RITUAL DO TORÉ: A “CIÊNCIA DO ÍNDIO”

COMO IDENTIDADE E RESISTÊNCIA

José A. Tonezzi Pereira

Considerado como o próprio espaço de inserção dos seres humanos a um universo mais amplo, o ritual é tido pela quase totalidade dos povos indígenas como uma confluência e presença concomitante do sobrenatural, da natureza e da humanidade. Permite ainda a reafirmação dos laços internos de solidariedade e reciprocidade, além de servir concretamente a uma dimensão econômica, por meio da redistribuição e partilha de alimentos.

Dando sentido à experiência humana no mundo, o universo do mito e da cosmologia constituem-se como consciência do valor das coisas, esquema interpretativo à disposição do sujeito que conhece o mundo e age sobre ele. Entrelaçam vida e pensamento, sociedade e natureza, mesclando símbolos, sentimentos, concepções e matérias.

“No cosmos concebido há ordem, há classificação, há oposição lógica, há hierarquia, categorias inclusivas e exclusivas. Mas há também movimento e um jogo constante com o tempo, seja para suprimi-lo, permitindo aos viventes humanos um reencontro possível com o passado, os ancestrais, as origens, seja para torná-lo eixo da própria existência, destinada a completar-se e a constituir-se plenamente após a morte, na superação eterna das limitações da condição humana.” (Silva, 1994)

A partir da prática de determinados cantos e danças, do uso de trajes e adereços específicos, genuinamente reconhecidos como indígenas (pena, arco, flecha, colares, máscaras), e acompanhados do uso de grande quantidade de tabaco e da ingestão de jurema, bebida alucinógena preparada com entrecasca do vegetal de mesmo nome, diversos dos povos indígenas do Nordeste marcam posição e fazem deste ato uma resistência cultural. Tais rituais denominados "ouricuri", "praiá", "particular" e, principalmente, "toré", embora sofrendo algumas variações, mantém as mesmas características gerais, o que garante de certa maneira a definição étnica desses grupos, uma vez que apenas eles o praticam de tal forma.

Essas manifestações, entretanto, influenciaram e acabaram também influenciadas por outras culturas de origem africana e européia, resultando em práticas sincréticas que hoje se mostram comuns no Brasil. Assim, o uso da jurema compõe atualmente não apenas os ritos indígenas, mas acha-se também difundida entre diversos outros cultos, praticados em áreas rurais e urbanas, como catimbós, xangôs, candomblés, etc.  Ao que tudo indica, os pajés indígenas ensinaram aos brancos e mestiços os mistérios da pajelança, que por sua vez acabou por incorporar elementos dos rituais africanos assim como do espiritismo, da feitiçaria e do catolicismo europeu, como as orações e as imagens de santos.

 

UM RITUAL DE RESISTÊNCIA E IDENTIDADE

De caráter complexo, embora se refiram e se situem no tempo das origens, os mitos presentificam os seus temas buscando, em geral, significá-los para o tempo presente. Em linguagem fabulosa, mas a partir de imagens concretas e perceptíveis aos sentidos, é de característica do mito indígena indiferenciar seres humanos e animais, narrando viagens cósmicas, caos, conquistas. Por meio dele, o mundo se define, ganha forma, se constitui. Embora sob formas incomensuravelmente variadas é inegável que, em geral, os mitos tratem de temas compartilhados regionalmente e, em alguns casos, universais.

A cosmologia constitui-se de teorias do mundo e de seu ordenamento. Trata dos movimentos no mundo, no espaço e no tempo, em que a humanidade é apenas um dos muitos personagens em cena. Entre os povos da família lingüística Jê, por exemplo, o cosmos é habitado por diferentes humanidades: a subterrânea, a terrestre, a subaquática e a celeste, que existem desde sempre. Originalmente havia indiferenciação e desordem, que decorriam na convivência e interpenetração daqueles domínios. Assim, astros como o Sol e a Lua são seres primordiais que aqui viveram aventuras e deixaram o seu legado, antes de partirem para sua morada eterna.

Identificação, confronto e ordenamento dos modos de convivência, bem como buscas, descobertas e dissabores são experiências humanas que moldam o mundo. Cada aldeia, de plano circular ou semicircular, delimita e contém simbolicamente o próprio universo. Assim, as pessoas que neste mundo vivem se constroem por relações de identidade e alteridade que estabelecem no convívio com as demais. Já os xamãs e pajés são os seres capazes de transitar entre as muitas dimensões cósmicas, trazendo ensinamentos e reordenando as relações entre a humanidade terrestre, as demais e a natureza, com seus fenômenos e espíritos. Alguns dos mitos Jê fazem referências diretas a atividades de subsistência e práticas sociais da comunidade, descrevendo a origem de instituições como a denominação de coisas e indivíduos, da guerra e do próprio xamanismo.

