Aprouve-nos,
durante muito tempo, mencionar línguas a que faltam termos para exprimir
conceitos, tais como os de árvore ou animal, se bem que elas possuam todas as
palavras necessárias a um inventário minucioso de espécies e de variedades.
Mas, invocando esses casos em favor de uma suposta inaptidão dos
"primitivos" ao pensamento abstrato, omitíamos, então, outros
exemplos, que atestam que a riqueza em palavras abstratas não é só apanágio das
línguas civilizadas. Assim o chinuque, língua do noroeste da América do Norte,
faz uso de palavras abstratas para designar muitas propriedades ou qualidades
dos seres e das coisas. "Este procedimento", diz Boas, "é nela
mais freqüente do que em qualquer outra língua que eu conheça". A
sentença: o homem mau matou a pobre criança, traduz-se assim em chinuque: a
maldade do homem matou a pobreza da criança; e para dizer que uma mulher usa um
cesto demasiadamente pequeno: ela coloca raízes de potentilha na pequenez de um
cesto para conchas. (Boas 2, pp. 657-658.)
Em todas as línguas, aliás, o discurso e a sintaxe fornecem os recursos indispensáveis para suprir as lacunas do vocabulário. E o caráter tendencioso do argumento, evocado no parágrafo anterior, é bem posto em evidência quando se nota que a situação inversa, isto é, aquela em que os termos muito gerais prevalecem sobre as denominações específicas, foi também explorada para afirmar a indigência intelectual dos selvagens:
"Dentre as plantas e os
animais, o índio só dá nome às espécies úteis ou nocivas; as outras são classificadas,
Um
observador mais recente parece igualmente acreditar que o índio denomina e
conceitua somente em função de suas necessidades.
"Lembro-me ainda da hilaridade
provocada, entre meus amigos das ilhas Marquesas (...) pelo interesse (a
Entretanto, Handy compara essa indiferença à
que, em nossa civilização, manifesta o especialista em relação aos fenômenos
que não dizem respeito, imediatamente, a seu campo de ação. E quando sua colaboradora
indígena acentua que no Havaí "cada forma botânica, zoológica ou inorgânica
que se sabia ter sido denominada (e personalizada) era... uma coisa utilizada",
ela tem o cuidado de acrescentar: "de uma forma ou de outra" e precisa
que se "uma variedade ilimitada de
Na verdade,
a triagem conceptual varia conforme a língua, e, como observava muito bem,
no século XVIII, o redator da palavra "nome" na Enciclopédia, o
uso de termos mais ou menos abstratos não é função de capacidades intelectuais,
mas de interesses desigualmente marcados e detalhados de cada sociedade particular,
dentro da sociedade nacional: "Subi ao observatório; cada estrela não
é mais, ali, apenas uma estrela; é a estrela b do Capricórnio, é a estrela g do Centauro, é
Como na
linguagem profissional, a proliferação conceptual corresponde a uma atenção
mais firme, em relação às propriedades do real, a um interesse mais desperto
para as distinções que aí podem ser introduzidas. Este apetite de conhecimento
objetivo constitui um dos aspectos mais negligenciados do pensamento daqueles
que nós chamamos "primitivos". Se é raramente dirigido para
realidades do mesmo nível que aquelas às quais se liga a ciência moderna,
implica diligências intelectuais e métodos de observação semelhantes. Nos dois
casos, o universo é objeto de pensamento, ao menos tanto quanto meio de
satisfazer necessidades.
Cada civilização tende a superestimar a
orientação objetiva de seu pensamento; é, por isso, então, que ela nunca está ausente. Quando cometemos o
erro de crer que o selvagem é exclusivamente governado por suas necessidades
orgânicas ou econômicas, não reparamos que ele nos dirige a mesma censura, e
que, a seus olhos, seu próprio desejo de saber parece melhor equilibrado que o
nosso.
"A utilização dos recursos naturais
de que dispunham os indígenas havaianos, era pouco mais ou menos completa;
bem mais que a praticada na era comercial de hoje, em que se explora, sem
piedade, os raros produtos
Sem dúvida, a agricultura para
mercado não se confunde com o saber do botânico. Mas, ignorando o segundo
e considerando exclusivamente a primeira, a velha aristocrata havaiana repete,
por conta de uma cultura indígena, invertendo-o embora a seu favor, o erro
simétrico cometido por Malinowski, quando pretendia que o interesse em relação
às plantas e aos animais totêmicos só era inspirado aos primitivos pelas queixas
de seus estômagos.
À observação de Tessmann, a respeito dos Fang,
do Gabão, notando (p. 71) "a precisão com a qual eles reconhecem a menor diferença entre as espécies de um mesmo
gênero” corresponde, quanto à Oceania,a dos dois autores já citados:
"As
faculdades aguçadas dos indígenas lhes permitiam notar exatamente os caracteres
genéricos de todas as espécies vivas, terrestres e marinhas, assim como
mudanças as mais sutis de fenômenos naturais, tais como os ventos, a luz e as
cores do tempo, as ondulações ligeiras das vagas, as variações da ressaca, as
correntes aquáticas e aéreas. (Handy e
Pukui, p. 119.)
Um uso tão primário como a mastigação de bétel
pressupõe nos hanunoo das
Filipinas, o conhecimento de quatro
"Todas, ou quase todas,
as atividades dos hanunoo exigem uma íntima familiaridade com a flora local
e
Isto não é menos verdadeiro no que
concerne à fauna.
"Os hanunoo classificam as formas
locais da fauna de aves em 75 categorias (...) distinguem cerca de 12
A respeito de uma população
das Filipinas, um biólogo assim se exprime:
"Um traço
característico dos negritos, que os distingue de seus vizinhos cristãos das
planícies, consiste em seu conhecimento inesgotável dos reinos vegetal e
animal. Este saber não requer somente a identificação específica de um número
fenomenal de plantas, de aves, de mamíferos e de insetos, mas, também, o
conhecimento dos hábitos e dos costumes de cada espécie (...).
"O negrito está
completamente integrado em seu meio e, coisa ainda mais importante, estuda sem
cessar tudo que o cerca. Muitas vezes, vi um deles, incerto sobre a identidade
de uma planta, provar o fruto, cheirar as folhas, quebrar e examinar uma haste,
observar o habitat. E é somente depois de verificar todos esses dados, que
declarará conhecer ou não a planta em questão."
