|
[Page 8: A identidade do Amazonas expressa no folclore do Boi-Bumbá
por Erick Bessa Pinheiro]
Printer-friendly version

O trabalho mais laborioso e exaustivo do processo de construção do boi de arena fica a cargo da Comissão e do Conselho de arte dos Bois Garantido e Caprichoso respectivamente. No projeto são descritos dez tuxauas, dez tribos por noite, todas as fantasias por itens individuais, rituais, figuras típicas, roteiro para apresentador, coreografias e cênica. Esse material é popularmente conhecido como "tempestade de idéias", e pronto, passa a ser distribuído para os artistas de ponta e suas equipes compostas de artesãos, escultores, pintores, serralheiros, aderecistas, eletricista, iluminadores. Ciro Cabral, integrante da Comissão de Arte, revela "fazemos a pesquisa do traço da tribo original, se existir, ou se for uma tribo extinta procuramos estimular a criatividade do artista. Sempre levamos em conta que o índio amazônico não usa tantas plumas, tantas penas e, assim, o artista tem sempre liberdade para criar" (32). Perguntando para Emerson Brasil sobre a possibilidade do artesão ter a liberdade de mudar um projeto, ele respondeu:
"... a gente repassa para o pessoal. A parte de tribal, protótipo, mas se no decorrer do trabalho, ele tiver uma idéia que é melhor, que supere, a gente chama a Comissão de Arte e se for aprovado, não tem problema nenhum."
Ozéas Bentes sobre este assunto respondeu:
"Existe uma liberdade dentro daquela linha que vem de lá, se tem uma idéia e vou tentar mudar, mas dentro do roteiro (...) questões da parte alegórica, de efeito e de movimento, essa criação há liberdade (...) porque vai levar para arena, o jurado está olhando o histórico e está assistindo, comparando e não pode ter este erro. O Caprichoso tem a preocupação e fomos campeões ano passado em cima disso aí (...) seguimos uma linha para quem está julgando não se perca (...) acho que a liberdade pode ser um risco que a gente corre..."
 |
Ozéas Bentes no galpão do Caprichoso. |
Ricardo Peguete, coreógrafo e diretor cênico do boi Garantido, acha interessante se aprofundar mais em cima do projeto que lhe vem as mãos.
"... vai do coreógrafo se aprofundar mais e querer pesquisar mais correlação a uma nação tribal. Por exemplo: os Saterés-Maués, eles me passaram um resumo para efeito de desenvolvimento, para ter este elemento e mais -elementos, o que eu faço? Eu procuro me aprofundar mais ainda no que eu possa aproveitar em questões de danças e costumes, para eu jogar isso em movimento e possa dar uma dinâmica maior, uma dramatização maior."
Das cabeças inventivas e mãos mágicas de todos estes artistas surge a arte de materializar as fantasia humanas. Imaginações que criam e recriam tudo, traçando formas, dando cores e proporcionando vida através de efeitos e movimentos. Tudo dentro do contexto plural do regionalismo amazônico. Salvem estes mestres, mágicos e alquimistas da Arte.
O RESGATE E PRESERVAÇÃO DA CULTURA INDÍGENA DENTRO DO FESTIVAL.
|
Alegoria em frente ao bar Ritual na cidade de Parintins. |
Nesta questão cada vez mais o FFP vem alçando vôos mais altos e corajosos. As incorporações dos elementos da cultura do caboclo e indígena fazem a diferença do boi-bumbá amazônico. Por exemplo, a habilidade do povo parintinense com os produtos extraídos da floresta como: palhas, sementes, contas, são frutos das tradições da arte indígena. E hoje dentro do festival, tribos, tuxauas, rituais, lendas e personagens típicos do universo mítico tribal estão introduzidos ao lado de figuras tradicionais do Auto do Boi, sem sobrepô-los. A importância desta introdução se deve ao resgate e preservação das culturas indígenas, destacando suas lutas, seus mártires e mobilização em torno do crescimento tribal, onde diversas nações, após a criação de áreas de proteção das terras indígenas, voltaram a crescer e resgatar ritos, festas e costumes de suas tradições.
Nas apresentações os bois-bumbás trazem alegorias com tribos (tribos de composição) no qual compõem-se elementos do cotidiano do nativo, e destacando nas tribos de coreografias, a arte plumária, pinturas corporais e diferentes formas de dançar. Nas lendas amazônicas estabelecem a Cunhã-poranga e a Rainha do folclore como os itens de destaque sob a expressão de uma áurea mágica do imaginário indígena e do caboclo. E nos Rituais indígenas recriam ritos xamanísticos comandados pela figura do Pajé no qual destaca suas habilidades como: feiticeiro, sacerdote, xamã, curandeiro e guardião das tradições dos sagrados cultos e ritos ameríndios, como forma de manutenção da tradição tribal e dos sincretismos destes povos da floresta.