Em sua compreensão, os líderes espirituais indígenas identificam as doenças como desarmonia. Para eles, as doenças constituem-se na verdade como resultado de transgressões e desequilíbrios nos modos adequados de relacionamento, de quebras de limites, de interpenetração indesejada ou descontrolada de dimensões do universo:

“É a alma da criança que lhe escapa durante o choro convulsivo; é o feitiço que penetra a pele, invólucro da pessoa; é a força vital do indivíduo que se esvai, quando sua imagem é aprisionada ao vagar, dissociada do corpo que dorme ou agoniza, por paragens de ‘outros’.“ (Silva, 1994)

Neste sentido, o toré é uma cerimônia indígena em que os participantes buscam expiação para conter ou diminuir seus males e sofrimentos, reequilibrando as energias e harmonizando as relações. Nos ritos, por meio da dança e da magia do velho mestre, o pajé, são utilizados a defumação com poções de ervas medicinais, cantigas, toadas e coreografias por ele desenvolvidas e seguidas pelos demais. Os participantes executam as atividades ao som de pífanos e trombetas, e a dança permite o encontro com os espíritos caboclos e juremados (em processo de "caboclização"), por vezes incorporando suas presenças e buscando alcançar nos efeitos mágicos a cura de moléstias e desditas.

O toré representa um dos principais componentes de união e de identidade entre os povos indígenas do Nordeste. Devido ao seu caráter musical e comportamental, é considerado um dos elementos mais significativos da etnicidade desses povos, foco convergente de poder, fornecedor de ideologias, de unidade, diferenciação, enfim, fonte de legitimação.

A prática do toré delimita funções e atribui privilégios no interior do grupo, tanto no plano social como no espiritual. Seu caráter sócio-político-religioso é, ao que parece, o elemento aglutinador desses grupos, implicando sua função ritual em dois universos principais: o toré de ordem pública e o de ordem "particular", isto é, o ritualístico.

O primeiro diz respeito ao elemento étnico, pois sendo público trata de marcar território e reivindicar o reconhecimento. É realizado periodicamente em dias e locais previamente determinados, sendo geralmente aberto à participação de todos e, por vezes, sem o consumo de jurema. Visa reunir a comunidade e também exibir à FUNAI e aos visitantes a sua tradição.

O segundo é praticado no "terreiro", na aldeia e dele participam apenas os iniciados ou convidados, numa relação com os "encantados", isto é, os antepassados, "índios velhos que se encantaram" e que "visitam a aldeia", que "vivem escondidos no mato" ou mesmo noutras aldeias longínquas, mas que interagem sensorialmente com a comunidade. Sua prática se dá com variedades tonais e causas distintas, em que os cantos embalados pelos sons de maracás, apitos e flautas por vezes são capazes de hipnotizar o dançante ou ouvinte. Os recursos sonoros se dão de maneira distinta entre os povos. Os Kalankó, Karuazu, Kóiupanká e Catókinn (descendentes dos Pankararu e dos Geripankó), por exemplo, têm como elemento musical além da toada (voz), o maracá e a flauta, enquanto os Tumbalalá (descendestes dos Tuxá e Truká), utilizam somente o maracá. O fumo é outro elemento de extrema importância para esses povos, pois é ao fumar  que se invocam os encantados para a cura, para a defumação, ou seja, para limpeza do ambiente. Além disso, é no toré “particular” que normalmente os participantes vestem a taioba (saia) e o pujá  (tocado), ambos elaborados com a fibra do caroá.

Ao aprenderem o toré, os descendentes indígenas constituem o que caracterizam como "ciência do índio", revestida por uma áurea de mistério e demarcando a sua especificidade como grupo étnico. Em alguns casos, como os Atikum-Umã, são os próprios índios a julgar a autenticidade dos novos grupos de descendentes, dando-os como merecedores de reconhecimento ou não. Consideram-se índios aqueles que participam da tradição do toré, detendo a "ciência do índio", entendida como um corpo de saberes dinâmicos sobre o qual se fundamenta o "segredo da tribo". Nessa tradição ritual, destaca-se fundamentalmente a jurema, planta sagrada tida como elemento de separação entre índios e brancos, embora seu uso seja comum também a outros complexos rituais do sertão nordestino. Assim, em algumas regiões é a prática do toré que atestará legalmente a etnicidade dos grupos de descendentes, dando-lhes o direito à terra. Isto faz com que, cada vez mais, novas aldeias busquem aprender e assimilar o toré, visando conquistar tais direitos.

