O POVO DE RUA

I -    Os escravos, a base da economia urbana

Durante praticamente todo o  século XIX, a propriedade escrava foi comandada para a  produção  e venda de bens de consumo organizada em trabalho coletivo, a partir de um comando de produção.(1)  Nos centros urbanos, as casas eram uma espécie de unidade de produção e consumo, onde grande parte dos objetos pessoais e de  uso doméstico eram fabricados na própria residência. A produção doméstica era parte para  consumo interno e o excedente  para ser vendido nas ruas, pelos próprios escravos das casas.

O comando destas  atividades ficava a cargo  da mulher, a dona da casa. Era ela quem mantinha sob controle a limpeza da casa, a preparação dos alimentos, o comando das escravas, além de dirigir a indústria caseira, amas de meninos, carregadores, ganhadores, rendeiras, costureiras, lavadeiras, passadeiras ou de pintores, pedreiros e barbeiros onde, via de regra,...“As mulheres gerenciavam essa pequena empresa sem concurso algum do marido”(COSTA apud BAPTISTA, 1983,82). (2) De uma grande variedade, as mercadorias dos tabuleiros das escravas ou escravosquitutes, bebidas, tecidos e toalhas bordadas – eram quase sempre orientadas pelas senhoras donas da casa.

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Os escravos além de atuar no comércio ambulante e nas vendas  alegrando a cidade com seus gritos, seguidos de crianças que iam correndo pelas ruas atrás das mães, também transportavam pessoas em pequenas cadeiras, prostituíam-se ou pediam esmolas, além de executarem as tarefas domésticas cotidianas.

Os donos de escravos consideravam seus cativos animais de carga, máquinas e criados domésticos e de “ganho”(3).  Os escravos  cuidavam de todas as suas necessidades e realizavam toda sorte de trabalho mecânico para eles.  As formas de utilização da mão de obra escrava, bem como a forma de divisão dos lucros podiam variar de casa para casa:

...“certos escravos, pelo fato de ocuparem funções essenciais na dinâmica econômica da cidade, alcançaram relativa independência material, graças a um trabalho exercido longe dos senhores durante boa parte do dia e, às vezes, durante a noite.   Estes, sendo obrigados a entregar aos proprietários o total, ou uma porção, dos seus ganhos, constituem, certamente, um bom investimento”(Mattoso, 1997).

Ou seja, ao final do dia ou período de dias definido  pelo seu dono, o escravo deveria prestar contas, entregando parte ou o total das vendas efetuadas ou do serviço prestado, sob pena de punição.  A vida cotidiana do escravo era organizada e controlada por seu dono, embora fosse o agente do trabalho.

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transporte de carne de gado, de Jean Baptiste Debret, 1993, Belo Horizonte, Vila Rica Editora Reunidas, p.49

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Embora os escravos quase sempre fossem impedidos de compartilhar da riqueza que geravam, o fato de poderem circular num ambiente urbano, a cidade do Rio de Janeiro, oferecia algumas possibilidades de ganho. Escravos habilidosos, dependendo de acordo prévio feito com seu dono, poderiam ter parte do seu lucro assegurado.   Alguns teriam até permissão de ter terras para desenvolver o seu plantio onde utilizavam esses quintais para plantar frutas e verduras e criar pequenos animais.  Estes escravos, uma exceção, poderiam criar desta forma  sua própria fonte de renda.

Os poucos que conseguiam prosperar poderiam comprar a sua própria liberdade e até investir seu dinheiro comprando escravos para servi-los, além de fazer diferenciados negócios envolvendo terras, alimentos ou jóias de ouro e prata, “Os mais ricos, por sua vez, facilitavam a entrada de outros escravos no negócio de vendas no Rio ou mascataria no interior”. (GRAHAM, 1988, 284).

De uma forma geral, o sistema econômico do “escravo de ganho” começava fora do centro urbano no campo ou nos subúrbios. Os donos mandavam trabalhar em hortas para produzir frutas , legumes e verduras  para vender na cidade.  

Antes do dia clarear,  filas de escravos, partiam de sítios e fazendas das vizinhanças do Rio com carregamentos na cabeça. De acordo com Debret, o tiro de canhão que anunciava a abertura dos portos começava o dia às cinco e meia da manhã na cidade.

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Vendedores de capim e leite, Jean Baptiste Debret. In. O Brasil de Debret, 1993, Belo Horizonte, p. 43, Rio de Janeiro

Ao chegar na cidade, vendiam os produtos ou negociavam com outros vendedores que tinham pequenas bancas  no mercado.   Normalmente este trabalho durava todo o dia e eles faziam apenas duas rápidas paradas, uma para o almoço e outra para a janta.  

