TEATRO JOÃO MINHOCA

Baptista e seus Bonecos

Este trabalho é baseado no belíssimo livro de Susanita Freire, O fim de um símbolo, onde ela apresenta sua pesquisa sobre Baptista e seus Bonecos.

Bonecos, marionetes, bonifrates, fantoches, títeres

Historicamente, o boneco é um objeto sagrado, porque se identifica com objetos rituais e também porque tem ligações com a máscara. De uma forma geral, no Oriente, o boneco sempre se apresenta dentro de um evento cerimonial, e no Ocidente, está mais próximo da paródia. Mas, sério ou cômico, paródia ou símbolo, concreto ou abstrato, o boneco é uma analogia. É um reflexo nosso. É a nossa representação. É feito à nossa imagem e semelhança: Deus-homem, homem-boneco.

No Oriente, caracteriza-se pelo sobrenatural, e é a busca do homem por um outra realidade, é a sua relação com o divino. No Ocidente, reflete a busca do homem em si mesmo, em sua realidade terrena. Principalmente trata das suas relações sociais. (AMARAL: 1993:75)

É praticamente impossível descobrir quando as primeiras manifestações de marionetes aconteceram no Brasil. Os nossos primeiros cronistas, historiadores, viajantes e pesquisadores, não deram importância a essa forma popular de teatro, e por isso não a documentaram.

A primeira referência que encontramos da existência de um teatro de bonecos no Rio de Janeiro, é feita por Luiz Edmundo, e se localiza no século XVIII. Julguei importante transcrever aqui parte deste precioso texto, pois ele contém o registro detalhado desta performance teatral:

O teatro de bonifrates (bonifrates - boneco articulado. Do latim Bonus frater.) supria no século XVIII, entre nós, a deficiência de palcos e casas de espetáculos. Era uma ingênua diversão do povo.

(...) chegamos a compreender a existência de três grupos distintos desse curioso teatro de bonecos no Rio de Janeiro, pela época dos vice-reis: o grupo que se pode chamar dos títeres de porta, improvisado espetáculo vivendo apenas do óbolo espontâneo dos espectadores de passagem, o dos títeres de capote, ainda mais rudimentar que o primeiro, embora mais popular e mais pitoresco e, finalmente, o dos títeres de sala, este último já em franca evolução para o teatro de personagens vivas e com ares gentis de pátios de comédias.

(...) Vamos encontrar em ruelas afastadas do centro, freqüentadas pela escumalha das ruas, os teatróides do primeiro gênero.

Cá está um. É uma porta escancarada, onde uma colcha de cor escandalosa se coloca latitudinalmente a dividi-la em duas porções distintas. Na parte superior, que é um vão, forma-se a boca de cena, aberta, sempre, ao boneco que aflora e que gesticula animado pelas mãos de um homem escondido e que, com o indicador, move-lhe a cabeça e, com o polegar e o mínimo, os bracinhos nervosos. Não há cenário.

Na parte inferior está a coxia com os seus sobressalentes de bonecos, contra-regragem completamente fechada aos olhos do público.

Aquém soleira, o indefectível cego da sanfona ou da rabeca, zurzindo a corda desafinada do instrumento. Ao solo, em função discreta, a larga escudela das receitas, mostrando, ao fundo, sempre, uma moeda de prata nova, posta pela mão do empresário desejoso de enganar a generosidade do transeunte.

A platéia pode ser curta, mas é sempre atenta e generosa. E não se compõe apenas, como talvez se pensa, da massa vagabunda de ambulantes e de escravos, boquiabertos, toda ela à espera da bexigada final que os há de fazer arrebentar de rir. Há muita gente de meia de seda e de óculo de punho de ouro, que também pára e goza a ingenuidade do espetáculo, não esquecendo de escorregar a sua contribuiçãozinha.

Os títeres de capote, que eram ambulantes, andavam pelas feiras, pelos adros de igreja, em dias de festa, e por lugares de movimento maior.

Há te-deum em São Bento? No adro da igreja, necessariamente haverá, pelo menos, um desses teatros de improviso, entre os mendigos e as negras vendedoras de cuscuz, do aluá e de laranja.

Extraordinária forma de espetáculo de bonecos, já agora inteiramente desaparecida, verdadeiro espírito de um teatro ambulante, onde o titeriteiro é tudo, fazendo do seu corpo o próprio palco.

Curioso, porém, é ver a boca de cena dessa ópera improvisada, feita pelo próprio empresário com o panejamento amplo do seu capote, traçado de ombro a ombro, em linha horizontal, de tal sorte formando o campo necessário à movimentação do boneco.

Escondido na pregaria da capa, que tomba até os joelhos do homem-palco, está um guri que dá ao personagem de pano e massa o movimento necessário.

