Poema-luta, poema-reza. Expropriação da palavra e e re-nomeação do mundo.
Alesandra Vannucci
O babalaô acompanha suas palavras com o toque do tambor, esculpindo sua ‘escrita’ no espaço num embate que revela o ritmo das coisas escondidas. Como os búfalos vão beber na fonte, assim o guerreiro africano reconhece em seu passado mítico sua memória histórica, bebe sua identidade na fonte de suas lendas. O poeta de hoje, num quarto de hotel ou de hospício, luta com a tensão do ventre do griot que narra seu poema em frente ao Rei. Ele procura deixar-se possuir pela negritude originária, instalar em sua dança poética o ritmo de seus antepassados, despertar os instintos imemoriais pelo som das palavras. A escrita para ele é remédio à proibição da oralidade: o papel substitui os instrumentos espoliados (tantã, balafon, kora, incenso). A máxima expropriação é a perda da palavra: o povo oprimido não sabe mais nomear as coisas, para falar de si depende da língua do opressor. O poeta tem poder de re-nomeiar as coisas. Ele recria o mundo. Sua palavra é a arma miraculosa que o oprimido consegue roubar do opressor. Sua ação (poiesis) é uma descida aos abismos da alma negra, para beber à fonte (benguelê). O poeta negro é Orfeu. Sua Euridice é Nolivé, a negritude ausente, ídolo mudo, totem.
Léopold S. Senghor, mestre da literatura francófona
senegales, em seu poema dramático Chaká
canta a mitologia heróica de Ogum (orixá que lida com as contradições,
guerreiro defensor e dominador dos homens, artista que cria e destroi) através
da celebração do Rei zulu Chaká (do povo banto da
região de Natal, atual Highweld, na África do Sul, no fim do século
XIX), poderoso ditador e símbolo da nação afro revoltada,
que paga com sangue o preço da reapropriação de seu destino.
Senghor celebra a beleza negra de Chaká na palavra branca em que se expressam
os povos africanos exilados: branca é a língua dos opressores,
mas também é a terra do encontro, a cor destinada aos hospedes
de honra: estrangeiros, espíritos ancestrais, mensageiros divinos. Negro
é o estado original a ser reencontrado, liberdade em quanto libertação
da brancura, destruição da imposição, ultrapassagem
das palavras escritas e ressurreição do canto ritmado pelo tantã.
Africanizar o francês (o português). Reencontrar o pensamento selvagem
(ancestral, simbólico) dentro da língua analítica, civilizada.
Assimilar/desentender a modernidade pela re-significação da performance
primitiva: antropofagia.