Depois de
haver demonstrado que os indígenas se interessam também pelas plantas que não
lhes são diretamente úteis, por causa
das relações de significação que os ligam aos animais e aos insetos, o mesmo
autor prossegue;
"O
sentido agudo de observação dos pigmeus, sua consciência plena das relações
entre a vida vegetal e a vida animal
(...) são ilustrados de forma surpreendente por suas discussões sobre os
costumes dos morcegos. O tididin vive sobre as folhagens secas das palmeiras, o
dikidik, sob as folhas da bananeira selvagem, o litlit, nos bambuzais, o
kolumboy, nas cavidades dos troncos de árvores, o konanabá, nos bosques
espessos, e assim por diante.
"Desta
forma os negritos pinatubo conhecem e distinguem os costumes de 15 espécies
de morcegos. E não
"Quase
todos os homens enumeram, com a maior facilidade, os nomes específicos e descritivos
de, pelo menos, 450 plantas, 75 aves, de quase todas as cobras, peixes, insetos
e mamíferos e, mesmo, de 20 espécies de formigas (...)1e
a ciência botânica dos mananambal, feiticeiros-curandeiros de um e outro sexos,
que utilizam constantemente plantas em sua arte, é simplesmente assombrosa."
(R.
B. Fox, pp. 187-188.)
De uma população atrasada das ilhas
Ryukyu, alguém escreveu:
"Mesmo
uma criança pode, freqüentemente, identificar a espécie de uma árvore, por um
pequeno fragmento
de madeira e, o que é mais, o
sexo dessa árvore, segundo as idéias que alimentam os indígenas sobre o sexo
dos vegetais; fazem-no, observando a aparência da" madeira e da casca, o
cheiro, a dureza e outros caracteres do mesmo tipo. Dúzias e dúzias de peixes e
de conchas são conhecidas por termos distintos, bem como suas características
próprias, seus costumes e as diferenças sexuais dentro de cada tipo (...)."
(Smith, p. 150.)
Habitantes de uma região deserta do
sul da Califórnia onde somente algumas raras famílias de brancos conseguem
viver hoje, os índios coahuilla, cujo número subia a vários milhares, não
conseguiam esgotar os recursos naturais; viviam: na abundância, pois, nesse
país, na aparência deserdado, eles conheciam nada menos que 60 plantas alimentícias
e outras 28, de propriedades narcóticas, estimulantes ou medicinais (Barrows).
Um único informante seminole identifica 250 espécies e variedades vegetais
(Sturtevant). Foram arroladas 350 plantas conhecidas pêlos índios hopi, mais
de 500, pêlos navaho. O léxico botânico dos subanum, que vivem no sul das
Filipinas ultrapassa largamente 1.000 termos (Frake) e o dos hanunoo
A extrema
familiaridade com o meio biológico, a atenção apaixonada que lhe dão, os
conhecimentos exatos a ele relacionados, têm, freqüentemente, impressionado os
pesquisadores, pois demonstram atitudes e preocupações que distinguem os
indígenas de seus visitantes brancos.
Entre os índios tewa, do
Novo-México:
"Pequenas
diferenças são notadas (...) eles têm nome para todas as espécies de coníferas
da região; ora, neste caso, as diferenças são pouco visíveis e, entre os
brancos, um indivíduo sem treinamento seria incapaz de as distinguir (...).
Realmente, nada impediria a tradução em tewa de um tratado de botânica."
(Robbins, Harrington e Freire-Marreco, pp. 9, 12.)
Numa narração pouco romanceada, E. Smith Bowen chistosamente contou sua contusão quando, ao chegar a uma tribo africana, quis começar por aprender a língua: seus informantes acharam muito natural, no estágio elementar de seu ensino, juntar grande número de espécimes botânicos, nomeados no momento da apresentação, mas aos quais a pesquisadora era incapaz de identificar, não tanto pela sua natureza exótica, como porque ela nunca se havia interessado pelas riquezas e diversidades do mundo vegetal, ao passo que os indígenas consideravam tal curiosidade como que adquirida.
"Este
povo é cultivador: para ele as plantas são tão importantes, tão familiares
quanto os seres humanos. De minha parte, nunca vivi em fazenda e não estou
mesmo muito certa de distinguir as begônias das dálias ou das petúnias. As
plantas, como as equações, têm o hábito traiçoeiro de parecerem semelhantes e
serem diferentes ou de parecerem diferentes e serem semelhantes. Em
conseqüência, eu me atrapalho em botânica como em matemática. Pela primeira vez
na minha vida, encontro-me numa comunidade onde as crianças de dez anos não me
são superiores em matemática, mas estou também num lugar onde cada planta,
selvagem ou cultivada, tem nome e uso bem definidos, onde cada homem, cada
mulher e cada criança conhece centenas de espécies. Nenhum deles quererá jamais
acreditar que eu seja incapaz, mesmo que o queira, de saber tanto quanto
eles." (Smith Bowen, p.22.)
Nitidamente
diferente é a reação de um especialista, autor de uma monografia, em que
descreve perto de 300 espécies ou variedades de plantas medicinais ou tóxicas,
utilizadas por certas populações da Rodésia do Norte:
"Fiquei sempre surpreendido com a solicitude
com a qual o povo de Balovale e das regiões vizinhas aceitava falar sobre seus remédios e seus venenos. Estariam
lisonjeados pelo interesse que eu demonstrava por seus métodos ? Considerariam
nossas conversas como uma troca de informações entre colegas? Ou quereriam
exibir seu saber ? Qualquer que pudesse ser a razão de sua atitude nunca se
faziam rogar. Lembro-me do danado de um velho Luchazi, que trazia braçadas
de folhas secas raízes e hastes, para ensinar-me todos os seus usos. Seria
de herborista ou feiticeiro ? Nunca pude penetrar esse mistério, mas verifico,
com tristeza, que não lhe possuirei nunca a ciência da psicologia africana
nem a habilidade para cuidar de seus semelhantes: associados, meus conhecimentos
médicos e seus talentos teriam formado uma combinação bem útil." (Gilges, p. 20.)
