A PERFORMANCE AFRO-AMERÍNDIA: TRADIÇÃO E TRANSFORMAÇÃO

O encontro com a performance aconteceu na minha infância na forma de enigmas a serem decifrados: a igreja Católica com seus ritos suntuosos onde enfermeiros e donas de casa se transformavam em soldados romanos e madalenas arrependidas. As procissões, os santos, as roupas bordadas e os véus negros, tudo isso com muita vela e incenso. Depois veio o circo, com a magia dos engolidores de fogo, palhaços, atiradores de faca e flechas, contorcionistas e trapezistas. E a arrebatadora Adelaide, o diabo loiro, a sensacional rumbeira que parou Laje do Muriaé com suas cochas sensuais executando os sinuosos movimentos do mambo. Tudo isso sob a lona na pracinha, ao lado da Igreja. E mais tarde, a Folia de Reis em procissões com seus palhaços, mistério e pilhéria, medo e deslumbramento. Eles vinham sempre com um terno de negros como uma banda musical adentrando na cidade, quase todos descalços mas com um uniforme muito limpinho, roupa de cetim enfeitada com fitas, capacetes com espelhinhos de bolso. Brilhavam no sol do meio dia enquanto os palhaços multicoloridos com suas máscaras feéricas faziam arruaça correndo atrás das crianças, que como eu queriam ficar bem perto mas tinham medo, mesmo sabendo que tudo era uma grande brincadeira, se deixavam assustar. Não havia teatro na minha cidade, e a TV ainda não havia lá chegado no final da década de cinqüenta, mas eu muito me divertia, com os ritos católicos, com o circo que passava de vez em quando e com a Folia de Reis. Só muito mais tarde soube que isso era performance. Pensei em ser padre, mas soube que padre não casava e desisti da idéia. Pensei em fugir com o circo ou fundar uma Folia de Reis quando crescesse para poder encarnar o palhaço, idéias que, aos poucos, me pareceram impossíveis. Mas talvez para sentir de perto ainda todos esses ritos espalhafatosos, engraçados e assustadores, sérios e cômicos, eu tenha resolvido me tornar um estudioso da performance.

Minha relação com o teatro veio aos poucos, minha avó Bia fazia com seus alunos os impagáveis números ou esquetes para serem apresentados no final do ano, números de dança e canto, cenas cômicas e improvisadas. Depois, numa noite assisti o impressionante monólogo As Mãos de Eurídice por um ator que passou pela cidade, junto com um hipnotizador que deixou quase todo o auditório com as mãos grudadas sem conseguir separá-las. E mais as peças encenadas no circo, como O céu uniu dois corações, Paixão de Cristo, entre outras, inesquecíveis. Portanto, o teatro para mim sempre foi algo mágico e popular, inesperado, longe daquele teatro do texto que fui aprender no antigo Conservatório de Teatro, depois Escola de Teatro da Fefierj, e hoje UNIRIO, meu local de trabalho. Na Escola aprendi que o teatro surgiu na Grécia antiga e de lá se espalhou pelo Mundo.

A partir do começo do século XX, alguns pesquisadores do teatro abriram uma nova perspectiva para compreensão do fenômeno teatral ao estudar as tradições orientais. Eles se debruçaram principalmente nas tradições teatrais da Índia, China e Japão, textos escritos durante os primeiros séculos da era Cristã, mas que reportavam as tradições teatrais tão ricas e complexas quanto a grega, e possivelmente muito anteriores a esta. Isso já seria o suficiente para descartar a idéia ridícula de que está no teatro grego a origem do espetáculo teatral. Nestes modelos, não europeus, o conceito de teatro é muito mais abrangente e inclui entre as suas técnicas a dança, a acrobacia, a percussão, o canto -- elementos que provavelmente faziam parte também do teatro grego antes dos grandes autores terem fixado as regras da performance na estrutura amarrada do texto teatral. As propostas deste teatro não ocidental incluíam um extremo rigor formal, aliado a uma filosofia com princípios estéticos altamente elaborados. Nestes, também como no Grego, a relação com os deuses, a mitologia e a religião eram também fundamentais.

A partir da década de sessenta, pesquisadores como Jerzy Grotowski, Peter Brook, Richard Schechner e Eugênio Barba, encontram na palavra "performance" a propriedade para definir este teatro multicultural, includente (música, dança e percussão e recursos visuais elaborados) e em muitos casos ritualizado; diferenciando-o do teatro ortodoxo praticado no ocidente, modelado a partir do teatro grego e encaixotado pela quarta parede para o deleite da burguesia.

