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Denilson Lopes
"Estranhos Estrangeiros
ou Homossexualidades à Deriva"
"E tua alegria
tornou-se um país estrangeiro"
Felipe Nepomuceno
Hoje, a condição
estrangeira se dissemina e se massifica, diante dos cada vez mais intensos
fluxos migratórios que atravessam o planeta. Nesse contexto, o
que pretendo tratar não é tanto da experiência de
mal-estar do intelectual moderno exilado, devido a dificuldades políticas
e/ou pela perda de papel social no seu país. Também não
se trata mais do horizonte existencialista, pós-Segunda Guerra
Mundial, em que o estrangeiro assume um posição universalizante,
metáfora da experiência humana, em que todos somos estrangeiros
onde quer que estejamos, estranhos diante de um mundo que não carrega
mais sentidos transcendentes, com em A Náusea da Sartre. É
claro que estas duas construções ainda estão presentes
neste fim de século, mas gostaria de produzir um deslocamento culturalista.
Os textos sobre que vou falar tratam de personagens urbanos, de classe
média, não marcados por perseguições políticas,
nem por uma excepcionalidade mitificadora das margens, também já
distantes os laivos contraculturais . Também esta experiência
estrangeira se traduz em pequenas circunstâncias cotidianas (trocadilhos
não compreendidos, gestos reprovados etc) em que o confronto e
diálogo com o outro se dá de uma forma direta. Pequenas
dores, pequenas alegrias. Nada de dilaceramentos diante dos absurdos do
mundo, nem de confrontos identitários muito óbvios. O recuo
para a intimidade não implica uma alienação, mas
um tom menor.
Se os estudos culturais estão nos fazendo repensar a literatura
brasileira, a partir de um fraturamento da identidade nacional, tornando
esta mais descentrada, na medida em que são colocadas em pauta
noções como hibridismos, fronteiras flutuantes, derivas
gendéricas, que servem para ressituar, reler autores canônicos
da modernidade (como Clarice Lispector), resgatar outros esquecidos (como
Samuel Rawet), bem como estabelecer diálogos com obras que têm
enfatizado o olhar estrangeiro como forma de construção
artística , gostaria de falar de um lugar bem preciso. Comentar
Keith Jarret no Blue Note de Silviano Santiago, Estranhos Estrangeiros
de Caio Fernando Abreu e Na Companhia dos Homens de Alexandre Ribondi,
a partir das relações estabelecidas entre homens diante
dos fluxos interculturais. Esta experiência homoafetiva, com especial
ênfase nos frágeis limites do amor e da amizade, se coloca
numa situação permanentemente intervalar, para além
de uma identidade homossexual ou de uma sensibilidade homoerótica.
Este entre-lugar articula personagens em que sua nacionalidade e sexualidade
se apresentam entrelaçadas e em trânsito.
A nação é uma experiência que se "produz
um deslizamento contínuo de categorias, como sexualidade, afiliação
de classe, paranóia territorial ou "diferença cultural'
no ato de escrever a nação" (Bhabha, 1998, p. 200).
Como nos lembra Anne McClintock: "Todos nacionalismos são
genderizados, inventados e perigosos" (1998, p. 89), no sentido em
que eles representam relações com o poder político
e com as tecnologias de poder (idem). A nação é uma
experiência de identificação compartilhada (idem)
que paira sobre nós, como sistemas que legitimam o acesso ao Estado-Nação,
estabelecendo inclusões e exclusões. Ainda que nossas sensibilidades
sejam definidas cada vez mais por fronteiras mais ou menos frágeis
e fluxos culturais, é importante lembrar que o nacionalismo deriva
de uma memória, humilhação e esperança masculinizadas
(idem). E se as mulheres, no período de formação
de nossa literatura ainda entravam como símbolo, mas não
como agentes (idem, 90); nós homossexuais, invisíveis e/ou
indesejáveis, obviamente não chegamos sequer a ser símbolos
nacionais e muito menos agentes, fomos e somos excluídos de espaços
legítimos de reprodutibilidade e socialização, marcados
pela falta de legitimidade de famílias gays com filhos e pela dificuldade
de estabelecimento de modelos sociais alternativos inter-geracionais de
forma estável. Por isso é importante repensar as culturas
nacionais a partir das minorias destituídas , cujo efeito mais
significativo não é a proliferação da história
dos excluídos, mas fortalece uma base para o estabelecimento de
conexões internacionais (Bhabha, 1998, 25). Na construção
de suas múltiplas fronteiras, a nação entendida como
experiência narrada tem na escrita afetiva uma base importante mesmo
para a adesão e ação social. Trata-se não
só "simplesmente mudar as narrativas de nossas histórias,
mas transformar nossa noção do que significa viver, do que
significa ser, em outros tempos e espaços diferentes" (idem,
352).
