A BUSCA DE UMA PERFORMANCE AUTOBIOGRÁFICA. O SUJEITO/OBJETO.
por Helena A. Vieira

 

 

INTRODUÇÃO:

           Buscaremos neste trabalho - a partir da análise da performance objeto de estudo do mestrado, El segundo Sexo, e, aliados a ela, as experimentações que se seguiram durante o primeiro semestre de curso - descobrir de que maneira as performances analisadas abordam as seguintes questões:

  1. Performance solo- o performer como sujeito e objeto da obra

  2. Gênero – o feminismo ( a questão da memória histórica)

  3. Regate da memória do próprio corpo – elementos biográficos

  4. O conteúdo social – a identidade cultural

           Usaremos da bibliografia do curso Diana Taylor e Richard Schechner ( textos da página do Instituto Hemisférico de Performance e política) e, como leituras complementares, textos de Stuart Hall, Henri-Pierre Jeudy, e artigos do Drama Review e do Professor Doutor Zeca Ligiéro.

           Para exemplificar o presente artigo apresentar-se-á uma análise acerca do trabalho El segundo sexo escrito para o palco em linguagem de performance seguida de descrição sobre a performance "Bailarino: Ser ou não Ser, Ter ou não Ter?" escrita para apresentação na via pública..

           As performances têm como pano de fundo alguns eventos políticos mundiais, como por exemplo, a queda das torres gêmeas - que consideramos tanto um marco subjetivo, da tomada de consciência latino-americana, quanto o momento de transição política no país, por ter sido um momento que produziu mudança. Não que isso apareça claramente no solo, mas é esse sentimento de mudança e transformação coletiva que nos interessa, e, é por esta razão que procuraremos re-memorizar os movimentos de resistência e combate social da década de setenta, principalmente, por ser esta a época em que os movimentos feministas, também objeto de nossa investigação, influenciaram grandes artistas.

           É este movimento que tomamos como inspirador para a construção desta performance autobiográfica, pois é a partir do slogan do movimento feminista dos anos sessenta "O pessoal é político" que este trabalho se inicia. Ele nos indica que o que temos de pessoal, salvo raríssimas exceções, é fruto de um coletivo.

           Los Estados Unidos da América parecen destinados por la providencia a plagar de miséria a la LatinoAmerica en nombre de la libertad

Simon Bolívar

           Os conflitos políticos na América Latina - Argentina, Venezuela, Bolívia, Colômbia - e a queda de um símbolo do império Estadounidense, as torres gêmeas, são acontecimentos que marcaram o mundo contemporâneo. Como ficaria a arte a partir deste recorte? Haveria um processo de reação entre as artistas latino-americanas? Elas também estariam vivenciando as mesmas inquietações que se revelam neste trabalho e na performance El segundo sexo, objeto de nossa observação?

           Procuraremos neste artigo articular algumas idéias de Diana Taylor ( Taylor: 2003 ) que considera a performance como forma de intervenção no cenário político na qual AÇÃO e REPRESENTAÇÃO da narrativa dão lugar a AÇÃO INDIVIDUAL e INTERVENÇÃO, e a prática torna-se modo de transmissão, uma realização e um meio de intervir no mundo. A performance comporta a possibilidade de um desafio, inclusive, de um auto-desafio.

           Para Schechner (Schechner:1977,12) a performance é um termo inclusivo e o teatro é apenas uma das formas desta manifestação. O autor organizou seu trabalho prático e teórico baseado na idéia de um leque e de uma rede, portanto, de um lado, o estudo da performance compreende as várias correntes: ritos, cerimônias, chamamismo, a performance do dia-a-dia, o teatro e a ritualização (o leque); do outro lado, a idéia da rede, todos os aspectos se misturando.

           Para este trabalho nosso recorte restringir-se-á a compreender a performance teatral, urbana, performance que, além de identificar-se com a proposição levantada por Diana Taylor, no seu conteúdo, lida, com as questões já levantadas acima, de gênero, auto-biografia e memória.

 

As performances objeto de estudo

Experiência I:

 

           El segundo sexo: São cinco textos criados a partir de histórias pessoais, e que, são apresentados entrecortados por pequenas coreografias, dançadas com música mecânica. Um banco e um móbile são os únicos elementos cenográficos.

