As Múltiplas Fontes: Oralidade e Literatura

 

 

A gravura do livro The Life in Rio de Janeiro,1 de Thomas Ewbank, reproduz diversos tipos de jóias e bijuterias no formato de amuletos encontradas nas lojas comerciais do centro do Rio de Janeiro do final do século passado. Elas revelam a mistura de várias tradições provenientes de diversas culturas, desde as figas adotadas pelas populações afro-brasileiras, cuja origem remonta ao antigo Egito, tendo sido popularizada no mundo pagão romano (o autor cita Tebas, Efeso), até pássaros e outras imagens européias cristãs. O símbolo do coração também era muito popular entre os marinheiros que aportavam no Brasil, mas há quem diga2 que este fora, outrora, uma imagem invertida, retratando na verdade as nádegas arredondadas e o pescoço delgado de uma mulher sentada. Vemos também o pentagrama e o hexagrama, segundo o autor, denominados “signos de Salomão”. Muito usados pelos chamados “malês”, populações negras convertidas ao maometismo, que os transformaram em medalhinhas, eles estão presentes também na maçonaria, muito importante na época em que o autor escreveu o livro, Os chifres, provavelmente vindos do Kongo, mas também usados em outras partes da África, guardavam pós mágicos e serviam para rituais e curas; chifres e dentes de animais na gravura parecem estar adornados com ouro ou prata, o que faz deles ao mesmo tempo amuletos e jóias.

       A gravura sintetiza a produção visual do rico imaginário das populações negras e mestiças do Rio de Janeiro, que contribuíram para formar a umbanda, como raios vindos de várias direções, ecos de vários continentes e muitas épocas. Tomando corpo no Brasil, reunindo um vasto espectro de tradições pulsantes, a umbanda passou a ser representada externamente pela estrela de cinco pontas. A estrela presente na insígnia da República do Brasil, a estrela da antiga bandeira do Kongo, a estrela de Salomão, da cabala e da maçonaria... a estrela que guiou os três reis magos à manjedoura em que dormia, recém-nascido, o menino Jesus.

Acreditamos que o processo de formação da umbanda decorreu das inter-relações de várias tradições culturais e religiosas africanas, ameríndias e européías encontradas no Brasil, e que o esforço de distingui-las umas das outras deve começar pela observação das diferenças básicas entre as tradições orais e as tradições escritas.

 

 

TRADIÇÕES ORAIS

 

A oralidade, forte ponto comum entre as tradições africanas e ameríndias, dois vértices da herança tricontinental da umbanda, será enfocada aqui de acordo com a visão proposta pelo acadêmico africano Isidore Okpewho.3 Ele desenvolveu conceitos apropriados ao estudo da tradição oral africana, os quais nos são extremamente úteis, pois incluem no estudo da performance a observação dos elementos que a compõem (música, ico­nografia, espaço) combinada com a apreciação formal e conteudística de sua literatura oral (epopéias, provérbios, letras de música) e somada com outros aspectos presentes em toda tradição popular (culinária, vestuário, medicina natural). Navegando através das informações disponíveis, o foco de nossas exposições a respeito de cada tradição recai sobre as formas de expressão de suas respectivas características culturais dentro do contexto da umbanda.

 

1. A Tradição Ameríndia

 

A tradição ameríndia é evocada pelos umbandistas como um elo de ligação direta com os povos do Brasil nativo e sua espiritualidade, sendo a sua importância evidenciada na religião pela forte presença dos caboclos. A limitada e desordenada bibliografia descritiva disponível registra, em diversas regiões do País, uma enorme variedade de práticas ritualísticas explicitamente sincréticas que são dedicadas aos caboclos. O desafio sobre-humano de Concatenar tais fragmentos de texto em seqüências lógicas que revelem “verdades históricas” tem sido simplificado por autores umbandistas de modo surpreendente. Assim, veremos popularizada a crença de que a heterogênea liturgia e mítica dos caboclos deriva do antigo culto ao deus Tupã, concebido como divindade suprema de todos os índios brasileiros. Por sua vez, o culto a Tupã seria uma reminiscência do culto ao ainda mais antigo deus Pã, que começara na legendária Atlântida,4 a qual submergiu não se sabe quando, sepultando nas profundezas do Atlântico as chaves para quase todos os grandes enigmas da humanidade.

Todavia, não temos notícia de que algum representante in­dígena ou qualquer indigenista de renome tenha se pronuncia­do a respeito da importância da relação entre a questão indígena e a umbanda. Pelo contrário, observamos que a resistência indígena, tal como esta tem-se apresentado nas últimas décadas, é marcada pela rejeição à condição de caboclo. Este termo, que chega inclusive a carregar conotações pejorativas em diversas regiões do interior do Brasil, fora inicialmente utilizado para designar “índios mansos” que se submetiam à dominação pelas elites euro-brasileiras abdicando de seus modos de vida culturais, de sua religião, de seu idioma e, por fim, da própria identidade.

Transformar um índio em caboclo era um processo que começava muitas vezes pela conversão de uma alma “selvagem” à fé cristã. Mas a catequese dos índios não foi aquele mar de rosas que aparece nas ilustrações de livros didáticos de história do Brasil para crianças. Numerosos relatos e estudos antropológicos destacam o caráter descentralizado das sociedades e cosmogonias indígenas como uma verdadeira pedra no sapato dos jesuítas catequisadores, dificultando a conversão. Pois não concebendo uma entidade suprema onipotente em seus próprios sistemas religiosos, os índios não incorporavam efetivamente o monoteísmo cristão.

Lá pelos idos de 1500, quando Cabral desembarcou em Porto Seguro, encontrou povos de pele morena e cabelos lisos que andavam inocentemente despidos, cuja economia era extrativista, a agricultura de subsistência, os utensílios e objetos de arte feitos de cerâmica, madeira ou pedras, pois estes ainda não trabalhavam o metal. De acordo com os viajantes e estudiosos que vieram mais tarde, as tradicionais religiões indígenas se valiam de procedimentos mágicos para influir na vida das pessoas e no mundo físico, sobretudo através das “almas” de plantas e animais. Performavam5 rituais fúnebres para agradar aos mortos, evitando que estes viessem perturbar a comunidade. Bebidas e fumos especiais eram empregados para provocar estados alterados de consciência; seu mundo mítico (denominado Morená pelas tribos do Xingu)6 era um universo em que espíritos de humanos, animais e divindades coexistiam em harmonia dinâmica. Curas físicas e espirituais eram processadas em rituais encantatórios com o uso de remédios da extensa flora medicinal brasileira.

Muitos escritores têm registrado a forte relação da pajelança com a umbanda praticada nas regiões Norte e Nordeste. A pajelança pode ser definida como uma medicina indígena em que o sacerdote/pajé performa ritos de cura fazendo uso de ervas e fumos. Como registrou Abguar Bastos no livro Os cultos mágico-religiosos no Brasil,7 nessas regiões é “comum em sessões urbanas de cura: o chupão, a benzedura, a beberagem (garrafada), lambedor...”. O autor reporta que nesses rituais as entidades espirituais são genericamente chamadas “caruanas” e recebem nomes como: Jatuzinho, Ariranha, Índio Carumbé, Boto Branco, Jacarezínho, Mãe-d’água, Mestre Jarará. . - Entre as plantas utilizadas ele cita: comigo-ninguém-pode, hei-de -vencer, vence-batalha, abre-caminho e dinheiro-em-penca e outras menos cotadas.

