"Cotidiano e vivência religiosa: entre capela e o calundu," de Luiz Mott em Historia da Vida Privada no Brasil: Cotidiano e Vida privada na América portuguesa; Editora Schwarcz Ltda., Sao Paulo, 1997

RELIGIÃO PÚBLICA E PRIVADA

Herdeiro da tradição judaica, o cristianismo sempre ensinou a seus fiéis um caminho de duas mãos para se conseguir a perfeição espiritual e o tão almejado galardão no Reino dos Céus: de um lado, o exercício individual e privado de actos de piedade e comunicação mística direita da criatura com Deus Nosso Senhor; do outro, a prática pública e comunitária dos sacramentos e cerimónias sacras.

O exemplo dessa bípolaridade espiritual partiu do próprio fundador do cristianismo: Jesus aparece nos Evangelhos como o suplicante por excelência. Ele reza frequentemente: recita as orações judaicas ordinárias como a bênção à hora da comida, reza antes das acções e decisões mais importantes, suplica ao Pai na solidão da noite, faz oração comunitária na última ceia em companhia de seus discípulos, depreca de joelhos suando sangue no horto das Oliveiras à véspera de sua paixão.2

Embora freqüentasse o templo e seguisse os rituais religiosos da Lei de Moisés, Cristo opôs-se a um dos modismos da religião de seu tempo ao condenar o ritualismo oco da seita dos fariseus. Assim ensinou a seus discípulos: "Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Quando orardes, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo"3. Sacralizou destarte a oração individual, o colóquio místico direto da alma com o Criador.

A despeito de enaltecer a religiosidade privada, clarividente quanto à importância da oração comunitária na consolidação da sociedade eclesial, Jesus conferiu à prece comunitária status igualmente paradigmal, ao pontificar: "Quando dois de vós se unirem sobre a terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos céus. Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles".4

A primitiva Igreja cristã, tal qual podemos vislumbrar nos Actos dos Apóstolos, desde seus primórdios, reuniu essas duas posturas na prática religiosa: a contemplatio, ou a oração pessoal, privada, e a liturgia, que no latim eclesiástico medieval equivalia a "culto público e oficial instituído por uma igreja".5

Como sabiamente salientou Durkheim no clássico Formas elementares da vida religiosa,6 as cerimónias e rituais públicos sempre tiveram uma função catalisadora do etos comunitário, funcionando igualmente como eficiente mecanismo de controle social e manutenção da rígida hierarquia da igreja militante. Assim, a missa obrigatória aos domingos e dias santos de guarda — um total de 98 feriados! —,~ a obrigação da desobriga pascal (atestado assinado pelo vigário que o freguês confessou-se e comungou ao menos uma vez por ocasião da Páscoa da Ressurreição), a indispensabilidade da freqüência aos sacramentos, são algumas das práticas religiosas amalgamadoras do corpo místico no Brasil de antanho, um contrapeso socializador. significativo para compensar a dispersão espacial e isolamento social dos colonos na imensidão da América portuguesa.

Se tais rituais eram obrigatórios, dever de todo cristão, outras tantas cerimónias eram fortemente incentivadas pelo clero como caminho seguro de os fiéis angariarem as benesses divinas e enfrentarem com sucesso as ciladas do Tentador. Por trás do estímulo à vida eclesial comunitária, não há como negar, estava o forte interesse da hierarquia eclesiástica em controlar seu redil — "um só rebanho e um só pastor" —exaurindo dos fregueses as cobiçadas esmolas, dízimos e demais benesses materiais, indispensáveis para manter a riqueza do culto e a boa vida dos clérigos e religiosos: "O olho do dono é que engorda o gado" e as algibeiras do pastor!

Católico que honrasse o nome não se limitava a cumprir a obrigação pascal e os mandamentos da Santa Madre Igreja: convinha alimentar sua vida espiritual privada e comunitária. "Qualquer alma que quiser seguir a vida do espírito, Cofesse-se e comungue pouco mais ou menos todos os oito dias e nos de especial festividade e indulgência’; ensinava frei Francisco da Conceição, um dos teólogos franciscanos muito em voga no Brasil setecentista.8

Faça cada dia uma hora de oração mental dividida em duas vezes, parte de manhã, parte à noite. Ouça missa todos os dias podendo, e não podendo, a medite espiritualmente. Reze a cada dia a Coroa de Nossa Senhora meditada ou o Rosário ou o Terço dele com devoção, a Novena das Almas, a Estação do Santíssimo Sacramento. Visite devotamente a Via Sacra todos os dias que puder, mas ao menos nos dias Santos e Sextas-feiras. Faça todos os dias muitos actos de amor a Deus e muitas e fervorosas jaculatórias, e se lhe não se lembrar outra, repita esta muitas vezes: "Senhor, tende misericórdia de mim". Faça um dia de retiro cada mês e os de oito ou dez dias uma vez no ano, podendo. Jejue nas sextas e sábados. Faça disciplina nas segundas, quartas e sextas. Ponha um cilício nas terças, quintas e sábados por tempo de uma ou duas horas. À noite faça exame de consciência pouco antes de se deitar, considerando que pode não se levantar senão para a sepultura.9

Além de todos esses exercícios pios individuais, aconselhava-se a toda gente participar das cerimónias e devoções públicas, umas dentro, outras fora dos templos, tais como as celebrações da Semana Santa, as freqüentes procissões, bênçãos do Santíssimo, trezenas, novenas e tríduos dedicados aos múltiplos oragos de sua freguesia, as romarias e santas missões.’0

Tais cerimónias e rituais públicos faziam parte integrante da cultura religiosa em Portugal desde a época dos descobrimentos. Quase toda semana em Portugal seiscentista os fiéis deviam passar horas seguidas reunidos nas igrejas, capelas ou ermidas, rezando, cantando, ouvindo sermões ou assistindo a representações religiosas, como presépios, autos-de-fé, lausperenes, vias-sacras etc., não apenas em sua própria vila ou cidade mas também nas "terras" circunvizinhas. "No Brasil, como os centros urbanos eram raros e com débil tradição associativa, as ruas inóspitas pela muita poeira no verão e lama na estação chuvosa, as praças ameaçadoras pela presença inesperada de animais selvagens, índios e negros indômitos, muitas das celebrações religiosas que no Velho Mundo tinham lugar ao ar livre, na América portuguesa ou foram abandonadas ou tiveram de se transferir para dentro dos templos ou, ainda, ficar restrita à celebração doméstica. E mesmo dentro das igrejas e capelas, diferentemente do que ocorria em Portugal, onde as disparidades sócio-econômicas eram menos profundas que nos trópicos, na Colônia, a elite branca, acastelada e minoritária demograficamente, protegia-se da arraia-miúda e da gentalha de cor, isolando-se por detrás de balaustradas e colunatas próximas ao altar-mor. Os mais esnobes e elitistas, como veremos adiante, construíam seus próprios locais de culto — capelas, ermidas e até igrejas, no interior ou anexas às suas moradias, evitando assim o indesejado convívio com os fiéis de outras raças ou de estratos inferiores. Havia, porém, quem na época insurgia-se contra essa espécie de apartheid religioso: "A condescendência de se permitirem todos os actos públicos em oratórios particulares, tem posto os templos vazios", reclamava o capitão Domingos Alves Branco Moniz Barreto, membro da elite baiana nos meados do século xviii; "sendo um dos primeiros artigos para mostrar o grande caráter da pessoa e distinção de sua nobreza, o não procurar igreja para ouvir missa, mas sim o seu oratório, e isto é mais vulgar nos nacionais do que nos da Europa, para falar a verdade".12 Segundo d. José Botelho Mattos, oitavo arcebispo de Salvador (1741-61), os aristocratas da América portuguesa desprezavam os templos e espaços religiosos públicos sobretudo pelas tentações que podiam representar à pureza e honestidade das mulheres das famílias de respeito: "Ë impossível que os pais e parentes consintam que suas filhas saiam de casa à missa, nem para alguma função, não só às donzelas brancas,

mas ainda às pardas e crioulas que se confessam de portas a
dentro".13

Em parte tamanho zelo justificava-se, pois nas celebrações religiosas públicas o que mais chamou a atenção dos viajantes e cronistas que visitaram nossa igrejas coloniais, foi a falta de compostura por parte dos participantes, mau exemplo advindo e dos próprios curas e celebrantes, ora displicentes no trajar, ora P irreverentes nos olhares e risadas, clérigos e leigos ávidos de aproveitar aqueles preciosos momentos de convívio intersexual a fim de fulminarem olhares indiscretos, trocarem bilhetes furtivos e, os mais ousados, tocarem maliciosamente o corpo das nem sempre circunspectas donzelas ou matronas.14 Os volumosos Cadernos e Processos dos Solicitantes, conservados na Torre do Tombo, onde estão arrolados detalhes sobre os namoricos e "assédio sexual" dos sacerdotes no próprio confessionário, comprovam que muitos lobos estavam disfarçados de cordeiros, fazendo do tribunal da penitência alcova para pecaminosas imoralidades.’5 Daí o perigo representado pelos espaços e cerimónias públicas em contraposição ao recesso e recato da religião privada dentro do lar, embora também em volta dos oratórios domésticos o espírito do mal costumasse rondar e causar danos às almas. Exatamente para evitar abusos e indecências dentro da Casa do Senhor, as Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia (1707) legislavam com minúcia a maneira correta como os fiéis deviam proceder nas celebrações religiosas:

A igreja é a casa de Deus, especialmente deputada para seu louvor. Portanto, convém que haja nela toda a reverência, humildade e devoção, e se desterrem dali todas as superstições, abusos, negociações, tratos profanos, práticas, discórdias e tudo o mais que pode causar perturbação nos ofícios divinos e ofender os olhos da Divina Majestade. Pelo que, exortamos e admoestamos muito a todos nossos súditos, que assim quando entrarem na Igreja como em quanto nela estiverem, tenham e mostrem grande devoção, humildade, e reverência, para que não só agradem a Deus Nosso Senhor, mas também com seu exemplo movam e edifiquem os próximos. E neste nosso Arcebispado é isto necessário pelos muitos neófitos, pretos e boçais, que cada dia se batizam, e convertem à nossa Santa Fé, e das exterioridades que vem fazer aos brancos, aprendam mais do que das palavras e doutrina, que lhes ensinam, porque a sua muita rudeza os não ajuda mais. Mandamos que nas igrejas não estejam homens entre as mulheres, nem elas entre os homens, mas uns e outros estejam em assentos separados.

E conclui o legislador eclesiástico: "As igrejas são para se exercitar nelas actos de devoção e humildade e não de vaidade e ostentação, e quanto maiores forem as pessoas, tanto maior é a obrigação que lhe corre de darem exemplo aos outros nesta matéria"16

Portanto, o colono, ao transferir-se da Metrópole para a América lusitana, perdia muito da regularidade e freqüência da tradicional vida religiosa comunitária: no Reino o número de templos, pastores e festividades sacras era muito maior do que na Colônia. Aqui, muitos e muitos dos moradores passavam anos sem ver um sacerdote, sem participar de rituais nos templos ou freqüentar os sacramentos. Tal carência estrutural levou de um lado à maior indiferença e apatia de nossos antepassados ante as práticas religiosas comunitárias, do outro, ao incremento da vida religiosa privada, que, na falta do controle dos párocos, abria maior espaço para desvios e heterodoxias.

 

COTIDIANO E VIVENCIA RELIGIOSA

"Vigiai e orai, para não cairdes em tentação": foi o ensinamento deixado pelo Cristo a seus discípulos. E segundo recomendava a teologia mística num manual português corrente no Brasil colonial, "a oração é o pão quotidiano dos justos, sem o qual não podem dar passo na virtude. Por isso, antes que a alma se ponha a caminho das vias espirituais, justo é que tenha prevenido o seu sustento, com que nela se há de alimentar. A oração é um ato de virtude da religião, um trato reverente com Deus, com que a criatura recorre a ele para remédio de suas necessidades".17

Seguindo tal conselho, frades e freiras reunidos em comunidade e os cristãos mais fervorosos, notadamente quando pertenciam a irmandades e confrarias, dividiram desde a Idade Média as principais horas do dia e da noite em horas canônicas, ocasiões especiais de comunicação da alma com o Criador.’8

Sobretudo nos mosteiros e conventos de estríta observância, o dia estava dividido em oito momentos que se iniciavam à meia-noite, com a oração de matinas, seguida de laudes às três da madrugada, às seis da manhã prima, às nove terça, oração de sexta ao meio-dia, noa às três da tarde, vésperas quando surge a estrela vespertina e às oito da noite, completas. Embora apenas nos conventos e mosteiros mais austeros do Brasil se cumprisse horário tão ascético, quando menos as três principais horas litúrgicas costumavam ser marcadas por badaladas especiais dos sinos das igrejas e casas pias, obrigando, nos momentos de maior significado simbólico do dia, os moradores das vizinhanças a lembrarem-se de rezar: às seis da manhã —hora do ângelus --, ao meio-dia -- a hora que o diabo está solto — e às seis da tarde, hora das ave-marias.