 

Cena I

           Eu tenho uma coisa muita séria para dizer a vocês, muito séria....

           Eu tenho um nome muito grande! Me chamo Helena com H, de Castro, Amaral, Vieira. É demais, não é? O pior é que lá em casa cada um é uma coisa. Meu irmão? (mostra uma foto) Amaral como meu pai (outra foto). Minha irmã? Castro (uma foto), sobrenome da minha mãe ( outra foto). E eu? (uma foto) escolhi Vieira, também do meu pai.

           O que tem de sério nisso? Minha gente, é muito sério! Deu um problema danado lá em casa! Minha mãe acha que sou uma filha sem mãe. Mas mãe!!! (À parte ): minha mãe é a única que manteve todos, é Castro Amaral Vieira, mesmo já não sendo casada com nosso pai, diz que é para não acharem que os filhos não são dela.

           (Voltando): Mas mãe!!! é muito nome e eu pus o que é mais sonoro para uma Helena com "H". Para platéia: afinal, meu nome é coisa muito chique, vem da Grécia, berço da civilização ocidental. Se eu coloco Castro vai lembrar Inês de castro, princesa portuguesa, ou o Fidel Castro, cubano e comunista ( pequena pausa, vira a bolsa típica do movimento estudantil) e aí um dia se eu tiver que lavar pratos em algum país invadido, INVADIDO, pelo El grand império, podem me descobrir e eu to ó fudida! (faz um sinal com as mãos de ok), não é mesmo?

           Mais que raios de tradição portuguesa é essa!?? Pra que tantos nomes!? E mãe !! Logo o nome da mãe antes que é o primeiro que dispensam na chamada, vão logo ler o último é óbvio! E eu, garota anos 70 com tanta convicção antimachista renegando logo quem? A mãe!

Bailarina dança ao som de um bolero.

 

Cena II

           Sabe qual é o primeiro problema que uma menina enfrenta? Seus peitos. É verdade, vocês pensam que não??

           Eu, por exemplo, fui muito precoce. Antes de completar 11 anos, lá estavam eles, dois carocinhos nascendo...e num dia de verão, muito muito quente, eu cursava a 4ª serie primária, a professora determina que todos tirem suas camisas. Eu me recusei é claro. E ela forçando, forçando. Resultado: um grupo de meninas e meninos, sem camisa, e eu a única diferente, todos me olhando espantadíssimos, com os olhos assim arregalados, sem conseguirem despregar os olhos de mim. Silêncio mortal na sala.

           Depois, eles finalmente cresceram e eu tive que escondê-los dentro dos ombros, eu andava assim ó....( imita o andar com os ombros totalmente encolhidos) se não, era só passar por uma obra que Batata! lá vinham os engraçadinhos, e foi assim a adolescência inteira. Horrível, traumático, pois cadê que consegui tirá-los de dentro dos ombros novamente?? E eles foram diminuindo, diminuindo... e hoje isso é quase inadmissível. A mulher brasileira tem peito!!! As que não tinham colocaram e as que tinham passaram a expô-los feito Sophia Loren ( imita os seios fartos saindo pelo decote). Eu saio nas ruas eu me espanto é peito por todo lado, nos anúncios, nos outdoors, ônibus, revistas, na TV então, nem se fala... Tomara que a Carolina Ferraz, resista e não ceda a moda, se não, quem irá defender "as despeitadas"???

           ( Vai para um banco e inicia segunda dança, som de um rock. Encena uma caótica masturbação, cômica, Pará abruptamente com o berro de Basta!).

 

Cena III

           Eu tô impressionada...entra milênio, sai milênio e o nosso tema é sempre o mesmo: Quando iremos ter filhos? "Se já tá ficando velha, héin?". Disse o doutor. Velha? Eu? Aos 30?? Como assim? (Imita a fala do doutor): "É, a mulher tem uma curva de ascendência, o melhor período para engravidar é até os 24, depois, vem o processo de envelhecimento e declínio da fertilidade". Sinto muito doutor, mas essa não é a minha realidade, não conheço quase ninguém mãe antes dos 30, e depois, esses são justos os melhores anos para se ser solteira e sem filhos ... Bom, como se isso já não bastasse depois vem o pai moderno, cabeça ótima, no dia que você arma um jantar para ele conhecer seu príncipe consorte, o cara mal abre a boca para explicar que gosta muito da filha e ele já vem com essa: - Olha, quem tem que gostar de você é ela, só quero uma coisa; netos!!!Me dêem netos!!