Citando um
extrato de suas notas de viagem, Conklin quis ilustrar esse contacto íntimo
entre o homem e o meio, que o indígena impõe, perpetuamente, ao etnólogo:
"A 0600 e sob uma chuva fina,
Langba e eu deixamos Parina na direção de Binli (...). Em Arasaas, Langba me
pediu para cortar várias tiras de casca de 10x 50cm, da árvore anapla
Kilala ( Albizia procera ( Roxb.
) Benth.) para preservar-nos das
sanguessugas Esfregando com a face interna da casca, os tornozelos e pernas, já
molhados pela vegetação, gotejante de chuva formava-se uma espuma rósea, que
era excelente repulsivo. No caminho perto de Aypud, Langba parou, de repente;
enfiou, com presteza, seu bastão na beira do caminho e arrancou uma raiz, uma erva, tawag kugun
buladlad (Buchnera urticifolia R. Br.) que, me disse ele, lhe serviria de isca
(...) em uma armadilha para javalis. Alguns instantes mais tarde, e nós
andávamos depressa, ele fez uma parada igual, para arrancar uma
orquídeazinha terrestre (difícil de ver
sob a vegetação que a cobria) chamada lyamliyam (Epipogum roseum (D. Don )
Lindl. ) planta empregada para combater, magicamente/os insetos parasitas das
culturas. Em Binli, Langba, teve o
cuidado de não estragar sua apanha, remexendo uma sacola de palmas trançadas,
para encontrar apug, cal extinta e tabaku (Nicotiana tabacum L.), que queria
oferecer à gente de Binli, em troca de outros ingredientes para mascar. Depois
de uma discussão sobre os respectivos méritos das variedades locais de
bétel-pimenta (Piper betle L.), Langba obteve permissão para cortar mergulhias
de batata-doce (Ipomoea batatas (L.) Poir.), pertencentes a duas formas
vegetais diferentes e classificadas como kamuti inaswang e kamuti lupaw (...).
E no canteiro de camote, cortamos 25 mergulhias (com cerca de 75cm de
comprimento) de cada variedade, retiradas da extremidade da haste, e as
enrolamos, cuidadosamente, em grandes folhas frescas de saging saba cultivado
(Musa sapientum compressa (Bico.) Teodoro) para que conservassem a umidade até
chegarmos de volta à casa de Langba. Pelo caminho, mastigamos hastes de tubu
minama, espécie de cana-de-açúcar (Saccharum officinarum L.); paramos uma vez,
para colher algumas bunga, nozes-de-areca caídas (Areca catechu L.) e, uma
outra vez, para colher e comer os
frutos, semelhantes a cerejas selvagens, de algumas moitas de bungnay
(Antidesma brunius (L.) Spreng.). Atingimos
Mararim no meio da tarde e, ao longo de nosso caminho, a maior parte do tempo
foi passada com discussões sobre as mudanças da vegetação, no curso das últimas
dezenas de anos." (Conklin I, pp. 15-17.)
Este saber e
os meios lingüísticos de que dispõe, estendem-se também à morfologia. A língua
tewa usa termos distintos para cada parte, ou quase, do corpo das aves e dos
mamíferos (Henderson e Harrington, p. 9). A descrição morfológica das folhas
das árvores ou de plantas comporta 40 termos, e há 15 termos distintos que
correspondem às diferentes partes de um pé de milho.
Para
descrever as partes constitutivas e as propriedades dos vegetais, os hanunoo
têm mais de 150 termos, que conotam as categorias, em função das quais
identificam as plantas "e discutem, entre si, sobre centenas de caracteres
que as distinguem e freqüentemente correspondem a propriedades significativas,
tanto medicinais quanto alimentícias" (Conklin I, p. 97). Os pinatubo,
entre os quais foram arrolados mais de 600 nomes de plantas, "não somente
têm um conhecimento fabuloso dessas plantas e do modo de sua utilização;
empregam perto de 100 termos para descrever suas partes ou aspectos
característicos". (R. B. Fox, p. 179.)
É claro que um saber tão
sistematicamente desenvolvido não pode estar em função da simples utilidade
prática. Depois de haver salientado a riqueza e a precisão dos conhecimentos
zoológicos e botânicos dos índios do nordeste dos Estados Unidos da América e
do Canadá: montanhês, naskapi, micmac, malecite, penobscot, o etnólogo, que
melhor os estudou, prossegue:
"Isto
se poderia esperar, no referente aos hábitos da caça grossa, de onde provêm
a alimentação e as matérias-
"Toda
a classe de répteis (...) não oferece nenhum interesse econômico para estes
índios; eles não comem a
E,
entretanto, como demonstrou Speck, os índios do nordeste elaboraram uma
verdadeira herpetologia, com lermos distintos para cada gênero de répteis, e
outros reservados às espécies ou variedades.
Os produtos
naturais, utilizados pêlos povos siberianos para fins medicinais, ilustram, por
sua definição precisa e pelo valor específico que lhes é dado, o cuidado, a
inventiva, a atenção à minúcia, a preocupação das distinções que devem ter
empregado os observadores e os teóricos, nas sociedades desse tipo; aranhas e
vermes brancos engolidos (itelmene e iakute, para a esterilidade); gordura de
escaravelho preto(ossete, contra hidrofobia); barata esmigalhada, fel de
galinha (russos de Surgut, contra abscesso e hérnia); vermes vermelhos
macerados (iakute, contra o reumatismo); fel de solha (buriate, contra doenças
dos olhos); cadoz, caranguejo de água doce, engolidos vivos (russos da Sibéria,
contra epilepsia e outras doenças); toque de bico de picanço, sangue de
picanço, insuflação nasal de pó de picanço mumificado, ovo tragado de pássaro
kukcha (iakute, contra dores de dentes, escrófulas, doenças dos cavalos e
tuberculose, respectivamente); sangue de perdiz, suor de cavalo (oirote, contra
hérnias e verrugas); caldo de pombo (buriate, contra tosse); pó de patas moídas
da ave tilegus (kazak, contra dentadas de cão hidrófobo); morcego seco,
pendurado ao pescoço (russos de Altai, contra febre); instilação da água
proveniente de um pedaço de gelo suspenso no ninho da ave remiz (oirote, contra
doenças dos olhos). Somente entre os buriate, e limitando-se ao urso, a carne
deste possui 7 virtudes terapêuticas distintas, o sangue 5, a gordura 9, o
cérebro 12, a bile 17 e o pêlo 2. Do urso também, os kalar recolhem os
excrementos empedrados, no fim da hibernação, para debelar prisão de ventre
(Zelenine, pp. 47-59). Achar-se-á, num estudo de Loeb, um repertório assim tão
rico com referência a uma tribo africana.