Mesmo distante das igrejas, os católicos mais devotos não deixavam de rezar, sobretudo a ave-maria. Em 1766, nas Alagoas, dois irmãos, Manuel e Valente Gomes, caçavam no meio do mato, quando seu vizinho Ludovico sugeriu que rezassem o ângelus, ao que retrucaram os irmãos que "não haviam ouvido o sino e só rezavam quando estavam perto da igreja". O devoto mariano ficou tão injuriado com tal impiedade, que chegou a apontar sua espingarda contra os blasfemos.19

A casa de moradia é o locus privilegiado para o exercício da religiosidade privada dos católicos. Nas casas mais abastadas, o lançamento da pedra fundamental da construção contava sempre com a presença de um sacerdote encarregado de aspergir água benta no alicerce, garantindo-se assim o bom futuro religioso do novo domicílio. Em muitas casas urbanas do Brasil antigo, conforme fixou a tradição oral, podia-se ver uma cruzinha de madeira pregada àporta da entrada; nas zonas rurais, um mastro, com a bandeira de um santo, revelava aos visitantes a preferência da devoção familiar. Dentro de casa, uma série de imagens, quadros e amuletos sinalizavam a presença do sagrado no espaço privado do lar.

No Brasil colonial, seguindo o costume português, desde o despertar o cristão se via rodeado de lembranças do Reino dos Céus. Na parede contígua à cama, havia sempre algum símbolo visível da fé cristã: um quadrinho ou caixilho com gravura do santo anjo da guarda ou do santo onomástico; uma pequena concha com água benta; o rosário dependurado na própria cabeceira da cama. Antes de levantar-se da cama, da esteira ou da rede, todo cristão devia fazer imediatamente o sinal-da-cruz completo, recitando a jaculatória: "Pelo sinal da santa cruz, livrai-nos Deus nosso Senhor, dos nossos inimigos. Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, amem’. Os mais devotos, ajoelhados no chão, recitavam quando menos o bê-á-bá do devocionário popular: a ave-maria, o pai-nosso, o credo e a salve-rainha. Oraçôes que via de regra todos sabiam de cor, inclusive os suspeitos ou convencidos de heterodoxias atinentes à Santa Inquisição, pois ao serem inquiridos nos cárceres secretos do Santo Oficio, um dos primeiros "exames" a que se submetiam todos os presidiários era recitar as citadas Oraçôes, acrescidas dos dez mandamentos da Lei de Deus e dos cinco preceitos da Lei da Igreja. A quase-totalidade dos colonos do Brasil presos pela Inquisição de Lisboa desincumbiram-se perfeitamente de tal prova, resvalando contudo, alguns poucos, sobretudo nos mandamentos da Lei da Igreja.

Mesmo antes do amanhecer, quando despertavam entre um sono e outro, fazia parte da piedade católica aproveitar a calada da noite para elevar a alma junto a Deus: a ex-prostituta e depois beata Rosa Egipcíaca, negra de nação Courá, então moradora na freguesia do Inficcionado(Minas Gerais),

estando na sua cama dormindo, ouviu um tropel de gente. E acordando se achou de joelhos fora da cama. E logo lhe disse uma voz: louvado seja para sempre tão grande Senhor! E sem ela fazer movimento algum, se levantou o seu corpo de onde estava e caiu também de joelhos ao pé daquela voz que tinha ouvido, e respondeu: Para sempre seja louvado tão grande Senhor! Depois a sobredita voz lhe recomendou que rezasse três Padre-nossos e três Ave-Marias às pessoas da Santíssima Trindade e outros à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e cinco em reverência à Sagrada Família e sete às necessidades temporais e espirituais da Igreja, as quais rezas ela ainda faz e fez sempre.20

Rezar não era prerrogativa exclusiva dos colonos cristãos. Também os seguidores da Lei de Moisés possuíam piedosas oraçôes como esta recitada todo dia pelo cristão-novo Fernando Gomes Nunes, preso em 1733 nas Minas Novas dos Goiases, freguesia de São Félíx do Conquistado: "Bendito sejais Senhor, pois cheguei a amanhecer; bendito vosso poder, meu amparo, meu criador, livrai este pecador em todas as ocasiões de perigos e de traições e do poder dos inimigos e de fingidos amigos e de raios e trovões". Outro cristão-novo, Fernando Henriques Alvares, 37 anos, tratante de gados, preso em Pernambuco em 1730, aprendeu com seu tio esta bela jaculatória: "Donde o sol nasce e donde se volve a pôr, bendito e louvado seja o nome do Senhor!", e também esta oração:

"Perdoa-me Senhor no que tenho-o ofendido, perdoa os dez anos que contra ti tenho ido, perdoa o miserável que por ti chama, não me condenes senhor a eterna chama por tua misericórdia me perdoa, salvo sou, senhor, se tua verdade me abona!". E ainda estoutra: "Em boa hora do Senhor e de todos seus amigos, começo agora a rezar para que o que lhe pedir na terra me seja outorgado no céus. Os anjos do senhor dizem todos nos céus e na terra, amém!".21

Na parede da sala de muitas casas coloniais, saindo do quarto, lá estavam para ser venerados e saudados os quadros ou "registos" dos santos de maior devoção dos donos da morada, às vezes tendo a seu lado copo ou tigela com óleo de mamona onde uma lamparina votiva queimava diuturnamente, dando um pouco de claridade à escuridão da noite ao mesmo tempo que prestava homenagem aos ditos oragos.

As famílias um pouco mais abastadas possuíam um quarto especial, o quarto dos santos. Seu tamanho variava, e às vezes era apenas uma "nesga de espaço debaixo de escada que conduzia ao sótão ou aposento para custódia de imagens". Não eram poucos os que conservavam as imagens em seus próprios aposentos. "Todas as alegrias e tristezas eram relatadas entre preces aos bentos simulacros bem guardados em um de nicho de madeira forte, torneado e envernizado, com três faces de vidro." As imagens, fossem elas do Santo Cristo, fossem de santos da devoção pessoal, conservavam-se, não raro, através das gerações:

tinham também pertencido a fulano ou sicrano. Era raro alguém ter trocado [isto é, comprado] a imagem. O Santo Antônio era uma tradição de milagres familiares; São Raimundo tinha ajudado o nascimento de todos os filhos da casa; Nossa Senhora da Conceição era senhora de todos, São José, São João, São Roque [...] Nossa Senhora do Parto, comadre uma, duas ou três vezes de todas as mães católicas da época, era colocada junto à cama das parturientes para propiciar boa hora, apagando de sua mente a lembrança de dores e sofrimentos. Tomada por comadre, isto é, sendo a sua coroa tocada na criança à hora do batismo, esconjurava todo e qualquer perigo de futuro malogro.22

Tal era a tradição do oratório no Nordeste brasileiro. Nas Minas Gerais, além desses grandes oratórios, desenvolveu-se enormemente a indústria de pequeninos oratórios, de um a dois palmos de altura, que reproduzia, em miniaturas de pedra-sabão, terracota ("paulistinhas") ou madeira, a mesma estrutura dos altares das igrejas barrocas, tendo sempre no topo a cena da crucificação, com a Virgem das Dores, são João e Maria Madalena ao pé da cruz, ladeados dos santos da predileção do proprietário da casa. Em diversos museus de Minas Gerais e no Museu de Arte Sacra da Bahia há ricas coleções desses oratórios, popularmente chamados de "maquinetas".

O oratório funcionava como uma espécie de relicário, onde eram conservados, além de eventuais relíquias "verdadeiras" do Santo Lenho, da coluna onde Cristo foi açoitado, pedacinhos de osso de algum santo, e eventualmente até um bocadinho do leite em pó de Nossa Senhora! Nesse mesmo espaço guardavam-se alguns "talismãs" aceitos ou tolerados pela Igreja, a saber, a rosa-de-jericó, que, posta contraída e seca num copo d’água, na intenção de alguma parturiente, se abrisse rapidamente, significava bom sucesso, significando, no caso contrário, morte certa. Ou ainda a palha benta do Domingo de Ramos, conservada como poderoso antídoto contra raios, coriscos e tempestades. Em caixas ou cestinhos, dentro ou ao lado do oratório, guardavam-se as milagrosas medalhinhas das festas das Angústias, Senhor da Cruz, Nossa Senhora

das Candeias, Senhor do Bonfim, sem falar nos escapulários, 10. bentinhos e livrinhos de orações e ladainhas, o catecismo tridentino etc.23

Apesar de os oratórios e santos de casa serem bentos e Ba abençoados pelo vigário ou missionário em suas visitas residenciais, nem sempre a relação dos moradores com tais simulacros seguia as normas permitidas pela ortodoxia católica. No Maranhão, em 1754, a escrava Luísa tinha o costume de, antes de dormir, separar a Jesus Crucificado da imagem da Virgem Maria, dizendo, galhofeira, que "assim procedia para que Jesus não beijasse a Nossa Senhora e não tivessem filhos".24 Em Recife, em 1762, na Esquina do Muro da Penha, Maria Carvalha era denunciada ao comissário do Santo Ofício de ter dentro de casa um altar com oratório onde suas duas filhas de dez anos celebravam missa com as mesmas cerimônias da Igreja. No Maranhão, pelo ano de 1674, Thomás Beckman, irmão do líder da "Revolta de Bequimão", foi acusado de vestir trajes sacerdotais e encenar na capela de seu engenho a celebração de uma missa, só que usou cachaça em lugar de vinho. Um Sacrilegio!25

Em muitas propriedades rurais mais abastadas, próximo às casas-grandes dos engenhos de açúcar, era comum a construção de uma capela ou ermida, onde um sacerdote residente ou de fora prestava assistência religiosa aos senhores e à escravaria e agregados. Questão de status e cumprimento das obrigações religiosas. Segundo o levantamento realizado pelo Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), de um total de trinta propriedades coloniais do Recôncavo, entre engenhos, fazendas e casarões, 25 contavam com capela, a maioria delas situadas no interior da casa-grande, seja contígua à varanda, logo na entrada do imóvel, seja na parte central da mesma. Alguns engenhos mais abastados construíam suas capelas no alto de um morro próximo à moradia, funcionando, de fato, quase como matriz de freguesia.

A capela, além das funções religiosas, era ponto de reunião social. Ali se celebravam casamentos, batizados, primeiras comunhões. Com freqüência serviam de cemitério aos membros da família. Na maioria dos casos ficavam separadas das residências, mas há exemplos de capelas edificadas contiguamente às casas-grandes, como as dos Engenhos Freguesia, São José e Pouco Ponto. As capelas do século xviii e xix tentam competir com as matrizes e incorporam, destas, galerias e corredores laterais, super-postos por tribunas. Um elemento típico das capelas de engenho do Recôncavo da Bahia é a sala lateral à capela-mor, ligada à mesma por um janelão. Deste camarim, geralmente simétrico à sacristia, assistiam à missa, sem serem vistos, alguns membros da família grande, especialmente mulheres.26

Ainda conforme o referido levantamento, na região da N serra Geral e Diamantina, em mais de meia centena de imóveis rurais e urbanos do final do período colonial, registrou- ~ se a presença de apenas oito capelas domésticas, todas embutidas no corpo da residência — revelando que foi no Recôncavo da Bahia, nas primeiras centúrias da colonização, que mais se edificaram capelas nas propriedades rurais nordestinas.

Os custos eram altos e lenta a burocracia eclesiástica para autorizar a ereção de tais capelas: no Arquivo da Cúria de Salvador há uma coleção desses processos, alguns com dezenas de folhas, incluindo bulas papais e dispêndio de muitos contos de réis. O padre Teotônio Correia Dantas, proprietário de um engenho na freguesia do Socorro da Cotinguiba, Sergipe, obteve em 1788 um breve do papa Pio vi autorizando celebrar missa na capela de sua casa, justificando "ter oratório com toda decência e com todos os paramentos necessários".27

O arguto reitor do Colégio da Bahia, o jesuíta Antonil, discriminava as atribuições do sacerdote-zelador dessas capelas domiciliares, e qual o conteúdo elementar da doutrina que devia ensinar a seu rebanho, frisando a obrigação do capelão a dizer missa na capela do engenho nos domingos e dias santos, explicar a doutrina cristã, alertar sobre a magnitude do pecado mortal e das penas que "tem Deus aparelhado nesta e tia na outra vida, aonde a alma vive e viverá imortalmente", lembrando ainda a forma adequada de se confessar e pedir remissão dos pecados. O capelão era quem deveria ainda instruir

sobre o Santíssimo Sacramento, sobre o papel das indulgências "para descontar o que se deve pagar no purgatório"; sobre como se "encomendar a Deus para não cair em pecado e oferecer-lhe pela manhã todo o trabalho do dia". Não descuidava de abominar "os feiticeiros e curadores de palavras e os que a eles recorrem, dando peçonhas ou bebidas para abrandar e inclinar as vontades; os bêbados, os amancebados, os ladrões, os vingativos, os murmuradores e os que juram falso". E completava: "zele que na capela seja Deus honrado e a Virgem Senhora Nossa, cantando-lhe nos sábados as ladainhas, e nos meses em que o engenho não mói, o terço do rosário, não consentindo risadas, nem conversações e práticas indecentes não só na capela mas nem ainda no copiar [alpendre] particularmente quando se celebra o santo sacrifício da missa".28

 

PIEGUISMO BARROCO

 

Quando da descoberta da Terra de Santa Cruz, a vida religiosa em Portugal era profundamente marcada pelo ascetismo, estimulando-se aos fiéis, por meio da oração mental, o contato místico com o Onipotente, incitando-se à maceração

do corpo e dos desejos terrenos e à prática de um sem-número de exercícios espirituais. Como já vimos, a oração era considerada o alicerce da vida espiritual.