"A incrível facilidade com que o índio ouve, retém e transmite, já inconscientemente modificada, qualquer estória, multiplica o mundo fantástico, alargando as fronteiras móveis da imaginação criadora (...) O caboclo, na sua convivência com as centenas de tribos, assimilou e deu nova roupagem a muitas lendas, principalmente após a chegada dos nordestinos vindos no início do século XX, com a febre da borracha e, desta forma, juntando com as estórias de catequese com tradição religiosa ameraba." (33)
Com este mesmo embalo os artistas e artesãos se aprimoram neste universo vasto dos indígenas para tornarem sonhos em realidades. David, artesão de tribos e tuxauas, perguntado sobre esta transformação lúdica e de alta responsabilidade respondeu:
"Quando a gente trabalha com tribo de composição a gente tem que fazer completo como se fosse mesmo realidade. É uma maneira de fazer o passado pra dentro da arena, porque eles passam pela história da tribo, e ninguém vai fazer nada diferente porque é uma falta de respeito com os índios que tem a sua cultura. E a gente vai e apresenta uma coisa diferente na arena, aí os historiadores e as pessoas que vão fazer o julgamento vão dizer que está errado. E os índios também vão assistir e vão se sentir ofendidos por eu tentar mudar. Na tribo de composição tem que fazer igual mesmo como se fosse a tribo. Já na tribo de efeito, de impacto, de visual a 100 metros de distância que o jurado fica, a gente trabalha em cima das cores, já traz mais ilusão, muita cor, explosão, brilho que se leva para arena. O artificial está presente em tudo. Trabalho com escultura, pena, a gente tenta levar o visual. São dois tipos de tribo: da cênica quase real, e a de impacto (tribo de arena ou coreográfica)."
|
Tribo de arena ou coreográfica do Garantido. |
Leonardo, dançarino, artista de teatro e integrante de uma tribo de composição do Caprichoso, revela detalhes desta participação, no qual tem que transmitir o espírito indígena da floresta, do selvagem:
"...trabalho com arte cênica que é desenvolvido por jogo de corpo, movimentos com a face do rosto na parte de rituais nas alegorias de tribo de composição (...) usa muito expressões do rosto, as garras das mãos, fazer cara de mau, tem que ser tribal, bem índio (...) uma coisa folclórica. E no momento para fazer as apresentações de índios eu tenho que pegar sol, ficar bem moreno (...) E é isso que o pessoal do FFP tenta passar para o povo do mundo inteiro (...) participo da tribo de composição no ritual Cara de Gato dos índios da tribo Mundurucu. Os índios são sacrificados por uma onça muito grande que tenta invadir esta tribo e acabar com os índios. Aí chega os gigantes Mariwi, que são homens de folhas de samambaia e nessa cênica a gente tem que passar o espírito dos índios, nossos lábios estão passando a emoção, o medo (...) A cênica serve para mostrar a realidade que é o FFP. A coreografia vem com a música com aquele passo do índio lá em baixo, UCA UCA mesmo, mostrar para o povo o índio (...) tem que mostrar a cultura do índio através da dança, da raiva, da linguagem, mostrando o lado selvagem." (34)
Um outro aspecto de grande valor do FFP são as fantasias de Tuxauas, que antigamente eram representados de forma pormenorizada, e com o passar do tempo em torno do desenvolvimento das técnicas dos artesãos se tornaram um dos grandes momentos do espetáculo, quando entram dez estruturas ao mesmo tempo evoluindo na arena. Rogério S. Matos, artesão de Tuxauas, relata:
"... hoje, não é só tribo e alegoria. O tuxaua está no centro das atenções dos turistas e visitante que vem a Parintins, e não vê o tuxaua que era aquele cocazinho na cabeça (...) Quando fala em tuxaua, fala em líder da tribo, ele vem para puxar a tribo de arena..."
|
Tuxaua tupi-guarani no galpão das tribos do Garantido. |
Ozéas Bentes demonstra a dimensão da cultura indígena nas criações artísticas e recriações que a tornam sempre inédita no FFP e revela que o universo aborígene é "...uma cultura muito rica que dá condições de refazer aquilo de várias formas, e faz com que se movimente, o trabalho indígena demonstra muita arte."
|