O catimbó é também herdeiro da pajelança, embora nele encontremos forte influência kongo. As entidades cultuadas no catimbó são chamadas mestres, e além de pretos-velhos, há os caboclos, ancestres de procedência indígena. Abguar Bastos resume com clareza as inter-relações entre a pajelança e o catimbó, afirmando que “se a área do catimbó é o Nordeste, a da pajelança é o Norte, havendo, por certo, alguma intromissão entre um e outro”. Bastos percebe a atuação de ambas as religiões junto às populações mais carentes por “serem as únicas a acei­tar e atingir males não considerados fisiológicos para a medici­na científica”. Segundo ele, tanto o catimbó quanto a pajelança combatem:

 

(..)o quebranto, o mau-olhado, a caipora, a caninga ou urucubaca, a panemice (não saber o que faz), a aluação (ficar aluado, meio bobo), a caruara (doença proveniente do feitiço), a espinhela caída ou peito-aberto, a doença do baço, além da cura de doenças orgânicas.8

 

Concluindo, Bastos considera ser fácil compreender a proximidade entre essas duas religiões e a umbanda, por serem elas, a exemplo desta última, devotadas às curas e apoiadas decisiva-mente nas plantas e orações.

Na umbanda, alguns caboclos são nomeados por nomes de tribos, mas sua indumentária, adereços e linguagem não parecem remeter à cultura das tribos denominadas. A bem da verdade, entre as mais de duzentas tribos sobreviventes listadas por Mércio Pereira Gomes em seu livro Os Índios e o Brasil,9 apenas quatro coincidem com nomes populares de caboclos da umbanda tupi, tupinambá, tamoios e kiriri (Caboclo Quiri). As outras centenas de caboclos e caboclas cultuados na umbanda possuem nomes que nos soam mais coloquiais e sincretizados, tais como: Eleonora, Guaraná, Guiné, Pele-Vermelha e João da Mata. Muitos têm nomes de lugares ou forças da natureza (Sete-Ondas/Mata Virgem), animais míticos (Cobra Coral/Águia-­Branca) e plantas (Arruda/Coqueiro), além de objetos como flechas e penas, intimamente ligados a todas as culturas florestais.

Entretanto, é possível identificar marcada influência ameríndia no corpo de diversos mitos e rituais da umbanda, sobretudo aqueles dedicados aos caboclos. Esses cultos são muito variados em sua estrutura, podendo assemelhar-se tanto à pajelança e ao catimbó quanto ao batuque e ao candomblé de caboclo. Embora os verdadeiros índios se recusem a ser “caboclizados”, os fiéis e autores da Umbanda parecem crer que os caboclos trazem consigo os frescos ares de um Brasil idílico, anterior à colonização.

Neste sentido, concordamos com a pesquisadora Diana Brown10 quando ela afirma que a figura do caboclo na umbanda é um tanto romantizada, mas discordamos dela quando acredita que romances indianistas, como os de José de Alencar, possam ter moldado a idealização do caboclo/índio dentro de um contexto religioso marcado pela oralidade. Numa população cuja maioria é iletrada, uma religião popular dificilmente terá que buscar referências escritas quando a linguagem viva das ruas oferece amplo acesso às mais variadas fontes. Por sinal, apesar de constituírem boa e bem-intencionada literatura, vários desses romances contribuíram para criar imagens inverossímeis de povos indígenas brasileiros, seus hábitos culturais e sua relação com os espaços geográficos que ocupavam. O índio, tal como se apresenta na umbanda, é, provavelmente, muito mais relacionado com a realidade multirracial brasileira do que com as fantasias literárias do século passado.

O índio/caboclo cultuado na umbanda é, a nosso ver, o índio semi-aculturado pela convivência prolongada com a “civilização”; fala um português coloquial, pronunciado com sotaque próprio e mesclado com palavras e expressões emprestadas de seus idiomas nativos como de línguas africanas. O caboclo que vem de Aruanda (e não do Morená) é o sobrevivente tenaz do genocídio que massacrou tantas e tantas tribos e que se transformou ao longo do processo de resistência, muitas vezes, cultural e biologicamente miscigenado.

Mesmo que o massacre dos povos indígenas do Brasil tenha sido capaz de reduzi-los de cinco milhões para duzentos mil indivíduos, o número de descendentes de índios poderia ser estimado em uma soma consideravelmente grande se levarmos em conta o número de crianças inter-raciais nascidas livres ou em cativeiro (pois a escravidão/servidão indígena foi um fato). Pois foi assim que, através dos anos, sucederam-se gerações de pessoas miscigenadas que, já não sendo apenas índios (ou negros, ou brancos) somar-se-iam à maioria desprivilegiada da população brasileira. Essas pessoas trazem consigo até hoje parte da herança genética, cultural e espiritual de seus antepassados indígenas, ainda que muito tenha sido perdido para sempre.

 

 

2. A Tradição Kongo

 

Diferentes tradições africanas participam da herança multi­cultural da umbanda, sendo uma das mais fortes aquela vinda do antigo reino do Kongo. “Descoberto” pelos portugueses em 1482, catequizado e explorado por vários séculos até sua total destruição política, o Kongo foi transformado na principal re­gião fornecedora de escravos para o Brasil ao longo de mais de trezentos anos.11 A importação de seres humanos provenientes dessa região, que hoje compreende os países Gabão, Zaire, Kongo e Angola, ocorreu durante toda a história do tráfico ne­greiro; começou em 1517, em direção à Europa, e em 1537, para o Brasil, tendo aumentado no século XVII e decrescido apenas no fim do século XVIII.

Por tudo isso, não é de se estranhar a presença determinante da cultura kongo numa religião tão brasileira quanto a umbanda. Tal presença se apresenta nos elementos de sua performance ritual (música, dança, transe), em elementos pictográficos (ponto riscado, simbolismo das cores), nos elementos ritualísticos (pemba, plantas, pedras). A contribuição da tradição kongolesa destaca-se também através de importantes elementos filosófi­cos, tais como o culto aos mortos, o culto à natureza e o dogma da reencarnação. (Umbandistas kardecistas: por favor, leiam o próximo parágrafo antes de manifestarem seu protesto.)

Sim, a crença na reencarnação e o simbolismo da cruz já existiam na África antes da chegada dos europeus! Os habitan­tes do Kongo e regiões vizinhas sintetizavam este princípio filo­sófico na cosmogonia dos Quatro Momentos do Sol, os quais assinalam os quatro pontos cardeais, vértices de uma trajetória circular: Kala (nascente)! Tukula (meio-dia)! Luvèmba (poen­te)! Musoni (meia-noite). A cultura kongo concebia a Terra como sendo redonda e acreditava que o Sol, como a alma hu­mana, percorre sucessivas voltas ao seu redor. Assim, ao nas­cente corresponderia o momento da concepção, ao meio dia o apogeu da maturidade, ao poente a morte e à meia-noite o mo­mento mais profundo do mergulho da alma desencarnada no oceano do mundo espiritual que se pensava localizado embaixo dos pés, além das entranhas da Terra.