           Sabe qual é a conclusão a que cheguei? Olha, já me chamaram de feminista e sexicista depois dessa, mas é só uma constatação, não é inexorável: o casamento é muito importante sabe para quem?? Los hombres...

 

Cena IV

           Eu agora, passada as indignações que contei para vocês, eu vou contar uma incompreensão: Por quê uma mulher ameaça à outra?

           Estava na Venezuela, numa cidadezinha, Santana de Coro, vocês vizualizam assim o mapa da América do Sul, ali no cantinho esquerdo, ta a Venezuela e no fim há um pescocinho e um continente , caribe venezuelano! Eu caí de pára-quedas na casa de uma família que se preparava para uma festa de quinze anos. Eu não tinha alternativa, eu ía com eles ou ficava sem nada para fazer e era minha primeira noite na cidade. Criei coragem e perguntei:

 

           Todos se entreolharam, principalmente as mulheres.

           É claro que tinha, estava próximo do meu aniversário e, por via das dúvidas, eu levava uma roupa para a ocasião. A menina, filha do dono da casa, ficou horas de frente para a penteadeira se enfeitando, eu em cinco minutos estava pronta. Minha roupa era muito simples, muito discreta; um longo laranja, colado no corpo com um rasgo da coxa até o pé. Tratei de ir na frente com os homens, não queria aquele olhar desconfiado para cima de mim.

           Chegamos na festa... uma cena indescritível...todos queriam homenagear a brasileira!!! Que vergonha... da Venezuela eu não sabia nada...( ergue a mão em "V" e faz um gesto de explosão), foi preciso as torres gêmeas caírem para eu me dar conta de que era Latino Americana e até samba no pé, ao som de aquarela do Brasil eu tive que mostrar..,é, esse sambinha desajeitado mesmo que mostrei, 30 anos de praia de Ipanema, nascida na terra do samba e nada no pé. Eu dizia que era por causa do balé, quebrei a cara quando vi Ana Botafogo sambando e na ponta!!!. Mas, tudo bem, estava na terra da salsa, meu sambinha mequetrefe enganava e nos divertíamos.

           (dança, o samba se transforma numa luta de boxe).

           Mas aconteceu que o namorado da menina ciumenta, aquela da penteadeira ( faz gesto que remete à imagem da menina na penteadeira), não parava de querer conversar comigo, não largava do meu pé, e a menina só de rabo de olho controlando todos os meus movimentos, e o pior é que falávamos de política!! e eu: "- sai daqui menino, volta para sua namorada, sai!!!"

           Resultado: as mulheres da casa não me dirigiram mais a palavra, nem sequer o olhar! Eu me senti a verdadeira gata borralheira.

           (Volta a dançar até a música acabar ).

 

Cena V

           Vou abrir essa maleta e mostrar a vocês os meus segredos, vou mostrar tudo o que me inspirou a escrever essa história toda.

           Em primeiro lugar: O orçamento de uma operação de silicone ( abre a folha e mostra), R$3.500,00 sem recibo, R$ 4.500,00 com recibo.


Orçamento de silicone.

           O livro o Segundo Sexo de Simone de Beauvoir, depois eu conto a frase que mais me motivou...Uma piada que meu diretor, o João, me deu de presente, vou contar pra vocês, embora não seja muito boa nisso, é mais-ou-menos assim: Dois homens se encontram ( faz as diferentes vozes).

&NBSP

  1. Fala, Vagabundo!

  2. E Aí filho -da –puta!

  1. E aí viadinho, e a gostosinha da tua irmã, como tá?

  2. Vá te fudê!

Cada uma segue seu caminho

  1. Porra, que cara manero !

  2. Me amarro no cara, de graça.

Duas mulheres se encontram ( outras vozes).

  1. E aí que-ri-da? Como "cê vai?

  2. Nossa! Como "cê tá linda!!!

  1. Que nada, são teus olhos. E você que ta ma-gér-ri-ma!

  2. Mas e a tua epiderme, ‘tá um escândalo!

  1. AH! Deixa disso, bondade tua.

    Se separam....