ÍNDIOS DA JUREMA OU A JUREMA DOS ÍNDIOS

Designando uma grande variedade de espécies leguminosas ou mimosáceas, o termo jurema ganha diferentes adjetivações, como “mirim”, “preta”, “de caboclo”, “branca” e “roxa”. Semanticamente, porém, a denominação tem conotações múltiplas onde, além de um contexto eminentemente botânico, é também compreendida como bebida sagrada, cerimônia mágico-religiosa ou entidade espiritual. No primeiro caso, trata-se de preparados líquidos à base de elementos do vegetal, de uso medicinal ou místico, de efeito e uso externo ou interno, por vezes conhecida como "vinho da jurema". No segundo caso, a denominação cabe a uma cerimônia liderada por pajés, xamãs, curandeiros, rezadeiras, pais de santo, mestras ou mestres “juremeiros” que preparam e bebem esse "vinho" e/ou dão a beber a iniciados ou clientes. Por fim, a Jurema como entidade espiritual, caracteriza uma "cabocla" ou divindade evocada tanto por indígenas e seus remanescentes, como em cultos afro-brasileiros e, mais recentemente, na Umbanda.

Embora não existam relatos sobre usos rituais da jurema antes do contato dos índios com os colonizadores, a origem no termo Yu'rema na língua tupi não deixa dúvidas de que, além de ser herança da cultura indígena, regional, o uso da jurema certamente já ocorria antes da presença dos invasores.

Originalmente, ao que parece, a jurema era utilizada ritualmente por tribos de dois grandes grupos indígenas que habitavam o Nordeste: os Jê e os Karirí. Aldeados em missões, no entanto, os aborígines foram impedidos de usar a planta, combatida durante a catequese pelos colonizadores católicos ou mesmo pelos inquisidores, que relacionavam seu uso a práticas supersticiosas, como arte demoníaca, magia ou bruxaria o que, conseqüentemente, condenava os seus adeptos a punições previstas em lei.

O seu uso entre indígenas do Nordeste não se restringia apenas aos chefes religiosos ou velhas cantadeiras, mas alcançava também os guerreiros, que a ingeriam  sobretudo antes de irem à guerra. Assim, embora não haja dados etnográficos confiáveis, parece plausível que durante o combate aos franceses, ainda no Brasil colonial, a jurema acabou tolerada e aceita, com vistas a cooptação de guerreiros-juremeiros pelas forças colonizadoras.

Porém, mesmo tendo sido motivo de repressão, prisão e morte de índios pelos colonizadores, o uso da jurema até hoje é considerado segredo, bandeira ou símbolo. Assim, para os remanescentes indígenas em pleno "movimento étnico" do séc. XXI, a planta assume importante papel num contexto de defesa de seus direitos, de suas áreas de reserva e de sua autonomia e reconhecimento no pluralismo da sociedade e das culturas brasileiras.

Pode-se dizer, portanto, que se por um lado a planta pau-brasil deu origem à denominação do país, servindo como batismo para as terras ocupadas pelos portugueses no séc. XVI, o uso ritual dessa outra planta, a jurema, colocou-se como elemento privilegiado, distintivo do componente indígena, da cultura popular e, poderia se dizer, nacional. Isto porque, com o avanço da colonização, que gera um processo de genocídio e tentativa de dominação política, econômica e cultural, a jurema assume um lugar central na religiosidade do povo, revelando-se como fio condutor de um traço genuinamente cultural. A jurema garante tal reconhecimento ao integrar-se à cosmologia sagrada de outras comunidades, sendo absorvida por cultos afro-brasileiros, como os "Candomblés de Caboclos" e, nas últimas décadas, inserindo-se também no contexto da Umbanda, religião nascente e em pleno processo de sistematização e de expansão.

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

 

 

CLASTRES, P. – “A Fala Sagrada – Mitos e Cantos Sagrados dos Índios Guarani”,

Papirus Editora, Campinas, SP, 1974

 

PINTO, E. – “Etnologia Brasileira (Funiô - os últimos Tapuías)”, Ed. Nacional, São Paulo,

SP: 1956

 

SAMPAIO J.A.L. –  “De caboclo a índio - Etnicidade e organização social e política entre     

povos indígenas comtemporâneos no Nordeste do Brasil, o caso Kapinawá”, IFCH/UNICAMP, Campinas, 1986

 

SILVA, A.L. – “Mitos e Cosmologias Indígenas no Brasil”, in Índios do Brasil, MEC, Brasília, 1994.

 

 

Sites visitados:

http://hemi.unirio.br/course-rio/perfconq04

http://users.lycaeum.org/~room208/jurema/Rodrigo/JU2.htm

http://www.pegue.com/indio/atikum.htm

http://www.ufrn.br/sites/evi/metapesquisa/velhos/jurema.html