Quatro cores básicas associavam-se a esse quaternário mís­tico a concepção na escuridão do útero era representada pelo negro; a potência máxima pelo vermelho; o vazio do corpo sem vida pelo branco, cor do luto e da morte; o momento de mais intensa espiritualidade era relacionado com o amarelo, a cor “verdadeira” do Sol, ponto de que emana toda a inspiração, a partir do qual a alma recomeçará sua jornada rumo a uma nova encarnação/manifestação de sua existência eterna no plano material. Essas idéias eram aplicadas a todas as áreas da vida, caracterizando a visão de mundo própria dos habitantes do Kongo, que as adoravam sob o símbolo da cruz.12

Muito pouco é falado também sobre o enorme impacto des­ta mesma raiz kongo sobre a cultura popular do Ocidente, seja no aspecto religioso (macumba, palo mayombe, vodu), musical (samba, tango, mambo, rumba, rock n‘roll), ou mesmo estético (cubismo, art naif, carnaval).13 Há, porém, numerosas pesquisas desenvolvidas por estudiosos africanos, europeus e norte-americanos que comprovam a importância fundamental desta tradi­ção para a produção cultural da humanidade no século XX.

A cultura do Kongo não recebe, no Brasil, a mesma valori­zação que a ioruba, embora tenha sido trazida para cá com mais de duzentos anos de antecedência e faça sentir por toda parte a sua influência. A maior parte dos estudiosos sequer a menciona diretamente, preferindo referir-se à cultura angolana sem reco­nhecer que, de fato, foi do antigo reino do Kongo que partiram as grandes migrações banto em direção ao sul e sudeste da Áfri­ca. E no antigo reino do Kongo que se encontram as origens da capoeira, das congadas, do maculelê... E foi daquela região que veio o maior número de indivíduos escravizados no Brasil. Não se fala de Palmares como sendo uma resistência kongo (ainda nem havia iorubas no Brasil!), e quando se pretende homenage­ar seu legendário líder Zumbi, recorre-se à imagem de um prín­cipe ioruba, como é o caso do monumento da Praça Onze, no centro do Rio de Janeiro.14

O biotipo dos povos kongo, aparentemente mais propenso a produzir indivíduos de baixa e média estatura, era descrito com palavras pejorativas pelos europeus que consideravam sua cul­tura pouco desenvolvida. A má compreensão da cultura daquele reino está registrada em textos que relatam, por exemplo, a con­versão “imediata” de seus habitantes ao catolicismo, logo após os primeiros contatos com os colonizadores portugueses, tal como registrado em diversas crônicas de viagem e na poesia epopéica de Luís de Camões:

 

Ali o muy grande reyno está de Congo

Por nós já convertido à fé de Christo

Por onde o Zaire passa claro e longo

Rio pelos antigos nunca visto.15

 

De fato, a “descoberta” do reino do Kongo pelos portugue­ses e a conversão do rei e da corte ocorreram em um período muito breve. Em 1482, Diogo Cão “descobriu” o rio Kongo (então chamado de rio Zaire) e notou a existência de um vasto reino chamado Mbanza Kongo, cuja ocupação geográfica era basicamente agroflorestal. Plantações e aldeias eram intercala­das por extensas áreas selvagens, entrecortadas por estradas ao longo das quais dava-se intensa atividade de comércio e trocas com diversos povos centro-africanos, inclusive os pigmeus, que, apesar de raramente serem vistos, deixavam nas margens das florestas que habitavam objetos por eles confeccionados e ofe­recidos em retribuição aos presentes dos artesãos bantos. A ca­pital Mbanza, onde viviam o rei, suas esposas e a corte, era o maior centro urbano, o qual fervilhava com intensa atividade cultural.

Em 1485, foram enviados os primeiros missionários; em 1491, O rei do Kongo era batizado com o nome de João; em 1493, inaugurava-se a primeira igreja católica na capital que, então, mudara de nome para Kongo da Cruz. A religião oficial do Kongo passou a ser o catolicismo; os objetos ritualísticos relacionados ao tradicional culto aos Inkices (entidades da natureza, equiva­lentes aos orixás) e ancestres (espíritos dos mortos da comuni­dade) foram classificados como fetiches16 e confiscados.

Mas a população daquele reino não aceitou a religião do colonizador tão facilmente quanto a elite o fez. O povo do Kongo, especialmente aqueles grupos que foram transportados para as Américas, jamais abandonaria completamente a fé nos seus deu­ses ou a crença na sua filosofia mística. Entretanto, a sua inclu­dente visão de mundo e a circunstância do exílio os levariam a buscar adaptações de suas práticas culturais e religiosas aos novos ambientes físicos e humanos em que se inseriam, de for­ma mais intensa do que outras etnias africanas. Muitos negros bantos se rebelaram contra o cativeiro, povoando as florestas brasileiras com seus quilombos. Outros permaneceram nas ci­dades, desenvolvendo estratégias de sobrevivência em que se destacavam a indolência, a predisposição para festas e celebra­ções (sincretizadas e dentro do calendário católico) e a malícia presente na capoeira e no samba.

Para outros grupos de africanos, porém, o fato de os kon­goleses adorarem a cruz católica e incorporarem Jesus, Maria, José e todos os santos nos seus rituais de culto aos antepassados parecia significar a mais vergonhosa sujeição. Talvez por isso fossem tidos como dóceis e submissos, tendo sido tratados como "os negros dos negros" e discriminados até mesmo por ou­tras etnias escravizadas.

 

 

3. A Tradição Ioruba

 

A tradição ioruba é, entre as culturas africanas importadas du­rante o tráfico negreiro, a que os brasileiros melhor compreen­dem ou, em muitos casos, a única que parecem considerar rele­vante. Pierre Verger17 explica que tal predominância deve-se provavelmente ao fato de que este fora o último povo africano a chegar em massa no Brasil a partir do final do século XVII, mas principalmente após 1830, quando a cidade-estado de Oyó fora destruída pelos exércitos muçulmanos dos fulanis. Trouxeram consigo uma elite de nobres sacerdotes, príncipes e chefes de Estado dispersos em meio à multidão de gente do povo. Na vi­são de Gisele Cossard,18 os iorubas ter-se-iam organizado para escapar à escravidão, promovendo assim a expansão de uma casta de negros livres que já existiria anteriormente em menor escala. Apesar de ignorada pelos livros escolares e anais da história ofi­cial, essa classe média de negros e mestiços foi muito atuante. Desenvolveu-se sobretudo em Salvador e, por ocasião dos flu­xos migratórios em direção ao sudeste do País (principalmente após a abolição), veio a exercer poderosa influência sobre nu­merosas populações afro-brasileiras que viviam em situação só­cio-econômica muito inferior, em outras cidades brasileiras. Um bom exemplo disso é a força da colônia baiana que se instalou no centro do Rio de Janeiro no final do século passado, onde viveu a legendária Tia Ciata.

Informações históricas sobre as antigas cidades-estado de Ifé e Oyó, que mais tarde seriam consideradas como partes do rei­no ioruba, estão sendo processadas a partir de escavações. Leo Frobenius19 encontrou na atual cidade iorubana de Ile-Ifé, entre os anos de 1910 e 1911, esculturas em metal e terracota que teriam sido construídas durante os séculos X e XI. Essas escul­turas, conhecidas como “cabeças de Ifé”, trouxeram novos da­dos sobre a vida e a arte iorubas; contrariando tudo que era até então concebido como arte tipicamente africana, as esculturas possuíam dimensões naturalistas, sendo confeccionadas com uma liga metálica que combina bronze, chumbo e cobre. Talvez por considerá-las elaboradas demais para serem totalmente africa­nas, Frobenius supôs terem elas alguma conexão com a arte gre­ga, hipótese hoje descartada. Submetendo-se essas vinte cabe­ças esculpidas à análise de carbono 14, foi possível determinar o apogeu da civilização que floresceu em Lfé entre os séculos XII e XIV, muito embora haja indícios de que, desde o final do primei­ro milênio, os iorubas já trocassem manufaturas com os árabes ao norte de seu país.

