Rodrigo Guéron*
Na nossa exposição veremos as origens da noção, da posição e da performance do intelectual – o que "sabe", o que tem a resposta "científica", no Brasil. Começaremos com um breve levantamento histórico que irá até um dos primeiros, se não o primeiro, grande momento de discussões e de destaque para os intelectuais e literatos em nosso país, qual seja, os anos que imediatamente precedem e se sucedem à Abolição da Escravatura e a Proclamação da República. Qual a atitude dos intelectuais, de forte influência positivista, ao se mostrarem como representantes do que seria a "última palavra", o mais "evoluído" nas metrópoles européias? De que maneira eles eram vistos pela sociedade? Como teria acontecido, neste contexto, um pensamento e uma atitude crítica?
Daremos aqui um salto histórico e iremos até as mudanças da imagem do intelectual a partir de meados dos anos 50, da sedimentação de uma presença importante de uma pequena burguesia urbana e de uma classe média "letrada" e as primeiras transformações a partir do desenvolvimento do fenômeno da mídia. Qual a relação deste intelectual com a chamada "cultura popular" ? Que nova imagem, atitude e pensamento intelectual surgem aí? Como esse fenômeno explode na mídia e no senso comum? Chegaremos então ao intelectual dos anos 60: ao intelectual militante e os atores e compositores populares vistos como intelectuais e convocando passeatas. Em seguida veremos os desdobramentos deste fenômeno nos anos 70 quando surge a denominação crítica e irônica de "pseuso-intelectual", mas também cada vez mais os intelectuais e artistas que assumem uma atitude estratégica para lidar com a mídia. Por outro lado, neste momento não poderemos deixar de falar da figura dos tecnocratas do Regime Militar. Com estes tecnocratas teremos de novo a figura dos que "têm o saber", os "técnicos" que lembram o discurso e a atitude positivista do final do século XIX. Finalmente, com a abertura política um novo fenômeno vai se delineando no país, qual seja, a da criação, nos grandes órgãos de comunicação de massa, de uma figura que satisfaça aquela classe média que chamamos acima de "letrada" e que, até então, tinha (ou fingia ter?) um certo desprezo por estes veículos. Defenderemos a hipótese destes serem uma reincorporação do velho discurso positivista, e tecnocrático, dos que "têm o saber" travestido de toda uma performática estratégia de comunicação de massa paradoxalmente voltada para aquela que se reivindica a "elite culta" do país. Quem são, como são e como se apresentam estas figuras? Por que achamos que elas merecem a irônica e crítica classificação de "pseudo-intelectual" feita nos anos 70? E quem são os "intelectuais" da mídia de fato? Como se dá uma estratégia e uma atitude honestamente intelectual para lidar com os meios de comunicação de massa? Falaremos, portanto, de intelectuais que assumiram estratégias para lidar com a mídia e como a mídia respondeu a este fenômeno criando os seus próprios intelectuais e/ou pseudo-intelectuais. Finalmente faremos alguns breves exames de casos particulares.
Rodrigo Guéron: Doutorando em Filosofia da UERJ, Mestre e Graduado em Filosofia pela UFRJ ( Dissertação de Mestrado: Nietzsche e a História), Professor Assistente da Universidade Santa Úrsula, Professor Assistente da Universidade Candido Mendes, Professor Substituto da UERJ, Diretor e roteirista de cinema e vídeo. Últimos artigos: "O Samba e o Modernismo" revista UAPÊ; "A Naturalização do Matar ou Morrer": revista do CEAF.