O conceito "performance" tem sido usado também para compreender o teatro feito pelo povo iletrado, seguindo a tradição oral alheia aos modelos greco-romanos. Desta forma, performance tem sido usada como um sinônimo de apresentação e representação, de folguedo e brinquedo, quase sempre possuindo caráter festivo e/ou religioso, mas em muitas destas formas preservando o seu alto grau de ritualismo.

O conceito performance tem se revelado cada vez mais adequado ao estudo de tradições orais e as artes eminentemente efêmeras como o teatro e a dança, na medida em que propõe a observação dos fenômenos culturais numa perspectiva experimental e múltipla. Isto muito difere do estudo prioritariamente bibliográfico ou dramatúrgico, no qual as tradições ágrafas e ou visuais são, via de regra, "traduzidas" por observadores alheios a esses valores culturais.

Assim, utilizando o conceito de performance oferecido por Victor Turner como "comportamento expressivo", percebe-se que o mesmo é amplo o suficiente para permitir um apanhado de relações culturais complexas, sem, contudo, perder de vista seus focos de atenção:

O que é performance? Uma peça teatral? Dançarinos dançando? Um concerto musical? O que você vê na TV? Circo e carnaval? Uma entrevista coletiva de um presidente da república? As imagens do papa, do modo como ele é retratado pela mídia - ou as constantes repetições do instante em que Lee Harvey Oswald era baleado? E esses eventos têm alguma coisa a ver com rituais, (...) ou danças com máscaras como aquelas de Peliatan, em Bali? Performance não é mais um termo fácil de definir: seu conceito e estrutura se expandiram por toda parte. Performance é étnica e intercultural, histórica e atemporal, estética e ritual, sociológica e política. Performance é um modo de comportamento, um tipo de abordagem à experiência humana; performance é exercício lúdico, esporte, estética, entretenimento popular, teatro experimental e muito mais.(...)

Este trecho, retirado de uma introdução à obra de Victor Turner, ilustra bem a vasta gama de fenômenos que são objetos da performance. O estudo da performance combina antropologia, artes performáticas e estudos culturais, usando lentes interdisciplinares para examinar um conjunto de atos sociais: rituais, festivais, teatro, dança, esportes e outros eventos ao vivo. Como o antropólogo Victor Turner argumentou, performance empresta insights valiosos para a formação e identidade permitindo um espaço para entendimento intercultural e através da performance os significados centrais, valores e objetivos da cultura são vistos em ação. O foco interdisciplinar da performance rejeita alguns dos aspectos limitadores etnocêntricos herdados do teatro tradicional e do estudos de dança, permitindo aos estudantes centralizar suas pesquisas em formas expressivas que extrapolam os limites dos gêneros de performances europeus. Isso pode incluir, por exemplo, algumas formas como a capoeira brasileira, a rumba cubana, as danças haitianas de Voudoun e a riqueza da performance indígena secular e religiosa de todas as Américas.

Os Estudos da Performance oferecem a possibilidade de um questionamento crítico que pode iluminar práticas culturais como aspectos da vida cotidiana no complexo movimento social dos nossos tempos. O projeto reconhece o valor de examinar as performances no seu contexto histórico, econômico e ideológico, enquanto reconhece que a mesma representa um papel vital na feitura daquele contexto social também. Estudando performance nas suas inumeráveis manifestações (sendo atuar, máscara, intervenção), estudiosos e artistas, podem analisar as suas formas para comunicar valores sociais ou religiosos, para elucidar identificação, ou para criar um senso de comunidade. Política por ela mesma, ela também fornece uma rica arena para análises de fenômenos.

Grande parte de nosso material entretanto é sobre as performances afro-brasileiras, parte do que chamamos de "tradição" em nossa conceituação. No Brasil, a pluralidade das culturas trazidas da África tem um paralelo com a multiplicidade das culturas nativas das Américas: as formas espetaculares e ritualizadas de suas performances. Em seus conteúdos explícitos podemos observar em ambas profundo respeito pela natureza em todas as manifestações físicas, combinadas com uma ética e uma filosofia humanista. Os rituais, as danças, os ritmos e os mitos destas culturas têm providenciado um enorme manancial para autores, pintores, compositores e artistas plásticos. Embora estas pesquisas tenham sido estudadas de forma específica por antropólogos ou sociólogos, elas não foram analisadas como fundamentos estéticos e filosóficos da cultura popular brasileira Esta troca entre índios e negros é notável durante os processos de escravidão e fuga sofridas igualmente pelos dois, claro que em circunstancias históricas diferentes. Embora pouquíssimo estudo comparado tenha sido feito nesse sentido.

