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Pablo Assumpção
"Índios Cariri - performance e resistência"
O corpo diz o que não pode ser falado. A crítica à
liguagem como meio insuficiente de dar conta do pensamento e da sensação
não é nova, e não vou eu aqui me deter na reificação
dessa crítica. É o corpo que me interessa; em especial o
corpo animado, dançado, em pantomima. Foi por intuir alguma magia
emanando da performance da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto
que eu deixei-me embrenhar nessa pesquisa cuja missão, embora incompleta
(quem jamais aceita sua investigação como completa?), aponta
para a afirmação do corpo como meio primordial de expressão
simbólica. Ao estreitar contato com os homens que "brincam"
essa performance mágica, esperava eu conseguir traduzir com linguagem
(pois sou teimoso) a metafísica muito particular e bonita encorpada
em pantomima pelos agricultores do Crato.
O objetivo do presente artigo será o de apontar na performance
dos Irmãos Aniceto um sentido religioso especial que, além
de beber nas narrativas próprias da família dos Lourenço
da Silva, e também em narrativas "esquecidas" dos tapuias
que habitavam a região do Cariri cearense, atualiza mitos antigos
dos índios Cariri e se apresenta em forma de resistência
cultural, assumindo para além do significado religioso já
descrito por mim1, um significado político de suma importância.
Político no que essa palavra tem de mais genuíno. Escrevi,
acima, esquecidas entre parênteses, primeiro por desconfiar do esquecimento
como fenômeno cultural, e segundo por empatizar com a Memória
como organizadora da vida, cobertor que aquece os ossos frios do Mistério,
aquilo de que se detém a tentar explicar todo o pensamento filosófico,
e que é um vão, um buraco negro. Prefiro, então,
inspirado pelos Irmãos Aniceto, me ater à Memória,
pois ela acalanta, ilumina o buraco e dá sentido à vida.
O diretor de teatro e teórico norte-americano dos Estudos da Performance,
Richard Schechner, uma vez me advertiu que eu não confundisse:
"a História não é o que acontece, mas o que
é codificado e transmitido". Ao contrário da História
oficial, letrada, eu argumento que no corpo em performance está
codificada e transmitida uma História muito mais valiosa, e aqui
nesse caso uma História de resistência indígena. É
sabido que desde a Idade Média os livros de História foram
muitas vezes apagados e reescritos para servir às necessidades
daqueles no poder. Mas como apagar a escrita do corpo? A verdade é
que a cultura escrita sempre dependeu muito mais do corpo para sua reprodução
e transmissão do que o contrário.
Eu descobri que na performance herdada e recriada dos Anicete há
informações sobre nossos antepassados cearenses que não
se acha escrito em nenhum tomo ou manuscrito dos arquivos oficiais. Mais
ainda, aquilo que foi historicamente apagado ("esquecido") não
quer dizer que seja inexpressível. Joseph Roach defende que, exatamente
por ter sido impossível exercer domínio absoluto sobre as
tradições corporais de índios e negros, a performance
se apresenta como o meio de transmissão e expressão principal
na manutenção de culturas violentadas ou reprimidas2. Esse
é o caso em quase todas as sociedades pós-coloniais de hoje,
e no Brasil, país especialmente rico em diversidade performática
das classes subalternas, esse fato se dá de forma ainda mais óbvia.
Eu fiz a pergunta mais de uma vez, mas escutei sempre a mesma resposta:
"essa bandinha vem de longe, ela já vem dos índios
Cariri; que os índios daqui do Crato eram assim muito alegres"
(Antonio Anicete). Há uma célebre frase entre eles, dita
por Mestre Chico, Anicete já falecido, que diz ser a Banda Cabaçal
uma manifestação mais velha do que a própria invenção
do Brasil: "A Banda Cabaçal vem desde a criação
do mundo. Você já viu o retrato do Descobrimento do Brasil?
Pois bem, pode reparar direito que lá tem uma banda de música
dos índios tocando".
Quem sou eu para duvidar de Mestre Chico? A Cabaçal, tal como a
aplaudimos hoje nos centros culturais e palcos de teatro, não existia
antes do colonizador, mas é mesmo entre os índios que encontramos
as matrizes culturais que justificam essa manifestação cênica
e musical, e o capital simbólico arrastado com ela. Foram os tapuias
de língua travada os primeiros a rasgar no céu do Cariri
cearense o canto místico da Acauã, ave devoradora de cobras
peçonhentas, entidade cujo canto trazia a lembrança de que
os malignos seriam destruídos. Hoje, é Antonio da Silva,
pifeiro e agricultor, quem grita no palco.