  2. . Perua! Falsa pra caramba.

  1. Que mo-cré-ia, crente que tá abafando.

 

           Bom, e por último o momento 0300, o diretor detesta, eu adoro, acho a parte mais importante. Eu criei esta camiseta e a Luisa Marcier, uma amiga estilista produziu, esta à venda em todas as lojas "à Colecionadora" (que só tem uma). Eu vou aqui explicar a importância e como usar. Veja bem, é mais econômico que colocar silicone e todas as mulheres despeitadas poderão se sentir também uma Sophia Loren, veja como é simples. Agora eu explico os efeitos: para quem tem um fisique de role assim como o meu é um sucesso! Você sai nas ruas, pelo menos no Rio, e os homens metem o olho no buraco, amigas e amigos, com mais intimidade, metem o dedo, dá um maior barato, "cês nem acreditam, portanto, comprem a camiseta e promovam o movimento M.D – Mulheres despeitadas – salve uma perto de você.

           Boa noite e obrigada. Essa não é uma obra de ficção, mas qualquer semelhança não é uma mera coincidência.

 

Fim.

 

Análise dos elementos biográficos da performance.

 

           Para poder fazer uma análise comparativa dos textos estudados aplicados às performances será necessário, antes de mais nada, compreender os elementos contidos na performance El segundo sexo.

           Trata-se de obra escrita a partir de março de 2003 – ano da mudança de governo no Brasil- não é uma ficção, é feita a partir de análise de situações de minha biografia, por isso considerar bastante importante o caráter de sujeito e objeto da obra. Trato de questões geracionais, como casamento, filhos, silicones. Foi escrita para o palco, e contém elementos de dança e teatro. O tempo de duração, que se iniciou com 3 minutos, agora, é de 30. O texto, que foi escrito para a cena, é aumentado conforme as apresentações, contém uma parte de improviso, que é uma conversa com a platéia, de acordo com o que é dito, as questões que mais chamam a atenção as coloco nas falas das próximas apresentações. No principio, a idéia era de ir a construindo a performance desta forma, a certa altura, eu perguntava a opinião da platéia sobre tudo o que eu havia dito até ali, então 20 minutos poderiam se transformar em 60. Passado um tempo, resolvi fechar o espetáculo, o excesso de exposição e o maniqueísmo com que o debate transcorria, me dissuadiram. Há o uso de música gravada. Até o presente momento ele tem 30 minutos, e voltarei a debater com a platéia sempre que necessário. Ainda conservo um improviso – próprio da performance - que é quando apresento ao público a maleta de onde saem todos os motivos da construção da obra: orçamento de uma operação de silicone, o livro de Simone de Beauvoir que da o título ao trabalho, um livro de quadrinhos da Mafalda, foto do pai moderno, um pequeno Globo terrestre e a etiqueta da camiseta com um furo entre os seios, camiseta símbolo do trabalho. Não há cenário, salvo um banco e um móbile no qual as fotos da família são penduradas. Essa é uma marca que tem relação com o Teatro Essencial de Denise Stoklos, onde o imprescindível é o ator e o que ele diz, não as tecnologias que o envolvem no palco.

Questão de gênero : resgate da memória histórica - Performance feminista.

           Dramaturgia feminista ou feminina, qual aquela em que pretendo estar inserida? No início, esta dúvida causava grande incômodo. Nasci na década de 70 em uma cidade cosmopolita como o Rio de Janeiro, logo, o feminismo cedo se fez presente em minha vida, como as lembranças das conversas no ensino primário revelam: "Com quantos anos pretende se casar?" Perguntava uma menina. "Dos 25 anos em diante", eu respondia. "Quantos filhos pretende ter? "três, cada um de um homem diferente". Já não estaria presente aí neste inocente diálogo as idéias revolucionárias das mulheres que me antecederam? No dicionário, "feminismo" significa "movimento que ampliou os direitos civis e políticos das mulheres". Os anos setenta, com o advento da pílula anti-concepcional, tornaram-se o símbolo do amor livre, da desvinculação entre sexo e casamento (mas foi somente a partir de 2001 que o Código Civil, brasileiro, extinguiu, como causa de pedido de anulação de casamento, a omissão, pela mulher, da informação ao cônjuge, da condição de não mais virgem) porém, nós artistas criadoras, nos vemos constantemente desencorajadas a fazer uso deste adjetivo - feminista - uma vez que a primeira coisa que ele desperta é preconceito. Trata-se, comumente, de pensar que feminismo é sinônimo de mulher-macho, autoritária e mal amada. Portanto, não é nada anacrônico pensar na célebre frase de Simone de Beauvoir com a qual critica este preconceito: "O homem é pensável sem a mulher, ela não sem ele" (Beauvoir: 2002,10), uma vez que todos os adjetivos citados se referem a um ponto de vista masculino.