Mas o "que se há de fazer em um mundo onde mesmo quando você
é uma solução você é um problema"
(Toni Morrison apud idem, p. 351)? A solidão dos personagens de
Silviano após a morte dos companheiros e da pouca presença
dos amigos homo ou heterossexuais dá o tom da literatura brasileira
contemporânea na quase ausência de relações
amorosas estáveis entre homens. A invisibilidade do homossexual
o impediu de ter um papel claro na cultura nacional ou resultou de uma
submissão a dualidade gendérica masculino/feminino, com
sutis formas de resistência, sobrevivência e recolhimento
no espaço privado ou nos guetos. Não estou reduzindo o discurso
literário ao político, mas tentando uma leitura política
do literário, sem que uma esfera se submeta a outra. Não
estou falando aqui de noções abstratas de diferença
e identidade , mas de uma experiência que se traduz numa alegria
de pertencer e compartilhar, numa alegria ao se constituir como intelectual
particular , anverso da construção do intelectual moderno,
seja isolado, exilado, seja revolucionário, engajado, porta-voz.
É este espaço modesto o meu lugar possível de fala
agora.
"somos todos estrangeiros
nesta cidade
neste corpo que acorda"
Guilherme Zarvos
No entanto, começo com o mal-estar de "Days of Wine and Roses"
de Silviano Santiago . Acordando em uma madrugada de domingo, o protagonista
nomeado como você (recurso que se repete no livro inteiro), parece
estar num limbo temporal e espacial, não só por causa deste
estado intermediário entre o sonho e vigília, mas por não
se sentir pertencente, nem na própria casa, que lhe parece um quarto
de hotel, em que os próprios móveis parecem indicar uma
recusa. "A poltrona é velha e pouco cômoda. Está
encardida pelo uso. Ela não combina com você. Você
não combina com ela" (p. 53). A situação que
poderia favorecer o devaneio ou um encontro consigo mesmo, apenas marca
a solidão diante da imagem da rua vista pela janela, diante dos
compromissos para o fim de semana desmarcados na secretária eletrônica.
A secura da paisagem sob a neve encontra, ecoa e amplia o desamparo. "Você
imaginou que não havia casas na cidade. Não há casas.
Só ruas. Você imaginou que não havia famílias
na cidade. Não há famílias" (p. 55). Casa e
cidade são espaços físicos e afetivos de desolação.
Estrangeiro numa cidade desconhecida, solitário em casa, insatisfeito
com o que passa na televisão, eu aceitando o convite começo
a me ver na narrativa, aspirado, seduzido por este você. Dois eus
frágeis se encontram, o do leitor lançado à narrativa
e o do narrador que recusa a primeira pessoa, com dificuldade em se enunciar,
em se confessar. Narrador que pode ser o mesmo durante todo o livro, ou
pelo menos, nos três contos escolhidos para ser analisado. Como
se a liberdade possibilitada pelo improviso do subtítulo se contrapusesse
ao uso do você, marcado por um certo pudor da autobiografia, não
fosse o autor já de longa data hábil em transitar pelas
fronteiras entre a ficção e a realidade. Silviano se permite
uma afetividade, pouco comum na sua obra. Mesmo a citação
de Keith Jarrett tem menos um papel metalingüístico do que
afetivo. Ela constitui uma memória pessoal, recurso de identificação
com o leitor, não um exercício de pastiche. Mesmo o distanciamento
de voyeur que poderia haver ao colocar um discurso tão íntimo
em segunda pessoa só se desloca em relação ao crescente
confessionalismo da contemporaneidade, a obsessão pela auto-revelação.
