários elevados à máxima potência. Símbolo
de tudo isso mas símbolo altamente materializado e visualizado — é a imagem tantas vezes repisada do fogo que consome o
pecador, sem consumir-se e sem nunca consumi-lo de todo. O pior do Inferno está
na impossibilidade de sair desse estado intermediário, sem os benefícios seja
da vida seja da morte, nessa “muerte sin muerte”, nesse “vivir siempre
muriendo, /y morir siempre viviendo”, que fornece ao Temor de Deus o tema de um
de seus sermões. A peça ilumina com as chamas do Inferno a triste condição do
homem, “escravo do Senhor”, “pobre fantasma sem vida”, vítima de uma estranha
cegueira perante o espiritual que o faz temer mais os sofrimentos físicos que a
ameaça, incomparavelmente mais real, da punição divina:
Temes a dor corporal
Foges de qualquer afronta
e daquele eterno mal
do bravo fogo eternal
não fazes nenhuma conta?
Esgotada a sua matéria doutrinária, o espetáculo, mais do que o texto dramático, já