           Por quê pensar em obra feminista provoca preconceito? Porque talvez não faça parte do feminino a clareza do pensamento, o discurso próprio, a sedução pela retórica? Pior ainda é se esse feminismo vem colocado na forma de humor, no caso das artes cênicas, aí ele estará fadado a ser tratado como uma obra gay, já que faz parte do mundo masculino o humor irônico, talvez catalogar a obra como gay, seja a única possibilidade de compreendê-la.

           Não foi por acaso que percebi, durante pesquisa deste tema, que a maioria das mudanças que ocorreram na arte feminina estava ligada à década de setenta. Foi ela o momento fértil do feminismo contagiando todas as artes e motivando-as a tomar posição. Katharina Sieverding ( Grosenick: 2001, 494) faz uma afirmação feminista: "O pessoal é político". Aluna de Joseph Beuys na Academia de Arte de Dusseldorf, percebe que, vivendo o auge dos protestos estudantis (entre 1967 e 1969), tinha que ser ativa como artista e tomar parte no processo de decisão. Começou então com uma câmera na mão fotografar os tumultos e as ocorrências públicas.

"O pessoal é político"

           Os elementos biográficos presentes em El segundo sexo afirmam este slogan do anos 60. Por exemplo, quanto à referência aos seios, contida na obra, motivo aparentemente pessoal, procura denunciar a moda do silicone interferindo nos paradigmas de beleza de um povo, tornando-se febre entre as adolescentes com o corpo ainda em formação, para o que contribuem os veículos de comunicação que passam a exibir esse padrão de beleza em suas campanhas publicitárias e nas telenovelas brasileiras. Por quê a implantação de uma prótese seria estético? Indagará Henri-Pierre Jeudy ( Jeudy: 2002, 121): o corpo refeito se torna um objeto de arte? O limite entre arte e vida cada vez mais torna-se ambíguo, difícil de precisar, talvez daí a necessidade da manifestação do artistas diante do que julga tirano.

           A televisão, cuja linguagem está tão presente, especialmente, nos nascidos na década de setenta ( década escolhida como paradigma da pesquisa) – constituindo-se como um dos formadores de opinião dessa geração- faz-se presente na escolha dos gestos. Faço referência ao grande comunicador brasileiro Chacrinha morto no final da década de 80, à emblemática cantora de rádio Carmen Miranda (1909-1955), ao polêmico presidente Venezuelano Hugo Chavez, a Fidel Castro e faço menção também à atriz de telenovela Carolina Ferraz, magra e com poucos seios e mesmo assim, considerada um símbolo sexual que ainda resiste aos novos padrões de beleza. São referências ainda que sutis, porém fortes o suficiente para demonstrar a presença deste veículo na obra, que tanto influencia as novas gerações, que estão mais informadas que "formadas". Quantificação da informação e nenhuma formação, uma geração produto da mídia, este é o emblema desse novo momento contemporâneo e isso a performance procura discutir.

           A forte marca dos nomes – presente na encenação - como uma herança portuguesa patriarcal, na qual a mulher mesmo divorciada se sente insegura de voltar a assinar com seu nome de solteira, já que isso representaria, também, perda de identidade. E tratando de identidade nada mais intrigante que a total falta de identidade entre o Brasil e seus vizinhos. Não temos uma unidade lingüística com nossos vizinhos, e mesmo sofrendo da mesma dominação cultural e econômica do império estadunidense (notem que essa palavra que em espanhol é corrente na linguagem, em português significa claramente uma tomada de posição política) nunca havíamos pensado em nos unir ao restante do continente. Foi necessária uma tragédia, como o evento de 11 de setembro, para que nos perguntássemos: Por que tanta identificação com os norte-americanos e nenhuma com os sul-americanos? E é Chomsky, língüista estadounidense, que nos faz lembrar os 200 anos de invasões e extermínios das populações nativas do México, Caribe e América Central (In: Estudos avançados, 16 , 2002).

