6 Primavera 2002

 

NEWS _ LETTER

Instituto Hemisférico
de Performance e Política das Américas

Edição: Marsha Gall- Desenho: Tisi & Gall

Lula por Jeferson Bernardes

 

Lula com Fidel Castro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

o

Lennon lulista?

 

 

O poder e a esquerda no poder: Eleições Brasileiras 2002
Pablo Assumpção

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Eu participei das comemorações da eleição de Luís Inácio Lula da Silva, em 27 de outubro de 2002. Em São Paulo, na Paulista, principal avenida do país, milhares de eleitores confraternizaram-se celebrando a democracia, a mudança e a esperança. Lula apareceu depois da meia-noite e fez um longo e emocionado discurso. Com sorte, eu chegara ao Brasil – depois de 15 meses em Nova York – neste dia histórico. A festa de Lula, que foi a festa do Brasil, me fez pensar sobre o presente e o futuro do nosso país.

Lula é nordestino de Pernambuco, nunca freqüentou uma universidade como estudante e tem passado marcado por lutas e greves trabalhistas. Ganhou projeção política como líder sindical ao comandar a greve dos metalúrgicos do ABC Paulista a partir de 1978. Em 1980, fundou o PT, o Partido dos Trabalhadores. A vitória deste homem sobre José Serra, candidato oficial do governo, economista de respeito e ex-ministro da Fazenda e da Saúde, é emblema de um duplo significado democrático. Primeiro, é a quarta vez, desde o fim do regime militar, que os brasileiros elegem seu presidente de forma livre e direta. O resultado aponta para uma prova de que nossa democracia comporta real alternância no poder do Estado. Segundo, por suas origens e seu passado sindical e popular, Lula representa mais do que uma renovação nos círculos dirigentes. Ele personifica expectativas seculares, já reconhecidas, mas sempre adiadas, de redução da desigualdade social e democratização das oportunidades. É quem representa, por meio de sua própria história e imagem, amplas parcelas reprimidas e judiadas pelos benefícios do progresso.

Em um Brasil-robordosa, depois de seguidos anos de um governo abertamente neoliberal, Lula se apresenta como esperança, não apenas para os brasileiros, mas para toda a América Latina. Esperança de que as coisas vão mudar, esperança de que a política econômica imposta ao continente vai começar a ser combatida. A eleição, vencida com 52,793,364 votos (61,27% dos votos válidos) aponta para o fato, que aliás escuto debatido nos círculos de conversa popular nas ruas de São Paulo, de que o Poder vai mudar de mãos.
Gostaria de, aqui, poder averigüar a possibilidade de tal afirmativa.

Concentração de Riquezas
Grande parte do “temor” causado por um eventual governo do PT no Brasil residia na possibilidade de total quebra do sistema financeiro, largamente propagado por economistas norte-americanos, caso o radicalismo inspirado por algumas facções do PT dominasse o governo Lula. Para acalmar a população, Lula deixou claro que pretende honrar os contratos com o sistema financeiro e tratou de criar e propagar um programa econômico para seu governo.
Estas promessas resultaram de uma articulação política entre Lula e facções da elite econômica do Brasil bastante criticada por intelectuais “de esquerda”. Num artigo para a revista Caros Amigos, César Benjamin chega a sugerir que tal articulação política pode fazer fracassar a administração de Lula.

O argumento principal de Benjamin é que a oposição precisaria de um programa de refundação da nação, que retire os instrumentos de poder da nossa burguesia de negócios – cada vez mais rentista e internacionalizada – e os transfira aos grupos sociais que vivem no mundo do trabalho e da cultura. E não fazer acordos com essa burguesia, que apenas asseguraria seu Poder, e consequentemente sua riqueza.

