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Luiz Guilherme Veiga
"Risco, Ritual, Performance
e o Conceito de Redoma Sensorial"
(english
abstract)
O trabalho procura pensar
a performance não como espetáculo mas a partir do ponto
de vista das experiências sensoriais que a atividade performática
gera no próprio praticante. Para possibilitar esta abordagem foi
desenvolvido o termo; redoma sensorial, cujo objetivo é descrever
os processos sinestésicos aos quais os performáticos são
submetidos. O estudo possui afinidades com a idéia de experiência
de fluxo pensada por Csikszentmihalyi. As performances escolhidas para
análise foram aquelas que envolvem algum tipo de risco físico
como certos rituais arcaicos e a moderna acrobacia. A presença
do risco é importante porque este elemento age como um catalisador
dos processos sensoriais complexos.
O risco, pensado aqui como risco físico é, por um lado,
algo bastante simples e, por outro, abrangente. Por isso estudos de temas
como "jogo" ou "esporte" estão no campo de
interesse do presente trabalho. Um exemplo disso é a presença
do risco físico em muitas formas de jogo. Seguindo uma definição
bastante conhecida de Roger Callois (Callois, 1997 : cap. 1), o jogo pode
ser dividido em quatro formas básicas: 1) A alea (sorte; compreende
os jogos como dados, cartas, bingos, sorteios). 2) O mimicry (simulacro;
são as brincadeiras de crianças, as "imitações"
, o jogo cênico e o teatro). 3) o Ilinx (vertigem; atividades causadoras
de sensações físicas extremas, como cair, mergulhar
de grandes alturas, expor-se a grandes velocidades, etc). 4) E o agôn
(competição; o duelo, a disputa física entre pessoas
ou grupos).
Na divisão de Callois o ilinx (vertigem) e o agôn (competição)
se enquadram perfeitamente na concepção de "atividade
de risco", uma vez que nos dois casos se está diante do risco
no sentido especificamente físico.
Uma idéia fundamental acerca da relação entre jogo
e civilização, observada tanto em Huizinga como Callois,
diz respeito à antigüidade do próprio ato de jogar
e da experiência de expor-se à riscos.
Portanto, é desde o
início que se encontram no jogo os elementos antitéticos
e agonísticos que constituem os fundamentos da civilização,
porque o jogo é mais antigo e muito mais original do que a civilização
(Huizinga, 1994 : 85).
Assim um jogo observado no
contexto de uma civilização é, muitas vezes, a derivação
tardia de um ritual muito mais antigo. A idéia central aqui é
a de uma antiquíssima origem do ato de jogar, cujo princípio
está em sociedades tribais, muito anteriores, portanto, às
civilizações e suas cerimônias complexas.
Uma conseqüência dessa concepção é que,
na origem de realizações já há muito secularizadas,
podem estar acontecimentos rituais e mesmo antigos jogos sagrados. Huizinga
(idem : 89) cita jogos cuja origem competitiva e ritualística já
havia sido completamente esquecida mesmo na Antigüidade. Um exemplo
é o Direito no qual, o processo do julgamento, ou do debate público,
como no caso dos gregos, possuía um profundo sentido agonístico.
Porém, mesmo na Grécia, logo após o Período
Clássico, o elemento competitivo e ritualizado dos discursos públicos
já havia perdido grande parte de sua importância. Os vestígios
da origem competitiva dos discursos podem ser encontrados no próprio
vocábulo grego agón usado tanto no sentido de "luta",
"duelo", "competição" como para designar
os "discursos públicos"; agonés. No entanto, já
em 150 a. C. , vê-se a cultura romana transformar o discurso público
em um exercício de eloqüência sem qualquer interesse
além de uma verborragia de sonoridades sem eco (Carcopino, 1990
: 141-142).
Caillois resume bem essa idéia ao afirmar:
Qualquer instituição
funciona, em parte, como um jogo, de tal forma que se apresenta também
como um jogo que foi necessário instaurar, baseado em novos princípios
e que ocupou o lugar reservado a um jogo antigo (Callois, 1994 : 87).
Por isso, sob o aspecto secularizado
de uma instituição ou prática social, podemos encontrar
uma origem lúdica e competitiva, um jogo precisamente. Do ponto
de vista metodológico tais idéias são fundamentais,
pois permitirão encontrar a temática do risco e do ritual
em fenômenos que, pelo menos inicialmente, não pareceriam
adequados a uma abordagem neste sentido.