O homem-palco é, ao mesmo tempo, homem-orquestra, pois que, com os dedos, repenica a viola da função, que o capote nem sempre dissimula.

Deixemos, porém, o adro de São Bento, que os melhores títeres estão na parte baixa da cidade, e não são diurnos como os primeiros. A sombra da noite, felizmente, desce. Tomemos em Santa Rita a linha da rua do Vale e desçamos como quem vai à Carioca.

Ali, à rua do Cano(A rua Sete de Setembro é a antiga rua do Cano, assim chamada porque por ela passava um enorme encanamento. ) , (...) está uma casa de cimalha, saliente, com seu vetusto telhado acaçapado e feio, mostrando de um lado, uma porta larga, desenhada em curva (...) é uma ópera de títeres, recém-montada, sala de fantoches, teatro de bonecos.

À ombreira da porta do lado direito, (...) pára um cego, tocador de rabeca, arrancando às entranhas do instrumento esvanecido os compassos de um minueto que plange. À esquerda, o homem incumbido de vender os lugares, o cobrador, todo metido numa indumentária de pompa e escândalo, um largo varapau enfitado na mão grossa, ora recebendo as moedas da entrada, ora, em voz rouca, muito sério, apregoando o valor da ópera nova que se espeta no cartaz.

Para ouvir os guinchos da rabeca, o poviléu, junto, se acotovela. São praças livres dos terços auxiliares, de fardão azul-negro e plainas de seis botões, arrogantes e vozeirudos, mestiços de chapéu chamorro derreado sobre o ombro e capote de embuço cingido em paneamentos complicados, frades dos que cheiram tudo, de nariz aceso a copázios de bom tinto, hipocritamente a chocalhar os rosários de jacarandá, mendigos escravos arrastando as suas elefantíases, mal arrimados em precárias muletas, marinheiros, meirinhos, ciganas, gente de condição melhor, de ar importante, as mãos nas algibeiras esbeiçadas das véstias de pano pobre, gozando o minueto, alegrando-se com a luminária, comprazendo-se, enfim, com o ver entrar os felizardos que, de quando em quando, desovados daquela massa colorida e compacta, passam pelo homem do varapau vistoso, largando a sua meia pataca da entrada e desaparecendo logo, atrás de uma cortina vermelha e suja que separa o vestíbulo da sala de espetáculos.

(...) Em face aos espectadores está armado um palco minúsculo, onde marionetes de 30 a 50 centímetros devem mover-se em cenários de papel.

O varapau enfitado do cobrador anuncia, a bater ruidosamente no solo, que vai começar a ópera do anúncio. Já se fecharam as portas da rua e o cego da rabeca, no recinto da folgança, recomeça, no seu desafinado e lúgubre instrumento, o minueto tristíssimo.

Faz a rabeca a ouverture. Cala-se depois. Segue-se um silêncio profundo, apenas interrompido pelo plic plic das tabaqueiras que se fecham e pelo assoar discreto de algumas bicancas besuntadas de rapé.

Numa folha de papel, pendurada à guisa de cartaz, lá está o nome da peça:
O desespero de Dona Brites que perdeu na festa da Glória as suas anquinhas de arame ou a escola das novas sécias . Incisan Joco-Séria Anatômica e Crítica por Pantufo Gabinda.

O título é, no entanto, menor que o destempero dramático. As três pancadinhas do estilo para o sinal do pano e o homem do varapau que solta um psiu prolongado para que se calem, de vez, os ruídos das tabaqueiras e narizes. Silêncio! Obedece-se, gostosamente, ao homem do varapau. Pano ao alto. Já é a peça.

O cenário de papel recorda o Largo do Carmo. Vê-se o chafariz à beira-mar, o casarão do Teles, o palácio vice-real e a baía, ao fundo. Surge Dona Brites, seguida do moleque Cazu. Atrás dela, Dona Sancha, a mamãe, e o casquilho Vaporim. Os bonecos vestem de pano, têm a cabeça de papelão, movendo os braços de madeira articulados por molinhas de ferro.

A boca de cena do teatro é marcada, de alto e baixo, com arames verticais, paralelos, de modo a esconder ou confundir as linhas que movimentam os fantoches em função. O entremez desenrola-se ao agrado da platéia. Os espectadores riem, gozam as pacholices do moleque, os arremessos da velha e os dengues efeminados de Vaporim. Só o homem do varapau de ar amofinado e gasto é que não goza. Embotou-se. Súbito, aparece um frade. A platéia gargalha. Surge depois dele o fidalgo pobre da pragmática. A platéia exulta. Dona Brites, finalmente, perde os arames da saia. Aí a sala quase vem abaixo!