Já Oyó vivera seu período de expansão a partir do século XIV, chegando a subjugar os povos vizinhos do antigo reino do Daomé, tendo-se mantido livre da presença européia até o come­ço do século XIX, quando esta foi arrasada e a autonomia ioruba desmantelada. Só então os negros dessa etnia foram maciçamente incluídos entre os escravos de guerra.

Quando os europeus entraram pela primeira vez nas princi­pais cidades iorubas admiraram-se não só com o seu nível de urbanização, mas com a beleza de sua arquitetura e estatuária sagrada.20 Cada cidade era organizada em torno do culto a uma divindade específica, a qual muitas vezes relacionava-se intimamente com algum poder ou força da natureza, bem como com o passado mítico das dinastias reais, como no caso de Xangô, Oranian e Ogum. No momento da invasão européia, constatou-se que aquele povo já há muito desenvolvia a metalurgia e pro­duzia sofisticadas manufaturas.

A sobrevivência da tradição ioruba no Brasil também exigiu de seus líderes e seguidores a elaboração de estratégias sin­créticas de convivência com a religião oficial. Só que, neste caso, o sincretismo não foi tão aprofundado quanto o fora pelos kongoleses, funcionando mais como um disfarce que lhes permitia uma relativa liberdade de ação, no tocante à realização de seus rituais. Esse mecanismo de disfarce fora anteriormente em­pregado pelos negros gêges, procedente do antigo Daomé (atu­al Benin) os quais, segundo alguns estudiosos,21 além de ante­cederem a presença ioruba no Brasil, também teriam sido pio­neiros em diversos atos de grande importância histórica para a diáspora africana em nosso país, incluindo a fundação de casas de candomblé na Bahia.

Confrarias e irmandades de pretos foram instituições sob cuja “proteção” teriam sido organizados os primeiros candomblés baianos. Mas nos terreiros gêge-nagô, enquanto imagens de santos católicos aparecem em partes mais externas do templo, todos os fiéis sabem que o assentamento da energia está mesmo é nas pedras sagradas, que se encontram veladas sob os panos e plantas dos altares, escondidos da curiosidade e do preconceito de olhares alheios.

Ainda que os povos do Kongo e do Daomé tenham chegado ao Brasil antes dos iorubas, a enorme influência desse último grupo em nosso dia-a-dia cultural22 demonstra que, de um modo ou de outro, a liderança ioruba foi aceita e reforçada pelas de­mais etnias afro-brasileiras. Ao nosso ver, um dos fatores que contribuíram bastante para isso foi a conservação do idioma ioruba pois é na língua que se encontra codificada grande parte das informações que constituem a identidade cultural e religiosa de um povo, e os demais idiomas africanos presentes no Brasil já se teriam fragmentado com o tempo.

O domínio dos iorubas no contexto afro-brasileiro deveu-se também ao emprego de uma sábia diplomacia que pode ser ob­servada na organização multicultural dos terreiros. Além de agruparem num único templo divindades antes cultuadas sepa­radamente em diferentes regiões da atual Nigéria, os iorubas incorporaram ao seu panteão Nanã-Obaluaiê-Oxumarê, a tríade de deuses adorados pelos seus ex-arquiinimigos daomeanos, reservando também um discreto espaço para entidades de as­cendência kongo-ameríndia; caboclos, pretos-velhos e exus, no mais das vezes agrupados sob o nome genérico de "eguns" (espíritos dos mortos). Entretanto, o idioma africano ensinado e praticado nos terreiros de filiação mais tradicional é o ioruba arcaico, que impressiona pela “pureza” até mesmo os nigerianos de hoje. A hierarquia interna das casas de candomblé e a linha de sucessão por consangüinidade são bastante rígidas, mas, ao mesmo tempo, observamos que entre sacerdotes, fiéis e fre­qüentadores do candomblé há pessoas de todas as etnias e clas­ses sociais brasileiras. Isso nos leva a crer que, na verdade, a grande diplomacia ioruba foi a de saber combinar uma estrutu­ra altamente tradicionalista e conservadora a uma base social verdadeiramente inter-étnica e multicultural.

Com êxito inegável, os iorubas conseguiram fazer de seus orixás as divindades africanas mais conhecidas no Brasil. Sete deles (Xangô, Iemanjá, Oxóssi, Oxum, Ogum, Iansã e Ibejí23) foram incorporados pela umbanda como líderes das sete cate­gorias básicas (falanges) de espíritos concebidas por esta reli­gião. Oxalá, sincretizado com Jesus, é adorado como a entidade mais elevada, numa escala ascendente de evolução espiritual; Nanã e Omulu, de origem gêge, estão presentes em um degrau hierárquico inferior, pois não chefiam nenhuma falange, ligan­do-se (na maioria das vezes) aos grupos chefiados por Iemanjá e Iansã, respectivamente. No candomblé, os orixás não costu­mam falar, comunicando-se sobretudo através dos búzios; na umbanda, os orixás comumente não se incorporam nos médiuns, existindo apenas como uma referência arquetípica que indica simbolícamente o tipo de energia (ou vibração) que caracteriza cada falange, ou grupo de espíritos que se harmonizam entre si.

A cosmogonia ioruba compreende uma divisão básica entre céu (Orum/sol/mundo divino) e terra (Aye/mundo dos vivos). Seu deus supremo, Olorum (o senhor do céu) está no mundo de cima; os heróis/deuses civilizadores são quase todos masculinos, embora o patriarcado ioruba seja mitologicamente ameaçado pela fúria de poderosas matriarcas como Nanã e Olokun (que é masculina em Benin e feminina em Iféx) - Sua concepção de ener­gia/força sagrada se define pela constituição do Axé, que é rela­cionado ao número três e às cores vermelho, preto e branco. Conforme a crença ioruba, Olorum, o Ser Supremo, serve-se de auxiliares para criar, manter e transformar o mundo.

Com efeito, a altivez e o orgulho próprio dos iorubas, bem como seu talento para a promoção social de seus valores cultu­rais e religiosos, fizeram deste grupo um exemplo positivo a ser seguido por toda uma multidão de descendentes de africanos, combatendo a depressão causada pelos séculos de opressão escravagista. Todavia, o exagero dessas mesmas qualidades tam­bém facilita a manutenção de injustiças históricas contra outras tradições africanas no Brasil. E assim que todas as coisas belas e importantes feitas por negros neste país são sistematicamente atribuídas aos iorubas, que, então, recebem as honras por faça­nhas cujo crédito, na realidade, não lhes pertence. Nossa inten­ção ao destacar esse fato é contribuir para que o legado positivo da liderança ioruba seja priorizado, em detrimento de enganos desta natureza que, conquanto velados, continuarão a existir.