De tais exemplos,
que se poderiam tirar de todas as regiões do mundo, concluir-se-ia, de bom
grado, que as espécies animais e vegetais não são conhecidas na medida em
que sejam úteis; elas são classificadas úteis ou interessantes porque são
primeiro conhecidas.
Objetar-se-á
que tal ciência não pode ser muito eficaz num plano prático. Mas, precisamente,
seu primeiro objetivo não é de ordem prática. Ela responde a exigências
intelectuais antes, ou em vez, de satisfazer necessidades.
A verdadeira questão, não é
saber se o contacto de um bico de picanço cura dores de dentes, mas, se é
possível, de certo ponto de vista, fazer juntos "irem" o bico do
picanço e o dente do homem (congruência, cuja fórmula terapêutica não constitui
mais que uma aplicação hipotética, entre outras) e, por intermédio desses
agrupamentos de coisas e de seres, introduzir um princípio de ordem no universo;
porquanto a classificação, qualquer que seja, possui uma virtude própria em
"Os cientistas suportam a dúvida
e a derrota, porque não podem agir de forma diferente. Mas a desordem é
Ora, esta
exigência de ordem está na base do pensamento que nós chamamos primitivo, mas
somente na medida em que está na base de qualquer pensamento: pois é sob o
ângulo das propriedades comuns que chegamos mais facilmente às formas de
pensamento que nos parecem muito estranhas.
"Cada
coisa sagrada deve estar em seu lugar", notava, com profundeza, um pensador
indígena (Fletcher 27p. 34). Poder-se-ia mesmo dizer que é isso que a torna
sagrada, pois, suprimindo-a, ainda que por pensamento, toda a ordem do uni
verso se encontraria destruída; ela contribui, pois, para mante-la ao ocupar
o lugar que lhe cabe. Os requintes do ritual, que podem parecer ociosos quando
examinados superficialmente e de fora, explicam-se pela preocupação, que se
poderia
Esta
preocupação da observação exaustiva e do inventário sistemático das relações e
das ligações pode levar, às vezes, a resultados de boa ordem científica: é o
caso dos índios blackfoot, que diagnosticavam a aproximação da primavera pelo
desenvolvimento dos fetos do bisão, extraídos do ventre das fêmeas mortas
durante a caça. Entretanto, não se podem isolar esses resultados de tantas
outras aproximações do mesmo gênero declaradas ilusórias pela ciência. Mas não
será que o pensamento mágico, essa "gigantesca variação sobre o tema do
princípio da causalidade", diziam Hubert e Mauss (2, p. 61), se
distingue menos da ciência pela
ignorância ou pelo desprezo do determinismo, do que por uma exigência de
determinismo mais imperiosa e mais intransigente e que a ciência pode, quando
muito, julgar insensata e precipitada ?
"Considerada
como sistema de filosofia natural, ela (witchcraft) implica uma teoria das
causas: a infelicidade
Entre magia
e ciência, a diferença primordial seria, pois, deste ponto de vista, que uma
postula um determinismo global e integral, enquanto que a outra opera
distinguindo níveis, dos quais apenas alguns admitem formas de determinismo
tidas como inaplicáveis a outros níveis. Mas não se poderia mais longe e
considerar o rigor e a precisão, que testemunham o pensamento mágico e as
práticas rituais, como traduzindo uma apreensão inconsciente da verdade do
determinismo como modo de existência dos fenômenos científicos de sorte que o
determinismo fosse globalmente suspeitado e arriscado antes de ser conhecido e
respeitado ? Os ritos e as crenças mágicas apareceriam, então, como outras
tantas expressões de um ato de fé numa ciência ainda por nascer.
Há mais. Não somente por sua
natureza, estas antecipações podem ser, as vezes, coroadas de sucesso, mas
podem também antecipar duplamente; sobre a própria ciência e sobre métodos ou
resultados que a ciência só assimilará num estágio avançado de seu
desenvolvimento, se é verdade que o homem enfrentou primeiro o mais difícil:
automatização ao nível dos dados sensíveis, aos quais a ciência, durante muito
tempo, voltou as costas e que começa apenas a reintegrar na sua perspectiva. Na
história do pensamento científico, este efeito de antecipação produziu-se,
aliás, repetidas vezes; como Simpsom (pp
84-85) demonstrou, com o auxílio de um exemplo tirado da biologia do século
XIX, este efeito resulta de que - visto a explicação científica sempre
corresponder à descoberta de uma ordenação - toda tentativa deste tipo, mesmo
inspirada em princípios não-científicos, pode encontrar ordenações verdadeiras.
Isto é mesmo previsível, se se admite que, por definição, o numero de
estruturas é finito: "o pôr em estrutura , possuiria, então, uma eficácia
intrínseca, quaisquer que fossem os princípios e os métodos em que se inspire.