A performance Ameríndia é variada e peculiar. Sua teatralidade absoluta estarreceu dos primeiros viajantes que aqui aportaram aos últimos antropólogos estrangeiros.

Os elementos da dança e suas complexas coreografias, o uso de máscaras e os elaborados desenhos corporais, a arte plumária, o canto e a dramatização de animais selvagens e seres encantados mitológicos, o profundo sentido ritualístico, são características em comum dos aproximadamente 200 grupos étnicos. As formas teatrais do índio de fato não possuem nenhuma relação com as do europeu, mas muito semelhantes as asiáticas e africanas.

A performance africana trazida em larga escala, inicialmente pelos povos Bantos, teve no batuque a matriz das diversas manifestações teatrais tais como: coroação de reis e rainhas do Congo, reisados, folias de reis, congadas, maracatus, ternos, etc. Um teatro tão popular quanto àquele da Grécia antiga, anterior à criação do primeiro texto de Téspis, que a partir de então desencadearia o processo de transformação da maleabilidade da performance processional dionisíaca na estrutura amarrada da literatura escrita. Coube ao povo Iorubá, instalado principalmente na Bahia, na primeira metade do século XIX, difundir sua versão da cultura africana a partir das casas de candomblé, fundadas anteriormente pelos negros do Congo-Angola e do antigo reino do Daomé, os Geges ; transplantando para a Bahia a performance sagrada dos Orixás. No começo do século XX, as sacerdotisas baianas, líderes comunitárias e festeiras foram responsáveis pela transformação dos pastoris nordestinos em ranchos cariocas, mais tarde também ajudariam no processo de transformação destes em escolas de samba, síntese das culturas africanas do Brasil, expressão máxima da teatralidade brasileira; conversão do ritual do carnaval em pura celebração africana.

Ao longo de cinco séculos de opressão econômica, militar, religiosa e estética, exercida pela elite euro-brasileira, muitos foram os momentos em que as duas tradições, ameríndias e africanas se encontraram. Natural que disso resultasse não somente a miscigenação de seus descendentes como o intercâmbio de suas tradições. Catimbó, macumba, umbanda reúnem manifestações religiosas comuns desses dois grupos. As religiões destas culturas adoram as forças da natureza, utilizam a medicina natural encontrada a partir da manipulação de raízes e folhas, acreditam que a alma dos mortos retorna à terra para ensinar ou para evoluir através da reencarnação. Elas têm outro ponto em comum, que particularmente nos interessa, suas performances espetaculares. Em ambas notamos o mesmo cantar-dançar-batucar como um todo indivisível e inseparável. Ambas as performances são interativas e dialogam com o ambiente onde acontecem. O público permanece em roda reagindo a tudo que os brincantes ou performers fazem. A roda está presente nos desenhos de Rugendas datados de meados do século XIX, isso acontece também nos primeiros filmes registrados na selva por Rondon no começo do século XX. Atualmente, Tchydjo, mestre de danças dos índios Kariri-Xocó, ao iniciar os trabalhos, pede aos seus dançarinos e platéia que formem uma roda para começar o ritual do Toré Sagrado. Igualmente, no samba de roda, os crioulos e crioulas fazem também um circulo para realizar a sua performance. E como diz o mestre Cirilo no seu Maneiro Pau de Crato, no Ceará: "Quero ver rodar Quero ver rodar Quero ver rodar" enquanto cada membro do seu grupo posicionado em círculo batendo o seu bastão rodopia sobre seu próprio eixo sem perder a batida. Ou ainda, como ordena Mestre Aldemir em seu Reisado, para a sua burrinha (cavalo marinho) Roda roda cavalo pro povo olhar, meu cavalo é descente das ondas do mar.

Classifico estas performances como o puro teatro popular brasileiro. A elite euro-brasileira compreende o teatro apenas no palco italiano e descarta o que não é empacotado pelas quatro paredes do edifício teatral. Afirmo mais uma vez: tradição oral é a cultura brasileira, é o nosso produto interno bruto. O estudo das performances afro-ameríndias se impõe como uma nova disciplina possível para compreender as particularidades de cada performance e suas afiliações culturais bem como as suas inter-relações.

Cabe aos nossos atores, estudantes e acadêmicos entender o que é performance afro-ameríndia para poder praticá-la com toda consciência. Pois estas tradições permeiam a nossa cultura popular. Como diz sabiamente o Mestre Carnaúba, da sabedoria dos seus 99 anos de idade, poeta, curandeiro, pai-de-santo e repentista do Crato, Ceará, é preciso "abraçar os encantos". Estes encantos estão aí, bem perto da gente, nas mentes e nas bocas de nossos ancestrais afro-ameríndios e em suas performances espetaculares.