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[Page 7: A identidade do Amazonas expressa no folclore do Boi-Bumbá
por Erick Bessa Pinheiro]
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Nesta entrevista com um artista de arena fica evidente a dedicação plena ao Boi, o que é servi-lo e que demonstra a que dimensão está o folclore do boi-bumbá para o parintinense. Nota-se também a preparação, a cênica performática implementada a figura do boi-bumbá e sua importância dentro do FFP. Embora a marca que mais se registre atualmente seja a cultura indígena e a cultura do caboclo, que aparece em vários itens e componentes da apresentação do Boi, e não só com o boi-bumbá propriamente dito, peça fundamental e ator principal, que sem a "galera" e o "contrário", paixões que o move, não é ninguém. Uma união umbilical para cada Boi-Bumbá, a alma para a emoção da encenação dramática narrada por apresentadores e motivada pelas "galeras". É uma paixão, um amor espiritual, um fanatismo carnal. Um elo genealógico e vitalício que transparece num trabalho digno durante o tempo de preparação e apresentação do FFP.
Uma cultura criadora de expressões que justificam as marcas seculares do folguedo popular e que tem o seu próprio berço. Manifestando uma escola inesgotável de energia e criações que a tornam exportadora e importadora de técnicas e estéticas para outras manifestações artísticas nacionais. A beleza e graça do Festival se devem a alguns meses de muito trabalho em torno da preparação do boi que se dá através das idéias e das mãos de pesquisadores, profissionais de Artes e artesãos, que ao colocarem o boi na arena, aparecem na forma de cores, penas, sementes danças e encenações. Para Emerson Brasil, artesão e integrante a (6) seis anos da Comissão de Arte do Garantido, diz que "o artesão em Parintins não tem um limite de idade, por acreditar que o parintinense nasce com isso na alma, é um dom", bastando-lhe a oportunidade para se desenvolver. Quanto à isso Ozéas Bentes, 39 anos, a 20 anos como artesão de alegorias, se refere bem:
"Nosso Festival é desenvolvido como uma escola, para todos os profissionais e artistas daqui. O ensino disso vem da rivalidade e da tradição, porque o outro lado contrário e o lado Caprichoso há uma disputa, querendo fazer melhor do que o do contrário (...) se desenvolve, corrigindo seus erros (...) no que dá certo e o que não dá. Tudo vai se arriscando. E hoje existe uma mão-de-obra qualificada no Festival, cheia de erros como em qualquer setor, mas estes erros vêm tratando o aprendizado de cada artista. E eu comecei a desenvolver minha arte vendo os mais experientes fazer aquela arte. " (28)
Existe uma trajetória a ser seguida por cada artista para crescer na profissão, através do conhecimento alheio e de um auto-conhecimento o ser humano se desenvolve, e neste caso assim como em qualquer oficina na história da humanidade, o homem primeiro é discípulo para um dia se tornar mestre da obra. Ao entrevistar Chico Rudela, artesão à 19 anos do Garantido, lhe perguntei se de discípulo ele passou à mestre, e ele disse:
"É um pouco disso. Porque em Parintins todo mundo começa desde muito cedo, procurando aprender, a se dedicar. E em cada equipe sempre se destaca um, quem tem mias sorte consegue ter o próprio trabalho dentro do boi (...) No Garantido, eu trabalho por conta própria a 16 anos, desde os 14 anos, foram (3) três anos de ajudante e depois por conta própria (...) Eu fazia parte de uma equipe e participava só como ajudante, e depois disso eu passei à assinar o próprio contrato." (29)
O festival está tão divulgado no Brasil e no mundo como uma grande atração turística, devido a uma série de pessoas que estão envolvidas com todos os tipos de criações artísticas dentro dos galpões das agremiações. Um trabalho feito por pessoas humildes, simples, da terra, mas que sabem o verdadeiro valor desta realização. Sentimento expressado em palavras por David, à 10 anos como artesão de tribo e tuxaua do Boi Garantido, nascido e criado na Baixa do São José, vermelho de coração, e que já esteve por mais (9) nove anos no lado do Caprichoso, disse:
"... quando é lado profissional, eu também abraço os dois lados. Se eu tiver envolvido lá, se eu estiver defendo as cores do outro lado, eu viro (...) quem ganha com isso é o Festival de Parintins, é o nome da cidade que vai longe, é a cultura do Amazonas, tanto é que o boi é o ritmo do Amazonas e a gente faz com coração, pois a gente trabalha levando o nome do artesão e o nome da cidade de Parintins."