A química moderna reduz a variedade
de sabores e de perfumes a cinco elementos, diversamente combinados: carbono
hidrogênio, oxigênio, enxofre e azoto. Formando quadros de presença e de ausência,
calculando dosagens e limites
Estes reagrupamentos, um filósofo
primitivo, ou um poeta, poderia ter feito, inspirando-se em considerações
alheias
Não
voltamos, contudo, à tese vulgar (aliás admissível, na perspectiva estreita em
que se coloca), segundo a qual a magia seria uma modalidade tímida e
balbuciante da ciência: pois nos privaríamos de todos os meios de compreender o
pensamento mágico se pretendêssemos reduzi-lo a um momento ou a uma etapa da
evolução técnica e científica. Mais como uma sombra que antecipa a seu corpo,
ela é, num sentido, completa como ele, tão acabada e coerente em sua
imaterialidade, quanto o ser sólido por ela simplesmente precedido. O
pensamento mágico não é uma estréia, um começo, um esboço, parte de um todo
ainda não realizado; forma um sistema bem articulado; independente, neste
ponto, desse outro sistema que constituirá a ciência, exceto quanto à analogia
formal que os aproxima; e que faz do primeiro uma espécie de expressão
metafórica do segundo. Em lugar, pois, de opor magia e ciência, melhor seria colocá-las em paralelo, como
duas formas de conhecimento, desiguais quanto aos resultados teóricos e
práticos (pois sob este ponto de vista, é verdade que a ciência se sai melhor que a magia, se bem que a magia
preforme a ciência no sentido de que triunfa também algumas vezes ), mas não
pelo gênero de operações mentais, que ambas supõe, e que diferem menos em natureza que em função
dos tipos de fenômenos a que se aplicam.
Estas relações decorrem, com efeito, das
condições objetivas em que surgiram o conhecimento mágico e o conhecimento
científico. A história deste último é bastante curta para que estejamos bem informados
a seu respeito; mas o fato de a origem da ciência moderna montar apenas há
alguns séculos cria um problema, sobre o qual os etnólogos ainda não refletiram
suficientemente; o nome paradoxo neolítico caber-lhe-ia perfeitamente.
É na era
neolítica que se confirma o domínio do homem sobre as grandes artes da
civilização: cerâmica, tecelagem, agricultura e domesticação de animais.
Ninguém, hoje, pensaria mais em explicar essas imensas conquistas pela
acumulação fortuita de uma série de achados feitos por acaso ou revelados pelo
espetáculo, passivamente registrado, de certos fenômenos naturais3
Cada uma
dessas técnicas supõe séculos de observação ativa e metódica, hipóteses ousadas
e controladas, para serem rejeitadas ou comprovadas por meio de experiências
incansavelmente repetidas. Notando a rapidez com que as plantas originárias do
Novo Mundo foram aclimatadas nas Filipinas, adotadas e denominadas pelos
indígenas que, em muitos casos, parecem mesmo haver redescoberto seus usos
medicinais, rigorosamente paralelos aos que eram tradicionais no México, um
biólogo interpreta o fenômeno da seguinte maneira:
"As
plantas cujas folhas ou talos têm sabor amargo são correntemente empregadas,
nas Filipinas, contra dores do estômago. Toda planta introduzida que apresente
o mesmo caráter, será imediatamente experimentada. É porque a maioria das
populações das Filipinas faz, constantemente, experiências com plantas, que
aprende depressa a conhecer, em função das categorias de sua própria cultura,
os empregos possíveis das plantas importadas." (R. B. Fox, pp. 212-213.)
Para
transformar uma erva silvestre em planta cultivada, um animal selvagem em
doméstico, para fazer aparecer, num ou noutro, propriedades alimentícias ou
tecnológicas que, na origem, estavam completamente ausentes, ou mal podiam ser
suspeitadas; para fazer de uma argila instável, pronta a esboroar-se, a
pulverizar-se ou a rachar-se, uma louça sólida e estanque (mas somente com a
condição de haver determinado, entre uma multidão de matérias orgânicas e inorgânicas,
a mais própria para servir de detergente, assim como o combustível conveniente,
a temperatura e o tempo de cozimento, o grau de oxidação eficaz); para elaborar
as técnicas, muitas vezes longas e complexas, que permitissem cultivar sem
terra, ou então sem água, transformar grãos ou raízes tóxicas em alimentos, ou
então, ainda, utilizar essa toxidade para a caça, a guerra, o ritual, foi
preciso, não duvidamos, uma atitude de espírito verdadeiramente científica, uma
curiosidade assídua e sempre desperta, uma vontade de conhecer pelo prazer de
conhecer, porque uma pequena fração apenas das observações e das experiências
(às quais é preciso supor que tenham sido inspiradas, então, e sobretudo, pelo
gosto de saber) poderiam dar resultados práticos e imediatamente utilizáveis.
Ainda deixamos de lado a metalurgia do bronze e do ferro, a dos metais
preciosos, e, mesmo, o simples trabalho do cobre nativo, por martelagem, que
precedeu a metalurgia de alguns milhares de anos, e que já exigem todos uma
competência técnica muito avançada.
O homem da era neolítica ou da proto-hisiória é, portanto, o herdeiro de uma longa tradição científica; entretanto, se o espírito que o inspirou, assim como a seus antepassados, tivesse sido o mesmo que o dos modernos, como poderíamos compreender que ele tenha parado e que vários milhares de anos de estagnação se intercalem, como um patamar, entre a revolução neolítica e a ciência contemporânea ? O paradoxo só admite uma solução: é que há duas formas distintas de pensamento científico, ambas função, não certamente de estádios desiguais do desenvolvimento do espírito humano, mas de dois níveis estratégicos, onde a natureza se deixa atacar pelo conhecimento científico: um aproximadamente ajustado ao da percepção e da imaginação, e outro sem apoio; como se as relações necessárias, objetivo de toda ciência - seja ela neolítica ou moderna - pudessem ser atingidos por dois caminhos diferentes: um muito perto da intuição sensível e o outro mais afastado.
Toda classificação é superior
ao caos; e, mesmo uma classificação no nível das propriedades sensíveis, é uma
etapa para uma ordem racional. Se se pedir para classificar uma coleção de
frutos variados em corpos relativamente mais pesados e relativamente mais
leves, será legítimo começar por separar as pêras das maçãs, se bem que a
forma, a cor e o sabor não tenham relação com o peso e o volume; mas, porque as
maiores entre maçãs são mais fáceis de distinguir das menores, do que se as
maçãs continuassem misturadas com frutos de aspecto diferente. Já se vê por
este exemplo que, mesmo no nível da percepção estética, a classificação tem sua
eficácia.
