Performance, Technology and Activism

Michelle Cabral

"A Performance da Resistência: uma reflexão sobre a arte como forma de protesto no Brasil."


O primeiro movimento estudantil que se tem registro no Brasil, foi em 1710, quando os estudantes lutaram contra os piratas franceses de Duclerc. Em virtude da campanha abolicionista, que começava ganhar forças nas universidades do Brasil imperial, os estudantes receberam de um jornal conservador o título de "mocidade subversiva".
Em 1869, temos registrado a primeira manifestação política que fez uso de uma expressão artística mais elaborada, no confronto conhecido como "Primavera de Sangue". Onde os estudantes fazem o enterro simbólico do chefe da Força Pública, que havia mandado chicotear e jogar as carroças contra os estes.
Como podemos perceber a performance, em suas diversas formas de expressão, sempre esteve estreitamente ligada à vida social e política.
O Movimento Político de esquerda no Brasil, sempre teve uma forte e problemática relação de amor e ódio com as expressões artísticas. Podemos observar momentos na nossa História onde estes conflitos emergem em grandes discussões, mobilizando artistas, militantes, intelectuais... onde de um lado encontramos a "liberdade de criação" e de outro os "compromissos ideológicos". Foi assim com os movimentos culturais da Música Popular Brasileira, com o Teatro Político, os CPC's, o Cinema Novo etc...
O debate entre cultura e ideologia, e em consequência sobre a superestrutura em geral, sempre esteve presente e em voga os velhos conflitos, muitas vezes fruto da patrulha ideológica dentro dos organismos de esquerda.

O Partido Político.

Os partidos políticos de esquerda, sempre tiveram participação decisiva nos processos políticos do país, cumprindo sem dúvida seu papel de instrumento político na sociedade. No entanto estas mesmas organizações, aqui me refiro aos partidos que adotam o marxismo e o leninismo como ideologias de estrutura e organização, também tiveram importante influência na castração das expressões artísticas em seu interior.
Durante muito tempo na história política os partidos revolucionários ( este termo aqui, não traz um sentido de valor, apenas de reivindicação, tendo em vista que nem todos os partidos ditos de esquerda, reivindicam a revolução como meio de transformação) consideraram a arte como uma atividade "pequeno-burguesa", descartável e sem nenhuma "utilidade" revolucionária.
Em virtude deste equívoco, de uma má interpretação das teorias marxistas ou leninistas ( que em nenhum momento afirmam tal pensamento) os organismos de esquerda no Brasil adotaram consequentemente uma estética importada dos grandes movimentos revolucionários do leste Europeu, mais precisamente na então insurgente União das Repúblicas Soviéticas, que passa a ser , sem dúvida a grande referência comunista.
Esta " estética bolchevique", é reivindicada, nas reuniões dos organismos de esquerda, (que até pouco tempo cantavam a Internacional Socialista antes das reuniões, como um ritual), também na forma de vestir-se dos militantes de algumas organizações menores,
que exigiam de seus dirigentes e militantes, que vestissem roupas e adotassem um comportamento cabível aos militantes revolucionários, em muitos casos assemelhando-se a algumas seitas religiosas, esta estética aparece também nos atos públicos, nas passeatas, nas palavras de ordens, nos punhos erguidos como forma de protesto e reivindicação.
Com o passar dos tempos esta postura, vai se flexibilizando e ficando menos rígida, porém a resistência com relação as expressões artísticas persiste.


Do Panfleto a Performance.


"Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento
No planalto central
Do país."

Caetano.


Os Movimentos Sociais

Os movimentos sociais surgidos fora dos partidos políticos mesmo que muitas vezes em parceria com estes, tiveram grande importância na superação de antigas posturas com relação a arte como veículo de comunicação dentro do movimento político como um todo. Foram os movimentos sociais como o movimento negro organizado, movimento dos direitos da mulher, movimento dos homossexuais, movimentos ecológicos, enfim a sociedade organizada, fora dos partidos políticos, com sua irreverência sai as ruas, e traz uma estética nova, que não se limita as punhos erguidos, mas também uma caracterização diferente, no vestir, no falar, muitas vezes fazendo referência a cultura popular, com músicas, máscaras, etc...
O movimento político começa a perceber as potencialidades da performance artística como fator consciêntizador e uma eficiente arma de comunicação .
Esta influência vai aos poucos aproximando-se de outras organizações como o partido, os sindicatos, as organizações estudantis (os "cara- pintadas", nos anos noventa), que muito lentamente começam a adotar também o teatro, a performance, a música, o grafite, enfim outras formas também de aproximação com a classe trabalhadora e as comunidades que são foco de sua inserção política.