A música é uma metáfora para uma narrativa caudal,
que se desdobra pela memória, pelas impressões, e rompe
as amarras do olhar vigilante de si mesmo e do outro.
Começa também a lembrança. Da madrugada de domingo
vamos ao início do fim de semana, sexta-feira. A solidão
do presente remete a uma procura na memória, ou melhor, a uma disponibilidade
para o passado. Até chegar na quinta-feira, um calendário
invertido. Como não sabia porque estava naquela cidade, também
não sabia porque ligara a Roy, de quem fora amante por seis anos,
vivendo em "apartamentos separados e [na] mesma cama" (p. 63).
O sexo criou a intimidade, não o contrário. Reencontro pelo
telefone, sem corpo, sem olhos nos olhos, só voz, depois do desaparecimento
após anos. Não o pedido humilhado de uma mulher apaixonada
ao homem que não a ama mais de "A Voz Humana" de Cocteau.
"Você pensa agora que o telefone é uma forma de encontrar
uma pessoa sem verdadeiramente encontrá-la" (p. 57). Há
todo um ritual cotidiano que antecede. A sopa. O corpo quase nu, que se
sabe depois, envelhecido. A sobremesa. O uísque. Novamente o uísque.
Começam a conversar, a jogar. É o outro, ele, Roy, que pede.
O número do telefone. Você quer dominar, achar razões
para ligar. Você até acha. Você quer controlar. Começa
o streaptease. Primeiro, as roupas descritas, depois o passado compartilhado
aflora. Ironias e ciúmes. Os amigos perdidos no mundo. Os amigos
sobre quem se silencia não por pudor diante da morte, da AIDS,
mas para não ser redundante, talvez. Não há o que
falar, nada para esconder. Resta a constatação da mudança
nos bares que fecharam, do corpo que muda. De uma identidade gay transitamos
para o horizonte da experiência cotidiana. Aflora a mágoa.
E você conduz a fala para que a "ternura ressentida e silenciosa"
(p. 64) não invada a conversa, para que não perca o controle
sobre a afetividade. Esta perda só vai acontecer no último
conto, "When I fall in love", diante do amigo, amante morto.
Ao outro, a voz é cedida, ao permitir que dê a versão
de sua estória, de seu primeiro encontro, mas só quando
o outro não está mais lá. Tarde demais. Não
só as lembranças irrompem mas os afetos. Mas nem tudo acaba
com a morte. As pequenas brincadeiras fazem o protagonista envelhecendo
retornar à infância. Pelas memórias o corpo volta
a ser criança, sem passado, sem dor, sem ressentimentos, ainda
que por um momento: tapar e destapar o ouvido para não congelar
em "Days of Wine and Rose" e o chicotinho queimado no fim de
"Autumn Leaves". Em "When I Fall in Love", o fim é
sério, sem a brincadeira infantil de "Autumn Leaves"
que nos resgata da auto-complacência, da auto-piedade, mas o jogo
ainda não acabou. "Se você nunca soube quando tudo começou,
como vai poder adivinhar como tudo vai terminar? é o que você
se pergunta" (p. 147). É que me pergunto, nesta estória
de amor entre leitor e autor, também plenamente assumida, a única
que se passa no Brasil, no Rio de Janeiro, como também no conto
fora desta coletânea, ainda inédito em livro, "Uma Casa
no Campo". Voltando a "Days of Wine and Roses", também
é tarde demais para que o protagonista assuma, nomeie seu passado,
sua "longa relação sexual e amorosa" (p. 65),
nos seus limites, mas sem subestimá-la pela ironia. "Você
sabe que não foi um caso. Pode não ter sido paixão
mas classificar o relacionamento de caso é minimizar experiências
que te constituíram e te transformam no que você é
hoje" (p. 66). Há uma luta entre a explicação,
os porquês e o que as coisas simplesmente são. Não
há palavras suficientes. Com a idade, não vem a sabedoria
do velho narrador tradicional, o que nos chega desse romance de contos
mistura a constatação da perda e uma frágil sobrevivência
num cotidiano hostil, estrangeiro, que resiste a ser afetivizado, mas
no entanto o é. A lembrança final do gozo físico
é como se instaurasse uma ética do desejo, na constatação
mesma do desamor, em que estes pares se nutrem um do outro, não
se opõem.