Será então necessário estabelecer paralelos entre
atividades ritualísticas e de risco, apontando as características
comuns aos dois fenômenos. Para o desenvolvimento dessa argumentação
optou-se por comentar as idéias de "representação"
e "espetáculo" desenvolvidas por E. Goffman (Goffman,
1999).
Na época da mídia planetária e do império
da fama, a idéia de Gofman de definir "relação
social" como "representação cênica"
é, sem dúvida, um achado interpretativo. Eventualmente surge
a tentação para se definir a própria essência
da relação social como um processo representativo, o homem
transforma-se em ator, o mundo em palco e os outros em platéia.
O esquema é genial e, com toda justiça, fez de seu autor
um clássico.
Porém o que procura-se aqui é precisamente compreender como
a exposição ao risco e o ritual são realizações
essencialmente "não-representativas", ou seja, não
podem ser compreendidas a partir do paradigma espetacular do; "realizar
para ser visto".
A opção desenvolvida para analisar as realizações
não representativas foi o conceito de redoma sensorial, que tem
o intuito de descrever a atividade a partir do ponto de vista sensorial
do próprio praticante da atividade e, nesse sentido, a idéia
de representação é o contrario da idéia de
redoma sensorial, pois essa última pode ser definida como; "auto-realização"
ou "auto-expressão".
- Semelhança entre atividade de risco contemporâneas e rituais
a partir da idéia de "auto-expressão" desenvolvida
por E. Goffman
Embora identifique a presença
da performance na vida cotidiana, a perspectiva adotada por Goffman está
voltada para o que o sociólogo chama de reunião social;
O mundo, na verdade, é uma reunião (Goffman, 1999 : 41).
Sob tal ponto de vista a performance será sempre pensada como uma
encenação, uma representação ou um espetáculo,
ou seja, o evento performático estará na interação
entre o praticante da ação e o espectador da ação.
Está-se falando, portanto, da dicotomia platéia/palco ou
espectador/ator.
A conclusão é clara; qualquer atividade executada por interesse
próprio, e não tendo em vista a exposição
pública, não está incluída na concepção
de Goffman acerca da performance. Porém o ritual, assim como as
atividades de risco são, muitas vezes, levados a cabo pelo simples
interesse que despertam em seus praticantes. Goffman percebe, ainda que
de modo muito pontual, a existência desse tipo de atividade e as
denomina "auto-expressivas" (Goffman, 1999 : 37).
A diferença fundamental que distingue as atividades auto-expressivas
das representativas é a mesma diferença presente entre o
ritual (auto-expressivo) e o teatro (representativo). No caso do teatro
encontra-se uma performance empenhada em se adequar ao gosto dos que a
admiram. Por outro lado, o jogador ou o praticante de um ritual, para
serem bem sucedidos em suas realizações, não podem
se preocupar com a forma como são observados por eventuais espectadores.
Esse é o motivo pelo qual, durante um jogo de futebol, como em
qualquer esporte, os acontecimentos que levam ao momento de apogeu, no
caso o gol, são sempre marcados por uma profunda concentração
por parte do jogador, que necessita de uma tal concentração
para dominar a jogada e realizar seu feito. Mas, logo após o gol,
o esportista corre em direção aos espectadores e comemora
com eles a sua (deles ?) conquista. Toda a consciência de estar
sendo observado vem à tona nesse instante e o jogador precisa então
expressar sentimentos compreensíveis pela imensa platéia.
A forma de manifestar tais sentimentos de euforia é conhecida e
pode facilmente ser descrita como uma "realização dramática"
no sentido em que Goffman usa esta idéia. Porém o processo
mesmo que leva ao gol, a jogada em si, não pode ser compreendido
como uma representação; o jogador não é um
ator e, embora a sua performance possa ser vista como um espetáculo,
este não é seu objetivo primeiro.
É essencialmente isso que Christopher Lasch descreve:
In the most satisfying king
of performance, the performer becomes unconscious of the audience and
loses himself in his part. In sport, the moment that matters is what a
former basketball player describes as the moment "when all those
folks in the stands don't count." (Lasch, 1982 : 105).