           A escolha deste evento político mundial como "cenário" parte, em um primeiro momento, de algo subjetivo, porém, a qual a tratamos como questão da ordem do coletivo, com explicações históricas, queremos encontrar nossa identidade continental. Partimos do principio de que, de alguma forma, nosso cenário geopolítico tem forte influencia no fazer artístico e, a primeira revolta coletiva vem quando constatamos que terroristas são aqueles que vão contra a ordem mundial, é terrorista quem luta contra o Estado democrático, mas nos esquecemos facilmente do terrorismo de Estado norte-americano presente em todas as lutas sociais ocorridas no continente sul-americano desde sempre, o 11 de setembro de 1974, a tomada do poder pelos militares e morte do então presidente chileno, Salvador Allende, é a data que nos deveria marcar, no entanto nem sequer conhecemos tal fato, já que muito mais prepoderante é a queda do símbolo de um Império capitalista, símbolo da economia global, capitalista. Por capitalismo entendemos sinônimo de liberdade, e qualquer outro regime, como atraso.

Experiência II: o conteúdo social - a performance na rua

           Intervenções urbanas: Bailarino, Ser ou não ser, ter ou não ter ?

           Ter: ( Do lat. Tenere "segurar".)V.t.d Adquirir, conquistar, atrair, granjear.

           Ser: ( Do. Lat. Sedere, sentar-se, fundido com formas de esse) S.m Homem, indivíduo, pessoa, criatura.

           Trabalho: S.m Aplicação das forças e faculdades humanas para alcançar um determinado fim." (Aurélio)

           A partir das definições acima, fiz um exercício de performance, desta vez, uma intervenção para a rua. Foi realizada no centro urbano da cidade na ocasião de um festival de dança internacional organizado pela prefeitura da cidade.

           Usando conceitos absolutamente conhecidos do grande público, e aproveitando um evento de dança, o meio no qual estou inserida, pretendi levantar questão sobre o trabalho e sua relação entre Ser e/ou Ter. Mais uma vez, questões da ordem do senso comum, todas as pessoas necessitam trabalho para sua dignidade, portanto Ser, porém quando se fala da moeda de troca, do valor deste trabalho para a sociedade, as opiniões são diversas. Movida por essa inquietação - saber quanto vale o trabalho artístico - encenei uma performance na Cinelândia na qual procurava um diálogo com o público. A escolha do local não foi casual. Tinha razão de ser. A Cinelândia espelha elementos preciosos para o debate que queria propor. Lugar de comícios da cidade do Rio de Janeiro, esta praça é cercada por prédios históricos como a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes e o Teatro Municipal. Na fachada de seus prédios temos a discussão a cerca do embate entre o novo e o velho, a cidade histórica, da Biblioteca Nacional, e a moderna, dos arranha-céus; temos a cultura popular e a cultura erudita lado a lado representadas pelos artistas de rua que diariamente se apresentam na praça e o imponente Teatro Municipal. Qual é o público que nos espera neste lugar? Pessoas de várias classes sociais, tanto os acostumados a freqüentar os teatros, a biblioteca, o cinema, o museu, e os que nada freqüentam porque nada possuem. Esse lugar é, portanto, propício para levantarmos o tema sobre trabalho como significando dinheiro ou trabalho significando prazer. Quanto vale o trabalho artístico?

           A performance consistia em armar um local na rua para que eu, vestida como uma bailarina clássica, de tule rosa com um cartaz com os dizeres: "Bailarino: ser ou não ser, ter ou não ter?"( Ser um profissional da arte e viver de seu próprio trabalho, ou ser um profissional que vive pela arte) me propunha a dançar para o povo o clássico dos clássicos: O Lago dos Cisnes de Tchaikovski. Levava um caderno para recolher assinaturas, nele estavam contidas todas as notas referentes aos gastos com aquele trabalho, além disso a população era convidada a escrever ali dando sua opinião sobre a pergunta levantada no cartaz. Agradecia no fim da performance aos meus patrocinadores: população brasileira (é ela que financia meus estudos em uma universidade pública), família e academia de ballet ( por me oferecer bolsa de estudo), após isso começava o debate e perguntava se queriam que eu repetisse, ou, se queriam dizer algo sobre dança, cultura e trabalho no país.

