O teatro de revista carioca
Antonio Herculano Lopes

Nas primeiras décadas do século XX, desenvolveu-se no Rio de Janeiro um gênero de teatro musical que a intelectualidade desprezava e o grande público amava. Conhecido como teatro de revista, consistia de uma série de esquetes teatrais, musicais e de dança, ligados por um tênue fio narrativo, incluindo comentário político, crítica de costumes, sexo e humor. As elites o consideravam um gênero menor, marcado pela licenciosidade e concessões ao gosto do vulgo, portanto impróprio para representar o "teatro nacional" que elas almejavam desenvolver, com base nos padrões europeus de excelência. Mas as imagens e temas que o teatro de revista punha em cena tocavam fundo o espírito do carioca, ao lidar com seus fantasmas, desejos e temores, e a longo prazo provaram espelhar mais aquela sociedade do que o que sua elite foi capaz de perceber. O teatro de revista permitiu que questões espinhosas ligadas a classe, gênero e etnicidade ocupassem talvez pela primeira vez o centro da cena. Em termos de classe, a revista, ao mesmo tempo que importava, através da "alta cultura", formas teatrais européias, bebia com avidez nas fontes da cultura popular que explodia nas ruas da cidade a linguagem, a música, a dança, os gestos, as celebrações, os valores, o humor e os sonhos. Em termos de etnicidade, a revista criou um espaço fortemente ambíguo de representação: nem preto, nem branco. O Rio era uma cidade luso-africana, mas dar valor à sua herança africana significava para a elite aceitar a barbárie. Através de personagens como o do malandro e o da mulata, o teatro de revista introduzia uma indefinição étnica: suficientemente branca para merecer celebração e suficientemente negra para representar o Outro da cultura. Em termos de gênero, a revista era um teatro para homens, baseado na celebração da mulher, e especialmente de uma mulher não-branca. Era escrita fundamentalmente por homens brancos de classe média alta, que representavam suas percepções da subcultura negra e pobre carioca, e que celebravam o corpo da mulher para consumo masculino. Mas isto não era uma rua de mão única. Ao lado das características de dominação de classe, raça e gênero, ocorria a infiltração de elementos extremamente desconfortáveis para a cultura estabelecida, com um potencial subversivo que minava os valores preponderantes. Seria simplista dizer que aquele tipo de teatro era uma estratégia carnavalizante de resistência à cultura oficial. Mas seria igualmente simplista dizer que se tratava de uma arma ideológica das classes dominantes para construir uma identidade popularmente palatável que mantinha intocadas as estruturas de dominação. O teatro de revista combinava um pouco dessas duas perspectivas. Ele de fato, numa sociedade marcada pela exclusão e por separações rígidas, deu espaço a mulheres escritoras, compositoras e performers, a músicos e performers negros, e introduziu imagens desses Outros da sociedade carioca e brasileira na ribalta. O que não resultou na sua emancipação e, até ao contrário, ajudou a reforçar os mitos de uma sociedade aberta e tolerante.

 

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