O ato de jogar deve ser portanto
compreendido como uma realização cuja auto-referência
é, digamos, anterior à sua dispersão como espetáculo.
O próprio Goffman parece ter percebido isso:
Note-se que no caso de alguns
status sociais a dramatização não apresenta problemas,
pois alguns dos números instrumentalmente essenciais para completar
a tarefa central do status são, ao mesmo tempo, maravilhosamente
adaptados, do ponto de vista da comunicação, como meios
de transmitir vividamente as qualidades e os atributos pretendidos pelo
ator. Os papéis dos lutadores, cirurgiões, violonistas e
policiais são exemplos disto. Estas atividades permitem uma auto-expressão
tão dramática, que os profissionais exemplares - reais ou
falsos - se tornam famosos e ocupam lugar de destaque nas fantasias comercialmente
organizadas da nação (Goffman, 1999 : 37) .
O termo "auto-expressão"
é exatamente o equivalente ao que se pode chamar de auto-referência,
uma característica típica tanto do jogo como da experiência
ritualística. Há aqui uma curiosa coincidência nas
atividades citadas por Goffman; a violência dos lutadores, a cura
dos cirurgiões e a arte do violonista. Ora, violência, cura
e arte são pedras fundamentais na construção dos
rituais. Em termos conceituais e metodológicos a auto-referência
será portanto a força fundamental identificável no
jogo, no risco e no ritual.
O fato do jogo, das atividades de risco e dos rituais serem acontecimentos
auto-referentes não os inviabiliza para serem eventualmente também
vistos como espetáculos. Talvez seja precisamente o contrário,
pois a intensa relação entre a assistência e o jogador,
observada por Huizinga, deve estar relacionada com a natureza auto-expressiva
do jogo. Mas mesmo que uma realização originalmente ritualística
e auto-referente se torna uma força catalisadora da massa este
é um efeito secundário de tais atividades, cujo estudo não
é o centro deste trabalho.
Apesar de admitir a existência de realizações auto-expressivas,
Goffman não dá maior atenção à especificidade
de tais atividades, tendendo a compreendê-las como formas complementares
da idéia geral de "representação".
Venho usando o termo "representação"
para me referir a toda atividade de um indivíduo que se passa em
um período caracterizado por sua presença contínua
diante de um grupo particular de observadores e que tem sobre estes alguma
influência (Goffman, 1999 : 37).
O texto de Goffman é,
de fato, marcado por esta afirmação, e o elemento comum
nas inúmeras atividades analisadas é sempre a preocupação
com os olhares alheios, em tal contexto surgem idéias como; "fachada"
e "realização dramática", que pressupõem
uma atividade sempre voltada para um certo número de espectadores.
Para se perceber a validade da redoma sensorial não há necessidade
de se desqualificar o ponto de vista de Goffman, até mesmo porque
um enorme número de ações cotidianas são,
de fato, realizadas tendo em vista os observadores de tais atividade.
É preciso apenas se perceber como uma abordagem cindida entre espectador
e ator não pode ser usada quando se procura, por exemplo, identificar
elementos rituais na sociedade contemporânea. A execução
de tais atividades só poder ser explicada a partir de processos
"auto-referentes" ou tautológicos, até mesmo porque
rituais e a exposição ao risco são performances freqüentemente
realizadas sem a presença de espectadores, muitas vezes em lugares
ermos e afastados, eventualmente, até de modo absolutamente solitário.
Portanto a concepção de performance é mais ampla
que a de espetáculo. Assim, apesar de extremamente prolífero
em sua capacidade de explicar fenômenos da sociedade contemporânea,
o ponto de vista "dramático" de Goffman inviabiliza a
reflexão acerca de atividades em cuja essência não
esteja o elemento representativo. O conceito de redoma sensorial é
assim o artifício teórico criado para descrever os processo
de auto-referência ou auto-expressão próprio das atividades
a serem pesquisadas.
- O conceito de redoma sensorial
A análise das atividades
de risco e do ritual como acontecimentos auto-referentes significa que
tais atividades serão investigadas a partir do ponto de vista de
seus praticantes, não da assistência. O conceito de redoma
sensorial foi então criado para descrever os efeitos sinestésicos
das atividades em questão.