A região da Chapada do Araripe inteira era povoada, antes do colonizador,
por inúmeras tribos que, com outras tantas espalhadas pelo sertão
nordestino, formavam a grande Nação Cariri. Etnia de idioma
próprio, os Cariri foram, constantemente, incluídos sem
denominação especial no confuso grupo Tapuia, compreendido
pelo colonizador como o grupo indígena de língua travada,
inimigos dos Tupi, que habitavam o litoral e falavam a língua Geral.
Um resgate bibliográfico sobre o índio Cariri me revelou
três características básicas sobre a vida social desse
povo. A primeira delas, e que está de alguma forma presente nas
outras duas, é o misticismo latente que envolvia o índio
em todos os seus atos, ritualizando a vida cotidiana da tribo e dando
uma dimensão ainda mais mágica aos rituais extra-cotidianos,
especialmente a agricultura e a caça. A segunda característica
conta da valentia e insubordinação desse indígena,
sempre lutando contra o branco e sua paixão pela escravidão,
seja de negros ou índios. Aliás, vale abrir um parênteses
e apontar o fato de terem sido os Cariri-Xocó responsáveis
pela criação do Quilombo de Palmares no interior do Nordeste.
Por dominarem a geografia da região de Palmares, esses tapuias
serviam constantemente de guias a escravos africanos foragidos e lá,
especula-se, deram origem a uma cultura híbrida afro-ameríndia3.
A terceira característica presente em tudo o que se escreveu sobre
o índio Cariri é da ordem de seu dom musical. De musicalidade
dita ingênita, esse indígena se utilizava da música,
de tambores, de gaitas e do canto, em todos os rituais religiosos e profanos
da tribo. Doenças eram curadas com canto e fumo, a caça
era comemorada com música e dança e a natureza era imitada
e louvada em rituais religiosos que envolviam a música como uma
ponte entre a realidade e o sagrado4.
No ritaul Warakidzã, de acordo com Baptista Siqueira o mais importante
e mais difícil de ser combatido pelos catequistas nas missões,
enquanto os líderes espirituais se reuniam numa cabana para fumar
e consultar os deuses, no terreiro, os moços mais robustos dançavam
em gritaria desentoada, trazendo cabaças vazias e furadas diante
do rosto e tocando flautas feitas do osso de certas aves. Tais ossos eram
guardados com grande estima e veneração durante o ano. A
festa se estendia por três ou quatro dias, até que saíam
da cabana os velhos ébrios do fumo e concluíam a festa com
os seus vaticínios. Essa descrição resume os escritos
de Padre Manuel Correia sobre os modos de como eram postos em prática
os rituais dos Moritises do baixo São Francisco, acreditados serem
autênticos Cariri egressos das secas do Ceará.
Aqui já vemos a flauta como meio de comunicação com
entidades sagradas; flauta direta, feita a partir do fêmur da ave
totem, que remetia ao falo e que, por isso mesmo, era vedada às
mulheres da tribo até mesmo o contato visual. Há também
a presença da cabaça, objeto sagrado, que nos remete, instantaneamente,
à origem do nome Cabaçal. Raimundo Aniceto, e qualquer outro
Irmão, se perguntado da origem dessa denominação,
vai dizer sem titubear que de acordo com o que ouviu do próprio
pai, o nome Cabaçal vem mesmo dos rituais e festas indígenas:
os índios Cariri não construíam zabumba com madeira,
mas sim com moringos, espécie vegetal da mesma família da
cabaça. Compreendida a origem indígena do instrumental utilizado
pela Cabaçal, não fica difícil deduzir como se deu
o processo de absorção dessa cultura pelos novos descendentes
Cariri que nasciam já no Brasil colonizado. Fica mais clara também
a relação religiosa que permaneceu entre a música,
a natureza e os rituais onde atualmente as bandas podem ser encontradas.
No século XVIII, quando a Coroa portuguesa já não
se preocupava mais com invasões européias em sua colônia,
começou o processo de desarticulação deliberada da
vida tribal junto aos grupos indígenas que viviam em contato com
a população nacional. Não havia como ignorá-los:
estavam ali. E precisavam ser integrados ao conjunto da população.
Mais do que isso, com a crescente agricultura e pecuária na região
nordestina, esses caboclos bem que calhariam de servir à aristocracia
rural como neo-escravos.
Com o sugestivo nome de "projeto de reforma dos abusos, dos vícios
e dos costumes", o Diretório Pombalino interferiu deliberadamente
na cultura indígena para que essa população fosse
absorvida da maneira mais prática e útil possível
para o branco. Interferências violentas e radicais no sistema religioso,
familiar e lingüístico do indígena foram postas em
prática com a frieza de um projeto que leva o título acima.