Carregando em grandes cestas trançadas, tabuleiros de madeira ou caixas sobre as cabeças, escravos de ambos os sexos vendiam de tudo; “artigos de vestuário, romances e livros, panelas e bules, utensílios de cozinha, cestas e esteiras, velas, poções de amor,

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estatuetas de santos, ervas e flores, pássaros e outros animais, escravos e jóias” (GRAHAM, 1988, 141 ).   

As vendas eram feitas em tempo integral ou parcial, dependendo das necessidades do seu dono.  Ao anoitecer, os ambulantes poderiam trabalhar ainda em casa, caso houvesse necessidade.   Finalizando o dia de trabalho, se tivessem direito a parte do lucro, utilizavam seus ganhos para a compra de mais comida ou roupas, de objetos de ritual religioso, alguns importados da África ou talvez juntassem economias para comprar a  sua própria liberdade.

Esta jornada de trabalho repetia-se de seis a sete dias por semana sendo respeitados, por poucos donos de escravos, os domingos e feriados de direito oficial.

As ruas ficavam apinhadas de escravos que tentavam de todas as formas possíveis vender seus produtos.   Graham define bem esta situação  ...“Esse padrão cresceu evidentemente ao longo da primeira metade do século  XIX, a ponto de os estrangeiros se queixarem do grande número de vendedores de rua ansiosos que os cercavam tentando vender seus produtos, pois se não conseguissem ganhar a quantia estipulada por seus donos para aquele dia seriam espancados”(GRAHAM, 1988, 140  ).

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                    Detalhe da aquarela de Carlos Julião (Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro).

As atividades dos chamados “escravos de ganho” eram exercidas geralmente por negros ou, em menor incidência, por  índios.   Existem relatos de índios  botocudos usados em 1846 no Rio de Janeiro – transformados em  escravos, bem como de meninos botocudos  que foram enviados ao Rio, comprados dos  pais ou como direito de conquista de guerra.

Neste sistema de comércio havia divisão de tipo de serviço por especialização.   Por exemplo, um tipo seleto de  escravo doméstico era selecionado para exercer a função de escravo  comprador; um escravo de muita confiança, que era mandado com dinheiro aos mercados para comprar nas vendas ou com os escravos de ganho, com o direito de administrar este dinheiro da melhor forma possível.  

“Os escravos de ganho facilitavam a obtenção de dinheiro por outros escravos mandados às compras diárias.   Ao comprar alimentos de outros escravos mais barato do que nos locais licenciados, eles conseguiam uns trocados para seu próprio uso.   Compravam então mais comida de outros escravos que mantinham restaurantes ao ar livre ou vendiam nas ruas.   Obtinham aguardente desses mesmos escravos ou dos que destilavam sua própria bebida.   Se não compravam, faziam escambo com artigos que os escravos urbanos fabricavam em seu tempo livre, como cestas, esteiras, chapéus, potes de cerâmica, vestidos, estatuetas religiosas, instrumentos musicais e cachimbos”( GRAHAM, 1988,  138).

Outro tipo de trabalho bastante valorizado era o das escravas que faziam e lavavam roupas e as que faziam rendas.  As roupas eram lavadas em pelo menos três diferentes áreas da cidade.   No Largo da Carioca, o grande tanque de lavar ao pé do aqueduto; a mais central, o Campo de Santana onde existem registros de em  média duzentos homens e mulheres que esfregavam roupas, segundo Graham “em grandes tigelas de madeira, sentados em cima de barris de água” e no vale das Laranjeiras.  As roupas eram lavadas, batidas nos muros  e estendidas no gramado para secar. Os escravos lavadores de roupa exerciam tal função para o seu próprio dono ou para terceiros, em troca de pagamento.

Existiam algumas diferenciações de trabalho, segundo o sexo, ou melhor a força do braço.  As mulheres ocupavam-se mais com o negócio de produtos agrícolas e a fabricação doméstica e  os escravos homens negociavam mais produtos animais.

Os escravos homens  levavam caixas de legumes ou cestas de frangos sobre a cabeça,  conduziam pequenos animais das áreas rurais, alguns para serem vendidos por conta própria, mas a maioria para ser entregue a matadouros e açougues.  

“Havia ainda os vendedores de ervas, os feiticeiros, as rezadeiras, os tata inkisses, os conhecedores dos mistérios das folhas e dos deuses... os negros conhecedores dos mistérios de Katendê e Ossanhê” (Baptista, 1999, 70).