 

 

TRADIÇÕES ESCRITAS

 

O   catolicismo e o kardecismo estão entre as tradições escritas que mais têm influenciado o desenvolvimento da umbanda. O catolicismo desde o início da colonização do Brasil, manteve-se como uma tradição oficial ao lado do poder central, sendo ainda hoje considerado pelos órgãos oficiais como principal re­ligião brasileira. Observamos também que as tradições impos­tas pelas elites eurobrasileiras à população miscigenada da Co­lônia, do Império e posteriormente das Velhas e Novas Repúblicas foram digeridas peculiarmente pelo povo que, constituído prin­cipalmente de analfabetos as têm recriado oralmente à sua pró­pria revelia. De modo análogo, como veremos adiante, o kar­decismo ganha novas cores tropicais quando se transforma em tradição divulgada e vivenciada através da palavra falada; mui­tas vezes afastando-se de princípios filosóficos ou simbolismos previstos pela sua rígida literatura, para circunscrever sua significância na urgência da oralidade.

 

1. A Tradição Católica Portuguesa

 

A presença do catolicismo na umbanda pode ser constatada em diferentes aspectos de seu pensamento e prática religiosos. Des­de a presença física de imagens de Jesus, da Virgem e de nume­rosos santos, incluindo o acentuado uso de velas, até níveis mais abstratos como as conceituações umbandistas baseadas no dogma cristão da caridade.

As performances ritualísticas da Igreja Católica chegaram ao Brasil com Pedro Alvares Cabral; uma das primeiras coisas que os portugueses fizeram em terras brasileiras foi rezar uma missa em ação de graças. A cena, ou pelo menos a memória dela, foi magnificamente retratada pelo pintor Victor Meirelles e, mais tarde, publicada pela Casa da Moeda como gravura impressa na nota de mil cruzeiros. De fato, missas, casamentos, batizados, exorcismos, procissões e outras performances características da liturgia católica são eventos cujas funções e significados estão profundamente enraizados no sistema de valores da nação bra­sileira, desde o começo da sua história.

Em 1500, ano em que os portugueses “descobriram” o Bra­sil, a Igreja Católica portuguesa era uma das mais rígidas da Europa. Enquanto Roma se esforçava para adaptar-se às exigên­cias de um novo tempo, agitado pelas descobertas marítimas e pela revisão da antiguidade, Lisboa esmerava-se em preservar antigas tradições. Utilizando-se de práticas litúrgicas marcadas pelo fantástico e pelo exagero, onde as tragédias e dramas da vida dos santos eram divulgados em detalhes para a multidão de crédulos, a Igreja Católica portuguesa permanecia em clima de Idade Média, em pleno renascimento europeu, sendo uma das últimas a extinguir a “Santa Inquisição”. Talvez por isso, os cis­mas e rebeliões que abalaram o Vaticano não tenham tido maior impacto sobre o poderio e a organização da Igreja na Península Ibérica. As lutas contra as invasões dos mouros e o constante espírito de cruzadas construíram uma filosofia de guerras san­tas, heróis e mártires perfeitamente sintonizados com a vida dos santos do começo da Era Cristã.24 Esse catolicismo medieval, que enfatizava a presença dos santos como intermediários entre Deus e os vivos, foi o que se popularizou no Brasil.

Aqui, a Igreja usou inicialmente a mesma estratégia adotada na América espanhola, apoiando a escravidão negra como pre­texto para a proteção dos índios que, “livres” da exploração escravagista mais direta, eram utilizados como servos nas mis­sões jesuítas. No entanto, aos poucos, também os negros viriam a ser incorporados no espectro católico como seres possuidores de alma, em outras palavras, passíveis de conversão à fé cristã; muitos deles até já haviam sido batizados na Africa.25 Primeiro, o catolicismo fora imposto aos escravos como religião oficial; mais tarde, porém, procurando atrair a crescente clientela de negros livres, a Igreja empregaria técnicas mais "democráticas", como a criação da irmandade dos pretos, a canonização de san­tos negros e a incorporação de manifestações culturais de ori­gem africana em rituais católicos.

Todavia, essa incomum flexibilidade não decorreu de uma especial “bondade” do clero luso-brasileiro, mas da necessidade imperativa de consolidar culturalmente as bases do sistema ca­tólico-colonial-escravocrata implantado no Brasil pelos portu­gueses. Para que a vida na colônia transcorresse dentro dos li­mites de uma certa “normalidade”, era necessário que todos os segmentos da sociedade brasileira reconhecessem um mesmo sistema simbólico de valores. Além de comunicar-se através de um mesmo idioma, todos deveriam acreditar nos mesmos con­ceitos religiosos. É importante destacar que, ao falarmos em “conceitos religiosos”, estamos nos referindo a coisas tão bási­cas como as noções de tempo e espaço, pois mesmo os não-ca­tólicos tiveram sempre que aceitar o calendário religioso cris­tão e que viver em cidades geograficamente organizadas a partir de uma igreja matriz. Isso sem contar com a força implacável de idéias como céu e inferno, pecado e pureza as quais podem ser encontradas até na mente do mais ateu dos cidadãos brasi­leiros.

A catequese e a conversão foram ainda fatores determinantes para a contenção dos prejuízos causados pela grande mortali­dade entre os escravos. Esta atuação da Igreja na vida nacional nos interessa aqui em três diferentes aspectos: 1) na medida em que persuadia os fiéis a aspirarem à vida eterna no céu como prêmio por sua vida terrena em sofrimento, o aculturamento religioso promovia a aceitação, por parte do escravo, da dura realidade da escravidão diminuindo o número de fugas, re­beliões, suicídios e abortos; 2) esse processo se efetivou através de transformações concretas na realidade do escravo que, como cristão, tinha o direito de folgar nos domingos e dias santos em meados do século XIX, havia tantos dias santos no Brasil que em quase metade do ano ninguém trabalhava; 3) os feriados re­ligiosos eram ocasião não apenas para o descanso, mas para fes­tejos e celebrações que, de diversas maneiras, incluíam as popu­lações afro-brasileiras quer fosse pelo culto a santos negros como Santa Efigênia, São Benedito e Nossa Sra. Aparecida, quer pela tolerância às suas músicas e danças, genericamente conhe­cidas como “batuques”.26

Com o poder de estabelecer a fronteira entre o certo e o errado, bem e mal, sagrado e profano, o catolicismo tornou-se um verdadeiro divisor de águas na mentalidade dos brasileiros. Esse enorme poder tem, obviamente, conseqüências tanto posi­tivas quanto negativas. Por um lado, ao incorporar fiéis negros e algumas de suas manifestações culturais, a Igreja contribuiu para a conservação de diversas tradições africanas, que pude­ram então desenvolver-se num contexto social razoavelmente estável e pacífico, como no caso dos primeiros candomblés, cujo surgimento teria sido facilitado pelas irmandades de pretos. Por outro lado, entretanto, a conquista e a manutenção desta esta­bilidade dependiam de que cada grupo aceitasse como natural/correta/justa sua posição na engrenagem social. Assim, a Igreja Católica promoveu no Brasil uma paz social que justificava o escravagismo e o genocídio cultural com base em arraigados preconceitos raciais. Muito embora, nas últimas décadas, a Igreja Católica tenha mudado suas estratégias e visões da realidade brasileira, a influência exercida no passado se faz ainda sentir no presente na forma de idéias que passaram a constituir-se numa espécie de senso comum. Assim, considera-se normal a superio­ridade cultural de indivíduos de origem européia, a inferiorida­de dos descendentes de africanos e a inapta pureza dos índios. Sendo tão importantes para a constituição da cultura e da soci­edade brasileiras, estas idéias não poderiam deixar de se fazer refletir na umbanda porque, afinal de contas, a umbanda é a cara do Brasil.

