Migration and Cultural Identities

Ana Teresa Jardim Reynaud

Profa.Adjunta/Universidade do Rio de Janeiro - UNIRIO - Centro de Letras e Artes/Escola de Teatro/Depto. de Cenografia

"O Espaço Reconstituído: performance e imigração"

(English Abstract)


A figura do estrangeiro pertence a uma longa tradição cultural que vem desde a Bíblia até sua representação mais contemporânea nas artes e no pensamento. Como sugere Julia Kristeva, o estrangeiro, mais do que simples alteridade, é parte de nós mesmos. 1 O estrangeiro traz consigo a questão existencial de sentir-se forasteiro, de estar entre mundos.
Poder-se-ia dizer, então, que há algo como uma 'psiquê' mais geral do estrangeiro? São diversos os 'tipos' de imigrantes, diversos seus motivos, suas situações, suas escolhas. Dentro dessas configurações, um fator determinante é o momento histórico. Há movimentos de imigração que fazem parte do espectro histórico colonial. São pessoas que partem para o novo território em busca de uma oportunidade, de melhores condições de trabalho.
No caso brasileiro, por exemplo, tal movimento ocorreu amplamente durante o início e meados do século 20, tendo muitas vezes, como fator decisivo, as guerras européias e suas conseqüências. Muitos imigrantes fugiam de perseguições políticas ou da devastação econômica ocorrida em seus países de origem.
Existem ainda, no mundo contemporâneo, pós-colonial, outras formas de emigrações. São os êxodos e as migrações forçadas, os deslocamentos das populações provocados pela fome e pela guerra, pelas guerras civis e étnicas.
Pode-se observar ainda os deslocamentos não-forçados, resultantes da globalização e das novas tecnologias da comunicação, efetuados por pessoas que trabalham de forma temporária em outros lugares, ou exercidos a partir das possibilidades de um intercâmbio de idéias e projetos. Mas é preciso ressaltar que

essa sensação de 'lugar nenhum', ao mesmo tempo perturbadora e excitante, possibilitada pelo surgimento de um circuito trans-nacional de troca de informações, faz parte do ponto de vista de uma elite relativa.
A questão das migrações adquire especial atualidade no mundo contemporâneo, onde se observa um duplo movimento de globalização e localização. Mas para lidar com ela, não basta compreendê-la apenas em seu aspecto demográfico, através de estudos quantitativos ou que se limitem a fornecer dados históricos. Serão necessários, acredito, estudos em profundidade que nos permitam lidar com temas como identidade e diferença. Empreender uma espécie de 'psicologia cultural' de grupos migratórios fornecerá bases fecundas para muitas outras pesquisas nessa área de estudos, cuja tendência é se tornar cada vez mais ampla.
Esta comunicação se baseia numa pesquisa empírico-teórica, que pretende tratar de espaços de imigrantes dentro de contextos urbanos. Aqui é necessário destacar que meu ponto de vista não é o de um antropólogo ou sociólogo, mas de uma professora de Indumentária/Cenografia com formação em literatura e cinema. Pretendo investigar como se desenrola a 'encenação' de determinadas 'tradições' ligadas tanto a festas quanto a ritualizações da vida cotidiana. Como pano de fundo, e tema mais fundamental da pesquisa, a investigação de como é constituído o espaço 'entre' duas culturas, que é, na realidade, um espaço interno. Estas manifestações situam-se na esfera do cotidiano e podem ser consideradas 'performances'. Não no sentido de representações artísticas ou teatrais, mas numa certa concepção de performance que abrange os 'comportamentos expressivos', a 'estética da vida cotidiana', (Hemispheric, 2000) ou ainda as 'interações sociais em geral' (Bião, 1998, 17). 2
O que me interessa mais é o trabalho do imaginário e da imaginação inscrito nestas reconstituições de minorias imigrantes. Ou seja, levantar questões tais como: ao encenar suas 'tradições', que elementos escolhem? Existem re-criações, 'deturpações', adaptações, e a que estratégias e necessidades, ou seja, a que políticas obedecem?

Além de um espaço da diferença, este seria um espaço de reconstituição,
em que a memória incita a transposições que desafiam a categoria de 'fidelidade'. Neste sentido, não é produtivo evocar-se por exemplo a noção da importância da busca da 'ancestralidade' de cada indivíduo. Afinal, existem filiações afetivas, e que evadem as determinações do 'sangue'. Pretendo, portanto, estudar toda uma dinâmica de desejo e eleição nesta reconstituição 'de memória' do espaço, dinâmica esta que considero já estar presente na maior parte dos processos de transmissão cultural. Em suma, trata-se de uma investigação cujo núcleo central é, em última instância, a questão da identidade.
A identificação entre local e identidade cultural resulta ou de políticas culturais inscritas na longa duração (tradições locais) ou construídas de maneira dinâmica, voluntarista (festivais, eventos, tradições 'reinventadas'). Só que no caso, o local do imigrante é especial, na medida em que se situa 'entre' um local de origem e um novo local onde passa a viver fisicamente.
Meu projeto tem como ponto de partida a exploração do sentido do espaço. Como a nova cidade, e também o meio ambiente natural, são sentidos, pelos imigrantes, em relação a um espaço anterior? Onde moram? Onde festejam? Os espaços de festa poderão, por exemplo, ser investigados em sua funcionalidade, ou alteração de funcionalidade, assim como em sua relação com a arquitetura da cidade, em sua forma particular de inserção nessa disposição urbanística e arquitetônica. Por exemplo, são realizadas em clubes, grêmios, escolas? Locais construídos para tal? Um local adaptado ou construído deste tipo conserva, reativa ou reinventa uma especialização cultural? Ou mesmo cria uma nova dominante cultural?
Para lidar com o espaço (da cidade, do local de festas) reconstituído dos imigrantes, sugiro que o espaço, assim como o tempo, pode adquirir características afetivas e mnemônicas. Tal possibilidade é apontada por autores como Cristina Freire, em sua análise dos monumentos no imaginário urbano contemporâneo (no caso, na cidade de São Paulo). Freire constatou que se pode perceber um monumento através da ausência deste, como é o caso do monumento a Ramos de Azevedo. (Freire: 1997, passim) 3 A caracterização do