Em 1573 é editado em Goa um livro cujo escopo era de certo atingir a todos os neoconversos ultimamente contata- (li dos pelos missionários da Lusitânia inclusive os índios do Novo Mundo: Desengano de perdidos, feito pera glória de Deus XX e consolação dos novamente convertidos e fracos, e para proveito dos que querem deixar os pecados e seguir as virtudes e o caminho da perfeição do amor divino. Seu autor, d. Gaspar de Leão, primeiro arcebispo da Índia, ensina cinco condições para atingir a perfeição da oração, tomando como exemplo a própria oração de Jesus no horto das Oliveiras: "1) apartar-se de todas as criaturas ao menos mentalmente e ajuntar-se a Deus amorosamente; 2) humilhar-se na oração prostrados ante a Majestade divina; 3) freqüentar assiduamente a oração, como o Cristo passava muitas noites orando; 4) orar com atenção e fervor, como Jesus que chorou e suou sangue; 5) subjugar a vontade ao beneplácito divino".29

Embora o arcebispo de Goa insistisse que "todo negócio da oração repousa no coração’ os católicos do período quinhentista entendiam que a fé sem obras de nada valia, elegendo a mortificação como exercício complementar da oração.

Ao estudar os primórdios da religiosidade colonial, Luís Palacin lembra que, entre as principais exteriorizações de nosso catolicismo popular, destacava-se em primeiro lugar o gosto pela penitência, praticada não só no âmbito privado mas ainda em locais públicos, imodéstia estimulada pelos religiosos não como exibicionismo personalista, e sim para servir de emulação aos silvícolas e às almas mais frígidas. Na Carta anual da Companhia de Jesus de 1552, davase conta que "duas ou três vezes na semana os alunos do Colégio da Bahia se disciplinam, cingem-se os rins com cilícios aspérrimos, muitos dedicam em suas casas ou em nosso templo duas horas inteiras à oração e andam com tal modéstia nos olhos e em todo o rosto, que mais que meninos, parecem religiosos" Tanto entre os índios como entre os portugueses e os padres, as disciplinas constituíam uma verdadeira paixão. Nas procissões, no alto dos púlpitos, nos claustros e salas capitulares, ou dentro de suas próprias casas, miudamente os religiosos e leigos entregavam-se à autoflagelação. Anchieta registra que um homem casado, irmão de outro jesuíta, açoitou-se tão fortemente que daí a poucos dias morreu lançando muito sangue pela boca, parecendo que tinha pisado o fígado. O provincial dos jesuítas Pedro Rodrigues teve de moderar, por meio de pragmática,30 o desejo e uso da penitência, pois até mulheres e curumins nas aldeias entregavam-se com freqüência à auto-flagelação.31

A religiosidade popular, ao gosto barroco, externava-se mediante manifestações marcadas por forte emoção. Em Porto Seguro, na Semana Santa, o padre Antônio Gonçalves relatava que nunca vi tantas lágrimas em Paixão como vi nesta, porque desde o princípio até o cabo, foi uma contínua grita e não havia quem pudesse ouvir o que o padre dizia. E isto assim em homens como em mulheres, e saíram algumas 5 ou 6 pessoas quase mortas, as quais por muito espaço não tornaram em si. E ao outro dia, bem se demonstrava que não era a devoção fingida, pelos sinais das bofetadas que nos rostos se viam e houve pessoas que diziam desejarem de se irem meter em parte onde mais não vissem gente e fazerem toda sua vida penitência de seus pecados ".32

Tal pieguismo não era privativo do clero, das mulheres ou do zé-povinho. No século XVI O próprio governador Mem de Sá pode ser apresentado como modelo típico da piedade barroca: todas as semanas se confessava e ouvia missa, rezava diariamente o ofício divino de joelhos, passando duas horas antes da manhã na igreja do Colégio, templo que mandara construir à própria custa. Nos meados do século xviii, Gomes Freire de Andrade, governador-geral da capitania do Rio de Janeiro, à qual estava submetido todo o Sul do Brasil e as Minas Gerais, e ainda mecenas e fundador do convento de Santa Teresa, era retratado por seus contemporâneos como exemplar no zelo cristão, castidade, justiça e amor dos povos ao despertar, sua primeira operação era rezar o ofício parvo de Nossa Senhora; assistia à missa diariamente, abdicando seu status ao misturar-se ao populacho na disputa às relíquias e ao beijar os pés do cadáver do mais querido santinho carioca de seu tempo, o servo de Deus frei Fabiano de Cristo.33

A devoção aos santos e às santas relíquias era generalizada e uma verdadeira obsessão para as almas mais pias. No Rio de Janeiro setecentista, o bispo d. Antonio do Desterro possuía a maior coleção de relíquias "autênticas" jamais reunidas no Brasil, incluindo lasquinhas da coluna da flagelação e da cruz de Cristo, um fio de cabelo de Nossa Senhora, pedacinhos dos ossos de todos os apóstolos e de uma infinidade de mártires: seu relicário, conservado ainda hoje no mosteiro de São Bento carioca, possuía 114 nichos.34

Cada devoto montava "sua" corte celeste privativa: seu anjo da guarda, seus santos protetores e prediletos, Nosso Senhor e a Virgem Maria com suas várias invocações. Os quadros de milagres e ex-votos conservados nos santuários e templos mais populares refletem muito bem a relação íntima e respeitosa dos fiéis com seus oragos, verdadeiras tábuas de salvação nos momentos dramáticos dessa sociedade tão desassistida das artes médicas. Os textos originais de alguns ex-votos setecentistas do santuário do Bom Jesus de Matosinhos são verdadeiros flashes que revelam, com todas as cores, a viva fé e a economia das trocas espirituais estabelecidas entre o devoto e seu oráculo mediante um contrato de promessa e dívida. Eis alguns exemplos de ex-votos cujas mensagens encontram-se cunhadas abaixo do desenho ilustrativo do milagre: "Mercê que fez o Senhor de Matosinhos a Antônio Mendes Vale, que estando muito doente com dores pelo corpo, se apegou com o dito Senhor e como ficou bom, mandou pintar este"; "Milagre que fez Santa Quitéria a Inês Coelho da Pureza, estando pejada e com bexigas, com risco de vida, pariu com intercessão da santa. 15 de dezembro de 1741"; "Mercê que fez o Senhor do Bom Fim a Maria da Silva, que estando sua sogra doente de bexiga já desenganada de cirurgiões e médicos, apegando-se com o dito Senhor, logo teve saúde a dita sogra no ano de 1778". O texto deste último ex-voto demonstra como no imaginário barroco o mundo não passava de um campo de batalha entre as forças do bem e as hostes do maligno, vencendo aquele que prometesse uma mercê à Majestade Divina: "Milagre que fez o Senhor do Matosinhos das Congonhas do Campo a José Antunes que estando um ano e tantos meses vexado com malefícios e ilusões e em tentações do demônio e por se ver tão perseguido, pegou-se com o mesmo Senhor, prometendo-lhe um cavalo celado e enfreado e ir lho levar e entregar ao dito Senhor propriamente o cavalo, e assim alcançou logo alívios que desejava, e lhe passou um crédito de que ficou na mão do seu procurador, e assim ficou logo alterado com perfeita saúde e mostrou perfeitamente que o poder de Deus é mais de que nada e o seu crédito valioso. Foi feito em 17 de maio de 1776".35

A partir do panorama religioso reconstruído até agora, podemos agrupar os colonos do Brasil num gradiente que vai dos mais autênticos e fervorosos aos indiferentes e até hostis sincretismos" heterodoxos; pseudocatólicos: boa parte dos cristãos-novos, animistas, libertinos e ateus, que apenas por conveniência e camuflagem, para evitar a repressão inquisitorial, freqüentavam os rituais impostos e controlados pela hierarquia eclesiástica mas que mantinham secretamente crenças heterodoxas ou sincréticas.

Em todos esses casos, do mais piegas papa-hóstias ao mais irreverente libertino-agnóstico, cristalizavam-se diferentes tipos de vivência e práticas privadas tendo a religião como centro.

Se para muitos e muitos católicos a religião era um conjunto de práticas exteriores e rotineiras, destinadas mais a cumprir obrigações tradicionais e não criar atrito com os mais velhos ou com as autoridades religiosas, para um certo número de colonos a religião representava uma das razões primordiais da existência terrena. Não só contra os ímpios, mas também contra os tíbios e maus cristãos o medo dos castigos divinos era uma obsessão generalizada, e a adoção de uma vida piedosa e beata aparecia como o melhor antídoto para a ira divina. "Porque não és frio, nem quente, mas morno, eu te vomitarei de minha boca", ameaçava o Apocalipse aos culpados de frigidez religiosa.36

Fazia parte da doutrinação dos fiéis no Brasil de antanho a crença de que Deus Onipotente, Justo Juiz e Senhor dos Exércitos costumava castigar os relapsos ou pecadores contumazes enviando à humanidade pestes, pragas, tempestades e toda sorte de infortúnios. Portanto, o medo dos castigos terrenos, como as doenças e desgraças, ou da punição post-mortem, com as chamuscaduras do Purgatório ou a perdição eterna na Geena, levava, com certeza, um grande número de devotos à contrição e à via estreita da virtude. Alguns desenvolviam verdadeira paranóia em relação à possibilidade de que a confissão de seus pecados não tivesse sido suficientemente completa e total, permanecendo, assim, em pecado mortal e sujeitos à condenação eterna. A esse tipo de paranóia os moralistas chamavam de escrúpulos, e diversos tratados teológicos discutem-lhe as vantagens ou como superar tal desconforto d’alma.37 Outros imaginavam "comprar" o céu e reduzir a permanência no cálido Purgatório, adquirindo bulas e breves ou deixando polpudas somas testamentárias para a celebração de missas votivas. O testamento do csertanista Domingos Afonso Mafrense (1711) é especialmente ilustrativo nesse particular: deixou à Companhia de Jesus dezenas de fazendas no Piauí e ri-quíssimos imóveis na cidade da Bahia em troca de que se lhe celebrassem todos os dias, "até o fim do mundo, uma missa pelo descanso eterno de sua

Outros católicos dedicavam-se de corpo e alma à vida mística pelo próprio prazer que tais exercícios pios costumam provocar em certas almas mais melancólicas e predispostas à autoflagelação física ou espiritual. Embora o medo do Inferno e da severidade do Juízo Final devesse pesar na opção pela aspereza da vida religiosa, para este segundo grupo de devotos, a severidade e estrita observância com que viviam no recôndito de suas casas e corações tinha como principal móvel o prazer interior que auferiam desse virtuoso estilo de vida. Tal qual o masoquista sexual, muitos penitentes com certeza chegavam próximo ao orgasmo místico quando maceravam a carne com disciplinas e cilícios, ou aceitavam humildemente reprimendas e castigos mesmo quando eram inocentes das culpas de que se lhes acusava. "Ser perseguido sem culpa, é bocado sem osso", é a máxima do padre Baltazar Alvares incluída no já citado Director instruído, de 1789, demonstrando que o aniquilamento da vontade e do orgulho era precondição para caminhar na trilha da perfeição cristã.

As donzelas recolhidas eram modelos extremados do primeiro tipo de vivência católica autêntica: privadamente —mas quase sempre tornadas conhecidas do público dedicavam-se de corpo e alma à oração e mortificação. Pelo heroísmo da fé e extremos de virtude, algumas talvez cheguem um dia à glória dos altares...

DONZELAS RECOLHIDAS

Sob o título "O sorriso da santidade no Brasil colonial", o cónego Heliodoro Pires relaciona, entre 1715 e 1775, mais de sessenta escolhidos de Deus, varões, religiosas e leigos, entre brasileiros e europeus, que por suas virtudes excelsas e invulgares viveram e morreram em odor de santidade.39 Até agora, diferentemente do já ocorrido nos países vizinhos da América espanhola, nenhum brasileiro mereceu a honra dos altares,40 não obstante o heroísmo das virtudes e "milagres" atribuídos a muitos deles, notadamente a madre Vitória da Encarnação, do convento do Desterro da Bahia; padre Belchior Pontes e madre Helena do Espírito Santo da capitania de São Paulo; soror Jacinta de São José e irmão Fabiano de Cristo no Rio de Janeiro; padre Gabriel Malagrida no Norte e Nordeste, e assim por diante.4

Tardiamente fundados os conventos e mosteiros femininos no Brasil, muito mais raros e dispersos do que os encontrados no Peru ou México, inúmeras donzelas, católicas fervorosas, não encontrando instituições religiosas onde pudessem se consagrar de corpo e alma ao Divino Esposo, fizeram de suas próprias casas uma espécie de claustro ou recolhimento — aliás, como ocorrera com santa Rosa de Lima e outras virgens veneráveis biografadas no Fios sanctorum.42 É d. Domingos Loreto Couto, na sua obra extraordinária Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco, quem melhor descreve essa forma extremada de religiosidade privada no Brasil colonial, cujas adeptas foram muito mais numerosas do que a historio-grafia oficial costuma revelar.43 "De 22 donzelas, que por falta de conventos, onde vivessem em perpétua clausura, fizeram de suas casas recolhimento e clausura" é o título do capítulo em que o referido autor trata desse particular.