O pertencimento está num encontro passado. Amor entre estrangeiros.
Um, brasileiro, que sempre viaja, agora em pequena cidade do interior
dos EUA (poderia ser a mesma de "Autumn Leaves"). Outro, norte-americano
em NY, que nunca viaja, nunca muda de lugar, telefone. No final, vem a
resposta, Roy dá o troco. Muda de telefone e não permite
que a companhia telefônica avise o novo número. Os personagens
estão num entre-lugar, que não é um não-lugar,
para usar o conhecido termo de Marc Augé. Não se trata de
um espaço de passagem impessoal. Apesar do incômodo, este
espaço de trânsito é um lugar afetivizado, que se
situa também num entre-tempo, como aparece em "Autumn Leaves":
"Você estava (e ainda está) convencido de que nada do
que se está passando nessa temporada de neve, frio e chuva está
sendo feito para durar" (p. 32). Não se trata de falar de
um tempo atrasado, como de um lugar reificadamente à margem, nem
de um fluxo constante que tudo nivela, nadifica, indiferencia. A melancolia
existe não como idealização de um passado morto mas
trata-se de um "entre-tempo"(Bhabha, 1998, p. 338) que emoldura
e constitui um entre-lugar, na frágil possiblidade de uma alegria
minoritária e não tanto de mal-estar de intelectuais à
sombra de Adorno, que se recolhem a não conseguem enxergar para
além do dilema revolução ou um caos que abra para
autoritarismos. Aqui existe um certo cansaço, mas não ressentimento.
Não mais o tom empenhado, quase engajado, de "O Entre-Lugar
do Discurso Latino Americano" , mas uma certa deriva entre fronteiras
e barreiras que se multiplicam e se deslocam. Silviano Santiago, trinta
anos depois de seu ensaio clássico, se recolhe, se afasta cada
vez mais da figura de um intelectual maior. Tempo de projetos menores,
pensamentos débeis, sensibilidades frágeis para o presente.
O narrar, a experiência substituem as polêmicas de uma universidade
que cada vez mais se profissionaliza e se auto-legitima. A cada vez mais
visibilidade do escritor diante do ensaísta parece reafirmar esta
escolha por uma política do afetivo
Se para Silviano tudo parece estar tarde demais, o afeto revelado como
transitoriedade, lembrança e perda, há mesmo uma recusa
da condição estrangeira ("você passou a ter ódio
de ser reconhecido como estrangeiro", p. 26) pela sua estigmatização
em favor de um pertencimento no passado ou em lugares públicos,
o tom muda um pouco na procura do encontro em Caio Fernando Abreu e Alexandre
Ribondi, no sentido de uma ética da deriva, valorizadora dos encontros
momentâneos e de uma felicidade estrangeira.
"Afinal, por que estamos separados se sentimos tanta saudade? Afinal
percorremos - você vindo e eu indo - a mesmíssima avenida
que percorre idêntica em todos os detalhes sua cidade e a minha"
Marilene Felinto
As fronteiras parecem quase não haver nos contos de Ribondi. Transita-se
do interior de Goiás ao Iraque, da Alemanha ao Sul da França
e Brasília. O deslocamento não recupera a noção
iluminista da viagem como formação, enfatiza apenas a transitividade
que está inclusive na passagem de personagens de um conto para
o outro, como se dissessem ao leitor: nós sobrevivemos à
estória que você acabou de ler. Os personagens deslizam pela
escrita na mesma medida em que transitam por espaços diferentes.
Não se trata de identidades, mas de posições marcadas.
O desejo é uma forma de pertencimento, de encontro, mesmo quando
não de inclusão. O encontro entre homens se dá sutil
e inesperadamente. As palavras não são pronunciadas não
por se recusar a dizer, mas para aprender com o corpo. Os olhares são
físicos, não de voyeur (p. 28). Olhares não se desviam,
falam (p. 32).
