B R A Z I L 

COTAS PARA AFRO-DESCENDENTES NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Em princípio só conseguiria concordar com esta proposta se fosse considerada como de caráter emergencial e fosse acompanhada de uma política efetiva de qualidade no ensino básico. O acesso de determinada camada da sociedade às universidades é restrito pela falta de uma política que garanta um ensino público de qualidade. Esta questão das cotas, parece-me, idêntica inversão ao argumento de que o ensino superior deve ser privatizado por ser elitista. Na verdade, deve-se fortificar o ensino público básico para que pessoas com menor poder aquisitivo tenham igual chance de pleitear as vagas do que os oriundos de escolas particulares.

A separação de determinadas cotas parece-me, infelizmente, uma reafirmação de diferenças e preconceitos, que acredito deveriam ser extintos de nossa cultura. Reafirmo portanto que esta proposta só deverá ser aceita acompanhada de minucioso estudo que garanta todo um percurso acadêmico desde os níveis primários a estes setores de nossa população.

Não posso deixar de citar conversa que tive com uma amiga, companheira da graduação na UNIRIO e excelente atriz. Ela me dizia que tinha se esforçado muito para conquistar seu espaço e que odiaria que sua capacidade de estar ocupando determinada vaga fosse questionada, em função de estar associada à sua raça e não à qualidade de seu trabalho. Talvez seja uma nova exposição a preconceitos. Há muito o que se discutir. De qualquer forma, continuo achando que há ainda um grande investimento a ser feito no ensino básico: escolas, professores, equipamentos, bibliotecas.

Paulo Merisio

 

 

fotografias Zeca Ligiéro

 

 

 

   

O difícil acesso das classes pobres à universidade Brasileira

A universidade brasileira tem, entre seus alunos, apenas 2% de universitários negros. E se pensarmos na classe docente, é provável que esta percentagem seja ainda menor. Na minha opinião, maior que a questão racial, temos a questão da pobreza, e da falência do ensino público brasileiro, que não consegue preparar o aluno para ingressar na universidade. Nos anos 50, a melhor escola era a pública. Atualmente, cerca de 80 %, e em algumas carreiras, 90% dos universitários é proveniente da uma escola particular, além de ter freqüentado um curso pré-vestibular por ocasião do concurso. Os negros não estão na universidade porque são negros mas, porque são pobres, da mesma maneira que os brancos pobres também não estão. Nas carreiras tradicionalmente mais procuradas: medicina, direito, engenharia, odontologia, a presença de negros é baixíssima e a de brancos da classe pobre também. Mais do que facilitar a entrada dos negros na universidade, acho que o governo brasileiro deveria melhorar o nível do ensino fundamental e médio nas escolas públicas, preparando melhor seus professores, e oferecendo um salário digno. Acho que assim estaremos oferecendo condições mais justas para todos aqueles, negros ou brancos, que têm uma condição econômica inferior.

Elza de Andrade, 16 de setembro 2001