Na comarca das Magoas, por exemplo, nos inícios do Setecentos, as donzelas Maria de Castro e Beatriz da Costa viveram em perpétua clausura dentro da casa de seus pais, e "se condenaram inocentes a um cárcere de que não saíram senão para o cárcere da sepultura, debilitando o corpo com os rigores de um perpétuo jejum, banhando o corpo com rigorosos açoites, usando penetrantes espinhos em lugar de cilícios, passavam os dias e noites em contínuas oraçôes". No Recife, à mesma época, viveram sete irmãs, filhas de Francisco Mendes de Oliveira e Leonor de Almeida, pessoas nobres e ricas. "Mortos seus pais, se conservaram na própria casa com os resguardos de um mosteiro observante. A sua ordinária habitação era em um oratório que havia na mesma casa, nele perseveraram muitas horas de joelhos, orando mental e vocalmente, derramando neste exercício muitas e copiosas lágrimas. De sua casa as irmãs saíam somente a ouvir missa, confessar e comungar na igreja dos Padres Congregados de 8. Felipe Nery, que lhes ficava mais vizinha, e vinham tão modestamente cobertas, que não se acha quem lhes visse os rostos."44

Algumas biografias dessas recolhidas nordestinas parecem decalcadas na hagiografia das antigas santas cenobitas e anacoretas do Oriente45 e aclimatadas à fauna e flora tropicais, o que certamente lhes confere peculiaridades próprias. Um dos casos mais fantásticos dessa maneira peculiar de religiosidade privada envolve seis irmãs da vila de Muribeca, no termo de Recife, pertencentes à tradicional família Rodrigues da Fonseca. Chamavam-se elas Ana, Luzia, Beatriz, Margarida, Luiza e Maria, "unidas pela afinidade do sangue como conformes pela união das vontades de servir a Deus". Viviam no meio de uma mata, num lugar solitário chamado Macuge, "retiro mais apto para a oração e contemplação dos divinos mistérios". Também desamparadas pela orfandade, essas "seis cândidas pombas" fizeram de sua casa uma inviolável clausura, não admitindo pessoa alguma em seu recolhimento. De todas, sobressaía Maria, que com suas próprias mãos formou de barro e ramas uma casinha tão estreita que mal podia estender seu corpo dormindo sobre uma tábua de quatro palmos de comprido por um e meio de largo. "E para não gastar o tempo nas perversões e preparos para o seu sustento, uma laranjeira que dava os frutos azedos, plantada ao pé da casinha, era a ministra da sua comida e bebida e com o sumo que exprimia de uma laranja, passava dois ou três dias." Era Maria bastante inventiva em sempre descobrir novas penitências para agradar ao Divino Esposo: "Todas as noites vinha à sua cova uma irmã e com uma grossa corda a prendia de pés e mãos, e se retirava, deixando-a amortalhada sobre a terra nua. No meio da casinha, tinham as formigas fabricado o seu aposento e eram elas de certa casta que têm os dentes tão venenosos, que a parte picada por elas incha e causa grande dor. Assim atada de pés e mãos, se entregava às inumeráveis formigas que saindo de suas covas, investiam contra o corpo da serva de Deus que com inalterável paciência e sem algum movimento sofria suas mordeduras".

Cada uma das seis irmãs manifestava diferentes dons e carismas, praticando na privacidade de seus cenóbios suas invenções masoquistas. A donzela Beatriz tinha o dom das lágrimas, "derramando-as continuamente aos pés de Cristo crucificado e com a continuação de tão perene pranto, veio a perder a vista dos olhos". Margarida tinha o dom da multiplicação, nunca faltando novas porções de farinha quando os pobres vinham esmolar à porta de seu recolhimento.

Das seis irmãs recolhidas, de fato, Maria era a predilecta do Senhor: "Zelava tanto o Divino Esposo o retiro e recolhimento desta sua esposa, que em sua guarda pôs uma horrível serpente, chamada cascavel, para que com a extremidade da cauda fazendo ruído sonoro, avisasse aos que passavam e os fizesse retirar medrosos do seu venenoso encontro". Só quando chegava o confessor é que a serpente se enroscava num canto do cubículo, deixando-o caminhar em liberdade, enquanto, para todas as demais pessoas, "assanhada corria logo à porta para impedir a entrada".46

Se para muitas almas cristãs recolher-se do mundo e dedicar-se a toda sorte de sacrifícios e mortificações tinha como inspiração a busca da verdadeira perfeição mística, para outro tanto de beatos e recolhidas, e sobretudo para sua parentela ou agregados, ter santo, penitente ou beato dentro de casa era garantia de prestígio, visita infindável de devotos e recebimento de polpudas esmolas, prestígio social e vantagens materiais. Famílias carnais ou irmandades religiosas disputavam com unhas e dentes o "monopólio" de certas beatas e taumaturgos, ávidas de controlar as espórtulas doadas pelos fiéis.47 Nos processos da Inquisição portuguesa várias são as falsas beatas e embusteiras, algumas degredadas para o Rio de Janeiro ou Bahia, a declarar textualmente que passaram a forjar visões e dons preternaturais com vistas ao reconhecimento social e ao usufruto das mordomias proporcionadas pelos de-votos.48

Outra forma extremada de vivência religiosa era seguida dentro dos recolhimentos e conventos de freiras.49 E entre uma dezena de beatas que em vida gozaram a fama de santidade no Brasil colonial50, a africana e ex-prostituta Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz foi sem dúvida a que amealhou maior laudação por parte de seus devotos em Minas e no Rio de Janeiro: foi considerada "a maior santa do céu, Esposa da Santíssima Trindade, Mãe de Misericórdia, Rainha dos vivos e Juíza dos mortos", e muito mais. Como todo católico de seu tempo, além das orações elementares, Rosa Egipcíaca rezava regularmente os ofícios de Nossa Senhora e de são José. Prolongados jejuns, autoflagelação, procissões noturnas com caveira e santa cruz, eram práticas constantes no recolhimento de Rosa, e tríduos e novenas faziam parte integrante de sua piedade, sendo dedicados a sant’Ana, são Miguel, Sagrados Corações, Menino Jesus, santa Isabel, são Domingos, são Francisco, santo Antônio, Nossa Senhora do Parto etc. Carismática, Rosa Egipcíaca inventou diversos exercícios de piedade que eram devotamente praticados em seu recolhimento e nas casas de seus sectários, entre eles, o "Rosário de Santana": "Promete Santana grande adjutório a quem rezar este seu Rosário da Fidelidade, principalmente na hora da morte. Diz a santa que os devotos que lhe rezarem este seu rosário, à hora da morte apartará deles todos os demônios e 7070 brasas, deixando o enfermo livre de tentações e que lhe virá assistir o seu trânsito e trará consigo Jesus Cristo, seu neto, e Maria Santíssima, sua filha, e passará desta vida em paz e livre de seus inimigos". Em seu íntimo, a negra Rosa assim rezava:

Meu Menino Jesus da Porciúncula: amo Jesus, adoro Jesus, reverencio Jesus, agradeço Jesus, exalto a Jesus, santifico o nome Santíssimo de Jesus agora e sempre e no último suspiro glorifico a Jesus no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Peço ao céu e à terra, peço às flores do campo e peço às estrelas do céu, peço ao sol nos seus raios, peço à lua na sua luz, peço às aves do céu: cantai! Peço aos peixes nas suas conchas, peço aos rios no seu curso e belo correr, peço aos anjos, peço aos santos, peço aos homens e peço às mulheres, peço a todas as línguas e nações remotas me ajudem a dar graças a meu Jesus Crucificado porque nos criou e nos remiu com o seu precioso sangue! Peço à Sagrada Família, a São João Batista, a São João Evangelista, ao meu Anjo Custódio, à Santa de meu nome, que louvem por mim ao Senhor por tantos benefícios e tão grandes misericórdias que de suas liberantíssimas mãos tenho recebido e que me façam uma criatura tal qual ele quer que eu seja! Amém! Jesus, Maria, José eu vos dou o meu coração e minha alma.5

Na alma barroca dessa africana fortemente marcada pelo imaginário religioso europeu, havia lugar para sincréticas intimidades com o sobrenatural por exemplo, ao divulgar que o Menino Jesus vinha diariamente pentear-lhe sua dura carapinha e que, em agradecimento por esse mimo, Rosa Egipcíaca, tal qual as amas-de-leite que abundavam no Brasil escravista, ela própria dava de mamar ao Divino Infante em seu negro peito. Contraditoriamente, enquanto santa Teresa d’Ávila em seus colóquios espirituais tratava o Divino Esposo por "Vossa Majestade", nossos antepassados manifestavam muito maior intimidade com a corte celeste do que com as autoridades constituídas.

 

INTIMIDADES COM O SANTO DE CASA

 

"Santo é que se adula...", diz um ditado antigo repetido na Bahia de Todos os Santos. De fato, na religiosidade popular do Brasil de antanho, a intimidade dos devotos vis-à -vis certos santos e oragos percorria um continuum de amor e ódio, que incluía louvores, adulação, rituais propiciatórios, intimidação e até agressão física explícita.

Um dos traços marcantes da espiritualidade luso-brasileira sempre foi a devoção preferencial de nossos colonos por Maria Santíssima. Tão presente estava Nossa Senhora no imaginário, nos sermões, nas preces, como titular das igrejas e capelas, como Madrinha dos neófitos, nas dezessete festas anuais à Virgem consagradas, que, já em 1574, o italiano Rafael Ouvi, sitiante letrado, preso como blasfemo na capitania de Ilhéus, ponderava que "os portugueses exageravam na veneração às imagens de Nossa Senhora".52 Para mais de um autor, a supervalorização da mariologia entre nós seria uma faceta do machismo ibero-americano, uma sorte de compensação sobrenatural para contrabalançar a inferiorização do segundo sexo na sociedade colonial.53

A intimidade e aproximação da Rainha dos Céus com a vida privada dos colonos luso-brasileiros começa no momento mesmo da iniciação do recém-nascido na comunidade cristã, quando milhares e milhares de brasileiros tiveram como madrinha a própria Mãe de Deus relação sacramentada com a colocação da coroa ou bastão régio da Virgem Maria na cabecinha do batizando e a inclusão de um de seus títulos no seu nome ou sobrenome. Outra manifestação da intimidade dos mortais com a Mãe Santíssima era a particular devoção das mulheres grávidas com Nossa Senhora do Parto, também chamada de Nossa Senhora do Ó ou da Expectação. Sobretudo nos partos mais difíceis, corriam a buscar o manto ou o óleo da lâmpada votiva da Senhora do Parto ou, na falta desta, o manto de são Raimundo Nonato (segundo a hagiografia, nascido de parto cesariano após a morte da própria mãe), sacramentais que eram colocados por sobre a barriga da mulher prestes a parir. No Santuário mariano (1722), frei Agostinho de Santa Maria diz que a imagem de Nossa Senhora do Parto da sé da Bahia era particularmente venerada pelas mulheres casadas "que a ela servem e festejam com muita grandeza, tendo sempre à sua vista uma tão singular protetora, nos seus partos e apertos, principalmente quando estão prenhadas e então lhes fazem as suas novenas e rogativas. E é tradição constante ter obrado muitas e grandes maravilhas com a aplicação do seu manto como se tem visto em partos perigosos. Fazem festa a esta senhora em 18 de dezembro".54

As imagens de Nossa Senhora, como dos santos predilectos, eram tratadas com piedosa adulação: donzelas e anciãs confeccionavam capas e vestidos com ricos bordados para cobrir as estatuetas; brincos, colares e broches preciosos enfeitavam as imagens. O Menino Jesus, em marfim ou madeira, deitadinho na cama, era venerado ora com suas "partes pudendas" à mostra ora envolto com camisa pagã ou roupinhas próprias de sua puerícia. No Museu de Arte Sacra da Bahia ainda podemos ver o berço, os chinelinhos e balangandãs de ouro que faziam parte do enxoval do Divino Infante. O convento das Clarissas do Desterro, a mais antiga clausura feminina da América portuguesa (1677), conserva rica coleção desses Meninos Jesus, tratados como verdadeiros filhinhos pelas Esposas do Verbo Encarnado.

De todos os santos da corte celeste, o lusitano santo Antônio (Lisboa, 1195 Pádua, 1231) foi e continua sendo! — o campeão da devoção popular em toda a cristandade: "Sendo entre todos os portugueses mui particular e em extremo a afecta veneração que se tem ao nosso Santo Antônio de Lisboa, passa a extremosa a que nestas partes do Brasil lhe mostram geralmente todos. Porque além das muitas igrejas paroquiais, de que é titular, são inumeráveis as capelas e ermidas consagradas a seu nome, e fora destas não há algumas das outras que nos seus altares não coloque uma e muitas imagens de Santo Antônio. Não há casa que o não venere no seu oratório e não satisfeita ainda com isto, a comum devoção dos fiéis, cada um quer ter só para si o seu Santo Antônio".55

De fato, sant’Antoninho, como era carinhosamente chamado, é por excelência a devoção familiar de maior voga também na América portuguesa: "Nos nichos de pedra, pintado em azulejos, a guardar as casas, em caixilhos de seda à cabeceira da cama a vigiar-nos o sono, nos escapulários e bentinhos junto ao peito, a acautelar-nos os passos, esculpido e pintado para preservar dos perigos, pintados nas caixas de esmola, nos santuários e oratórios",56 lá está sempre santo Antônio, o geral refúgio das tribulações e advogado das causas perdidas.

Se hoje em dia o santinho lisboeta é mais comumente invocado como deparador das coisas perdidas e "cupido" celestial, nos tempos do cativeiro, além de ter recebido em diferentes capitanias patentes de soldado a coronel, santo Antônio desempenhava função menos dúlcida: foi o principal colaborador dos senhores na captura dos negros fujões.57

Em pleno século XIX, o viajante inglês Thomas Ewbank ainda observou as intimidades com que os devotos fluminenses tratavam esse santinho no recesso do lar, o que atesta a persistência da devoção íntima. Lembrando que o santo era "constantemente chamado nos casos de escravos fugidos, cavalos extraviados e roubos", registra que, "como milhares", certa senhora trazia sua imagem no peito, além de guardá-la em sua casa e rezar para ela diariamente.