Em "A Descoberta do Fogo", a atração do jornalista
brasileiro, casado, com filhos, por um outro homem, um fotógrafo
alemão, ambos cobrindo a Guerra do Iraque ocorre sem culpas, sem
dissimulações: "pela primeira vez, como uma surpresa
adiada mas presente todos os dias da minha vida, estava frente a frente
com outro corpo masculino" (p. 33). O sexo acontece, mas longe da
fixação no ato, se distende pelo corpo. Quando o fotógrafo
chama o protagonista de amigo (p. 35), não se trata de eufemismo,
mas de uma amizade sexual, não o encontro idealizado e platônico
entre amizades masculinas ou de relações entre homens, caracterizadas
por homofobia, medo e ódio à homossexualidade, para usar
os termos de Eve Sedgwick, ao estudar formas do "desejo homossocial",
ou de homossociabilidades homofóbicas (1985, p.1) até o
século XIX, no mundo anglo-saxão.
Não pretendo apenas cunhar mais um termo, mas penso que falar em
homoafetividade é mais amplo do que falar em homossexualidade ou
homoerotismo , vai além do sexo-rei foucaultiano, bem como é
um termo mais sensível para apreender as fronteiras frágeis
e ambíguas entre homossexualidades e heterossexualidades. Uma política
da homoafetividade busca cunhar alianças, que descontrói
espaços de homossociabilidade homofóbicos ou heterofóbicos,
implica pensar num contínuo nas diversas relações
entre homens (entre pai e filho, entre irmãos, entre amigos, entre
amantes).
"A novidade do outro corpo masculino não era o que me fascinava.
Axel não me salvava de nada, porque não havia perdição
anterior que pedisse salvação" (p. 34). Entre o suave
desencanto, acertos de conta com o passado de Silviano e o arrebatamento
quase místico de Caio, os contos de Ribondi são suaves,
delicados, mas nunca apontam para a transcendência. A dor nunca
tira a beleza do momento. A procura modesta não se encerra com
o fim da estória porque há uma outra estória. O momento
não sacia mas é o que temos. "É uma lástima
o breve prazo de uma vida. Porque é sempre longo o encontro entre
dois corpos" (p. 39). A felicidade não está nas palavras,
nem em redenções, mas em pequenos gestos como o colocar
a mão no ombro do outro, durante a caminhada, antes da despedida
(p. 41).
Em "A Saudade do Ar", o tom é o de reencontro de ex-amantes.
Aqueles que ficam na lembrança, mortos ou esquecidos, do outro
lado do telefone, retornam. Encontro marcado, no sul da França,
depois de longa ausência. "Quando nos encontramos, ele teve
vontade apenas de me desejar uma boa noite e entregou as flores amarelas.
Eu lhe entreguei as mangas-de-cheiro" (p. 44). Estórias são
contadas, compartilhadas. Deitam juntos. "Quis me beijar mas, no
caminho entre a boca de Manuel e minha boca, ele deixou exalar o primeiro
suspiro do seu outono" (p. 46). As lágrimas de Manuel falam
de partidas, de perdas, de solidão, tudo que pode ficar demasiado
pesado, piegas ao ser falado, algo que não consegue ser expresso.
A intimidade vem do observar um ao outro. A relação não
coloca o sexo como central, mas esta intimidade, que mesmo quando não
há mais sexo, permanece. O tempo não volta atrás,
não houve reencontro, o que houve foi um encontro. Apenas. Nada
de irremediável, duradouro, nem a dor.
Em "O Derretimento da Neve", o protagonista cai, o instrutor
de esqui ri. Convite para bebida mais tarde. Tudo muito rápido,
nas primeiras linhas. Sem recusa, negaceios, ironias, diferente dos contos
de Silviano. Encontro em meio a viagens. A cidade estrangeira se torna
uma casa, um mundo enorme, sempre à espera, para ser descoberta.
E a casa do amante, Günther, onde viveu por dois meses, é
espaço de encontro, mesmo que haja uma despedida. "A despedida
foi feliz. Ou quase feliz. Um pouco feliz. Houve traços de felicidade.
Disfarcei os olhos, senão chorariam. Fiquei com Veronete para vasculharmos
a cidade até o fim" (p. 93).