 

 

2. A Tradição do Espiritismo Kardecista

 

O kardecismo é a segunda tradição escrita mais importante na formação da umbanda, influenciando tanto o estilo de textos e discursos quanto o conteúdo conceitual e filosófico desta reli­gião. Os livros de Allan Kardec são a referência literária mais citada quando se trata de explicar as origens de idéias fundamen­tais como a reencarnação, a lei do karma e a evolução espiritual adquirida através da prática do dogma cristão de amor ao pró­ximo. Formalmente, também, a obra de Kardec contém a ma­triz do tom racional-científico que aparece na retórica e na lite­ratura umbandista, mesmo quando as informações veiculadas baseiam-se exclusivamente na fé.

Allan Kardec, o fundador do kardecismo, nasceu na França, e seu nome de batismo era Hypolite Léon Denizard Rivail. So­mente aos 51 anos, após ter escrito vários livros acadêmicos, ele entrou em contato com o espiritualismo que, nos anos de 1854 e 1855, estava fazendo um enorme sucesso nos Estados Unidos e na Inglaterra, com suas demonstrações de mesas movidas pela força dos espíritos. Na mesma época, os famosos “telégrafos do espírito” invadem a França. Convencido da autenticidade des­ses fenômenos, Rivail se viu como um dos enviados para codifi­car o que denominou espiritismo, em vez de espiritualismo. Ele adotou o nome Allan Kardec, o qual lhe fora dado em sua últi­ma encarnação, quando viveu como um druida na antiga Gália.

Embora psicografado por um druida, o kardecismo incor­porou idéias contemporâneas de Rivail, entre elas o positivismo de Auguste Comte e o evolucionismo de Charles Darwin, e pro­curou conciliar razão e fé através do estudo científico de fenô­menos espirituais e da prática sistemática da caridade. De acor­do com essa doutrina, a vida transcorre num universo temporal e causal, em que cada um recebe de volta hoje os resultados das próprias ações passadas, o que cria um contexto em que o ego­ísmo é a fonte de todos os males e a caridade a fonte de todas as bênçãos. O trabalho da pessoa humana na Terra, esforçando-se pelo bem comum, é tido como um pré-requisito para sua evolu­ção espiritual e a conquista de dimensões superiores de existên­cia, objetivo que cada pessoa busca incansavelmente através de sucessivas encarnações (ou vidas) na matéria. Do mesmo modo, o kardecismo enfatiza o livre-arbítrio e a força de vontade como peças-chave no caminho da espiritualização da espécie humana. Todas essas considerações são vistas como conseqüências lógi­cas da eternidade da alma, cuja realidade é, para Kardec, de­dutível a partir da observação metódica de fenômenos me­diúnico-espirituais.

No Brasil, o kardecismo teve que adaptar-se a um contexto multicultural em que predominavam o catolicismo e a oralidade; entre as transformações que se operaram nesse processo, Diana Brown destaca o seguinte aspecto:

 

Enquanto o kardecismo francês reteve sua orientação primeira na direção da ciência e da filosofia racional, e foi somente secundariamente (...) uma religião, o kar­decismo no ambiente brasileiro foi rapidamente trans­formado numa religião mística.27

 

Embora negando a existência de céu e inferno que para Kardec estariam contidos na própria psicologia do indivíduo, conforme o seu estágio de evolução —, o kardecismo propunha desde o início a aceitação e prática das idéias de Cristo como conseqüência moral da aplicação de suas idéias científicas. Aqui, entretanto, a doutrina assumiria contornos cada vez mais próxi­mos do catolicismo brasileiro, destacando-se pela “adoração” de Kardec como “santo” e por curas e cirurgias mediúnicas em cerimônias capazes de atrair multidões. A aproximação de al­guns grupos com o catolicismo é tão grande que eles são cha­mados de kardecistas evangélicos. Há também os kardecistas intelectuais, geralmente oriundos das médias e altas camadas da sociedade brasileira, incluindo-se aí um grande número de edu­cadores, profissionais de saúde e profissionais liberais. Entre eles observa-se maior sincretismo em direção ao esoterismo, espiri­tualismo e outras tradições ocultas vindas do continente europeu.

No tocante às tradições orientais, onde Kardec foi buscar os princípios filosóficos da lei do karma, cuja versão ociden­talizada ele apresenta em seus livros, também elas parecem es­tar mais intensamente associadas ao kardecismo no Brasil do que estiveram na Europa. Embora as escrituras védicas tenham sido a principal fonte de que Kardec absorveu princípios da filosofia oriental,28 há grupos de kardecistas no Brasil que se reúnem para receber mensagens psicografadas de mestres chineses, indianos ou ciganos. Entre suas leituras, esses kardecistas incluem pági­nas do hinduísmo, do budismo e do confucionismo.

Quanto às tradições africanas e ameríndias, porém, a histó­ria é bem outra. Os kardecistas brasileiros costumam estabele­cer com estas uma relação ainda mais discriminatória do que aquela adotada pela Igreja Católica, sendo (até hoje) considera­do em muitos centros que os espíritos de negros e índios sejam involuídos e carentes de luz. Embora Kardec não tenha escrito nenhuma palavra diretamente a respeito da inferioridade espiri­tual de qualquer raça humana, a leitura que seus seguidores bra­sileiros fazem de sua obra atribui a índios e negros comentários dele sobre espíritos atrasados, embrutecidos, materialistas ou involuídos. Mas se os índios ainda podem ser beneficiados pela noção que se têm sobre sua suposta inocência infantil, os negros já não podem contar com o mesmo tratamento indulgente. Iletrados e subdesenvolvidos, os descendentes de africanos são freqüentemente mencionados por kardecistas brasileiros como causadores (e não vítimas) da maioria dos problemas espirituais e culturais que afligem a sociedade brasileira.

Nesse contexto, todos os rituais afro-ameríndios são indiscri­minadamente chamados de magia negra; na visão de grande parte dos kardecistas brasileiros, o ser humano de origem africana ou indígena tem que aceitar a superioridade cultural ocidental, bus­cando-a como ideal, se quiser evoluir espiritualmente. De um modo geral, o descaso da “ciência espírita” relativamente a um conhecimento mais objetivo das tradições orais é tão evidente que seus seguidores dificilmente se dariam ao trabalho de estu­dar, por exemplo, a cultura do antigo reino do Kongo para des­cobrir que lá, muito antes do nascimento de Kardec, ou mesmo da chegada do cristianismo, o dogma da eterna jornada da alma já era adorado sob o simbolismo da cruz.

Como grande parte dos católicos e protestantes, os karde­cistas também dedicam um bom tempo à doutrinação (ou con­versão) dos pobres, necessitados ou infiéis que se encontram na sua esfera de atuação mas eles não consideram as suas ses­sões de passes, doutrinação e desobsessão como sendo rituais. Todavia, vários tipos de passes e descarregos dos rituais de umbanda demonstram clara influência das “sessões” kardecistas.