Para convencer-me que era um santo muito milagroso mencionou que ele recambiou de volta um escravo de sua mãe após longa ausência, o mesmo sucedendo com um outro escravo muito valioso, que após ter escapado, foi forçado a voltar para casa. Confessou que torturando sua imagem, acelera o atendimento do pedido. Eis as medidas ensinadas por sua mãe e adotadas pela Senhora deve-se acender uma vela na frente do santo e pedir d( para mandar o fugitivo de volta e cuidar da imagem e G não dar descanso até que retorne. Passadas algumas semanas, se não voltar, deita-se o santo com a face para baixo e põe-se uma pedra pesada em cima.58

Segundo ela, os maus tratos justificavam-se pelo fato de o santo em vida ter desejado o martírio. Quando o negro fujão voltava, o santo era celebrado, colocando-se a imagem na mesa ladeada de duas velas. Caso contrário, ficava num poço escuro.

Para efeito de obter a intercessão de sant’Antoninho em aproximações amorosas e enlaces conjugais, tiravam-lhe as devotas o Divino Infante de seu braço só o restituindo depois de obtido o milagre, ou então arrancavam-lhe o esplendor, deixavam-nos dias seguidos de cabeça para baixo, pregando uma moeda no lugar da rasura.59

O mais curioso desses expedientes tão pouco "católicos"60 é que até luminares da grandeza de um padre Antônio Vieira, indiretamente, estimulavam essa piedosa e sacrílega chantagem com aquele que na Idade Média foi chamado de "Martelo dos Hereges" e a quem Vieira consagrou nove homilias. Eis os conselhos do orador jesuíta:

Não haveis de pedir a Santo Antônio como aos outros, nem como quem pede graça e favor, senão como quem pede justiça. E assim haveis de pedir a Santo Antônio: não só como a quem tem por ofício deparar tudo o perdido e demandando como a quem deve e está obrigado a o deparar. E senão dizei-me: porque atais e prendei esse santo, quando parece que tarde em vos deparar o que lhe pedis? Porque deparar o perdido em Santo Antônio não só é graça, mas dívida. E assim como prendei a quem vos não paga o que vos deve, assim o prendeis a ele. Eu não me atrevo nem a aprovar esta violência, nem a condenála de todo, pelo que tem de piedade.61

Essa violência contra os simulacros dos santos que o próprio padre Vieira sentia-se pouco à vontade para condenar - freqüentemente chegava às raias do sacrilégio e iconoclastia. "Judiar" de imagens ou símbolos sacros era impiedade amiúde atribuída sobretudo aos judeus e cristãos-novos —acusados nas Visitações do Santo Ofício ao Brasil de meter o Crucifixo dentro do urinol cheio de fezes, ou de pinicar gravuras de Nossa Senhora com agulha ou ponta de punhal.62 Essa forma de impiedade pode ser interpretada como uma manifestação da afirmação religiosa de crentes de outros sistemas religiosos, que, forçados a publicamente praticar a única religião permitida, o catolicismo, no secreto do lar, ao lado das devoções herdadas de seus ancestrais, vingavam-se de maneira sacrílega naqueles símbolos cristãos que em público eram obrigados a venerar. Igual aos missionários católicos, que no Novo Mundo e na África desacreditavam, destruíam e queimavam ardorosamente os ídolos dos pagãos. Estes dois casos, ocorridos respectivamente em Sabará em 1762 e em Mariana na década seguinte, matizam a multiplicidade das razões da violência contra as imagens sagradas: Rosa Gomes, quarenta anos, preta-mina, forra, moradora à rua das Bananeiras, "certo dia, vendo-se desesperada em sua casa entre quatro paredes, solitária e sem ventura, pedia aos santos e lha não davam e não achando pau nem corda para se enforcar, assim desesperada e fora de si, alienada do juízo, tirando de si as contas e bentinhos, quebrara a machado as imagens de Nossa Senhora e Santo Antônio, arrancando os braços e cabeça do Menino Jesus"i Quanto à mulata Ana Jorge, moradora na Paragem dos Monsus, em Mariana, sobre ela pesava a fama que judiava dos santos, metendo-os debaixo do colchão antes de fornicar com seus amantes, e depois de açoitá-los, jogava-os na parede dizendo: "já que não lhe fizeram o que pedira, que levassem socos e açoites".63

Se santo Antônio e outros oragos da corte celeste católica não cumpriam o desejo e promessas dos devotos — das devotas, particularmente —, sobretudo em questões amorosas e conjugais, inúmeras alternativas menos ortodoxas podiam ser acionadas pelas pessoas mal-amadas visando o mesmo fim. Cartas de amor, cartas de tocar, simpatias, pactos explícitos com o diabo, ensalmos e orações fortes, emborca proibidas pelas Constituições do Arcebispado da Bahia e perseguidas pelo Santo Ofício, faziam parte da crendeirice do povo.64 Este outro exemplo, ocorrido também em Mariana no ano do Senhor de 1770, mostra o quão fértil e sincrética era a imaginação popular em questões de feitiços amatórios: infeliz e impotente em controlar as traições de seu marido, a crioula forra Caetana Maria de Oliveira aprendeu variegado cardápio de infalíveis simpatias destinadas a impedir que seu homem "pulasse a cerca". A escrava Caetana, assistente no Sumidouro, ensinoulhe que cortasse uma parte de sua camisa onde caíra o sêmen e enfiasse-lhe uma conta do rosário com um alfinete enterrando-a no chão onde ele costumava urinar, e raspasse a unha dos dedos grandes de suas próprias mãos e pés e ajuntasse esse cisco com a água que lavava o sovaco e lhe desse de beber, passando um ovo entre suas pernas e lhe desse de comer.

 

Outra mulata, Maria de Jesus, sugeriu que fizesse uma rodilha com a roupa usada de seu marido e a pusesse atrás da porta com uma pedra em cima. Dona Antônia Silva Leão, mulher de um doutor, passou-lhe outra receita: que medisse com um barbante a porta por onde seu marido costumava sair de casa e cingisse santo Antônio com o cordão, prendendo-o e tirando-lhe o Menino Jesus, e metendo-o numa caixa fechada, rezando treze padre-nossos e treze ave-marias pela alma de sua tia por treze dias seguidos. Manoel Afonso Galvão instruiu-a de que pregasse na roupa de seu esposo uma agulha que houvesse amortalhado um defunto; João da Costa Leão aconselhou que cortasse parte da roupa onde caiu esperma do marido infiel e metesse debaixo do pote de beber água: "tudo lhe ensinaram por ela se queixar que seu marido andava mal encaminhado com outras mulheres e não fazia caso dela"165

Dentro de casa é o espaço primordial onde têm lugar as práticas religiosas, não só as devoções individuais das almas mais pias, que por virtude e humildade buscavam o recesso do lar, como também aquelas devoções que por heterodoxas melhor convinha que fossem praticadas longe do público.

A privacidade do lar — seja da casa-grande ou de humildes palhoças de desclassificados — muitas vezes era invadida por frades, beatos ou até familiares do Santo Oficio, todos relacionados, de formas variegadas, à perpetuação dos valores religiosos inspirados na Santa Madre Igreja. Admoestação é o que não faltava, por parte dos moralistas, para prevenir o perigo representado pelas visitas, seja de leigos, seja de religiosos, às casas de família: "Quisera eu as casas de um só gargalo", dizia Francisco Manuel de Meio, autor da Carta de guia de casados, discorrendo sobre as desonras provocadas por negras, mulatas, ciganas, ermitoas, adelas, trejeitadores, chocarreiros, bufarinheiros, freiras, frades etc., "tudo é malíssimo", posto introduzirem no gineceu, às escondidas do paterfamilias, a cizânia da malícia, dos enredos e imoralidades.66 O processo contra o clérigo menor João Rois de Morais, 21 anos, natural de Miranda, ilustra o quão intensa e acrítica devia ser a vivência religiosa dentro do recesso do lar, tomando como amostra as choupanas de negros e mestiços das Gerais.

O tal clérigo vivia de vender pelas minas do Serro Frio todo tipo de produtos religiosos — bentinhos, contas, verônicas, ágnus-deis, relíquias e indulgências —‘ tendo como principal clientela a timorata escravaria, que em troca de bocadinhos de ouro e pepitas de diamantes, recebia poderosos sacramentais com os quais garantia "que se livravam de cobras e bichos e podiam meter-se debaixo d’água sem perigar"~ A uma negra vendeu um fantástico rosário cujas contas, cada qual "valia mil anos de perdão"i À preta Manuela, viúva forra, para lhe dar certas indulgências de Roma, fechou-a porta adentro de sua casa, mandou que tirasse o quimão e ficasse nua da cintura para cima, para lhe apertar um cilício e açoitar com disciplinas, e, tendo esta repugnado tal penitência, ele lhe rasgou a camisa dizendo "que ela não sabia aproveitar o que era tão grande bem para a salvação!".

Entre suas relíquias, as mais valorizadas eram lasquinhas da cruz do Cristo e um papelzinho com leite em pó da Virgem Maria!67 A preta-mina Joana, 22 anos, residente em Itabira, comprou relíquias de Jerusalém no valor de seis vinténs de ouro: mandou então o clérigo simonista que a devota se ajoelhasse e começou logo a perguntar pelos seus peca-dos contra a castidade, e de penitência mandou que jejuasse a pão e água numa sexta-feira e "deu-lhe disciplinas na bunda com a saia levantada’ pondo-lhe cilícios nos joelhos. Idêntico ritual sádico praticou com Quitéria, escrava mina de 25 anos, recomendando-lhe que, "quando tivesse alguma coisa com algum homem, tirasse a relíquia do pescoço". Ao preto Faustino, forro de trinta anos, após confessá-lo (sem ter licença para tanto), mandou que ficasse nu, penitenciando-o com duzentos açoites enquanto recitava o salmo "Misere". Uma negra que assistia a tais cerimônias interpretou acertadamente o que estava por trás desses rituais: "tudo era maganagem do clérigo!".68

 

SIMPATIAS DOMËSTICAS

 

Apesar de a hierarquia católica ter se oposto rigorosa-mente, desde os tempos apostólicos, a todas as religiões não cristãs, rebaixando-as à condição de idolatria, superstição e feitiçaria, na prática, muitas vezes, outra era a realidade, sobretudo abaixo do equador. No Nordeste, nas Minas e no resto da Colônia, são freqüentes as denúncias contra homens e mulheres que recorriam aos feiticeiros e feiticeiras em especial quando os exorcismos da Igreja e os remédios de boticanao surtiam efeito na cura de variegada gama de doenças. Já em 1672 o esculápio Simão Pinheiro Morão, ao tratar dos "abusos médicos que nos arrecifes de Pernambuco se observam’; reparava que os colonos, padecendo de doenças desconhecidas dos médicos, "recorrem logo aos feiticeiros valendo-se das artes do demônio antes que das da natureza. E o pior éque devendo os párocos e curas de almas atalhar estes embustes, não faltou um nestas Capitanias quem mandou consultar para um enfermo seu a um destes embusteiros, dizendo: agase ei míiagro, e agalo ei Diabio".69 Diversos são os padres e frades acusados ao Tribunal da Inquisição de terem encaminhado seus fregueses aos calunduzeiros, reconhecendo a melhor eficácia dos negros no alívio de certas doenças físicas ou emocionais.

As Constituições do Arcebispado da Bahia consagram diversos parágrafos às "feitiçarias, superstições, sortes e agouros — condenando quem praticasse artes mágicas à pena de excomunhão maior ipso facto: "sendo plebeu, será posto à porta da Sé em penitência pública com uma carocha na cabeça e vela na mão num domingo ou dia santo de guarda, no tempo da missa conventual e será degradado para o lugar que determinar o Arcebispo". Reincidindo no mesmo delito, deveria ser primeiro degredado para a África, e depois para as galés de elrei. Igualmente excomungados ficavam aqueles que utilizassem cousas sagradas, como pedra de ara, sanguinho e corporal como ingredientes de bolsas de mandinga e patuás ou a fim de "ligar, desligar, conceber, mover, parir ou qualquer outros feitos bons ou maus’; assim como os que usassem palavras ou cartas de tocar para afeiçoar e alienar homens ou mulheres ou fizessem adivinhações de cousas secretas e casos futuros, inclusive as rezas à lua, estrelas, "fazer deprecações aos santos com certas cerimônias’; interpretar sonhos e prognosticar o futuro com base nos vôos e cantos das aves ou vozes dos animais. Ordenava-se aos párocos que advertissem, nos confessionários e nos púlpitos, "para que de todo modo se extinga este ressaibo do gentilismo neste nosso Arcebispado, no qual cada dia entram gentios de várias partes"i E embora reconhecendo o poder que Deus Nosso Senhor deixou a seus discípulos para curar os enfermos, proibia-se "que se benza gente, gado ou quaisquer animais, nem use de ensalmo e palavras para curar feridas e doenças ou levantar espinhela, sem por antes ser examinado pela autoridade eclesiástica e aprovado, devendo levar licença por escrito"71

Malgrado a preocupação da Inquisição e da própria legislação real, proibindo a prática das feitiçarias e superstições,72 no Brasil antigo, em toda rua, povoado, bairro rural ou freguesia, lá estavam as rezadeiras, benzedeiras e adivinhos prestando tão valorizados serviços à vizinhança. Quando missionava na zona rural de Pernambuco, na Quaresma de 1762, um frade capuchinho publicou na freguesia de Serinhaém os editais do Santo Ofício, obrigando os fregueses a denunciarem, no prazo de trinta dias e sob pena de excomunhão maior, a todos que fizessem uso de benzeduras e superstições. Tal iniciativa redundou na delação de uma centena de moradores, sobretudo gente da arraia-miúda, envolvidos com sortilégios e devoções proibidas pela Santa Madre Igreja.