Por outro lado, e se bem que
não haja conexão necessária entre as qualidades sensíveis e as propriedades,
existe, ao menos, uma relação de fato num grande número de casos e a
generalização dessa relação, mesmo não baseada na razão, pode ser, teórica e
praticamente, durante muito tempo, uma operação satisfatória. Todos os sucos
tóxicos não são ardentes ou amargos e a recíproca não é mais verdadeira;
entretanto, a natureza é de tal modo organizada que é mais vantajoso, para o
pensamento e para a ação, proceder como se uma equivalência, que satisfaz o
sentimento estético, correspondesse também a uma realidade objetiva. Sem que
nos caiba aqui.procurar por que, é provável que espécies dotadas de algum
caráter digno de nota - forma, cor ou cheiro - dêem ao observador o que se
poderia chamar "direito de seguir” : o de postular que esses caracteres
visíveis são o signo de propriedades igualmente singulares, mas ocultas.
Admitir que a própria relação entre ambos seja sensível (que um grão em forma
de dente proteja das picadas, de cobra, que um suco amarelo se]a específico
para distúrbios biliares, etc.), vale, a título provisório, mais que a
indiferença a qualquer conexão; pois, a classificação, embora heteróclita e
arbitrária, salvaguarda a riqueza e a diversidade do inventário; decidindo-se
que é preciso levar tudo em conta, facilita-se a formação de uma
"memória".
Ora, é um
fato que métodos dessa ordem podiam conduzir a certos resultados que eram
indispensáveis para que o homem pudesse abordar de outro viés a natureza. Longe
de ser, como se tem afirmado muitas vezes, a obra de uma "função
fabuladora" que dê as costas à realidade, os mitos.e os ritos oferecem,
como valor principal, ter preservado até a nossa época, de uma forma residual,
modos de observação e de reflexão que foram (e continuam sem dúvida) exatamente
adaptados a descobertas de um certo tipo: as que "a natureza autorizava, a
partir da organização e da exploração especulativas do mundo sensível em termos
de sensível. Esta ciência do concreto devia ser, .essencialmente, limitada a
outros resultados que os prometidos às ciências exatas e naturais, mas não foi
menos científica e seus resultados não foram menos reais. Afirmados dez mil
anos antes dos outros, eles são sempre o substrato de nossa civilização.
Aliás,
subsiste entre nós uma forma de atividade que, no plano técnico, permite muito
bem conceber o que, no plano da especulação, pôde ter sido uma ciência, que
preferimos chamar "primeira" ao invés de primitiva; é a comumente
designada pelo termo bricolage*.
No seu sentido antigo, o verbo bricoler se
aplica ao jogo de péla e de bilhar, à caça e à equitação, mas sempre para
evocar um movimento incidental: o da péla que salta, o do cão que erra ao
acaso, o do cavalo que se afasta da linha reta para evitar um obstáculo E em
nossos dias, o bricoleur é o que trabalha com as mãos, usando meios indiretos
se comparados com os do artista. Ora, o próprio do pensamento mítico é
exprimir-se com o auxilio de um repertório cuja composição é heteróclita e que,
apesar de extenso, permanece não obstante limitado; é preciso, todavia que dele
se sirva, qualquer que seja a tarefa que se proponha, porque não tem mais nada
a seu alcance. Aparece, assim, como uma espécie de bricolage intelectual, o que
explica as relações que se observam entre ambos.
Como o
bricolage, no plano técnico, a reflexão mítica pode atingir, no plano
intelectual, resultados brilhantes e imprevistos. Reciprocamente, foi muitas
vezes notado o caráter mito-poético do bricolage; seja no plano da arte dita
"bruta" ou ingênua; na
arquitetura fantástica da vila do carteiro Cheval, nos cenários de Georges Méliès;
ou, ainda, naquela, imortalizada por As grandes esperanças, de Dickens, mas,
sem dúvida alguma, inspirada primeiro na observação, do "castelo"
suburbano de Mr. Wemmick, com sua ponte-levadiça em miniatura, seu canhão
salvando às nove horas e seu canteiro de alfaces e pepinos, graças ao qual seus
ocupantes poderiam sustentar um cerco, se preciso (...).
A comparação
merece ser aprofundada, pois dá melhor acesso às verdadeiras relações entre os
dois tipos de conhecimento científico que distinguimos. O bricoleur está apto a
executar grande número de tarefas diferentes; mas, diferentemente do
engenheiro, ele não subordina cada uma delas à obtenção de matérias-primas e de
ferramentas, concebidas e procuradas na medida do seu projeto: seu universo
instrumental é fechado e a regra de seu jogo é a de arranjar-se sempre com os
meios-limites, isto é, um conjunto, continuamente restrito de utensílios e de
materiais, heteróclitos, além do mais porque a composição do conjunto não esta
em relação com o projeto do momento, nem, aliás, com qualquer projeto particular,
mas é o resultado contingente de todas as ocasiões que se apresentaram para
renovar e enriquecer o estoque, ou para conservá-lo, com resíduos de
construções e de destruições anteriores. O conjunto dos meios do bricoleur não
se pode definir por um projeto (o que suporia, aliás, como com o engenheiro, a
existência de tantos conjuntos instrumentais quantos os gêneros de projetos,
pelo menos em teoria); define-se somente por sua instrumentalidade, para dizer
de maneira diferente e para empregar a própria linguagem do bricoleur, porque os
elementos são recolhidos ou conservados, em virtude do princípio
de que "isto sempre pode servir". Tais elementos são, pois, em parte
particularizados: o bastante para que o bricoleur não tenha
necessidade do equipamento e do conhecimento de todos os corpos de
administração; mas não o suficiente para que cada elemento seja sujeito a um
emprego preciso e determinado. Cada elemento representa um
conjunto de relações, ao mesmo tempo concretas e virtuais; são
operadores, porém utilizáveis em função de qualquer operação dentro de um
tipo.
. .
É da mesma maneira que os
elementos da reflexão mítica se situam sempre a meio caminho entre perceptos e
conceitos. Seria impossível extrair os primeiros da situação
concreta em que apareceram, enquanto que o recurso aos segundos
exigiria que o pensamento pudesse, provisoriamente ao menos;
colocar seus projetos entre parênteses. Ora, um intermediário
existe entre a imagem e o conceito : é o signo, já que se pode
sempre definí-lo, da maneira inaugurada por Saussurre a
respeito dessa categoria particular formada pêlos signos lingüísticos,
como um laço entre uma imagem e um conceito, os quais, na união assim-realizada,
representam, respectivamente, os papéis de significante e de
significado.