           A idéia desta performance havia surgido no início deste ano, quando, aproveitando o clima de festa do carnaval carioca, uma autêntica manifestação popular, percebi a enorme força das frases que trazemos escritas, sejam em cartazes, blusas, adesivos. Intrigada com a noção de "valor de troca" para o trabalho, idealizei esta intervenção, que une uso de uma linguagem artística (o uso de um figurino característico e a dança) ao diálogo que isso pode provocar. Em nosso caso, o provocador de manifestação é a bailarina, que, com sua imagem bela, de um ideal de perfeição, tanto corporal quanto de comportamento, por não ser o símbolo comumente pensado para trazer o questionamento sobre trabalho, dinheiro e, por representar justo o oposto; o forte símbolo de Ser algo perfeito é que imaginei ser esta a imagem mais contundente para nos manifestarmos.

 

CONCLUSÃO:
A questão: O que pode um corpo?

 

           Encontramos em Henri-Pierre Jeudy em seu livro o "Corpo com objeto de Arte" o cerne de nossa discussão. Como foi dito no início deste trabalho, queríamos resgatar nossa memória e, partindo de um ponto de vista pessoal, chegar no coletivo. Na frase "A mulher nunca mais será um objeto, torna-se sujeito ativo capaz de subverter todos os ditames morais que limitam as possibilidades de viver na exaltação erótica." (Jeudy, 2002:117) encontramos as primeiras reflexões a cerca do corpo feminino nu da performance. A mulher, cujo corpo servia como modelo primordial para os pintores do século XVII, passa, a partir da década de 60, com a experiência da Body-Art, a ser sujeito e, a primeira subversão será sair do campo do belo, do inatingível, enfrentar as representações mentais da dominação fálica. O que nos leva a concluir que, não foi por casualidade que a origem deste momento -em que o objeto passa a ser sujeito - encontramos na década de setenta, a era feminista. É, é esta a época que, para nossa pesquisa, apresentar-se-á como nosso paradigmático resgate de memória.

           É na década de setenta que se encontra eco para várias manifestações artísticas e feministas. É em 1973, em ensaio intitulado Visual Pleasure and Narrative Cinema, que Laura Mulvey descreve: "O falocentrismo masculino (...) definiu o papel da mulher na sociedade como "uma imagem da mulher castrada" ( Grosenick:2001, 288). As artistas herdeiras dos Happenings propõem atingir limites, exibir e expor o corpo mostrando ao público que a busca pela beleza não representa mais um objetivo, algumas performances provocam e revelam as fantasias coletivas e buscam chegar ao âmago dos tabus-eróticos. E sobre a imagem da mulher castrada, encontramos em ensaio psicanalítico de Silvia Elena Tendlarz (Musachi:2000, pág.20) uma análise de artigos de Helene Deutsch, na qual a autora usa episódios de sua vida amorosa e sexual para explicar o modelo da sexualidade da mulher. Parte de uma visão pessoal e o generaliza. Para ela fazem parte da sexualidade feminina a homosexualidade, a frigidez, o masoquismo e a maternidade. Deutsch analisou a imagem da mulher castrada seguindo a teoria de Freud. "O complexo de castração introduz na menina o complexo de Édipo, o Penisneid é o efeito da angústia da castração e corresponde ao complexo de castração." ( Féminas, 2000, 21).

           Há várias questões e conceituações em torno do trabalho solo, biográfico, ou como define Michael Kurby (Drama Review, 1979), de uma auto-performance. As duas performances – El segundo sexo e Bailarino: Ser ou não ser – ainda que em processo de iniciação neste universo de estudo da performance – gênero e auto-biográfico - têm bastante em comum, especificamente, com universo conceitual analisado aqui, ainda que a linguagem teatral seja muito mais precisa e dominante que a linguagem de performance mais usada pelos artistas da Body-Art.