"Quando as estrelas começarem a cair
Me diz , me diz o que que a gente faz aqui"
Renato Russo
Em "Bem Longe de Marienbad" de Caio Fernando Abreu, a procura
se faz mais ativa, decisiva. O narrador em primeira pessoa chega a Saint
Nazaire, pequena cidade do norte da França, à procura de
um misterioso K. O desejo de encontro que começa como fantasia,
pouco a pouco, através de um ritmo de quase suspense, se traduz
numa valorização da experiência da espera, uma experiência
para ser contada a alguém (p. 22), presente nos próprios
titubeios em iniciar a narrativa. Narrativa que conjugada à memória
aparece como salvação, termo ausente nos contos de Silviano.
Salvação pela ação (p. 30), pela viagem (p.
33), por ser estrangeiro, que se traduz na possibilidade do encontro,
para além da palavra, para além da sua realização.
O personagem de Caio se expõe mais. A delicadeza é a marca
do seu olhar, não a sátira e cinismo demolidores, nem a
contenção afetiva, nem o silenciamento. Silviano está
mais para Graciliano Ramos, como Caio está mais para uma "linhagem
dos meninos delicados de nossa literatura que se queimam num romantismo
exaltado"(Chiara, 2000), que vai de Álvares de Azevedo a Cazuza
e Renato Russo, linhagem marcada pela entrega, pela confusão entre
vida e arte, pela teatralização da dor, pela crença
no amor, por uma doce afetividade, que se aproxima de Manuel Bandeira
pela "compaixão que se forja na solidariedade dos que se acostumaram
a ser irremediavelmente solitários, porque compreenderam que todos
são sós mesmo quando não estão sós".
Ana Chiara acaba por sugerir todo um programa para uma arte afetiva contemporânea:
"sem muito desespero, que é inútil, sem pieguice, que
é meio de mau gosto, sem cinismo, porque já basta a desrazão,
mas com suave ironia para poder suportar o peso".
Tudo parece improvável nesta procura de K. É a delicadeza,
a hipersensibilidade que é ao mesmo tempo causa de mal-estar e
possibilidade de felicidade. Das delicadezas inúteis (pags. 24
e 30) é que nasce a modesta alegria. Pensamos que K poderia ser
o duplo, o próprio protagonista. Mas na passagem da cidade inóspita
para o apartamento de K, a memória vai dando espessura e concretude
ao personagem procurado, singularidade ao lugar. O encontro é uma
necessidade (p. 28), um ato de vontade, não mero acaso, ainda que
muito dele dependa, uma deriva marcada não pelo tédio, mas
pela crença conquistada. "Meu coração bate louco,
tenho as palmas das mãos molhadas quando abro devagar a porta deste
apartamento onde K com certeza estará" (p. 27). E mesmo que
não esteja, seus vestígios registram menos uma perda mas
uma aproximação. "Posso sentir perfeitamente nesse
espaço o cheiro do corpo vivo de K" (p. 27). Há uma
esperança: "Histórias como esta costumam acabar bem
e, mesmo que não se viva feliz para sempre - afinal, não
se pode ter tudo -, deve haver pelo menos algum lugar quente e seco para
abrigar o final da noite" (p. 25). A casa, mesmo como lugar de passagem,
provisória, é um abrigo. Dentro da casa, em meios a vestígios,
o outro deixa uma nota, também K saiu à procura, à
procura do protagonista (pags. 39 e 41). Escrever seria "recolher
vestígios do impossível" (p. 39), mas a vida está
alem da escritura, o encontro está além da palavra. "Aos
caminhos, eu entrego o nosso encontro" (p. 41).
A deriva é uma felicidade (poderia quase dizer uma utopia no presente,
uma salvação), não por esquecer ou não ter
objetivo, mas por ser "o espaço de um infinito prometido"
(Kristeva, 1994, p. 12). Ela tem objetivo, embora este possa mudar. Não
é mais necessário fugir do passado, do peso das lembranças.
O olhar não torna o protagonista simplesmente espectador, liberta-o
das prisões interiores. "Desvio o rosto, não devo me
deter tempo demais em meus próprios olhos. Aumento o som da canção,
olho para fora enquanto o trem dispara sobre os trilhos. Preciso ficar
sempre atento" (p. 42). Atenção para perceber o mundo,
a felicidade. Ela está passando, chegando. K está entre
nós.