Como a imagem, o signo é um
ser concreto, mas assemelha-se ao conceito por seu poder de referência: um e
outro não se referem, exclusivamente, a si próprios, podem
substituir outra coisa que a si. Entretanto, o conceito possui, sob
este aspecto, uma capacidade ilimitada, enquanto que a do signo é limitada.
A diferença e a semelhança sobressaem bem no exemplo do bricoleur.
Vejamo-lo no trabalho:
animado por seu projeto, seu primeiro passo prático é, todavia, retrospectivo:
deve voltar-se para um conjunto já constituído, formado de ferramentas
e materiais; fazer-lhe ou refazer-lhe o inventário; enfim e,
sobretudo, entabolar com ele uma espécie de diálogo, para enumerar, antes de
escolher entre elas, as respostas possíveis que o conjunto
pode oferecer ao problema que ele lhe apresenta.
Todos esses objetos heteróclitos,
que constituem seu tesouro4, interroga-os
para compreender o que cada um deles poderia "significar",
contribuindo, assim, para definir um conjunto a realizar, mas que não diferirá,
finalmente, do conjunto instrumental senão pela disposição interna das partes.
Este cubo de carvalho pode ser um calço para remediar a
insuficiência de uma tábua de abeto, ou, ainda, um soco, o que
permitiria por em evidência o áspero e o polido da velha madeira.
Num caso, ele será extensão e, no outro, matéria. Mas estas
probabilidades permanecem sempre limitadas pela história particular de cada peça
e pelo que nela subsiste de predeterminado, devido ao uso original, para o qual
ela foi concebida, ou pelas adaptações
que sofreu, em vista de outros empregos. Como as unidades
constitutivas do mito, cujas combinações possíveis são limitadas
pelo fato de serem obtidas por empréstimo da língua em que já
possuem um sentido restringindo a liberdade de
manobra, os elementos colecionados e utilizados pelo
bricoleur estão "pré-constrangidos” (Lévi-Stràuss 5, p. 35).
Por outro lado, a decisão depende da possibilidade de permutar um
outro elemento na função vacante, de tal forma que cada escolha acarretará uma
reorganização total da estrutura, que não será nunca igual
à vagamente sonhada, nem a uma outra, que lhe poderia ter
sido preferida.
Sem dúvida, o engenheiro também
interroga, já que a existência de um "interlocutor" lhe advém de
que seus meios, seu poder e seus conhecimentos não são nunca ilimitados
e que, sob esta forma negativa, ele esbarra numa resistência,
com a qual lhe é indispensável transigir. Poder-se-ia ser tentado a dizer que
ele interroga o universo, enquanto que o bricoleur se dirige a
uma coleção de resíduos de obras humanas, isto é
Poder-se-ia,
pois, dizer que o cientista e o bricoleur estão, um e outro,
à espera de mensagens, mas que, para o bricoleur se trata de
mensagens de qualquer forma pré-transmitidas e que ele
coleciona: como esses códigos comerciais que, condensando a experiência passada
da profissão, permitem fazer face, economicamente, a todas as
situações novas (com a condição, contudo, de que pertençam à
mesma classe que as antigas); enquanto que o homem de ciência, quer seja engenheiro
quer físico, logra antecipadamente e sempre a outra mensagem, que poderia ter
sido arrancada a um interlocutor, malgrado sua reticência
em pronunciar-se sobre questões cujas respostas não tenham sido dadas anteriormente. O conceito
aparece, assim, como operador da abertura do conjunto com o qual se
trabalha, a significação como o operador de sua reorganização: ela não o
desenvolve nem renova e se limita a obter o grupo de suas
transformações.
A imagem não
pode ser idéia, mas é-lhe possível representar o papel de signo, ou, mais
exatamente, coabitar com a idéia num signo; e, se a idéia não
está lá ainda, pode respeitar-lhe o futuro lugar e fazer aparecer,
em negativo, seus contornos. A imagem está fixada, ligada
de maneira unívoca ao ato de consciência que a acompanha; mas ,o signo, e a imagem
tornada significante, se ainda não possuem compreensão, isto é,
se lhes faltam ligações, simultânea e teoricamente ilimitadas,
com outros seres do mesmo tipo — privilégio do conceito — são já permutáveis,
isto é, suscetíveis de manter relações-sucessivas com outros
seres, se bem que em número limitado, e, como vimos, com
a condição de formar sempre um sistema no qual uma modificação que afete um
elemento interessará, automaticamente, a todos os outros: nesse plano, a extensão
e a compreensão dos lógicos existem, não como dois aspectos distintos
Esta fórmula, que poderia
servir de definição ao bricolage, explica que, para a reflexão
mítica, o total dos meios disponíveis deve também ser implicitamente
inventariado ou concebido, para que se possa definir um resultado, que será
sempre um compromisso entre a estrutura do conjunto
instrumental e a do projeto. Uma vez realizado, este perderá,
inevitavelmente, o apoio no que diz respeito à intenção inicial (aliás, simples
esquema), efeito que os surrealistas denominaram, com felicidade,
"acaso objetivo". Mas há mais: a poesia do bricolage lhe vem, também,
e sobretudo, de que não se limita a cumprir ou executar;
"fala", não somente com as coisas, como já o
demonstramos, como, também, por meio das coisas: contando, pelas escolhas que
faz entre possibilidades limitadas o caráter e a vida de seu
autor. Sem Jamais completar seu projeto, o bricoleur põe-lhe sempre algo de si
mesmo.