O assunto é delicado, e merece atenção. Quando analisamos as razões pelas quais o Brasil, país de recursos naturais abundantes e capacidade técnica e produtiva suficiente, tem os índices de pobreza que tem, percebemos que o problema é a distribuição de riquezas. No início dos anos 90, éramos a oitava e, atualmente, somos a décima segunda maior economia do mundo. Temos uma renda per capita altíssima, uma das maiores do “terceiro mundo”. Mas, no que concerne aos indicadores de pobreza, como se sabe, estamos atrás de países muito mais frágeis política e economicamente. Carregamos o indicador de ter a maior discrepância social do planeta. A concentração da riqueza – ou seja, do estoque de bens, na forma de imóveis, fábricas, terras, etc. – está figurada no topo da escala social, restrita aos menos de 5% da população do país.

De acordo com Benjamin, mudar esse quadro de discrepância social teria de ser a meta principal do governo Lula. A questão é se ater ao fato de que as alianças do PT durante a campanha são documentos que asseguram o poder da elite econômica, donde a assustadora contradição. Tal argumento parece lógico e merece atenção, mas pode ser repensado.

Alterar o sistema de poder
Se para fazer a diferença, o que o governo precisa é de uma alteração no sistema de poder, e não de medidas na macroeconomia, o que significaria, de fato, essa “alteração”?
Detêm o poder aqueles grupos que controlam recursos e instituições decisivas na organização da vida social, fazendo com que a sociedade funcione de forma subordinada aos seus interesses. O mesmo Benjamin aponta as quatro principais instâncias de Poder no Brasil: a propriedade da terra, principal recurso natural do país; o controle do sistema financeiro, que determina a alocação dos recursos líquidos disponíveis; o comando dos meios eletrônicos de comunicação, que, em uma sociedade de massas, são a base de formação de opiniões e valores; e o acesso à educação e à cultura, elementos impulsionadores da cidadania.

Se a mesma elite mantiver o controle da terra, da riqueza, da informação e da cultura, preservando a capacidade de organizar e comandar a vida social, o quadro de pobreza no Brasil não será alterado. Alterar o sistema de poder, então, seria transferir o controle desses recursos e instituições a outros grupos sociais.
O que Benjamin não deixa claro é quem são os “outros” grupos sociais. Num país com a diversidade do Brasil, que grupo social pode representar a nossa população? E mais, quais são os critérios de escolha dessa ‘nova elite’? Deveríamos criar um plebiscito? “Quem você acha que deve receber o direito de organizar e comandar a vida social brasileira?”. “Quem merece ter o poder de mídia?” Me parece uma idéia maravilhosa, mas na urna eletrônica teríamos de ver estampados os cento e cinqüenta milhões de nomes dos brasileiros que fazem essa nação.

Não é minha intenção vulgarizar o excelente argumento de Benjamin, mas sim apontar o fato de que todo sistema de representação é fatalmente falho. Seria maravilhoso democratizar o Poder em todas as suas instâncias, mas para isso precisamos de um sistema organizado de representação. Hoje em dia, quem pode representar quem? Quem pode falar por mim? E por você?
Enquanto Benjamin propõe transferir o poder (propriedade rural, indústria e meios de comunicação) das mãos de uma elite de direita para outra de esquerda, eu percebo que a mudança mais radical – que é uma reformulação no sistema de poder em si, sua ontologia e sua atuação política – não me parece estar sendo considerada.

A elite burguesa que hoje criticamos foi responsável por uma revolução histórica que colocou a aristocracia em cheque. Hoje ela se torna essa aristocracia. Dislocá-la para que outra facção ideológica assuma seu poder me parece repetição da História. Acredito ser no “poder” em si que se originam todos os males sociais.
Como resposta direta às críticas dos intelectuais sobre os “acordos” de Lula, eu poderia argumentar que um presidente da República é um mero chefe de Estado – de certa forma, o ofício de presidente da República é uma performance com contratos sociais muito bem designados. Lula não tem tantas opções sobre com quem fazer acordos. E a verdade é que o problema da pobreza não é culpa da burguesia, mas do sistema de representação e de poder criados pela lógica do pensamento ocidental.

E, então, como fazer? Que outra maneira de organizar a vida política senão através da distribuição de poder? Como administrar sociedades senão através de representantes?
Esse deveria ser, na minha opinião, o debate constante de cientistas políticos e intelectuais que se consideram “de oposição”. Um dia, quem sabe, descobriremos uma saída.

 

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