Para Caio, a passagem é do tarde demais para o cedo demais, como
no encontro dos dois amantes em "Depois de Agosto". Dois HIV
positivos que se encontram pelas redes afetivas montadas pelos amigos.
Amor e amizade compõem uma família sem lugar único,
mutante, uma irmandade que ampara na leveza e possibilita a solidão
ser mais rica, ser disponibilidade. Mesmo quando o encontro termina, ele
não acaba, vira ritual profano. A ausência se povoa de presenças.
A doença que poderia estigmatizar ainda mais possibilita o pertencimento.
A revelação feita naquele agosto soa como negação.
"Nunca mais o amor era o que mais doía, e de todas as tantas
dores, essa a única que jamais confessaria" (p. 247). A viagem
aparece como decisão de afirmação da vida, o olhar
é uma presença, um presente. O Outro chega anunciado. O
encontro é marcado. Há resistência. Temor da recusa,
de precisar do outro O encantamento se faz. Na fugacidade do encontro,
a intimidade se faz, como não se faria com tantos outros em anos
de convivência. Caio não teme o ridículo da confissão,
o arrebatamento, o exagero do afeto, acredita na transcendência.
Sim, todo amor é sagrado. Não há promessas de juras
eternas, só possibilidades. E são estas possibilidades da
deriva cotidiana que o renascimento final traz. "Porque era cedo
demais e nunca tarde. Era recém no início da não-morte
dos dois" (p. 257). "Ao mapear os possíveis inícios
da 'não-morte, Caio sinaliza para o que está em questão,
não somente na literatura, mas também na transferência
inter-cultural, na contínua disseminação de possibilidades
preciosas demais para serem perdidas ou obscurecidas" (Larkosh, 2000).
Este encontro se repete, mesmo na distância. Ao som de um bolero,
eles fazem amor, na mesma hora, cada um no seu quarto, na sua cidade.
Em camas separadas, mas no mesmo diferente afeto. "E assim por todos
os séculos e séculos porque é assim que é
e sempre foi e será, se Deus quiser e os anjos disserem Amém"
(p. 258).
Em nenhum desses contos há um tom panfletário, militante,
antes sutil em que se fala do que acontece entre homens maduros. Nada
de histórias adolescentes de assumir uma identidade, com suas dores
e alegrias. Nada de culpas ou dramas marcados pela não-aceitação
do mundo, mesmo quando solitários. Talvez a própria ausência
de relações estáveis seja não limitação
mas uma possibilidade para que surja outro tipo de relação
para além da família. Desta não se fala. Pai, mãe,
irmãos. É algo de se escapa ou sobre o que se silencia.
Apenas sentimentos lançados na corrente dos acontecimentos e das
memórias. Todos carregam nos seus corpos lembranças, não
podem evitar. Todos marcados por encontros, desencontros, estórias,
fins de estórias.
O entre-lugar das homoafetividades está entre identidades, entre
homo e heterossexualidades, implica repensar as masculinidades para além
de uma homossociabilidade homofóbica. O que é estar entre
homens, quando não se sabe o que pode acontecer, a violência
ou o beijo inesperado. A fragilidade onde se esperaria força. Lembro
de Roberto Sifuentes no papel de Cyber Vado numa performance com Guillermo
Gomes Peña . Cyber Vado é uma espécie de encarnação
chicana de Rambo nas pequenas cidades norte-americanos, como nossos garotos
do jiu-jitsu. Ele permite, se oferece. Pinto seu peito e braços
de verde. Depois, ele me pega pela mão. Me convida. Se deita no
meu colo. Eu que sou? Mãe? Pai? Amante? Irmão? Rasgo sua
camisa com uma faca falsa. Ele me pergunta: que queres? Ofereço
uma arma de brinquedo. Ele nada faz. Pego a arma e caminho com ela pelo
seu corpo, pelo seu peito nu. Estamos frente a frente, ele de joelhos,
em cima de uma plataforma, no palco. Ficamos nos olhando. Mais de uma
voz feminina pede, grita. Obedeço o meu desejo. Beijo mas ele não
retribui. Depois pega a minha mão e pede que desça como
antes me pedira para subir.