patrimônio seria feita em grande parte através do imaginário dos passantes, através da memória, na forma de um 'bem interior'. Há uma cidade invisível que se preserva, que se mistura à espacialidade visível, por sua vez espessa de sentidos simbólicos. Ora, não é difícil entrever o que tais possibilidades de interpretação do espaço oferecem ao meu estudo, já que o que me interessa é justamente a superimposição de um local invisível, guardado na memória, a um novo local onde o imigrante refaz sua vida. Freire aponta ainda para a importância do 'valor de uso do espaço' numa sociedade que privilegia o 'valor de troca'. Ressalta também a possibilidade da restauração de um 'espaço abstrato' - tarefa a ser empreendida, de forma ainda mais específica, pelos imigrantes - como 'lugar de vida'.
O escritor Marcel Proust, em seu Em Busca do Tempo Perdido, sugere dois tipos de memória. A memória voluntária é a que se encontra à disposição do intelecto e disposta a atender ao chamado da atenção. Já a memória involuntária conservaria as impressões da situação em que foi criada. Ora, se o tempo tem tal capacidade de abrigar as funções mnemônicas e afetivas, também o espaço possui tal potencialidade. Minha breve contribuição aqui seria a de destacar e revelar algumas observações do filósofo Félix Guattari sobre a questão do espaço e do afeto.
Quer tenhamos consciência ou não, o espaço construído nos interpela de diferentes pontos de vista: estilístico, histórico, funcional, afetivo... (Guattari: 1992, 157) 4
Guattari aborda a maneira como memória e área construída se entrelaçam, como o espaço pode desencadear lembranças e sensações da ordem da memória involuntária de que fala Proust. A longa citação a seguir se justifica por sua riqueza narrativa e conceitual.
Um dia, quando eu caminhava com um grupo de amigos em uma grande avenida de São Paulo, senti-me interpelado, ao atravessar uma determinada ponte, por um locutor não-localizável. Uma das características dessa cidade, que me parece estranha em vários aspectos, consiste no fato de que as intersecções de suas ruas procedem freqüentemente por níveis separados com grandes alturas. Enquanto meu olhar se dirigia, de cima para baixo, para uma circulação densa que caminhava rapidamente, formando uma mancha

cinzenta infinita, uma impressão intensa, fugaz e indefinível invadiu-me bruscamente. Pedi então que meus amigos continuassem sua caminhada sem mim e, como em um eco das paradas de Proust em seus "momentos fecundos" (o sabor da madalena, a dança dos sinos de Martinville, a pequena frase musical de Vinteuil, o chão desnivelado do pátio do hotel de Guermante...), imobilizei-me em um esforço para esclarecer o que acabava de acontecer comigo. Ao fim de um certo tempo, a resposta me veio naturalmente, algo da minha primeira infância me falava do âmago dessa paisagem desolada, algo de ordem principalmente perceptiva. Haviam de fato, uma homotetia entre uma percepção muito antiga - talvez a da Ponte Cardinet sobre numerosas vias de estrada de ferro que se abismam na estação Saint Lazare - e a percepção atual. Era a mesma sensação de desaprumo que se achava reproduzida. Mas, na realidade, a Ponte Cardinet é de uma altura comum. Só na minha percepção de infância é que eu fora confrontado com essa altura desmesurada que acabava de ser reconstituída na ponte de São Paulo. Em qualquer outra parte, quando esse exagero da altura não era reiterado, o afeto complexo da infância que a ele estava associado não podia ser desencadeado. (Guattari: 1992, 161) 5
Segundo Guattari, esse exemplo nos mostra que percepções atuais do espaço podem ser "duplicadas" por percepções anteriores, sem que se possa falar de recalque ou de conflito entre representações pré-estabelecidas, já que a semiotização da recordação da infância fora acompanhada, aqui, pela criação ex-nihilo de uma impressão de caráter poético. E para quem pretenda tratar não apenas do espaço construído, mas também dos seus interiores, essa observação de Guattari me parece valiosa:
Pode parecer paradoxal deslocar assim a subjetividade para conjuntos materiais, por isso falaremos aqui de subjetividade parcial; a cidade, a rua, a porta, o corredor (...) mobilizam, cada um por sua parte e em composições globais, focos de subjetivação." (Guattari: 1992, 161) 6
É com vistas a ressaltar, em resumo, o papel da imaginação, do desejo, da eleição afetiva e da memória nos processos de re-construções da identidade que pretendo, portanto, aproximar-me da questão das migrações.

Referências do texto do projeto:

1. Kristeva, J. Strangers to Ourselves, London: Harvester Wheatsheaf, 1991.
2. The Hemispheric Institute, New York University, webpage e Bião, A., "Etnocenologia, uma introdução", in Greiner, C. e Bião, A., orgs, Etnocenologia: textos selecionados, Gipe-Cit/Annablume/PPGAC, 1998.
3. Freire, C., Além dos mapas: os monumentos no imaginário urbano contemporâneo, Sesc/Annablume, 1997.
4. Guattari, F. Caosmose: Um novo paradigma estético, Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
5. idem
6. idem