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O que deve ser um corpo da era da cirurgia plástica?
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[Page 2: O que deve ser um corpo na era da cirurgia plástica?
Descrição de uma performance por Helena Vieira]

 

A performance e o suporte acadêmico

  "Mulher enforcada," performance À Simone da Bela Visão.
Foto de Raquel Dias.

A performance El Segundo Sexo continha uma profunda vontade de ser compreendida, de mostrar indignação e de refletir questões do momento. A diferença entre essa forma de trabalhar a performance e a de trabalhá-la com suporte acadêmico é a mesma entre a linguagem falada e a escrita. Enquanto a primeira é prolixa, a segunda consegue resumir uma idéia com poucas palavras. Essa é a diferença básica, visível no trabalho prático que, de tantas recortes e resumos de idéias, passou a se chamar À (para) Simone da bela visão. Nesta versão o corpo é o centro da discussão, ele está a frente do discurso, não há aqui mais nenhuma certeza ideológica.  Há um corpo que procura se relacionar com o tempo, com o espaço e com as inúmeras sensações que lhe atravessam no momento, sejam sensações produzidas pelo movimento, sejam produzidas pelo olhar do espectador. Em dado momento, ele também se relaciona com o histórico; são construídos alguns ícones: uma mulher de rosto coberto, sem identidade e depois a coloca numa forca, uma menção às histórias de opressão que marcam a ascendência de todos nós.

Na primeira fase, diríamos germinal – antes da Academia - a performance mantinha um tom e uma estética de obra confessional. O universo pessoal era onipresente com textos referentes à situações vividas apenas por mim, ainda que representando o universo feminino das mulheres da minha geração. Já a segunda fase do trabalho, apesar de manter o mesmo eixo temático, consegue ser mais ficcional, a partir de idéias que o corpo expressa, e não mais tão sustentado pelas palavras, possibilitando, portanto, que o espectador faça suas próprias associações e, assim, o trabalho sai do “puramente” privado para o “conjuntamente” público.

Se a Universidade é um local de experimentações, de laboratórios, para as áreas científicas, com destino e objetivo de prestar serviço à comunidade, em última instância por quê então, não seria isso para as artes? A idéia com este trabalho é justamente o de fazer da nossa prática não apenas um estudo científico/artístico, mas uma prática que tenha a tarefa de tornar público o que aparentemente é privado.

Os assuntos tratados tinham uma estética na qual o humor e o discurso verbal se tornavam eloqüentes, e, com isto, direcionavam o trabalho para um discurso quase que único, que continha mensagem, ainda que a intenção fosse a de demonstrar que -- salvo raríssimas exceções -- os assuntos individuais são coletivos, porém a forma escolhida para demonstrar isso não estava indo ao encontro de tal idéia.

À ( para ) Simone da Bela visão foi inteiramente construída com base nos estudos teóricos do curso de mestrado. Em primeiro lugar, a primeira idéia que se desmorona é a idéia simplista a respeito dos Estados Unidos, uma vez que é neste país que se encontram os maiores avanços de movimentos sociais, em particular, o movimento das vanguardas artísticas dos anos 60 e o movimento feminista, assuntos que se tornaram caros a esta pesquisa, pois nos permitiu um recorte sobre nossa ampla idéia de política. Se o alcance político do trabalho intelectual é limitado, imagina-se, então, um trabalho que se pretende ter um alcance político sem nenhum suporte intelectual?

El Segundo Sexo continha duas referências: Simone de Beauvoir e o espanhol, a língua da maioria no continente latino-americano. Um ano de estudos fez com que a linguagem da primeira versão do trabalho, cheia de falas, humor e indignação, cedesse lugar a mais aprofundamento;  saíram as falas, o humor e comecei a me preocupar mais com o desvelar do processo artístico, isto é, em procurar compreender em que momento o artista deixa de ser um indivíduo e começa a se entrelaçar com as identidades coletivas de seu entorno.

O nu e o tempo

O Nu e o tempo são elementos presentes nesta nova fase da performance. As fotos acima tinham sido criadas para ser os resíduos do trabalho. A importância das fotografias no trabalho era, ao final, expor o material queinspirou Revolta presentes na performance. No entanto fui, aos poucos, colocando-as na cena e, por fim,  o que era um resíduo tornou-se parte da cena. O objetivo é mostrar os efeitos da ditadura da moda em nosso corpo assim como é visto hoje como, por exemplo, a moda dos silicones, já citada anteriormente, definitivamentemudou o paradigma de beleza no país. Apresento um corpo que quase se submeteu a uma interferência cirúrgica para se tornar padrão da nova estética, e hoje estou interessada em mostrar como esse mesmo  corpo se modifica  a partir de substâncias naturais provocadas pela  fisicalidade,  pelamovimentação ( que é sempre um improviso)  durante a apresentação, e pela  carga emocional do momento tais como ansiedade e  nervosismo.