Saio inseguro. Não foi simplesmente teatro. Guardo os vestígios
deste encontro, como daqueles nas filas de cinema, na porta dos teatros,
nas ruas, nas estações de metrô, nas conversas da
internet. Espero acontecimentos e eles não têm me tem faltado.
O entre-lugar é também um espaço político
de confronto de imagens de culturas, espaço da frátria,
não simplesmente da fraternidade masculina. O que fazer depois
da morte do pai no dia a dia? O entre-lugar não é só
um espaço frágil do intelectual e das produções
periféricas, mas a base de uma política e estética
da amizade, de uma ética particularista da deriva, do desejo e
do encontro.
"Mas eu não fui educado
para amar um outro homem"
Cláudio Bull
É tempo de terminar,
não concluir. Conto a minha estória estrangeira. É
que posso fazer. Há momentos de saudades que afloram quando menos
se espera. Conheci Patrice numa sala de espera do aeroporto de Brasília.
Como de hábito, dei uma olhada no lugar em que chego para saber
onde me sentar. Ele estava lendo sozinho. A conversa não foi difícil
de começar. Ele ia para Recife. Eu, pra Natal. Dei o nome e telefone
da minha pousada. Ele ligou dias depois. Dividimos o quarto. Saí
com ele. Trocamos endereço. Ele se foi. Ficaram os cabelos louros,
o corpo de menino dormindo ao meu lado. Numa outra cidade, que uma vez
foi minha, onde nasci, agora estrangeiro, passo de ônibus ouvindo
Bossa Nova. Sem querer me lembro de você, dele, de outro. Quero
amanhecer ao seu redor. Preciso tanto saber como vai você. As lágrimas
escorriam, quase escorrem de novo. O céu azul de tanta luz. É
a música, a outra cidade que me trazem você, mesmo quando
nada me lembra. Mudo de cidade. Revejo outra também muita amada.
Chego com frio e dia limpo. Neva por toda a manhã seguinte. Começo
cedo a andar. A neve bate nos olhos, nos óculos. Não consigo
parar. Quero olhar, rever, pertencer, possuir. A neve vira lama no asfalto.
De tarde ainda caminho. Pessoas, lojas, ruas. Pessoas. Não distingo,
não lembro mais, lembro pouco, o suficiente para não me
perder. Continuei a andar. Lembro os dias misturados. O garoto de cabelos
verdes e unhas sujas no metrô. Não parava de arrepiar ainda
mais os cabelos. Conversas rápidas. Olhares cruzados. De bar em
bar. Rever a rua de restaurantes indianos em que ia comer porque era mais
barato. Comia devorando o presente e o passado. Emocionado com uma simples
sopa ou olhando recados dos estudantes no banheiro. A dona conversa comigo.
Veio de Bombaim ou de algum lugar do Paquistão. Sorriso bonito.
Não me lembro mais. Os traços e paisagens se confundem.
Esqueço tanto que é sempre ver, nunca rever. Só a
saudade muda menos. As lágrimas aparecem quando menos espero. Agora,
no ônibus atravessando a cidade à beira-mar. Agora, no dia
seguinte, quando escrevo. As lágrimas escorrem também na
sala de cinema. Meus olhos cansados de olhar se calam. Imagens difusas
flutuam perdidas no mar da madrugada. Nada posso fazer a não ser
esperar. Hoje é dia de voltar. Até quando? Até quando.
Quero anoitecer.
Referências
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Resumo
Análise de contos de Caio Fernando Abreu, Silviano Santiago e Alexandre
Ribondi a partir da disseminação de uma condição
estrangeira na contemporaneidade e sua relação com experiências
afetivas e sexuais entre homens. As identidades nacionais e homossexuais
são repensadas como sentimentos cotidianos de pertencimento/não
pertencimento com a ajuda dos estudos pós-coloniais e dos estudos
queer.
Abstract
Analysis of short stories by Caio Fernando Abreu, Silviano Santiago and
Alexandre Ribondi through the dissemination of a foreign condition in
contemporary times and its relationship with affectionate and sexual experiences
among men. National and homossexual identities are rethought as ordinary
feelings of belonging/not belonging with the aid of post-colonial studies
and queer studies
Palavras- chave
entre-lugar, homoafetividade, estrangeiro, nacionalidade, homossexualidade.
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