Talvez essa assumida desvalorização conceitual dos aspec­tos relativos à performance no espiritismo kardecista tenha fa­cilitado a interação desta religião com tantas tradições diferen­tes, incluindo aquelas que os kardecistas “puros” consideram tão inferiores. Tanto que as diferenças entre uma sessão de espiri­tismo e uma de umbanda de mesa não são perceptíveis após uma olhada inicial, pois ambas as cerimônias se confundem visualmente. Num segundo momento, um observador razoavelmente atento perceberá, por exemplo, que na umbanda os rituais são cheios de música e que seu vocabulário específico pertence a uma língua portuguesa coloquial, que apresenta numerosas variações denotativas da influência de culturas e idiomas não-ocidentais.

Um investigador um pouco mais curioso, que deseje ir adian­te na sua compreensão da umbanda, descobrirá com relativa facilidade que uma das diferenças mais marcantes da umbanda é a sua maior disponibilidade para aceitar todos, vivos e mortos, do jeito que são. Nela há espaço para a incorporação das mais diversas heranças étnicas e culturais, e para a convivência entre elas. Qualquer um é considerado digno de receber ou apto a praticar a caridade. É assim que, na umbanda, ouvem-se coisas inusitadas como, por exemplo, o espírito de uma prostituta, que viveu e morreu na zona do Mangue, aconselhando uma dona de casa do Méier sobre como obter e proporcionar mais prazer no sexo. O mais interessante é que prestar esse tipo de ajuda tam­bém conta pontos na escala umbandista da evolução espiritual.

 

 

OUTRAS TRADIÇÕES

 

Se as tradições orais e escritas, estudadas anteriormente, podem ser claramente percebidas na umbanda, mesmo aos olhos de um observador leigo, existem outras tradições cuja influência é mais discreta, encontrando-se seus elementos dispersos em meio à parafernália da religião. Tais tradições requerem uma pesquisa mais elaborada para tornarem-se visíveis. Mesmo sem dispor­mos de informações suficientes para abordar com mais precisão as relações entre essas outras tradições e a umbanda, nos senti­mos obrigados a citá-las aqui. Entre elas destacamos a tradição dos malês, da maçonaria e dos ciganos, além das tradições orien­tais como o budismo, o hinduísmo e o confucionismo. Destaca­mos também a existência de pelo menos um centro de umbanda traçado com judaísmo,29 e do recente cruzamento entre umbanda e vegetalismo. E possível encontrar vestígios de todas essas fontes no caldeirão multicultural da umbanda, ainda que em setores muito específicos da sociedade.

 

 

1.  Os Malês

 

A tradição malê, ou muçulmana, é composta no Brasil pela fu­são de várias tradições orais africanas (haussás, mandingas, iorubas, gêges) com a tradição escrita árabe, contendo en­sinamentos do Alcorão. A cultura maometana, incorporada pelos habitantes da África subsaariana, foi trazida por eles para o Brasil. Os malês adotaram a língua árabe para ler as escrituras sagradas do profeta de Alá, mas não deixaram de professar as suas magias nativas, as quais foram sincretizadas com o Islã. Alguns de seus procedimentos mágicos, descritos por Manuel Querino, nos parecem, entretanto, bem pouco ortodoxos em relação à doutrina revelada pelo profeta Maomé, na medida em que exibem traços da tradicional magia africana:

 

Para destruir qualquer malefício possuía o malê peque­no patuá ou bolsa que trazia no pescoço, contendo uma oração em poucas palavras, a qual era encimada por um polígono estrelado regular de cinco ângulos, vulgarmen­te conhecido por signo-de-salomão. E assim, diziam eles, ficavam imunes de toda feitiçaria.30

 

Os negros malês eram também muito solidários entre si e defensores da própria liberdade; famosas foram suas revoltas na Bahía em meados do século XIX, motivo do banimento deste grupo pela coroa portuguesa.

 

 

2. A Maçonaria

 

A maçonaria está intimamente ligada à nossa história e parece estar deliberadamente inserida nas grandes transformações po­lítico-sociais do continente americano, entre as quais destaca­mos a independência do Brasil e a dos Estados Unidos, cujos líderes eram maçons.

A maçonaria é uma entidade apolítica que congrega mem­bros de diversas raças e religiões em torno de princípios ético-filosóficos herdados do mais clássico ocultismo europeu. Seu principal objetivo é promover a emancipação através do aper­feiçoamento humano; só há envolvimento em revoluções quan­do se trata de defender a liberdade, a justiça e a tolerância. Os maçons são também chamados pedreiros-livres, numa menção aos antigos membros que se dedicaram, como arquitetos ou operários, à construção das catedrais góticas na Europa, como as de Estrasburgo, Chartres e Notre-Dame.

É bem possível que diversos elementos esotéricos tenham sido incorporados pela umbanda através do contato com a ma­çonaria. O perfil histórico e os objetivos a que esta fraternidade se dedica nos permitem supor que alguns maçons tenham atua­do de forma discreta, mas decisiva, no processo de formação dessa emergente religião brasileira e multicultural, baseada na caridade e na tolerância.

 

 

3.  Os Orientais

 

 

       A influência de tradições orientais na umbanda é bem forte nos centros que cultuam a linha do oriente. Os elementos orientais mais visíveis são aqueles herdados do budismo, hinduísmo e confucionismo.

Além da imagem bonachona do mestre Buda, que a todos abençoa com ares enigmáticos, o budismo se faz presente nos rituais de umbanda através das oferendas de frutas e flores e pela aplicação dos ensinamentos de amor incondicional e da tranqüi­la aceitação das vicissitudes irreparáveis da vida, não apenas como purgação de pecados passados, mas como reveladoras de ensinamentos espirituais.

Da filosofia hindu, através da obra de Kardec, incorpora­ram-se os fundamentos da lei do karma, conforme consta das escrituras védicas, às quais o espírita francês teve acesso antes de formular sua doutrina. Mais recentemente, elementos da ioga têm sido igualmente absorvidos pela umbanda de tendência mais esotérica, epitomados em técnicas para a desobstrução dos sete chakras.

Do confucionismo, percebe-se a influência de conceitos como o Tao, ou caminho do meio, a ser alcançado pelo equilí­brio entre os opostos; a isto soma-se o uso do I-Ching, tradicio­nal oráculo chinês, em sessões de consulta divinatória.

 

 

4.  Os Ciganos

 

Os ciganos são fiéis de muitas religiões, pois este grupo se iden­tifica por traços étnico-culturais comuns, entre os quais a oralidade e o nomadismo, que são os que mais contribuem para as histórias e mitos que fazem deste povo uma verdadeira lenda viva. Santa Sara Cali e Nossa Sra. Aparecida são muito queri­das por todos e alvo de grande devoção, independentemente da religião de cada um.

Insubmissos, os ciganos foram perseguidos por poderosos tiranos de todos os continentes. Sua forma anarquista de viver, inadaptada a rígidas estruturas sócio-políticas, foi muitas vezes entendida como ameaça à estabilidade do Estado. Sua origem, não registrada em livro ou documento, é imprecisa, sendo às vezes localizada no norte da África (antigo Egito), na India, no Leste da Europa, na Península Ibérica.

Conhecidos no passado como uma tribo de músicos e adivi­nhos, eles depositam nas mulheres a missão de desvendar o des­tino lendo mãos e as cartas do baralho cigano, nele interferindo por meio da poderosa magia cigana. A má fama de ladrões e trapaceiros pode ser devida ao choque cultural entre ciganos e europeus, que levara os primeiros a fazer uso da esperteza e da sedução para sobreviver. Talvez isso justifique a forte presença de entidades ciganas nas giras dos exus.