           Para finalizar, tomemos como exemplo um trabalho da californiana, Linda Montano, "Mitchell’s Death", obra que consiste na leitura de um texto logo após a morte de seu ex-marido, ela o lê sem pausa, sem inflexionar, e em um ritmo que remete ao de uma canção, com sua voz também gravada em uma fita que, com o atraso, cria uma sensação de eco, o trabalho consiste em uma descrição do dia em que ela viu o corpo do ex-marido em uma sala de necrotério. O impacto deve-se ao fato de o público reconhecer que aquela história é real e não ficção, se não fora real não causaria o mesmo interesse. Portanto, a performance ganha força por não se parecer com uma performance teatral, e o público saber do envolvimento da artista no fato descrito. A escultora Louise Bourgeois define sua obra considerando as paixões como pilares em seu trabalho: "Todos somos frustrados até certo ponto, por algum motivo, e a frustração e a violência são como um pêndulo, oscilando para um lado e outro. Mas a violência pode ser substituída pela restauração. Desejar restaurar o passado envolve a experiência da culpa, e a culpa está presente em todo meu trabalho" (Bourgeois: 2000, 194).

 

           Evidentemente é possível perceber na descrição sobre Mitchel’s Death que o tom confessional tem a mesma função de "restauração de culpa" citada por Bourgeois. A arte confessional ou testemonial parece querer expurgar culpas e provocar identificações coletivas, porém seria exclusivo na forma de pensar do século atual, ou, de alguma maneira não esteve presente em todas as épocas? A partir da exposição da história particular é que se percebe o quanto de coletivo é nossa forma de pensar, quanto mais íntimos, mais universais são nossos sentimentos e nossas inquietações. Não seria disso que se trata uma obra de arte?

           O que procuramos com este trabalho fazer uma interface entre as performances descritas e as artes-plásticas. Os artigos da bibliografia do curso nos orientaram para criar a): um recorte; b) um parâmetro para analisar as duas performances.

           Diana Taylor nos apontou como a performance pode ser também uma ação, uma intervenção e não necessariamente, uma interpretação teatral, objetivo da experiência performática número dois, de intervenção no meio urbano. Já Richard Schener, nos apontou para o reconhecimento de uma infinita gama de possibilidades de hibridização, na qual todos os aspectos – vida e arte- se misturam.

           Foram esses os parâmetros da pesquisa, e, a partir desta compreensão as leituras complementares seguiram nos ajudaram a ilustrar e contextualizar nossos objetos de estudo.

 

 

ANEXOS:

Bailarino: Ser ou não ser.
Ter ou não ter?

 

 

Referência Bibliográfica:

LIGIÉRO, Zeca. Qual o mínimo para se fazer teatro? (sem mais referências)

ROJO, Sara. La performance art en América Latina.UFMG.

SHANK, Theodore. Linda’s Montano Autobiographical Performance, The Drama Review Auto performance Issue, Vol. 23 number 1. Nova York, 1979.

TAYLOR, Diana. Hacia una Definición de Performance. In: revista percevejo n. º12.Rio de janeiro. 2003.

SCHECHNER, Richard. Introduction: The fan and the web in performance Theory. New York, London: Routledge. [1977], 1988, p. XII-XV.

 

Livros:

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Nova Fronteira.Rio de Janeiro. 2002

BOURGEOIS, Louise. Destruição do pai reconstrução do pai. Cosac e Naify. 2000

CHOMSKY, Noam. 11 de setembro. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. 2002

CHOMSKY, Noam. "A nova guerra do terror". In: Estudos Avançados 16 (44), 2002/1.

COHEN, Renato. Performance como linguagem.Perspectiva. São Paulo. 1989

CONSTANTINO, Rosellyn e TAYLOR, Diana. Holy Terrors: Latin American Women perform. Durham: Duke University Press, Forthcoming (2003). Co-edited with Diana Taylor.

GROSENICK, Uta. Women Artists.Taschen. Lisboa.2002

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade.DP e A .9ª edição.Rio de Janeiro. 2004.

JEUDY, Henri-Pierre. O corpo como objeto. Estação Liberdade.São Paulo. 2002.

MILLET, Maria Alice. Lygia Clark: Obra-trajeto.Edusp.1992.

MUSACHI, Graciela. FÉMINAS. Colección orientación lacaniana. Paidos. Buenos Aires, 2000

STOKLOS, Denise. Teatro essencial. Denise Stoklos Produções.1993