Embora essas interferências diretas na cultura das aldeias tenham
provocado transformações na identidade étnica dos
índios, não resultou no "desaparecimento" do índio
da região. Segundo Sylvia Porto Alegre, o processo de sobrevivência
étnica do índio nordestino se deve ao que se chama de "cultura
de contato"5. O que significa que não houve extinção
da etnia indígena, mas uma mistura, uma adaptação
de costumes, um acordo "natural".
O caboclo, mestiço, é produto da dinâmica cultural
do contato. Adquiriu novos hábitos e nova religião e, em
parte, sua emergência tem relação com o chamado "desaparecimento"
do índio, tal como era descrito pelos registros históricos.
Me interesso, particularmente, nessa curiosa informação
escrita em nossos livros didáticos dando conta do "desaparecimento"
do índio. Tal fato, sintomaticamente descrito em todas as fontes
que pesquisei, faz parte, em minha opinião, do projeto de "embranquecimento"
do povo brasileiro, cujas raízes se encontram, ingenuamente românticas,
em Gilberto Freyre6. Penso que para superar tal ideologia do "esquecimento"
é preciso, e urgente, despertar para a performance como praxis
corporal, e espisteme capaz de ser transmitida.
A respeito da performance herdada e recriada pelos homens que hoje compõem
os Irmãos Aniceto, chamo atenção para a imitação
de animais executada não apenas com os pífanos, mas também
com o corpo dos músicos-agricultores. Os corpos em performance
desses homens é um abrigo ancestral onde podemos identificar a
permanência mítica dos índios, seus antepassados.
É na relação do canto e da dança dos Aniceto
com a Natureza, e suas manifestações, onde permanece o elemento
mítico e totêmico do homem Cariri.
Susanne K. Langer diz que a concepção primária de
um totem deve ter brotado de alguma introvisão da significação
humana de uma forma animal, talvez uma noção mais sublime
da virtude selvagem. Influenciada por Durkheim e seu Les formes élémentaires
de la vie religieuse, esta autora diz que tal especulação
é corroborada pelo fato de ser a forma animal, mais do que qualquer
representante vivo da espécie, o que é preeminentemente
sagrada.
Ao repetir a forma e o comportamento de certos animais na performance
ritual, os Irmãos Aniceto denunciam certa relação
totêmica com esses seres. Tendo alguns desses movimentos de performance
sido herdados de seus antepassados Cariri, eles representam ainda a permanência
mítica de cultos animais desse povo ancestral. É conhecimento
ancestral transmitido por performance.
A lista de "números" executados pelos Irmãos é
imensa, e eu já me ocoupei, em várias instâncias,
da descrição e análise de cada um. Coruja caboré,
Casamento da Acauã com o Gavião, o Maribondo, o Sapo, o
Camaleão, o acrobático Briga de Galo, o rincho do Jegue,
o Cachorro e a Onça, e por aí vai longe.
Meu argumento principal, aqui, é de que o índio Cariri,
ao passo que "aportuguesou" o nome, permaneceu no seu lugar
de origem e preservou, através de práticas corporais, sua
identidade. Obviamente, não quero parecer cego ante o fato da real
diluição cultural do indígena, ou a própria
re-semantização do conhecimento Cariri herdado pelos jovens
que continuam a tradição secular da Cabaçal dos Anicete,
mas me interesso, como pesquisador do corpo, em formas de resistência
através da performance.
Os arquivos oficiais nos dizem que o índio Cariri desapareceu,
e tal afirmativa baseia-se na constatação de que seus rituais
e costumes típicos foram dizimados e sua vida em grupo desarticulada.
No entanto eu me pergunto: qual é o risco, politicamente falando,
de se pensar em conhecimento "encorpado" e performance (tal
como rituais religiosos e práticas tribais cotidianas) como aquilo
que desaparece? Qual memória é "apagada" se apenas
o conhecimento que está codificado nos arquivos é valorizado
e dado o status de permanência?
Ouso e digo que a cultura indígena nunca foi extinta, e sim transmitida,
não necessariamente à vontade e interesse do branco, mas
de acordo com processos bastante complexos de identificação
e de produção de sentido, por uma nova etnia - a cabocla.
E um exemplo sintomático disso é exatamente a aparição
desenfreada da Zabumba, ou Banda Cabaçal, a qual argumento ser
não apenas uma herança da musicalidade indígena,
mas uma forma de resistência de uma cultura "assassinada".