Antes de se prosseguir é importante um rápido esclarecimento
acerca dos seguintes termos muito presentes ao longo do texto; sinestesia
e cinestesia. Apesar da morfologia semelhante a origem desses termos é
diversa. Sinestesia é uma composição dos termos gregos
syn (ou sun; juntar, unir, agrupar) e aísthesis (sensação),
portanto sinestesia significa uma experiência produzida através
de uma pluralidade de sentidos, ou seja, uma experiência multi-sensorial.
Do ponto de vista da pesquisa a sinestesia é uma característica
elementar de toda redoma sensorial. Por outro lado a cinestesia é
um vocábulo originário do termo grego kínesis (movimento,
transformação) e é normalmente usado para nomear
sensações ligadas ao movimento e às atividades musculares.
Assim, no contexto da pesquisa, a cinestesia será compreendida
como uma característica específica de algumas redomas sensoriais.
Na verdade a cinestesia se define como um caso particular de sinestesia.
Para se demonstrar a possibilidade do conceito de redoma sensorial ser
usado como elo de ligação entre rituais e atividades de
risco é necessário desenvolvê-lo brevemente.
O conceito de redoma sensorial tem por objetivo conduzir o campo da investigação
para a dimensão do praticante. De tal forma que o estudo do ritual
e da exposição voluntária ao perigo possa se realizar
através da análise dos efeitos gerados por tais realizações
naqueles que as executam. Esses efeitos não são os experimentados
pelo praticante antes ou depois da atividade nem, muito menos, são
os efeitos que acometem um eventual observador da ação.
Com a idéia de redoma sensorial está-se preocupado em explorar
os efeitos do processo de exposição ao risco, no praticante,
durante o próprio processo.
A idéia central do conceito de redoma senorial é descrever
como o homem adestra sua percepção às exigências
de uma situação extrema. Um tal processo, ao qual o indivíduo
se submete voluntariamente, seja de forma solitária ou em grupo,
obriga-o a adentrar em um universo de sentidos muito específico
que extrapola, em muito, as exigências cotidianas do aparato sensorial.
Dentro dessa concepção os rituais perigosos e as atividades
de risco cumprem o mesmo objetivo; obrigar o homem a se adequar a um horizonte
sensorial inusitado, extraordinário e decisivo. E é precisamente
o processo de "desafio sensorial" o elemento comum aos rituais
perigosos e às modernas atividades arriscadas.
Para o desenvolvimento da análise a redoma sensorial será
trabalhada em duas acepções distintas mas cognatas; por
um lado há a lida cotidiana com os sentidos, descrita como uma
redoma sensorial ordinária, não caracterizando nenhum tipo
de experiência ritualística ou de risco. Por outro lado há
o abandono da seguridade cotidiana produzido por situações
que expõem os sentidos à condições extremas,
nestes casos o homem adentra na redoma sensorial extraordinária,
característica das atividades arriscadas, sejam ritualísticas,
acrobáticas ou esportivas.
Visualizar a originalidade e a pertinência da redoma sensorial só
é possível, a rigor, através da descrição
de outros conceitos que se aproximam da idéia proposta, e pela
explicação de como nenhum deles preenche os requisitos da
presente investigação.
A idéia de estudar o campo sensorial não é algo novo,
pensadores de diversas áreas fundaram, por vezes, verdadeiras correntes
teóricas tendo como base a lida humana com os sentidos. De forma
resumida pode-se apresentar alguns dos principais conceitos que se aproximas
das idéias esboçadas neste projeto.
A idéia desenvolvida por Walter Benjamin de aura tem muitos paralelos
com a redoma sensorial. Podemos observar isso claramente no ensaio A arte
na época de sua reprodutibilidade técnica (Benjamin, 1992).
A obra de arte é pensada como a materialização de
um momento de apoteose da experiência humana, e o contato com uma
tal realização adquire ares divinos.
Por sua vez a aura é uma idéia em muito semelhante à
noção grega de thaumátzein (espanto, admiração)
um tipo de experiência radical com a realidade que está na
origem da própria filosofia ( conf. A República : VI e Metafísica
: I). A diferença é que thaumátzein é, para
a filosofia, um espanto com a própria realidade, enquanto a aura
é o espanto com a obra de arte. Porém há mais semelhanças
do que diferenças entre essas idéias, ambas estão
associadas ao sagrado, a palavra aura já está impregnada
desse sentido, e thaumátzein é um vocábulo cuja origem
está precisamente em theós (Deus), e pode ser grosseiramente
traduzido como "contemplação divina".
