E eu não sou travesti também?

DENILSON LOPES

Houve um momento, na Segunda metade dos anos 90, em que o travesti atingiu um momento de visibilidade, privilegiado na cultura pop. Saídos dos guetos e do underground, os travestis, através de sua versão drag queen, é incorporado na cultura clubber em constante processo de expansão, chega a passarelas da moda do mundo inteiro,a MTV e Hollywood, sem falar na sua presença em programas de auditório, talk shows e em especiais jornalísticos, mais ou menos sérios, criando personalidades midiáticas . Também não se deve esquecer que talvez por ser o lado mais visível de uma subcultura gay, embora a rigor a ela não se restrinja, foi através do travesti que muito da problemática da homossexualidade adentrou nas ciências sociais, especialmente, na antropologia. Agora que a moda drag queen parece refluir e se estabilizar quase num lugar comum, deixando o mosiamo de lado, seja o caso de repensar o travesti não como um grupo social a ser estudado e observado, nem como metáfora das possibilidades transitivas da sexualidade contemporânea, alçado a esta posição pelos estudos gays e lésbicos norte-americanos, muito em função da polêmica que se estabeleceu a partir do lançamento do filme " paris is Burning" , de Jennie Livingston. O travesti não é uma simples construção intelectual, que coloca o artifício como uma categoria central desta sociedade de imagens, em que identidades performativas são constituídas, bem antes das atuais discussões sobre corpo e tecnologia. Não se trata aqui de falar de um outro, estigmatizado e/ou espetacularizado, mas do travestimento, como algo que atravessa nossos desejos e emoções, nossas incertezas e nosso lugar no mundo. Sendo assim, é aqui um travesti que fala, neste misto de auto-etnografia e testemunho, construído por textos e imagens.