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[Page 6: A identidade do Amazonas expressa no folclore do Boi-Bumbá
por Erick Bessa Pinheiro]
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Entrevista com Denildo Quissanã–"Tripa" (22) do Boi Garantido (B.G.) na Cidade Garantido (23).
- Quissanã é um nome indígena?
- É um grito de guerra que em Tupi-guarani é um pássaro, uma águia.
- E a quanto tempo você sai de "tripa" do B.G. no FFP?
- Para ser um "tripa" tem que ter muita dignidade, tem que ter muito amor ao Boi. Porque ele representa a nação vermelha-branca, ele é o dono da festa, e ser o "tripa" a emoção é grande, porque ele está dando vida a um boi de pano. Ele é que dá a emoção na arena.
- Então poderia dizer que o "tripa" é o personagem principal dentro de todo o festival, entre todos os itens que compõem tanto o julgamento como a própria tradição do Boi-bumbá?
- Com certeza. Porque o Boi, os dois Bois, sem os dois Bois não teria a festa, ele é a peça fundamental, ele é o próprio pilar da festa, são os dois Bois. Tanto o Boi Garantido como o "contrário".
- Como foi que à 10 anos atrás surgiu a oportunidade de ser "tripa"?
- Foi num concurso. Eu fui o segundo, mas no dia 28,29,30 de junho, eu estava de primeiro (...) porque o outro "tripa" estava sem preparo, eu estava bem preparado, e ganhei a vaga...
- Quais os pré-requisitos que te levaram a alcançar o 2º lugar e posteriormente o primeiro?
- O quesito que tinha era a revolução na arena (...) só ficou nós dois, está no sangue, e até hoje eu sou o primeiro e ninguém me tira.
- E quando você está na arena o que conta ponto, o que vale para fazer a revolução na arena?
- Eu estou representando uma nação vermelha e branca, a emoção vem muito daí, a "galera" é que leva o boi ao fazer a revolução na arena (...) e acho que tudo isso depende muito do meu trabalho, do meu amor que tenho pelo Boi, o amor do meu trabalho de ser um item do Boi.
- Quando você faz a coreografia, tem uma coreografia própria ou é tudo de cabeça, como é para determinar os passos, entrar no ritmo das toadas (24)?
- Muita técnica, muito show que eu dou, é um boi real mesmo. Eu assisto muito o boi real na fazenda, e daí eu tiro os movimentos que eu posso fazer na arena, um boi real (...) por isso que eu vejo os movimentos dele, como ele está comendo o sal, o que ele faz, ele mexe o rabo, mexe a orelha, como é que ele come, ele abaixa o queixo para ver, mastiga para frente e chega para o lado, em tudo isso eu presto atenção para fazer o mesmo na arena.
- Eu andei sabendo que existe o efeito surpresa (25) dentro do festival, e parece que há mais de um boi. Você seria o principal, teria mais algum quando se faz este efeito surpresa?
- Não. Isso é em termo, sou eu é que faço os bois, sou eu que trabalho neles, sou é que sou o criador das criaturas...
- Como está o coração faltando poucos dias?
- A emoção fica mais controlada, mas a emoção mesmo é quando pego o boi na arena e pronto, aí a emoção começa, de mim para o boi, de vestir o boi e dar vida a ele.
- É muito complicado manusear o boi high tech (26)?
- É tudo manual, isso depende muito de mim, por isso que a preparação da academia é muito importante, porque uso muito braço e perna, e a mente porque praticamente eu não enxergo nada, só tem um buraco que dá visão para todo o bumbódromo, e que é para frente.
- E você nasceu em Parintins?
- Nasci em Parintins, praticamente foi dentro do curral (27) do boi.
- Como assim?
- É que a minha casa é quase em frente ao curral do Garantido, quando ele era lá na Baixa (localidade da cidade), acho que passa umas cinco casas para ser a minha. É praticamente a mesma pele, já vem do sangue isso.
- E você pretende ser "tripa" quanto tempo?
- Depende da perna está bem. Eu acho que esse é um momento importante para mim, até por causa que eu tenho um filho, e eu já estou ensinando o meu filho a ser o próximo "tripa" do Boi, pretendo passar de pai para filho para fazer a mesma coisa que o pai faz na arena.
- Se ele não for "tripa", ele pode ser qualquer coisa contanto que faça parte da agremiação?
- Com certeza. Ele trabalha comigo na confecção do boi, eu acho que vai ser um artista nato, até porque já vem do berço. Ele nasceu, eu já fazia o boi, e fazendo o boi lá em casa, ele nasceu praticamente assim, ele viu eu fazendo o boi, deitado do meu lado, dormindo, acho que vem do berço mesmo, por causa daí que ele já pegou o jeito mesmo de como é para fazer o boi, porque é de criança que se vê para fazer adulto.
- Boa sorte.
- Eu é que lhe agradeço, acho que isso me dá mais força, mais mentalidade para imaginar o boi, mais um pouco para apresentar na arena.
- Justamente quando a gente vem realizar uma pesquisa sobre a cultura, a cidade em relação a esta festa, a gente descobre horizontes, e este é um horizonte que você ajudou a construir e que você conseguiu expandir.
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