Em grande medida thaumátzein se assemelha à redoma senorial,
mas há aqui diferenças claras, a principal delas é
que o termo cunhado pela filosofia está mais preocupado com o caráter
comum ou universal de todas as experiências extraordinárias.
Seguindo, aliás, o interesse típico dos pensadores antigos,
para os quais as concepções teóricas eram concebidas
para serem realmente teóricas. Isso se expressa no fato de não
haver nenhuma preocupação nem de Platão nem de Aristóteles
em descrever situações ou eventos específicos geradores
do espanto e da admiração.
Por sua vez, a redoma sensorial foi pensada precisamente como forma para
descrever os detalhes de eventos produtores de situações
extraordinárias, como rituais e situações de risco.
De forma geral se pode afirmar que a desconsideração pelo
detalhe e pelo estudo de casos específicos é, em geral,
a lacuna presente nas concepções filosóficas acerca
dos sentidos. Na verdade, quando procura pensar os sentidos, a filosofia
possui uma grande tendência para estabelecer a visão como
uma espécie de "paradigma sensorial". A visão
é o sentido mais nobre e mais humano, e confunde-se até
mesmo com a própria atividade especulativa, tal forma de pensar
é típica da filosofia desde sua origem e aparece aliás
claramente na formação da palavra "teoria" (theoría),
apropriada pelos filósofos para nomear a sua própria atividade;
essa palavra é formada por dois verbos gregos arcaicos theáomai
(contemplar, ver de forma ampla) e horáo (ver com atenção,
olhar fixamente) ambos ligados à atividade visual, assim a teoria
se define como uma forma refinada de ver na qual estão associadas
a visão periférica e a pontual. Por esses e outros motivos
a filosofia clássica normalmente não é um área
propícia para a investigação de processos multi-sensoriais,
principalmente se esses processos serão rastreados em diversos
contextos culturais.
Em relação aos filósofos clássicos, Benjamin
tem a vantagem de ser um pouco mais detalhista, ao menos porque circunscreve
sua análise a um período histórico e a certos acontecimentos
específicos. Porém, ao cunhar o conceito de aura, o pensador
de Frankfurt estava interessado em descrever a perda do sentido originário
da arte, ou seja: a perda da aura. Assim o conceito de aura surgiu para
descrever seu próprio ocaso, principalmente diante das novas técnica
de comunicação como a fotografia.
A contemplação
simultânea de quadros por um grande público, que se iniciou
no século XIX, é um sintoma precoce da crise da pintura,
que não foi determinada apenas pelo advento da fotografia, mas
independentemente dela, através do apelo dirigido às massas
pela obra de arte (Benjamin, 1993: 188).
A análise de Benjamin
acerca do surgimento do cinema e da revolução que esse provoca
na percepção humana da obra de arte é, claramente,
o tipo de interpretação que se afina com a idéia
de redoma sensorial, pois a aura pode ser muito bem compreendida como
um evento sensorial. Porém Benjamin não se preocupa especificamente
com a ação sincrônica dos elementos sensoriais e,
em momento algum, mesmo quando se refere ao ritual, há qualquer
alusão ao caráter multi-sensorial dessa atividade. Por outro
lado, Benjamin também não teve acesso às técnicas
modernas de simulação da realidade, inclusive às
do próprio cinema. Por isso, apesar de útil para o trabalho,
o conceito de aura não substitui a idéia de redoma sensorial.
Um outro conceito que se assemelha à idéia de redoma sensorial
é o de experiência de fluxo ou flow experience (Csikszentmihalyi,
1991). Esse tipo de experiência sensorial é caracterizada
por sua profundidade e intensidade, e foi identificada por Mihaly em um
grande número de atividades inclusive em rituais e atividades esportivas
arriscadas. Em essência a experiência de fluxo é uma
redoma sensorial, até porque o fluxo é definido em uma interação
entre aspectos, fisiológicos, sensoriais e psicológicos.
Há porém uma série de críticas possíveis
a esse conceito, a principal delas é a abrangência do termo.