De todos, o tipo de serviço  menos valorizado era feito pelos escravos chamados de tigres, depois das dez horas da noite e consistia em levar em pesados baldes os dejetos das famílias para serem despejados na praia mais próxima.  Este serviço era geralmente praticado por escravos doentes, velhos ou como forma de castigo.   Não se sabe ao certo a origem deste nome, algumas fontes afirmam serem originados pelos respingos dos dejetos no corpo.

Era raro um escravo exercer apenas uma atividade_ o número de serviços que um escravo realizava no dia a dia era diretamente proporcional à  riqueza e à posição social do dono.   O mais comum era que exercessem vários tipos de trabalhos ao mesmo tempo.  Um escravo barbeiro que é também músico ou de um pedreiro que pode ser enviado para cortar cana.

É difícil, portanto, definir fronteiras para os diversos grupos sociais dessa sociedade escravista do século XIX.   Tanto entre os libertos quanto entre os escravos, existem os que são favorecidos e os miseráveis, os escravos naturalmente, dependiam da condição financeira do seu dono.

O que se pode observar é o estabelecimento de uma relação de  dependência entre os elos nesta cadeia de trabalho, onde escravos vendiam os produtos e mantinham, com o fruto do seu trabalho, mulheres ou famílias inteiras, que embora dependessem do trabalho dos seus escravos, administravam toda a produção. Ou seja, “os escravos  não exerciam qualquer papel d/e decisão sobre a economia.  Sua função econômica básica, era proporcionar a mão de obra para o sistema econômico desenvolvido por seus donos e os negociantes internacionais”(GRAHAM,1988,310). Estreitavam-se, nos dois sentidos, a dependência entre um bom escravo ganhador e sua senhora

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Os escravos tinham suas áreas de atuação definidas e baseadas na agricultura de subsistência, fabricação  e comércio, ficando restritos aos setores de baixo status da economia.  Viviam em uma sociedade que restringia com  fronteiras e punições os seus movimentos.   Fortes, prisões e pelourinhos lembravam-nos, a toda hora,  o poder do seu senhor. Uma sociedade  hierarquizada que os mandava para as ruas, onde poderiam usufruir um aparente  ar de liberdade, de se estar na rua para comprar, vender, prostituir-se, roubar ou mendigar mas que deixava bem claro até onde ia esta liberdade.(4)

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(1) – Introduzida de início na lavoura açucareira no litoral nordestino em meados do século XVI, a escravidão negra espalhou-se por toda a Colônia, interferindo diretamente no modo de viver, de produzir e nas relações pessoais dos indivíduos e de toda a sociedade.   Resultou daí um preconceito próprio das sociedades escravistas, em relação ao trabalho manual, que se impôs lentamente conforme aumentou o número de escravos africanos. (ALGRANTI, 1997, 143)

(2)     Dois elementos marcaram profundamente as atividades dos colonos no interior dos domicílios e a sua rotina cotidiana: a escravidão e a falta de produtos, que estimulou a produção doméstica.   A necessidade de mão de obra levou os primeiros colonizadores à busca incessante de soluções que pudessem sanar o problema.   Num primeiro momento, são os próprios gentios que farão os serviços da casa, ensinando os colonos nos trópicos  a aproveitar os recursos existentes para suprir suas necessidades básicas.   Conforme a colonização avançava e as técnicas de transformação dos produtos iam sendo assimiladas e adaptadas, eles seriam substituídos rapidamente pelos escravos africanos, que passavam a predominar como força de trabalho tanto no campo como na cidade, constituindo o elemento fundamental da vida econômica e social da colônia. (ALGRANTI, 1997, 142).

(3)     No início do período, o padrão era o imigrante português vender de porta em porta.   Enquanto ele fazia as transações, seu escravo servia apenas de carregador.  Essa prática continuou para pratarias e sedas finas, mas para quase todo o resto, os escravos assumiram a profissão de vendedores ambulantes na primeira metade do século XIX.   Os senhores passaram a preferir comprar e treinar novos africanos na arte de vender, em vez de servirem simplesmente de carregadores.   Quando os brancos voltaram ao negócio da venda ambulante, o termo “negro de ganho” já estava tão associado à ocupação que imigrantes espanhóis e italianos solicitaram licenças de “negro de ganho” (GRAHAM, 1988).

(4)            Um escravo de ganho – dono de um pecúlio tirado da renda obtida para seu senhor no serviço de terceiros – podia ter seus meios para vestir calças bem postas, paletó de veludo, portar relógio de algibeira, anel com pedra, chapéu coco e até fumar charuto em vez de cachimbo.   Mas tinha de andar descalço.   Nem com tamancos, nem com sandálias.   De pé no chão.   Para deixar bem exposto o estigma indisfarçável de seu estatuto de cativo (ALENCASTRO, 1997).