Eram variadas as práticas e a expertise desses humildes heterodoxos do agreste pernambucano, residentes nos engenhos do Anjo, Sibiró, Palma, Cavalcante, Caité e Ipojuca: João, preto, escravo, benzia panos para estancar sangue das feridas; os pardos Faustina e João Dias faziam quimbandos, enquanto Joana, também parda mas forra, benzia quebranto, olhado, carne-quebrada, ventre caído e bicheira, e Maria da Cruz, de igual condição, benzia olhado e carnes-quebradas. Luzia da Costa, viúva velha, fazia toda casta de benzeduras em meninos, e Francisca Nunes, igualmente viúva, curava retenção de urina com rosário e livrinho de letras redondas. Com uma caixinha do Senhor do Bonfim, o ermitão Manoel Peregrino curava de cobras, feitiço e dor de dente, cortando pequenos talhos com uma navalha na coroa das pernas dos homens e na chave da mão das mulheres; untava os talhos com sua saliva e mandava rezar sete padre-nossos e sete ave-marias. A viúva Teresa de Barros, preta forra, benzia olhado, curava bicheiras e tirava sol e carne-quebrada com novelo e agulha, curando com orações para abrandar e conseguir a quem queria; fazia ainda orações de santa Helena, vestida em trajes de defunta com muitas velas acesas para vencer as mulheres para homens e homens para mulheres. Bárbara, crioula escrava, curava carne-quebrada cosendo com uma agulha no novelo; Manoel de Castro, branco, viúvo, curava baço, tábua, obstruções, tudo com uma casca de caranguejo fazendo cruzes, e o mesmo fazia seu filho, dando talho na barriga com uma navalha. Antônia Rois e Luzia Costa, sua mãe, da ilha dos Coqueiros, curavam com benzedura espinhela caída, bicheira e quebrantos. Ana Rangel curava carne-quebrada e tirava sol com uma ventosa na cabeça dos enfermos. José Domingos benzia feridas de boca.

Brancos, pardos, negros livres e escravos sucedem-se nessa denúncia, usando a oração da estrela para sujeitar vontades, benzendo para abrandar o coração dos brancos, rezando a santo Antônio para achar coisas perdidas, e, para tal, medindo com um cordão a porta por onde um escravo fugira; ou ainda orando para estancar sangue; havia os que recitavam mandinga para ser valente, e as que curavam a "madre" ou o sapinho da boca com benzeduras.

Algumas dessas denúncias registraram oraçôes. O capitão Constantino Vieira do Amparo benzia bicheiras, cosia carne-quebrada e quem estava engasgado; para erisipela, o capitão usava de benzedura especial: "Ia Pedro e Paulo para Roma, Jesus encontrou e lhe perguntou: onde vais Pedro? Vou a Roma, Senhor, que há de novo? Muita erisipela. Torna para lá Pedro e dize que lhe ponham o céu da minha oliva, que logo serão sãos"i Repetia essas palavras cinco vezes e mandava rezar cinco pai-nossos e cinco ave-marias.

Para curar maleita, Francisco Rois escrevia em três pape-linhos: "Cristo nasceu, Cristo morreu, Cristo ressuscitou". Certa Joana benzia madres dizendo: "Eu te desconjuro, madre, pela bênção do Deus padre, e da espada de Santiago, pelas três missas do Natal, que te tire donde está e te vás para o teu lugar, que deixes fulana sossegar prática que suscitara a proibição dos confessores e a levara a abandonar as bênçãos. Ainda para maleitas, João Rodrigues Aguiar, filho de família, benzia assim: "Sexta-feira pela luz puseram a Cristo na Cruz, perguntou Pilatos a Jesus: tu tremes ou treme a cruz? Não tremo nem tremerei, mas treme esta cruz de madeiro que comigo não podia. Quem se lembrar da minha morte e paixão, maleitas não tremerá", mandando o enfermo rezar sete pai-nossos e sete ave-marias pela paixão, e daí por diante.73

Não deixa de ser surpreendente que, numa pequena vizinhança da zona rural, mais de uma centena de cristãos praticassem tão abertamente toda gama de bênçãos proibidas, pelas quais poderiam ser punidos com castigos tão graves —excomunhão, multa pecuniária, açoites e até degredo para África ou galés. Tais práticas heterodoxas remetem-nos a dois aspectos peculiares do mundo colonial que estão a merecer maior investigação: de um lado, a tênue fronteira entre a piedade lícita e a condenada pela hierarquia, do outro, a in~nferença, para não dizer comprometimento, do clero luso-brasileiro vis-à -vis tais práticas supersticiosas.

Muitos são os colonos processados pelo Tribunal da Fé que honestamente disseram ignorar que os exercícios de piedade por eles praticados constituíam desvio do Rituale Roma-num e matéria do conhecimento da Santa Inquisição. Não apenas rústicos vaqueiros e tabaréus do sertão, devotos dos disputados patuás e bolsas de mandinga,74 mas também doutos sacerdotes reinóis resvalavam neste terreno dúbio que separa as devoções aprovadas daquelas consideradas delituosas: nos primeiros anos do século xviii percorreu o Bispado de Pernambuco e da Bahia o vigário-geral dos dominicanos no Brasil, frei Alberto de Santo Tomás, português proveniente do convento de São Domingos de Lisboa. Por uma década, esse frade foi incansável lutador contra os feitiços dos negros: "no confessionário e nos sermões, exortava a que as pessoas evitassem os negros que tinham trato com o demônio e que procurassem os exorcismos da Igreja, por ser remédio mais seguro e eficaz". Sempre preocupado em desviar os fiéis dos embustes do diabo e das falácias dos feiticeiros, frei Alberto passou a adotar certas cerimônias e rituais que competiam, no apelo dos sentidos e utilização de elementos materiais, com as práticas costumeiras dos mandingueiros, calunduzeiros. Dizendo ser procurado por pessoas que sentiam ânsias no coração, picadas por todo o corpo, que perderam o sono e a vontade de comer e estavam mirrando desenganadas dos médicos, inspirado no livro do padre Bento Remígio, seguia sempre o mesmo ritual para exorcizar tais enfados: mandava o enfermo começar com um dia de jejum e dar-lhe algumas esmolas para celebrar missas. Em seguida, vestido com a estola e sobrepeliz, benzia a água e o sal, e com essa água benta aspergia o doente que, de joelhos, conservava uma vela acesa. Mandava que trouxessem as roupas de cama e de uso pessoal do enfermo, e muitas vezes encontrava aí escondidos bonecos de feitiço, retalhos suspeitos, bichos vivos, mandando queimar tais sevandijas. Ordenava também às pessoas que lhe dessem mirra, ouro moído, cera, sal, folhas de oliveira, arruda, e, benzendo cada coisa, misturava-as e repartia em quatro ou mais partes, metendo-as em bolsinhas, mandando-as coser nos colchões e determinando que uma delas fosse trazida dependurada no pescoço ou presa na roupa.

"Tais práticas surtiram admiráveis efeitos: pessoas lançavam do corpo alfinetes, penas, anzóis, bichos, cordéis de algodão, linho, olhos de vários animais, espinhas de peixe muito grandes, dentes de gente, unhas grandes, cabelos de sovaco, cabelo de negro, alguma areia, pedaços de peles de animais e outras muitas imundícies:’ Temendo que tais rituais fossem interpretados como feitiçaria, ele próprio tomou a iniciativa de submeter-se ao escrutínio dos reverendos inquisidores. Aí mais uma vez manifesta-se quão vaga e escorregadia era a definição do certo e errado em matéria de rituais. Quatro ilibados teólogos opinaram sobre esse imbróglio: um franciscano não encontrou nada de errado na prática de frei Alberto, louvando ter afastado os fiéis das cabanas dos feiticeiros negros graças aos rituais de Remígio; um padre oratoriano notou certas imprecisões na liturgia dos saquinhos abençoados pelo missionário dominicano, embora lembrasse que também o profeta Tobias e são Jerônimo haviam defendido que certas ervas e pedras podiam ser usadas como poderoso antídoto contra o demônio. O terceiro qualificador, jesuíta do Colégio de Santo Antão de Lisboa, reputou imprópria a mistura dos ingredientes citados pelo confessor, concluindo que "tudo parece embustes do demônio e contra-feitiços"i O último exami nador, também inaciano, fez uma análise histórica, teológica e moral dessa matéria: "Ë admirável que haja tantos energúmenos entre gente pobre e desvalida! A pobreza multiplica os endemoniados, assim também a ignorância multiplica os exorcistas’ A despeito do discurso tão racionalista deste último sacerdote, na sentença do julgamento, os inquisidores concluíram que as práticas e rituais de frei Alberto não se configuravam como heresia, nem em suspeita de pacto com o demônio, nem sequer superstição; contudo, para se manter a homogeneidade do ritual católico e evitar dúvidas no tocante à expulsão dos demônios, determinaram que o dominicano "só usasse dos exorcismos que manda o Ritual Romano’; abandonando as abençoadas bolsinhas piedosamente trazidas pelos colonos no pescoço ou na cama de dormir.75

Um segundo aspecto característico do cotidiano religioso no Brasil de antanho, conforme anunciamos acima, era a relativa indiferença do baixo clero em face de certas práticas e rituais explicitamente condenados pelas Constituições do Arcebispado da Bahía. Apesar de todas as citadas benzeduras e rituais constituírem grave pecado mortal, cujo perdão dependia de licença especial da autoridade eclesiástica, verdade seja dita, não só os párocos locais como o próprio Tribunal da Inquisição de Lisboa no mais das vezes usaram de surpreendente indiferença em face de tais desvios, tão comuns na América portuguesa. Âs vezes, tem-se a impressão de que certos comissários do Santo Oficio, no arremedo de cães de guarda da Inquisição, eram até um pouco mais severos do que o determinado pelo regimento, usando de arbítrio ao prender e seqüestrar os bens de algumas feiticeiras ou colonos mais irreverentes e ousados — como ocorreu, verbí gratia, com a citada negra de Sabará que picou com o machado algumas imagens de santos: o comissário mandou prender e seqüestrar os porcos e galinhas dessa pobre negra maluca, recebendo alguns meses depois ordem do próprio tribunal lisboeta, no sentido de que não mais seqüestrasse nem enviasse para o aljube réu algum sem ordem prévia assinada pela Mesa da Inquisição.

Tal indiferença mostra que o clero fazia vista grossa não apenas às superstiçôes mais leves, originárias do medievo europeu, mas também para os rituais heterodoxos tribais, fossem ameríndios ou africanos, fortemente marcados pela idolatria. Poucos sacerdotes pensavam e agiam como este cônego na sé de Belém, o comissário Manoel de Almeida, que em 1737 assim oficiava à Santa Inquisição: "[de] feitiçarias e diabruras, a que dão o nome de descimentos, está esta terra infeccionada, assim entre a gentilidade como ainda gente branca. Ëcerto que destas coisas têm bastante notícia as Justiças Eclesiásticas e Seculares, mas não fazem caso. Ë o que se me oferece dar conta a Vossas Reverendíssimas que mandarão no que forem servidos".76 Não mandaram nada os senhores inquisidores, pois somente três décadas depois é que terá início a Visitação do Santo Ofício ao estado do Grão-Pará e, embora diversos tenham sido os denunciados por feitiçarias e pajelanças, poucos chegaram de fato a ser enviados para os cárceres secretos do Rocio.77

A avaliação em forma de mea-culpa feita pelo comissário do Santo Ofício do Rio de Janeiro, o carmelita frei Bernardo de Vasconcelos, após assumir ter sido omisso quando não deu parte à Mesa Inquisitorial das superstições e desatinos da "embusteira e falsa santa" Rosa Egipcíaca, reflete o marasmo reinante mesmo entre aqueles que tinham como função reprimir as heterodoxias: "Deus sabe os grandes remorsos que combatem a minha consciência pela omissão que tenho tido em expor, na presença de Vossos Ilustríssimos Senhores, ao que estava obrigado, não só como Comissário e religioso, mas como cristão, porém o crivo do Brasil é muito largo, e passa não só a farinha e o farelo mas ainda o grao inteiro passa".78

Nas Minas Gerais, grande era a soltura dos praticantes do calundu: não apenas o famoso autor do Peregrino da América teve seu sono prejudicado pelo "estrondo dos atabaques, pandeiros, canzás, botijas e castanhetas, com tão horrendos alaridos que se me representou a confusão do inferno",79 como até sacerdotes, vizinhos de casas onde tinham lugar tais "cerimônias diabólicas’ sentiam-se impotentes para impedir a continuação do que na época era considerado culto ao diabo e matéria bastante para excomunhão e severos castigos. Eis os reclamos de um sacerdote mineiro:

 

 

Pela obrigação que tenho, como Pároco, eu, Padre Manoel Ribeiro Soares, morador na Freguesia de Itaubira, denuncio que Angela Maria Gomes, preta forra, padeira~ de nação Courá, é público e notório que é feiticeira há a anos e todas as noites, das 3as. e 6as. feiras, depois da meia noite, na casa da dita, há uns calundus do inferno, estrondos horrendos que muitas vezes fazem tremer as casas em que vivo e numa noite de julho de 1759, fez tais diabruras, que me privou do sono. Os ruídos que fazem no calundu parecem peças de artilharia, tão horrendas as algazarras e estrondos, roncos de porcos medonhos e cavalo relinchando e vários instrumentos do inferno e no fim gritaria de galinhas.80

Este outro documento, da década posterior, revela o quão patente e corriqueira era para alguns clérigos a presença do sincretismo africano mesmo junto à sua parentela. Trata-se de uma carta do padre Francisco de Palhares, coadjutor na igreja de Antônio Dias, ao padre Jerônimo Cardoso Maynard, de Vila Rica, datada de 1774: "Tenho notícia por meu cunhado e irmão que a boa sogra de meu irmão, Ana Maria das Neves tem uma casa de calundus ou feitiçarias, em que praticam vários atos supersticíosos de pacto com o Demônio. E como estas matérias se devem considerar com prudência e o Edital do Santo Oficio obriga a denunciá-la aos Comissários, rogo a V. Excia. me faça informar a verdade para sossego de minha consciência’8’ Apesar de essa matéria ter chegado ao conhecimento do comissário local e do promotor do Santo Oficio de Lisboa, nada aconteceu ao clérigo nem a esta calunduzeira de Vila Rica.