Mihaly apresenta como fluxo atividades tão díspares como
o cuidar de uma criança, a prática da meditação
ou a escalada de uma montanha. A extrema flexibilidade da experiência
de fluxo dificulta sua compreensão. Mihaly identifica o fluxo,
por exemplo, em estados de grande desgaste físico e psíquico,
como um corredor durante uma maratona, cujo esforço sobre-humano
causa alterações na percepção espaço-temporal.
Porém o fluxo também é identificado em atividades
muito mais simplórias, como o ato de escutar uma música.
Em relação a esses casos a teoria de Mihaly faz referências
mínimas a enorme diferença entre as atividades, compreendendo
todas como formas de experiências de fluxo.
Um outro problema da experiência de fluxo para a investigação
proposta é que Mihaly, embora faça várias referência
ao ritual e às atividades de risco, não centraliza suas
investigações em tais fenômenos, comentando-os apenas
de forma esporádica.
Um último problema com a teoria de Mihaly é sua tendência
para identificar o fluxo com sensações prazerosas, não
abrindo a possibilidade para que experiências não necessariamente
agradáveis façam parte dos processos de fluxo. Mas experiências
como a dor a fadiga ou a clausura estão presentes nos rituais e
nas atividades de risco e serão pensados como elementos formadores
das redomas sensoriais.
Apesar dessas críticas, a experiência de fluxo é provavelmente
o conceito que mais se aproxima da redoma sensorial.
Uma outra concepção que se aproxima da redoma sensorial
é a de "percepção". Porém a percepção
não é um conceito criado por determinado autor é,
antes, todo um campo de estudo desenvolvido, por exemplo, pela Psicologia
da Forma, a Gestalt. Por outro lado, a fenomenologia, como no caso da
Fenomenologia do Espírito (Hegel, 1987), ao descrever o desenvolvimento
do espírito através de sua lida com a sensibilidade, também
pode ser compreendida como uma investigação do mundo a partir
de um ponto de vista sensorial.
No caso da geografia, por exemplo, a percepção visa o estudo
do homem e do ambiente, principalmente a partir da construção
sensorial que as culturas e os indivíduos fazem do topos que os
cercam. Assim o estudo da percepção é, nesse caso,
o estudo da relação entre sentidos e meio ambiente. Yi-Fu
Tuan é um dos principais teóricos da geografia da percepção
e em seus escritos fica bem claro o direcionamento de tais estudos.
A percepção
é uma atividade, um estender-se para o mundo. (...) Embora todos
os seres humanos tenham órgãos dos sentidos similares, o
modo como suas capacidades são usadas e desenvolvidas começa
a divergir numa idade bem precoce. Como resultado, não somente
as atitudes para com o meio ambiente diferem , mas difere a capacidade
real dos sentidos, de modo que uma pessoa em determinada cultura pode
desenvolver um olfato aguçado para perfumes, enquanto os de outra
cultura adquirem profunda visão estereoscópica. Ambos os
mundos são predominantemente visuais: um será enriquecido
por fragrâncias, o outro pela agudeza tridimensional dos objetos
e espaços (Tuan, 1980 :14).
É evidente que esse
tipo de abordagem da realidade se harmoniza perfeitamente com a idéia
de redoma sensorial, porém, a percepção está
intimamente ligada à idéia de ambientes e não à
idéia de ação, como no caso do ritual e das atividades
de risco. Dessa forma, dentro da percepção, se estuda, por
exemplo, o efeito de certo ambiente ritual sobre os homens, mas não
o efeito da própria atividade ritualística sobre os sentidos.
Ou seja, a percepção, por sua própria natureza, está
ligada ao conceito de "espaço", enquanto a redoma sensorial
está ligada à totalidade dos sentidos alterada no interior
da própria atividade humana.
Além disso, a redoma sensorial deve ser compreendida como uma produção
social que, por sua vez, não está restrita à organização
do espaço. De forma muito simplificada pode-se dizer que o conceito
de redoma sensorial é a modalidade sociológica da percepção.
Apesar de muito sucinto, o resumo dos conceitos semelhantes à redoma
sensorial permite a localização dessa idéia no contexto
dos estudos ligados aos sentidos.
- Referências Bibliográficas
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J. Vrin. Paris. 1991.
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PLATÃO. A República (trad. Maria Helena da Rocha Pereira).
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TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes
e valores do meio ambiente. Difel. São Paulo. 1980.
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