O "pife", ou flauta transversal, é dito ter sido apresentado
aos índios pelos missionários barbadinhos do Baixo São
Francisco, já que deriva do termo piffero, em italiano. Mas na
verdade, as melodias tocadas já existiam desde quando o "pife"
era feito do fêmur da ave totem. Como diz Mestre Antonio, "Ah,
mas a Caboré já vem de muito longe...". E a Banda Cabaçal
dos Irmãos Aniceto é apenas uma entre todas que compõem
esse acervo, que da mesma forma, consiste de tradição oral,
passada entre as diferentes gerações da família.
A Cabaçal dos Anicete (escrevo Anicete, sempre que posso, por ser
assim que os músicos geralmente chamam a si mesmos) diferencia-se
das outras bandas da região precisamente pela forte presença
da pantomima em sua performance musical, daí meu interesse particular.
Um fato importante que eu acho é a pantomima deles ser apresentada
somente em tempo profano, hoje basicamente restrito aos palcos dos centros
culturais. De alguma forma, essa pantomima imitativa de animais nunca
consistiu de sacramento em rituais católicos, instância mais
comum onde se ouve a música de couro no Ceará. Daí,
talvez, eles apelidarem a performance de "brincadeira". Claro
que os primeiros Cariri a criarem a "brincadeira" sabiam que
tal pajelança não seria bem aceita por autoridades católicas.
E, de fato, me parece muito mais fascinante a criação de
um novo tempo, profano, para a transmissão e continuação
de rituais ancestrais em homenagens a deuses pagãos, bichos do
mato. Tanto Mestre Antonio quanto Raimundo me disseram que o Véi
Anicete, seu José Lourenço da Silva (pai dos dois citados
e mito fundador da Cabaçal), pediu aos filhos em leito de morte
que não deixassem a tradição da "brincadeira"
morrer. E os que hoje vivem afirmam, com animação, que "enquanto
houver um Anicete vivo, o folclore não se acaba no Brasil".
Tal afirmativa tem vários níveis de significação
e importância. Primeiro o fato de que há, certamente, uma
razão metafísica para a continuação da tradição.
Continuar a dança e a música criada pelos ancestrais da
família (Memória) dá sentido à vida, esta,
caótica e socialmente precária. Me interessa, também,
o sentido particular que esses homens dão à palavra "folclore",
tão desgastada entre estudiosos da cultura e etnólogos.
Aqui, "folclore" é nada mais do que 'a dança de
meu pai e de meus avós, que contam a minha história e que
me deixam muito é animado!'. Peço perdão pelo "discurso"
aqui criado por mim: minha intenção não é
vulgarizar, mas sim a de compreender com o coração o capital
simbólico dessa tradição.
A afirmativa, bastante performática, de que se perpetuará
o folclore no Brasil me abre os olhos para outro problema. Esse ainda
mais complexo. Falo da relação mercadológica que
os Lourenço da Silva mantêm com a Memória da família,
cada dia mais forte. Por muito tempo isso me deixou confuso, e ainda deixa.
A verdade é que o povo do Crato já não aprecia tal
pantomima de bichos selvagens em tempo de tecnologias digitais e DVD.
A tradição ancestral, que ficou fora de moda em sua terra
de origem, virou um meio de sobrevivência por despertar o interesse
de platéias urbanas, já cansadas da vulgaridade dos produtos
culturais de massa. Nos palcos de teatro, os Anicete se apresentam como
alteridade, sob o conceito de exótico. Esse é um fenômeno
complexo, e eu simplesmente ainda não tenho cacife para o analisar
com precisão. Da rua eles agora passam a se apresentar em teatros
com luzes e cenário. Uma nova relação - um corte
mesmo- é estabelecida com a platéia, que antes participativa,
na rua, agora se mantém sentada e passiva. Admito que tais considerações
merecem aprofundamento e entendimento.
Minha modesta contribuição para com o estudo dessa performance
mágica, por hora, reserva-se a constatar que é um espetáculo
rico porque nos conta dos modos ancestrais de conhecimento e relação
com a sacralidade da Terra-Mãe do povo Cariri. Quando a família
dos Lourenço da Silva tocam juntos, e dançam juntos, eles
lembram juntos. Politicamente, essa performance tem um significado extraordinário
de resistência cultural ante a história de violência
sofrida pelos índios no Brasil. Essa performance conta o que a
história oficial não nos conta.
A referência aos ancestrais Cariri vem sempre a tona quando se conversa
com os músicos da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto,
fato a ser medido e analisado criticamente. Não vou cair na utopia
de dizer que é por causa dos índios que esses homens ainda
dançam. Mas é, certamente, por causa de sua dança
que os índios Cariri (ainda) vivem.
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