Até as freiras do mais insigne mosteiro colonial, o de Santa Clara do Desterro, não estavam isentas dessa familiaridade "sincrética" com os rituais dos gentios da Guiné. Soror Maria Bernardina de Santa Teresa, do convento do Desterro, Salvador, denuncia que no mesmo convento "veio 3 vezes uma preta chamada Teresa Sabina, que ouviu dizer morava em Santo Antônio do Carmo, no mês de setembro de 1758, entrou no Convento a curar a uma religiosa chamada Maria Teresa Josefa com abusos de sua terra, pondo-lhe o pé em cima de uma caveira de carneiro, lavando o pé e cantando a sua língua e mandando esfregar o corpo da religiosa com um tostão de cobre".82 A presença de numerosas escravas negras e mestiças intraclaustro certamente favorecia a entrada, em tais instituições religiosas, de práticas e crendices nem sempre aprovadas pelo oficialato católico.

 

SEGREDO E SECRETO

 

Se por um lado notava-se em certos momentos e espaços da sociedade colonial corajosa ousadia por parte dos heterodoxos, fossem eles cristãos-novos, protestantes, adeptos das religiões tribais ou de feitiçarias de inspiração européia, todos eles negligentes ao risco de serem enquadrados nos draconianos artigos das Constituições do Arcebispado da Bahia ou, pior ainda, cair nas malhas do Tribunal da Inquisição, são igualmente evidentes os muitos cuidados tomados pela grande maioria dos desviantes no sentido de manter ocultas as crenças e rituais que pudessem despertar a repressão da justiça civil, episcopal ou inquisitorial.

Era no secreto do lar, a portas fechadas e com toda a cautela, por exemplo, que os cristãos-novos continuavam a praticar a Lei de Moisés e algumas tradições síncréticas herdadas de seus antepassados hebreus. Fernando Henriques Alvares, 37 anos, tratante de gados, reinol natural da vila de Moura e então morador no rio São Francisco, termo de Penedo, foi preso em Pernambuco em 1730. Seu tio Simão Rodrigues, cristão-novo, lavrador de canas na Paraíba, ensinou-lhe em segredo como salvar sua alma na Lei de Moisés: devia fazer jejum aos sábados, só comendo depois de sair a estrela; realizar oblações e se lavar muitas vezes, sempre antes de cear; não comer carnes proibidas; molhar os beiços com o dedo antes de beber; guardar a carne em um pano e o caldo e a couve lançar no vaso imundo; rezar com as mãos abertas e as palmas levantadas, recitando os salmos na língua castelhana, omitindo o Gloria Patri no final.83 Tomás Pinto Ferreira, 56 anos, roceiro, nascido na vila do Sardoal, bispado de Braga e morador na vila Boa dos Goiases, preso em 1758 com ordem de seqüestro, seguia tradições ainda mais estritas no tocante aos tabus alimentares: em casa de um seu cunhado foi-lhe ensinado que para se salvar na Lei de Moisés não devia comer carne de porco, lebre ou peixe de pele, amêijoas ou berbigão, nem carnes ensacadas e presuntos; devia guardar os sábados, rezar o padre-nosso sem dizer Jesus no fim e quando jejuasse, só podia comer uma vez à boca da tarde.84

Fernando Gomes Nunes, cristão-novo, 44 anos, natural de Braga, morador nas Minas Novas dos Goiases, freguesia de São Félix do Conquistado, preso em 1733, declarou que 22 anos atrás, na vila de Belmonte, na Guarda, disse-lhe o pai que "havia de viver pela Lei de Moisés que era boa para a salvação das almas, fazendo o jejum pequeno dos oito dias antes do dia grande de setembro, em março o jejum da Rainha Esther e outros mais". A partir daí passou a guardar o sábado, cortando as unhas, fazendo a barba e vestindo camisa lavada na sexta-feira à tarde. Disse mais, que no Ribeirão do Carmo, em Minas Gerais, dezessete anos antes, em casa de Francisco Ferreira Isidoro, mineiro, estando com outros judaizantes fizeram o grande jejum, e, doze anos antes, repetiram-no em casa de outros cristãos-novos moradores na cachoeira do Ouro Preto, no rio das Contas e em Guarapiranga. Conclui sua confissão com este comentário: "Faziam o jejum mas tinham medo dos escravos, sobretudo das escravas".85 De fato, diversos amos e senhores foram denunciados ao Santo Ofício por seus escravos, sobretudo por sodomia e judaísmo.86 Entre esses nosso maior teatrólogo colonial, o carioca Antônio José da Silva, o Judeu, autor da famosa Guerra do alecrim e da manjerona, cuja escrava Lourença informou ao Tribunal da Inquisição que sua senhora "chegou com um tição de lume à sua cara, querendo-lhe meter na boca", caso denunciasse as judiarias presenciadas por seus amigos cristãos-novos do Rio de Janeiro.87

"O segredo é a alma do negócio’, diz antigo brocardo popular, cuja prática e validade também funcionava em questões religiosas, seja pela obrigação imposta pelos inquisidores a todos os seus funcionários e réus de assinarem o "Termo de Segredo’ comprometendo-se a jamais dar publicidade a tudo o que viram, ouviram ou falaram perante o Santo Ofício, seja pelos próprios praticantes de rituais heterodoxos, que faziam do segredo não apenas a camuflagem contra denúncias e inquirições, mantendo também o monopólio exclusivo da manipulação de certos poderes preternaturais. Eis um exemplo documentado em Itapoã, nos arrabaldes da cidade da Bahia, em 1789: ali vivia Francisco José de Matos, pardo escuro, "que cura cobras com palavras e benzeções supersticiosas, trazendo uma cobra viva na algibeira a qual manda às pessoas segurar enquanto faz uma cruz no chão". Costumava dizer que "não dava o segredo da cura nem a seu filho".88 Até hoje, pais-de-santo e mães-desanto deste Brasil afora continuam guardando zelosamente o "fundamento" de seu "axé’ partilhando-o somente com bem poucos iniciados. Em Itaparica, as assustadoras máscaras usadas no culto dos egunguns são guardadas a sete chaves numa casinha destinada apenas a esse fim, cujo acesso, até hoje, é restrito a um ancião zelador.

Nalguns casos, como do citado curador de cobras, o sigilo tinha como escopo evitar indesejada concorrência de terceiros: no mais das vezes, contudo, mantinham-se secretas certas devoções pessoais ou cerimônias religiosas pelo temor de que os donos da cruz alçassem a espada para separar o joio do trigo. Três são os artifícios principais utilizados pelos heterodoxos coloniais a fim de burlar a vigilância inquisitorial: realizar as cerimônias proibidas em locais reservados ou distantes do olhar de outsiders; ocultar-se na calada da noite; camuflar-se.

No morro de Santana, no termo de Mariana, sede do Bispado, no ano de 1758, Francisco, nação Angola, curador de feitiços, costumava dar a seus clientes certos remédios de plantas que logo lhes provocavam vômitos. Chegando às casas, "num quarto retirado, tirou da algibeira uma caixinha redonda e abrindo-a, num papel escrito como em grego, uma pedrinha começou a bulir e andar em redor, e conversando com a pedrinha, respondia com sinais de sim e não".89

Mais cauteloso ainda, outro curador, Manoel Mina, morador na Cata Branca de Itaubira, 1762, "fazia certas dançarolas ocultas numa camarinha e para não verem o que fazia, tampava o buraco da chave com uma baeta pela parte de dentro e depois de acabarem as dançarolas, cortaram a cabeça de um galo e pela manhã o botaram vivo no terreiro".90 Vários feiticeiros e adivinhadores retiraram-se para o secreto de um quarto ou ao recôndito de uma camarinha a fim de realizar seus rituais.

Alguns adeptos dos rituais africanos optavam por instalar seus locais de culto distantes da povoação, não apenas para estarem mais próximos aos cursos d’água e de florestas mais densas, habitat propício para o contato com os deuses d’África, mas também para gozar de privacidade e escapar dos olhares e ouvidos repressores dos donos do poder. A casa-templo de Josefa Maria, líder do ritual Acotundá, ou Dança de Tunda, um protocandomblé proveniente da cultura courana, situava-se na cabeceira do córrego dos Macacos, a meia légua do arraial de Paracatu, nas Minas dos Goiases.9’ Era nos sábados à noite, a meia hora de caminhada por atalhos escuros, que muitos crioulos e africanos dirigiam-se ao Acotundá para dançar em honra do deus da terra de Courá: no meio da escuridão e do mato, distantes do arraial dos senhores brancos, certamente sentiam-se mais protegidos.92

Também nos arredores da cidade do Rio de Janeiro, em 1790, havia um afamado Calundu cuja mestra, uma parda forra, atendia pelo nome de Veríssima: tinha como especialidade "dar fortuna a mulheres para que os homens lhes dessem o que elas quisessem"i Foi acusada ao comissário do Santo Ofício de "convidar vários homens e mulheres a uma Chácara nas Laranjeiras para dançarem no terreiro com várias superstições, e que suas filhas e discípulas levavam uma cabeça de boi e roupas para mudarem depois das danças"?3 Certamente essa mudança de indumentária visava disfarçar as roupas rituais, evitando a alcagüetagem de algum inimigo.

A odisséia cabalística de Manuel Paixão, buliçoso heterodoxo sergipano da vila de Lagarto (1753), revela quão cruciais eram o segredo e o ocultamento na prática de suas devoções proibidas. Declarou que seu primeiro envolvimento com as mandingas foi quando comprou por dez patacas uma "conta de Cabo VerdeÇ do comprimento de dois dedos, redonda, de cor preta sobre roxo, e, desde que começou a usá-la "escondida no bolso’ tornou-se valente, razão pela qual foi colocado no tronco, e, botando-lhe "machos" nos pés, confessou que era mandingueiro, sendo encontrada a dita conta escondida no bolso. No Recife, meses depois, à boca da noite, acompanhou um capitão-do-mato que o levou à casa de um mandingueiro que fechava o corpo, e às "11 horas para meia-noite" foram para um "lugar deserto" chamado Cidadela e sentaram-se num areal quando ouviram berros e apareceu um bode com os olhos de fogo, e o demônio apareceu no escuro", pelejando com os presentes; Manuel Paixão fez um escrito em que entregava ~ua alma por dez anos, dizendo: "Dona Maria Padilha, com toda sua quadrilha, Barrabás, Satanás, Lucifer, Diabo cocho e seu maioral, deles aqui venho para [que] me venhas falar". Sete anos depois, agora soldado em Siolim, em Goa, pouco antes de ser preso pelo Santo Oficio, enterrou na noite de São João a oração de são Cipriano numa encruzilhada, parte de um ritual secreto para conseguir ventura em sua atribulada existência.94

Inúmeros são os heterodoxos da América portuguesa que se aproveitavam da calada da noite para cumprir seus rituais proibidos. Joana Pereira de Abreu, escrava mestiça, dezenove anos, moradora na Mocha, sede da capitania do Piauí, confessou que, seguindo orientação da mestra feiticeira Cecilia, dirigiu-se nua,

altas horas da noite, à porta da Igreja da mesma vila da Mocha, em que vivíamos, e ali bateu com suas partes prepósteras assim nua umas três vezes na porta da Igreja, indo sempre para trás, e que dali havia de endireitar nua para umas covas de defuntos que estão a um lado da vila, aonde chamam o Enforcado, por se ali ter enforcado algumas vezes alguns delinqüentes. E que ali me havia de aparecer o Demônio em forma de um moleque e que eu [é Joana quem fala] pondo-me na postura de quatro pés, ele me havia de conhecer por trás. Fiz o dito em véspera de São João, à porta da Igreja, e dali assim nua, fui logo para o Enforcado. Apareceu logo o Demônio em forma de moleque: adorei-o antes de me pôr de quatro, para ter torpíssimos e nefandos atos. Beijei-lhe os pés, as partes pudenda prepostera, e ali me pus de quatro pés. Senti logo na mesma postura que se servia de forma torpe, não só por trás e pela frente, mas também em todas as partes ainda as mais mínimas e em todas as juntas ao mesmo tempo, exercitando torpeza multiplicada e universal, sendo que umas vezes era homem, outras animal imundo, outra cachorro, outra bode, ou cabrito, outras cavalo. Chamava-o meu Senhor e o tinha por Deus e Senhor. Não mais cria que havia Deus, nem inferno, nem cousa alguma da fé. Entregava-lhe a alma e o corpo. Chamava-o meu Senhorzinho, minha vida, meu coração. Cria e dizia-lhe que só ele me daria o céu. Que só ele me criou, me remiu, e que não outro criara o céu, nem a terra, nem a mim. Que Jesus Cristo era um corno, um filho da puta e outros nomes e tremendas blasfêmias. Isto foi sempre pelos anos de meu infame comércio e ensinos de Mestra Cecilia.

