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Contos Indígenas
Daniele Ramalho

O espetáculo Contos Indígenas foi elaborado em 2001 após contato com alguns grupos indígenas brasileiros. As possibilidades de pesquisa que se abriam nesses encontros era muito grande. O aprendizado pessoal também. Era inevitável que eu quisesse posteriormente falar do tema indígena no teatro.

Conhecemos pouco da realidade indígena no Brasil. Num país com 210 etnias e onde apenas um estado não possui estes grupos, infelizmente podemos dizer que a ausência destes povos nas artes cênicas é muito maior que sua presença. Com exceção do trabalho de João das Neves, dramaturgo e diretor que morou com os índios kaxinawa, normalmente temos uma visão bastante idealizada sobre os indígenas em nossa cena onde há imagens distorcidas: a do índio belo com uma vida integrada à natureza e cheia de poesia ou a preconceituosa do indígena incapaz intelectualmente segundo obviamente valores e estéticas ocidentais. Após 500 anos de contato, a herança que muitos destes grupos receberam do homem branco é sinônimo de dificuldade como doenças, escassez de recursos naturais e sangrentas disputas por terra.

Estes contatos traziam então possibilidades cênicas infinitas tanto a partir da reprodução mimética de cantos, danças, mitologia e rituais quanto poder trabalhar com a performance a partir de várias referências – opção escolhida na construção deste trabalho. Buscamos uma teatralidade calcada principalmente na performance do intérprete/ator que também é autor, que também tem algo a dizer.

A base de "Contos Indígenas" é a pesquisa da corporalidade. Segundo Eugênio Barba há um uso social do corpo onde ele foi aculturado e colonizado e o artista deve distanciar-se destes modelos, deseducar-se. Ele propõe o treinamento corporal como uma segunda colonização. Trabalhamos então a partir de imagens sobre a corporalidade de alguns grupos indígenas. Partimos da reprodução de posturas corporais que se tornaram partituras e foram construídas, destruídas e reconstruídas de diversas formas por algum tempo. Recriávamos exaustivamente fotos e cenas por nós coletadas. Passada então a fase de treinamento, havia chegado o momento da criação. Então esquecíamos o trabalho anterior. Não só a qualidade de movimento alcançada, como o retorno de algumas posturas/partituras/energias devido à memória corporal trouxeram como resultado uma presença cênica fortíssima.

Outra característica marcante em "Contos Indígenas" é que toda a cena é construída /desconstruída na frente da platéia. Não há segredos ou grandes efeitos cênicos. O artista vem sem máscaras e revela histórias, situações; sugere reflexões. Artefatos indígenas, pintura corporal, voz e corpo da atriz são os únicos recursos cênicos. As situações /personagens são sugeridos e os mitos tradicionais recontados, construídos na imaginação de cada espectador – que também é autor pois ele receberá o espetáculo com imagens que ele mesmo cria e recria.

Trabalhar com "essas culturas" nos faz repensar profundamente o papel social do artista. Falar de cultura indígena é também falar de identidade e da diversidade como instrumentos de construção de cidadania voltada para o desenvolvimento humano. Comunicação verdadeira e não a mera transgressão é o fator principal para alcançarmos o resultado desejado.

Sabemos que estamos apenas no começo de nossa pesquisa. Há outras questões a serem aprofundadas em performances futuras não apenas sobre diversidade e contemporaneidade destes povos, mas principalmente abordando outros pontos de vista, talvez trabalhando calcados na interculturalidade criando os espetáculos e performances junto com indígenas, trocando informações e trabalhando cada vez mais com temas que os ajude na conquista de seus direitos enquanto cidadãos brasileiros. Queremos também apresentar Contos Indígenas em algumas aldeias, devolvendo aos povos um pouco do que recebemos.

Nos sentimos como habitantes de uma ilha flutuante - que segundo Eugênio Barba - é um terreno incerto, que pode desaparecer sob nossos pés. E que não sabemos para onde e a quem nos levará. Certamente é isto o que nos interessa.

Daniele Ramalho
danieleramalho@hotmail.com


Daniele Ramalho é atriz, produtora e criadora do Núcleo de Pesquisa Popular
Com André Masseno. Contos Indígenas, trabalho produzido pelo grupo vem sendo apresentado desde 2001 e em 2005 fará nova temporada emalgumas cidades brasileiras. Ele também integrará a programação oficial do ano do Brasil na França sendo apresentado em maio no Jemmapes, em Paris.

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