A Arte vem de dentro do ser humano, faz parte do ser humano, tem que ser feito com amor, dedicação e o respeito à quem se faz, para que este retribua da mesma forma. Mediante a experiência e responsabilidade se dá a relação entre as agremiações de bois-bumbás e seus fiéis artesãos. Ozéas Bentes assim demonstra:
"... o Festival tem uma coisa importante que ajuda no crescimento, que é o orgulho pessoal que o artista recebe, faço esperando a resposta das pessoas, porque quando não está bom você é criticado, mas quando é bom, é elogiado, e isso faz com que a gente cresça (...) o trabalho de Arte é sofrido, porque não é mil maravilhas, enfrentamos dificuldades, falta de material (...) E na Arte se viaja muito, tem que ter limite, mas o sofrimento faz parte do amor à Arte que a gente tem, e se supera tudo isso."
O trabalho dos artistas e artesãos, cercados de segredos e mistérios, realizado nos galpões, conhecidos como QG's, foi bem explorado por Andréas Valentin (30) em sua dissertação de mestrado em ciência da Arte "Contrários – a celebração da rivalidade dos bois-bumbás de Parintins", a fim de desvendar as formas de produção dos instrumentos artísticos a serem apresentados no espetáculo dos bois-bumbás na arena do bumbódromo para disputa do FFP. Valentin revela como uma situação de conflito se transforma numa celebração criativa e edificante. Fotografando os QG's revela aspectos da criatividade, habilidade e orgulho dos artistas, além dos mecanismos e processos de rivalidade nas estratégias para o conflito da arena e na confecção de alegorias, fantasias e adereços, guardados em total sigilo para os dias das apresentações. Os galpões são as fábricas de sonhos dos criadores dos Bois, espaços resguardados de mistérios, no qual a Arte está cercada por segredos e surpresas que darão o triunfo do espetáculo. Através destes se têm um caminho, pelos bastidores, para se compreender a festa de Parintins.
As raízes do espetáculo estão nos bastidores da preparação dos bois-bumbás, revelando cenários de arte, criatividade e paixão. Nos QG's se destacam figuras pouco conhecidas do grande público e dali sai o resultado quase industrial de construção do FFP.
Tudo começa pela escolha temática, daí passa-se para a inspiração dos compositores de toada, que são a ponte de partida para a pesquisa e trabalho dos artistas da Comissão de Arte do Garantido e do Conselho de Arte do Caprichoso. O Projeto configurado destes grupos parte para os galpões, onde se preparará a moldagem e confecções dos artesãos. Para que nos dias 28, 29 e 30 estejam prontos para o FFP.
Inaldo Medeiros, coordenador do galpão de tribo e principalmente compositor do Boi Garantido revela com irreverência o processo para compor suas toadas:
"Primeiro é a vivência senão não tem como compor. No maior, é a maior floresta do mundo, o maior rio do mundo, a maior biodiversidade, a riqueza de nossas tradições nesta terra, está tudo aqui, acho que isso tudo inspira a gente, to cercado por todos os lados. É um paraíso de inspiração total. Eu digo que tenho tanta inspiração que sou capaz de compor uma bula de remédio como receita de bolo." (31)
A escolha das toadas é um disputado concurso, com mais de 200 toadas, que ocorre entre outubro e novembro. Tudo isso por um lugar ao sol e ao prêmio de R$ 2,5 mil por composição que inclui o direito de arena. Os julgadores levam mais de um mês para chegar ás decisões finais. Inaldo Medeiros no ano de 2004 mais uma vez estava lá e sem modéstia disse:
"Eu tenho três composições. Eu sou o campeão de botar toadas no CD. Ninguém até hoje teve a façanha de por seis toadas no CD, e eu já consegui isso aí. E esse ano eu tenho três toadas: Rei dos rios, Coração de Batuqueiro e uma de desafio, Boi cara-de-pau."
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