Também na calada da noite participava essa mestiça espiritada de um fogoso sabá que em nada ficava a dever aos conventículos de feiticeiras da Europa. Joana conta que ela e mais três companheiras eram transportadas misteriosamente numa distância de sessenta léguas,

num brevíssimo espaço, e logo se achavam no Campo do Enforcado donde está já como superiora de todo o Congresso a Mestra Cecilia, sentada em um como banco ou tripeça. Chegamos e lhe vamos todas quatro lhe tomar a bênção. O congresso é numeroso de mulheres trazidas, como suponho, da mesma sorte de várias partes de terras distantes, mas eu as não conheço, não lhes sei os nomes. No Congresso há mulheres de todas as cores e castas. Também aparecem homens: mas estes, julgo não serem homens, mas demônios em figura humana. Não nos fala-mos mais que estas palavras que nos dizemos uma às outras: Camaradas, nós vimos os nossos amores. Depois de assim juntas nesse Congresso e cada uma com o seu, se fazem as cerimônias, as adorações e arrenegações etc., depois de a Mestra Cecília dizer em voz alta para todo o Congresso estas palavras: Estamos na nossa Vida Nova. Cantando o galo, ao despedir de tal lugar do Enforcado para nós irmos cada uma para sua estância donde tinha vindo, dizia Mestra Cecília estas palavras: Acabou-se a nossa Vida Nova, bem nós podemos ir embora. Logo desandava eu com as três colegas as sessenta ou setenta léguas e nos achávamos logo nas Cajazeiras.95

 

A CONFISSÃO DOS PECADOS

 

O confessionário — o tribunal da penitência — foi previsto pelos arquitetos do catolicismo para ser a um só tempo o mais privado e o mais público dos espaços sacros, pois destinava-se a manter absolutamente secreto o diálogo do pecador com o sacerdote, embora devesse situar-se em local estratégico para ser visível por todos os circunstantes, evitando desse modo as tentações de intimidade entre confessor e penitente e as murmurações dos maldizentes. Em seu interior, portanto, o tribunal da confissão era o espaço mais privado da Casa de Deus, e em seu exterior, obrigatoriamente, devia estar ao alcance do olhar público.

Institucionalizada a confissão auricular como sacramento necessário e indispensável à vida cristã, a Igreja católica devassou o mais secreto e recôndito das consciências de seus fiéis, obrigando-os a narrar detalhadamente seus pensamentos, ações e omissões que pudessem ser enquadrados na categoria de pecado.96 Eis os ditames das Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia, reproduzindo quase ipsís verbis as determinações do Concílio de Trento nesse particular: "Por preceito divino, são obrigados todos os fiéis cristãos de um e outro sexo, que forem capazes de pecar, a se confessar inteiramente de todos os pecados mortais que tiverem cometido e dos quais se lembrem, depois de fazerem para isto diligente exame"~ Aconselhava-se aos fiéis chegados aos anos da "discrição’ isto é, a partir dos sete anos, que se confessassem a cada oito dias e nas festas e dias de jubileu, estando obrigados ao menos a uma confissão anual, por ocasião da Quaresma.

Tão interessada estava a Santa Madre Igreja no controle ao menos anual de seus fregueses, que o pároco era obrigado a fazer o "Rol dos Confessados’ alistando os nomes, sobrenomes e lugares onde viviam, rua por rua, casa por casa, fazendas e sítios inclusive. Em penas pecuniárias e de excomunhão incorriam os párocos e fiéis que não cumprissem o dever pascal da desobriga.97

As leis canônicas coloniais prescreviam detalhadamente como devia ser a prática desse sacramento. Por parte do sacerdote exigia-se piedade e sigilo:

Devem os confessores, antes de chegar a administrar o Sacramento da Penitência, considerar que naquele ato representam a pessoa de Cristo Nosso Senhor, Ministros da Divina Justiça e Misericórdia. Deverão estar em hábito clerical decente e honesto e receber os penitentes com grande benignidade e afabilidade e sem intrometerem palavras de cumprimento, tratarão de inquirir deles o estado, o tempo que há que se confessaram, se cumpriram a penitência. E em quanto o penitente for confessando os pecados, lhos não estranhem nem criminem, e nem por palavras, sinal ou gesto mostrem que se espantam deles, por graves e enormes que sejam, antes, lhes vão dando confiança para que sem pejo com que o Demônio faz muitas vezes, que a confissão não seja verdadeira, e sem aquele temor que também perturba, façam como convém, inteira confissão. E se os penitentes não disserem o número, espécies e circunstâncias dos pecados, necessárias para a confissão ser bem feita, as vão perguntando e examinando com prudência, fugindo de curiosas, inúteis e indiscretas perguntas, principalmente nas confissões de gente moça, homens ou mulheres, para que com elas não lhes dêem ocasião de novos pecados.

Terminada a confissão, o sacerdote devia admoestar o penitente com paternal caridade, analisando o estado, condições e disposição dos penitentes para lhes dar penitência compatível: "e por nenhum modo ponham por pecados ocultos, por mais graves e enormes que sejam, penitências públicas."98

Para evitar abusos e murmurações, ordenavam as Constituições que "em todas as Igrejas paroquiais do Arcebispa& hajam número de Confessionários em lugares públicos e pa tentes, nos quais se ouçam as confissões de quaisquer penitentes, especialmente de mulheres, as quais nunca as ouvirão de confissão no coro, sacristia, capelas, tribunas ou batistério, nem outro lugar secreto da Igreja"i Os confessores deviam cuidar que pessoa alguma estivesse junto ao confessionário, evitando assim que ouvissem os pecados alheios.99

Apesar de tantas recomendações e conselhos, o tribunal da confissão representava um dos espaços onde mais freqüentemente os sacerdotes resvalavam na disciplina eclesiástica. Muitos e muitos desobedeciam às Constituições, ouvindo suas penitentes dentro da sacristia, no alpendre das casas, sentados na rede ou indecentemente vestidos. Outro tanto de confessores afugentava os fiéis com cenas vexatórias: o padre Antônio Alves Varejão, vigário em Sergipe, ao confessar uma crioula na capela do Bom Jesus da Cotinguiba, saiu do confessionário gritando: "Cuidei achar gente honrada e de vergonha, não encontrei senão mulheres prostitutas e homens infames".100 Em Mariana o padre José Gouveia trazia uma bengala no confessionário e, certa feita, levantou-se e disse: "Já me admirava que entre tantos não viesse um ladrão’ pegando um negro pelas orelhas e puxando-o; em seguida, foi tomar tabaco, dizendo que "não se pode aturar negros’10’ Mais grave ainda, o padre Francisco de Paula Bernardes, assistente na igreja da Sacra Família, no Rio de

Janeiro, negava-se a confessar quem não lhe desse presentes: ao índio Mariano exigiu meio alqueire de arroz pilado e a Manuel Avelar perguntou: "O que me trazes?’ Como o fiel respondesse: "Trago uma leitoa’ resolveu-se a confessá-lo. Provocou escândalo ao excomungar a um surdo pelo simples fato de ter se confessado noutra freguesia sem lhe pagar.’02 Todas condutas gravemente proscritas pelo direito canônico.

Para tornar mais fácil e segura a confissão dos pecados, a teologia moral e o código canônico estabeleceram uma regra áurea nesse controvertido sacramento, tão questionado pelos luteranos: o sigilo. Conforme o texto constitucional, o sigilo da confissão era "uma obrigação que o confessor tem de não manifestar os pecados que lhe confessam e procede do direito natural, divino e humano"i Deveria ser estritamente observado, não sendo lícito ao confessor "descobrir os pecados que na confissão se lhe manifestam, nem para livrar a própria vida, porque de outra maneira, seria a confissão odiosa"i’03

Também aqui os clérigos coloniais descumpriam tão fundamental regulamentação, tornando público o que lhes fora confiado em absoluto sigilo. Na freguesia dos Carijós (Minas Gerais), o padre Manuel Vaz de Lima é acusado de descobrir o segredo da confissão e perguntar o nome dos cúmplices nos pecados contra a castidade, procedendo da mesma forma o padre José de Brito e Sousa, vigário do Rio Vermelho no Serro Frio, que, mais ousado, perguntava aos penitentes o endereço das mulheres que tinham sido parceiras nos pecados da sensualidade. Já o padre Marcos Soares de Oliveira, de Igaraçu (Pernambuco), quebrava o sigilo da confissão, dizendo aos senhores os pecados carnais das escravas e a alguns maridos as infidelidades de suas esposas. O padre Francisco Moura Brochado, de Paracatu, além de pedir os nomes dos cúmplices, perguntou certa feita a uma escrava "se levava recados de sua senhora para algum homem"; a negra deu tal grito no confessionário, que o escândalo se tornou público em toda a freguesia. Poucos foram os "sigiistas" do Brasil colonial que chegaram a sofrer as penalidades impostas pelo direito canônico: entre os condenados, cite-se o vigário de Santana da Campina, em Belém, denunciado na Visitação ao estado do Grão-Pará.’~

Abrir o coração e falar dos desvios mais íntimos exige por parte do pecador elevada dose de humildade e confiança de que o confessor guardará em absoluto segredo tudo o que ouviu ou se falou no ato sacramental. Nem todos os católicosue uma confissão incompleta tornava o pecador ainda mais culpado, pois, como ensinava o oratoriano Manuel Bernardes (1694), "de confissões mal feitas está o inferno povoado!".105 Não obstante tais riscos condenatórios, o acanhamento de expor suas fraquezas morais levava muitos católicos à prática desse cabeludo pecado. Maria da Silva, uma jovem viúva sergipana de 23 anos, amancebada havia seis com um baiano acusado de ser useiro na prática do "pecado nefando de sodomia’; declarou em 1766, a um seu vizinho, que "os pecados fundos, nunca se confessavam e que tinha um pecado que nunca o havia de confessar". Maria Barbosa, uma miserável parda que vivia de varrer o adro da igreja da Piedade em Salvador, delatou-se em 1763: "Sou falta de fé e não creio em Deus todo poderoso e por tentação do Demônio, tenho feito muitas confissões sacrílegas e por vergonha e pejo do confessor, tenho encoberto muitos pecados e quando cuspo no chão, parece que cuspo sobre Nosso Senhor".’06 Outros havia que confessavam-se mal, não por pejo, mas por convicção ideológica: o cristão-novo Fernão Lopes Valente, cinqüenta anos, mercador, natural de Covilhã, então morador em Itapoã, na Bahia, declarou à Mesa Inquisitorial em 1684 que "não se ofendia a Deus obrando no 60 mandamento e disso não se confessava e que a torpeza da carne contra naturam, chamada molice, não era pecado nem disso deviam as pessoas confessar e que cada um seguisse sua opinião". 107

Um dos mestres da arte penitencial daquela época, o servo de Deus frei Antônio das Chagas, franciscano, costumava dizer que "confessar e conversar com mulheres é o que mais me custa neste meu modo de vida, porque posto que sejam santas, é mais seguro fugir delas!". A eterna associação das filhas de Eva com a tentação da carne. Segundo ele, as Santas Missões pregadas por sacerdotes provenientes de outras paragens ofereciam vantagens quanto ao sacramento da confissão, pois atenuavam o pejo de confessar com pessoas conhecidas, franqueando-se confessar às mulheres recolhidas. Segundo seu biógrafo, o santo varão franciscano era tão virtuoso e profético que descobria os pecados mortais tão logo fitava o semblante dos penitentes. Sua grande virtude, contudo, consistia no "dom de tirar os escrúpulos". Escrúpulo é definido como uma hesitação ou dúvida de consciência, geralmente seguida de uma inquietação emocional e sentimento de remorso. Como para a remissão dos pecados é imprescindível que o penitente os confesse com transparência total, e como, por acanhamento ou vergonha, muitas vezes o pecador escamoteia ou omite maliciosamente detalhes importantes para o julgamento e atribuição de penitência por parte do confessor, surgia assim um angustiante círculo vicioso: cada confissão incompleta tornava-se novo pecado mortal, um motivo a mais para aumentar o remorso e a dúvida de consciência.

Muitos fiéis tornavam-se tão neuróticos, sempre em dúvida se haviam de fato feito inteira e cabal confissão de seus pecados, que, para garantir-se do perdão indispensável para escapar das chamas temporárias do Purgatório, ou da queimação eterna do Inferno, lançavam mão freqüentemente da confissão geral, repetindo ad nauseam, no confessionário, os pecados antigos, garantindo-se assim que, se incompletos ou mal declarados nas vezes anteriores, agora receberiam o almejado perdão. A repetição das confissões gerais era desaconselhada pelos mestres moralistas mais sensatos, tachando-a de "o maior laço da consciência de uns e o maior desembaraço de outros, pois tudo o que desviar de crer nos confessores e fiar-se deles, é Demônio conhecido [...1 Os escrúpulos são atoleiros espirituais, quimeras, espantalhos que o Demônio põe em frente das almas puras."108

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