Sob este ponto
de vista ainda, a reflexão mítica aparece como uma forma intelectual de
bricolage. Toda a ciência foi construída sobre a distinção do contingente e do
necessário, que é, também, a do acontecimento e a da estrutura. As
qualidades que, quando do seu nascimento, reivindicava como suas, eram
precisamente aquelas que, não fazendo parte, absolutamente, da experiência
vivida, permaneciam exteriores e como que estranhas aos
acontecimentos; eis o sentido da noção de qualidades primeiras. Ora, a
característica do pensamento mítico, como a do bricolage, no plano prático, é
elaborar conjuntos estruturados, não diretamente com outros conjuntos
estruturados,5 mas utilizando resíduos
e fragmentos de acontecimentos. odds and ends, como diria o inglês, ou, em
francês, des bribes et des morceaux, testemunhas fósseis da
história de um indivíduo ou de uma sociedade. Em um sentido, a
relação entre diacronia e sincronia está, portanto, invertida:
o pensamento mítico, este bricoleur, elabora estruturas ordenando os acontecimentos,
ou antes, os resíduos de acontecimentos,6
enquanto que a ciência, "posta em marcha" pelo simples fato de sua
instauração, cria, sob a forma de eventos, seus meios e seus
resultados, graças às estruturas que fabrica sem cessar - suas hipóteses e
teorias. Mas não nos enganemos: não se trata de dois estágios, ou de duas
fases, da evolução do saber, pois os dois passos são igualmente
válidos. Já a física e a química aspiram a tornar-se
qualitativas, isto é, a dar conta também das qualidades segundas, as
quais, quando forem explicadas, se tornarão meios de explicação; e talvez a biologia
marque passo, esperando que isso aconteça, para poder, ela
própria, explicar a vida. Por sua parte, o pensamento mítico não
é somente o prisioneiro de acontecimentos e de experiências,
que ordena e reordena, incansavelmente, para lhes descobrir um sentido, é
também libertador, pelo protesto feito contra a falta de sentido,
com que a ciência estava, a principio, resignada a transigir.
*
As considerações anteriores
várias vezes tocaram ao de leve no problema da arte, e talvez se pudesse indicar
brevemente como, nessa perspectiva, ela se introduz a meio caminho
entre o conhecimento científico e o pensamento mítico ou mágico- pois todos
sabem que o artista tem, por sua vez, algo do cientista e do bricoleur: com
meios artesanais, ele confecciona um objeto material que é, ao
mesmo tempo, um objeto de conhecimento. Distinguimos o homem de ciência e o
bricoleur pelas funções inversas que, na ordem instrumental e final, conferem ao acontecimento
e à estrutura, um criando acontecimentos (mudar o mundo) por meio de
estruturas, e outro, estruturas por meio de acontecimentos (fórmula inexata, por ser
categórica, mas que nossa análise deve permitir matizar).
Vejamos
agora este retrato de mulher, por Clouet, e perguntemo-nos quais as razões da
emoção estética, muito profunda, que suscita, inexplicavelmente parece, um
cabeção de renda reproduzido fio por fio e num escrupuloso trompe-1'oeil (Prancha l).
O exemplo de
Clouet não vem por acaso; pois sabe-se que ele gostava de pintar em
proporções menores que as naturais: seus quadros são, portanto, como os jardins
japoneses, os carros em miniatura e os navios dentro de garrafas,
o que, em linguagem de bricoleur, se denominam "modelos
reduzidos". Ora, surge a questão de saber se o modelo reduzido, que é também a
"obra-prima" do companheiro, não oferece, sempre e em
toda parte, o tipo mesmo da obra de arte. Pois, parece antes que todo
modelo reduzido tenha vocação estética - e donde tiraria esta virtude constante
senão das próprias dimensões ? — inversamente, a imensa maioria das obras de
arte são também modelos reduzidos. Poder-se-ia crer que este
caráter se prenda, de início, a uma preocupação de economia,
levada aos materiais e aos meios, e invocar, como apoio desta
interpretação, obras incontestavelmente artísticas, se bem que monumentais. É
preciso, ainda, entender-se sobre as definições: as pinturas da Capela Sistina são
um modelo reduzido, apesar de suas dimensões imponentes, porque o tema que
elas ilustram é o do fim do mundo. O mesmo acontece com o simbolismo
cósmico dos monumentos religiosos. Por outro lado, pode-se
perguntar se o efeito estético, digamos, de uma estátua eqüestre de
tamanho maior que o natural, provém do fato de ela aumentar o homem até as
dimensões de um rochedo e não do de reduzir o que, primeiro, de longe,
parecia um rochedo, às proporções de um homem. Enfim, mesmo o "tamanho
natural" supõe o modelo reduzido, pois que a transposição gráfica ou
plástica implica sempre a renúncia a certas dimensões do objeto; em
pintura, o volume; as cores, os perfumes, as impressões tácteis, até na
escultura; e, nos dois casos, a dimensão temporal, já que o todo da obra representada
é apreendido num instante.
Que virtude
se liga, pois, à redução, quer seja esta de escala, quer afete as propriedades
? Ela resulta, parece, de uma espécie de inversão do processo do conhecimento;
para conhecer o objeto real em sua totalidade, temos sempre a
tendência de proceder começando por suas partes. A resistência que ele nos
opõe é sobrepujada com a divisão da totalidade. A redução da
escala inverte esta situação: quando menor, a totalidade
do objeto parece menos perigosa; pelo fato de ser quantitativamente
diminuída, parece-nos qualitativamente simplificada. Mais exatamente, essa
transposição quantitativa aumenta e varia o nosso poder sobre um homólogo da
coisa; por intermédio dele, ela pode ser tomada, sopesada na mão,
apreendida por um só golpe de vista. A boneca da criança não é mais um adversário, um rival, ou
mesmo um interlocutor; nela, e por ela, a pessoa se transforma em sujeito.
Inversamente do que se passa quando procuramos conhecer uma coisa ou um ser do
tamanho natural, no modelo reduzido o conhecimento do todo precede o das
partes. E, mesmo se isso é uma ilusão, a razão do procedimento é criar ou manter essa
ilusão, que gratifica a inteligência e a sensibilidade com um
prazer que já pode, sobre essa base unicamente, ser chamado
estético.
Temos, até agora, encarado apenas considerações de escala que, como vimos, implicam uma relação dialética entre grandeza — isto é, quantidade — e qualidade. Mas o modelo reduzido possui um atributo suplementar: é construído, man made, e, além do mais, feito a mão. Não é, pois, uma simples projeção, um homólogo passivo do objeto: constitui uma verdadeira experiência sobre o objeto. Ora, na medida em que o modelo é artificial, torna-se possível compreender como ele é feito, e esta apreensão do modo de fabricação acrescenta uma dimensão suplementar a seu ser; além disso — nós o vimos a respeito do bricol