A Queda do Estalinismo no Leste Europeu.

" Depois da Revolução Francesa, surgiu na Europa uma Revolução Russa,
e isso mais uma vez ensinou ao mundo que mesmo o mais forte dos invasores pode ser repelido, assim que
o destino da Pátria é realmente confiado ao povo, aos humildes, aos proletários, à gente trabalhadora."
Do jornal mural da 19 Brigada Eusébio Giambone - Itália 1944.

Outro fator de importância decisiva foi sem dúvida a queda do estalinismo na União Soviética, até então a maior referência política revolucionária para grande parte das tendências políticas de esquerda no Brasil. A importância deste símbolo era incontestável e sua perda trouxe consequências em todos os campos da organização política e ideológica, desencadeando uma grande crise e iniciando um longo momento de refluxo do movimento político como um todo. O que era considerado até então como a grande verdade, passa a ser questionada, discutida, analisada, contestada, enfim, de fato um marco na história do socialismo mundial, tanto quanto a revolução proletária que lhe deu origem em 1917.

A Influência Trotiskista.


..."Assim a queda da ditadura burocrática atual, sem a sua substituição por um novo poder socialista, anunciaria o retorno ao sistema capitalista com uma baixa catastrófica da economia e da cultura. A URSS se encontra à beira do abismo e a contra- revolução burguesa estará na ordem do dia."
Trotsky- A Revolução Traída. 1936.

Cinquenta anos antes dos acontecimentos no leste Europeu, Leon Trotsky, revolucionário bolchevique, que participou da revolução de outubro já dizia aos seus companheiros do Partido Comunista que era preciso fazer uma revolução política na União Soviética, do contrário, o Estado Operário Russo sofreria uma restauração capitalista."
Com a queda do regime soviético, as teorias trotiskistas ganharam evidência , antes restrita a uns poucos setores dentro do movimento operário.
Trotsky, simpático ao movimento Surrealista, defendia que a arte, deveria existir apenas para a promoção e realização do homem, devendo ser portanto independente, não atrelando-se a nenhuma organização, nem mesmo ao partido revolucionário.
A influência destas idéias vem contribuindo também para quebrar a resistência e o preconceito dos organismos políticos, que sempre viram com desprezo as manifestações artísticas de seus militantes e muitas vezes, negando em sua estrutura partidária inclusive os setores considerados "marginais " no processo revolucionário, como os núcleos de negros, mulheres e homossexuais, mesmo que reconhecendo estes como setores oprimidos, mazelas fruto do capitalismo.
A face do movimento político no Brasil tem se transformado aos poucos, assumindo um caracter mais teatral, performático e artístico. Esta linguagem tem sido usada não somente nas ocupações do espaço público, como também nas atividades sindicais, no trato com as comunidades e nos processos eleitorais.


Bibliografia.

HOBSBAWM, Eric J. - Era dos Extremos: o breve século xx : 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

PEREIRA, M. Alberto Carlos e BUARQUE de HOLANDA, Heloísa - Patrulhas Ideológicas Marca Reg.: arte e engajamento em debate. São Paulo: Brasiliense, 1980.

MACHADO, Tomaz Clara Maria e PATRIOTA, Rosangela (orgs.) - Política, Cultura, e Movimentos Sociais: contemporaneidades historiográficas. Uberlândia : Programa de Mestrado em História - Universidade Federal de Uberlândia, 2001.

BOSI, Ecléa - Cultura de Massa e Cultura Popular : leituras de operárias. Petrópolis: Vozes, 1986.

TROTSKY, Leon. - A Revolução Traída. Fortaleza : Publicações Liga Bolchevique Internacionalista. 1999

TROTSKY, Leon. - A Situação Real na Rússia. Fortaleza : Publicações Liga Bolchevique Internacionalista. 1997.