Com isto, o manifesto, que era representado pela fotografia, passou a ser apresentado pelo corpo ao vivo. O tempo sim, este ainda tem um objeto para representá-lo em cena,  o timer,  e  marca para mim um limite para o momento da improvisação. Em primeiro lugar, este instrumento cumpre a função do diretor -- talvez de um diretor lacaniano -- daquele que diz : “Tempo! Fiquemos por aqui. Isso já está suficiente”. Ou seja, para que eu não me perca na imensa liberdade de um ensaio solitário, eu o obedeço.

Conclusão

O interessante no trabalho da performance está no ato de desvelar. Comecei com uma revolta e atirava para todas as frentes a fim de dar forma a ela. Em primeiro lugar, porque acreditava assim encontrar as identidades continental e geracional. A tentativa de encontrar a primeira tornou-se impossível tal o grau -- como é bem descrito por Hall -- de deslocamentos geográficos e culturais em nosso continente: dizer o que é autenticamente brasileiro seria possível?  A segunda identidade mostrou-se mais forte; trata-se de uma angustiante procura de encontrar no estudo de gênero respostas para tantas mudanças que observamos na formação das identidades sexuais no mundo ocidental de hoje que já não estão mais restritas a estudos especiais sobre a minoria. Constatei isso quando, no Encontro de Belo Horizonte, me vi diante das perguntas sobre visibilidade ou invisibilidade de gênero; sobre as fissuras e também limites de tratar a questão de gênero; quando e como se dá a representação da feminilidade ou masculinidade, ou seja, a questão não é mais desejo de uma inserção social, e, sim, para aonde caminharemos após essa conquista.

Assim como meu discurso mudara, necessitava de uma linguagem que também fosse passível de modificação e, diferente da linguagem cênica de espetáculo, a linguagem de performance me daria a liberdade procurada. Quando saíram as marcas e convenções da primeira versão e fiquei só em um palco nu, pude colocar meu corpo mais atento  às emoções momentâneas  da cena e resolvi denominar como “substância” tudo aquilo  que está dentro de mim provocando  tensão e/ou prazer.  

As imagens de representação feminina que começaram a aparecer na versão silenciosa do trabalho são ícones universais, e não regionais. É a mulher sem identidade própria que cobre o rosto, a mulher sem voz  das  culturas sob  forte dominação religiosa mesmo quando o mundo já conhecera as sufragistas do século XVIII.  A minha imagem durante o trabalho ora é andrógena -- quando estou vestida -- e ora é feminina quando assumo para a platéia os seios que não passaram por uma inclusão de prótese ou quando meu corpo aparece como  uma louca, a Maria Louca.

Concluo, finalmente, dizendo que para fazer do próprio corpo um meio de reflexão foi necessário entrelaçar questões sobre as várias representações de gênero que já carregamos naturalmente com a vontade de ir além das mesmas. Foi na linguagem da performance que encontrei essa possibilidade, foi observando outras situações de performance não cênicas, tais como partida de futebol e luta de boxe, por exemplo, que pude entender o jogo cênico que faltava em mim na primeira fase e que aos poucos trazia para a nova versão. Como funcionar sob forte pressão emocional e fazer uso das possibilidades físicas para alcançar o objetivo final, no meu caso, comunicar-me com o público?

Com relação ao movimento feminista, creio que minha contribuição será tratar o corpo como um suporte para uma questão que ainda é, de certa maneira, pouco investigada, a sexualidade.

Referências bibliográficas:

Camus, Albert. O Homem Revoltado. Record.Rio de Janeiro/ São Paulo. 1999.

Cohen, Renato. Work in progress na cena contemporânea. Perspectiva. São Paulo. 1998.

Costantino, Roselyn e Taylor, Diana. Holy Terrors: Latin American women perform. Durham: Duke University Press, 2003.

Deleuze, Gilles. Palestra. In: Caderno Mais, Folha de São Paulo, 27/06/1999

Hall, Stuart. Da Diáspora, Identidades e Mediações Culturais. Org. Liv Sovik Editora UFMG, Belo Horizonte, 2003.

Stoklos, Denise. Teatro Essencial. Denise Stoklos Produções, 1993. São Paulo

Toscano, Moema e Goldenberg, Mirian. A Revolução das mulheres/ Um balanço do Feminismo no Brasil. Rio de Janeiro. Revan. 1992.

Creditos das fotos

Revolta e Criação, Henrique Pereira


# Atriz-bailarina e mestranda de teatro da UNIRIO.

 

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