 

 

5.  O Vegetalismo

 

Sob o nome genérico de vegetalismo incluímos aqui todas as práticas ritualísticas em que a incorporação de espíritos, para fins de adivinhação, cura ou simples celebração religiosa, é com­binada com a ingestão de substâncias vegetais expansoras de consciência, também conhecidas como “plantas do poder”. Ingeridas na forma de bebida ou fumo, essas plantas são tradicio­nalmente usadas por tribos ao redor do mundo como auxiliares no processo xamânico.

 

Na umbanda, a influência vegetalista é provavelmente her­dada de práticas xamânicas afro-ameríndias. Sabe-se que o uso de macaia/diamba (maconha) e psicotrópicos (álcool ou outras bebidas) para estimulação da vidência era comum entre os po­vos bantos.

A ayauasca, raiz há muito utilizada pelos povos ameríndios, é hoje a mais importante “planta do poder” que se sabe associa­da a rituais umbandístas, sobretudo na região amazônica. Mis­turada à “folha da rainha” a ayauaska, ou jagube, participa da composição do Santo Daime, bebida em torno de cujo consumo organizaram-se vários grupos místico-religiosos no Brasil ao longo deste século. Alguns deles performam rituais muito pró­ximos às giras umbandistas de caboclos, pretos-velhos e sereias.

 

 

6. A Medicina Popular

 

Chamamos de medicina popular todas as práticas que condu­zem à cura por vias místico-espirituais. As dez mil cirurgias mensais performadas pelo Dr. Fritz, atualmente incorporando-se no engenheiro Rubens Faria Júnior; as operações sem cortes do médium Waldemar Coelho, a que se submeteu, recentemen­te, a atleta Ana Moser; os tratamentos com agulhas do Dr. Hans, em Minas Gerais... - Curas milagrosas, incisões cirúrgicas sem anestesia e sem dor... Energizações pela imposição das mãos, remédios da flora medicinal para males do corpo, da mente, do espírito e do coração.

Numa perspectiva ampla, todos os muitos caminhos que le­vam à cura, com exceção da oficial medicina acadêmica, podem ser considerados como pertencentes ao vasto conjunto da me­dicina popular. A enorme quantidade de brasileiros desprovidos de cuidados médicos mínimos, a maioria absoluta da população, engrossa as filas da numerosa clientela ávida por serviços médi­cos eficazes e praticamente gratuitos.

A medicina popular incorporada nos rituais de cura da umbanda provém das mais diversas tradições, combinando passes, rezas e benzeduras universais com preciosos conhecimen­tos afro-ameríndios sobre a flora medicinal tropical, além de adaptar técnicas e recursos da tradicional medicina ocidental (injeções, cirurgias) e oriental (acupuntura, ervas).

 

 

Notas

 

1      Thomas Ewbank, Life in Brazil:A Journal of a Visit. NewYork: Harper & Brothers, Publishers. [1856] 1971, p, 131.

2.     Informação fornecida pelo babalaô norte-americano Edie James em entrevista a Zeca Ligiéro.

3.     Isidore Okpewho,African Oral Literature. Bloomington and Indianapolis: India­na University Press, 1992.

4.     De Celso, Umbanda de caboclos, Rio de Janeiro: EditoraEco, 1967, pp. 67, 68.

5.     Estamos criando o verbo “performar”, pois acreditamos que ele é ufil para descrever todas as ações que ocorrem na performance do ritual. O estudo da performance tem sido objeto de análise por importantes escritores como Victor Turner, Richard Schechner, Brooks McNamara, entre outros.

6.     Orlando e Cláudio Villas-Boas,Xingu, Os índios e seus mitos. São Paulo: Zahar Editores [1970] 1975.

7.     Abguar Bastos, Os cultos mágico-religiosos no Brasil. São Paulo: Editora Hucitec,

1979, p.l9S.

8.     Idem,p. 198.

9.     Mércio Pereira Gomes, Os Indios e o Brasil. Petrópolis: Vozes, 1987.

10.  Diana Deg Brown, Umbanda: Religion and Politics in Urban Brazil. Michigan:

University of Michigan Press, 1986.

11.   Mgr. J. Cuvalier, L'AncientRoyaume de Congo. Bruges, Paris: Descoeè de Brouwer,

1946.

12.   Rooert Farris Thompson, and Joseph Cornet, The Four Moments ofthe Sun. Washington: National Galery ofArt, 1981.

13.  Robert Farris Thornpson, Flash ofthe Spirit: African &Afro-AmericanArt & Phi­bosophy, Nova York: Vintage, 1984.

14.   O monumento a Zumbi é o único oficialmente erigido a um líder negro de projeção nacional de que temos notícia em território brasileiro. Os pesquisadores Daniel Dawson e Henry Drewal avalizam que a tatuagem em forma de cicatrizes transversais na face da “cabeça de lfé” escolhida pelo Governo do Rio para representar Zumbi são típicos da estatuária íoruba. Porém, no século XVII, época em que floresceu Palmares, ainda não havia uma importação maciça que justificasse a supremacia cultural deste grupo sobre as demais etnias africanas. O mesmo ocorre em relação ao período em que viveu Xica da Silva, onde as evidências também apontam uma hegemonía banto. Indiferente a tudo isso, as representações oficiais de personalidades históricas como Zumbi e Xica da Silva são ambientadas em contextos culturais pontuados pela presença dos orixás iorubas.

15.   Luís de Camões, Os lusíadas. V/13(1567).

16.   Segundo o folclorista angolano Oscar Ribas, em seu livro Ilundo espíritos e ritos angolanos, o nome fetiche teria sido traduzido do português feitiço, signi­

ficando o mesmo que “coisa feita”. Luanda: Instituto de Investigação Científica deAngola, l975,p. 17.

17.  Pierre Fatumbi Verger, Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre Benín e a Bahia de Todos os Santos. Salvador, Bahia: Corrupio. [19681,1987.

18.   Gisele Binon Cossard, ialorixá Omíndarewá, no prefácio de Iniciação ao can­domblé, de Zeca Ligiéro, Rio de Janeiro: Record, 1993.

19.   J.A. Atanda,An Introduction to Yoruba History. Ibadan: lbadan University Press.

1974, p. 7.

20.  Rev. R. H. Stone,Africa's Forest and Jungle: Or Six YearsAmong the Yorubans. Nova York: Fleming H. Revell, 1899, pp. 20 a 23.

21.   Nunes Pereira, A casa das minas: contribuição ao estudo das sobrevivêncías do Culto dos Voduns, do Panteão Daomeano, no Estado do Maranhão, Brasil. Petrópolis: Ed. Vozes, 1979.

22.   Ver o capítulo Zeca Ligiéro, “O Candomblé Nosso de Cada Dia”, em Iniciação ao candomblé, op. cit.

23.   Como tudo na umbanda, há variações no que diz respeito à liderança e constituição das falanges. Em alguns terreiros, Iansã não é líder de falange, em outros, em vez dos íbeji, a sétima falange é a do povo do oriente, ou a falange do povo das almas, chefiada pela entidade Yorimá. Os autores de Umbanda: Paz, Liberdade e Cura adotam uma combinação das divisõ