(...) É um desafogo insólito de gargalhadas gostosas, um contorcer unânime de diafragmas, um júbilo histérico e escandaloso, que chega até a impressionar o homem do varapau enfitado, ali mais para os efeitos da receita que para gozo de uma peça, quiçá por ele próprio escrita e ensaiada.

E, com mutações de cenário, a farsa continua até a cena final, onde Dona Brites entra na posse da anquinha que o peralta descobre, e Dona Sancha, amolecida pela galanteria do jovem, cede-lhe a mão da filha, que desmaia. É quando o cego da rabeca, então, numa ária que recorda os cantares dolentes dos cafuzos da terra, faz, de novo, a rabeca gemer angustiosa, acompanhando o vozeirão atenorado do empresário, que precipita o final com uma toada lírica que muito agrada.

  Deixa que eu morra Se me desejas
  Desta ferida Da morte isento,
  Que é melhor vida Não te retires,
  Morrer por ti. Pois só me alento
Com o ver-te aqui.

Como não há entremez sem pancadaria, para acabar a peça entram as bexigadas. A turba, de alma feliz e confortada, aplaude. E o pano desce lentamente. (LUIZ EDMUNDO: 1932: 447)

A figura 1 mostra o homem-palco com seu capote, que esconde o menino que manipula o boneco.

"Europa, França e Bahia" - a questão nacional

Na Europa no século XIX, ao lado das ideologias liberais, democráticas e socialistas, desenvolveu-se o nacionalismo, que teve suas origens na Revolução francesa (1789), quando o sentimento de fidelidade a uma dinastia foi substituído pelo sentimento nacional. No entanto, o nacionalismo só ganhou maior clareza como expressão política durante a expansão napoleônica, quando vários povos se viram forçados a unir-se diante do poderoso invasor. Também, a política do Congresso de Viena foi diretamente responsável pela exacerbação do sentimento nacional, visto que a reorganização européia depois de Napoleão não obedeceu ao princípio das nacionalidades.

No período que se estendeu de 1815 até o final do século, o continente europeu conheceu inúmeras agitações sociais em favor das nacionalidades. A partir de 1830, os movimentos nacionais começaram a ligar-se aos ideais democráticos; assim, além dos ideais de liberdade, procuravam incluir o princípio da soberania popular, numa tentativa de organizar governos verdadeiramente representativos. A partir de 1870, porém, o sentimento nacional se vinculou ao amplo movimento de expansão das potências capitalistas que entraram na era do novo imperialismo e do neocolonialismo, dando origem ao nacionalismo xenófobo, grandemente responsável pela eclosão da Primeira Guerra Mundial. Na realidade, desde o início, o movimento das nacionalidades esteve ligado ao processo de expansão e unificação do mercado. O ideal da unidade do mercado que a burguesia de cada país procurava reservar para si. Dessa forma, não interessava à burguesia a vinculação dos movimentos das nacionalidades com os radicalismos políticos, que colocavam a massa popular numa posição proeminente no processo de formação da unidade nacional. Esta deveria ser conseguida sem a alteração da ordem social e, portanto, sem colocar em perigo a hegemonia política da burguesia.

No Brasil, a partir das duas últimas décadas do século XIX, ganham força as idéias republicanas e abolicionistas. As fazendas de café perdem um grande número de escravos que fogem em massa. Todo o país está envolvido em discussões sobre a questão nacional. Os republicanos mais radicais cantam a Marselhesa, imaginam o povo nas ruas, e pregam o fuzilamento do Conde d'Eu - marido da princesa Isabel, herdeira do trono - que era um nobre francês, e portanto símbolo perfeito do Ancien Régime. Mas, no Rio de Janeiro, o povo simpatizava com o Imperador:

No Rio de Janeiro, porém, ao invés dos ativistas das barricadas parisienses, as "classes populares" parecem simpatizar com o Imperador. Ainda que nos panfletos, nas peças cômicas e na caricatura se deprecie Dom Pedro como El-Rei Caju (seu perfil parecia com uma castanha), ele guarda de certo modo sua popularidade, preservando-se, no senso comum, das fanfarronices da política onde estavam em grifo, pela pena oposicionista, as roubalheiras oficiais, a exploração estrangeira, a dívida pública, as negociatas com os títulos e patentes. (Lygia Segala, IN, FREIRE, Susanita. O fim de um símbolo. Rio de Janeiro: Achiamé, 2000. p.9)

Além de João Minhoca, Baptista criou outros personagens: Maricota, o Galã, o Velho, a Velha, a Donzela, a Sogra, Dom Diogo, o Aventureiro, Satanás e a Caveira. A estréia aconteceu em 30 de abril de 1882, quase quatro anos depois da temporada de Lupi no Rio de Janeiro, O novo espetáculo chamava-se O Casamento Fatal, e os bonecos apesar de serem inspirados nos de Lupi, eram tipos brasileiros.

A estréia aconteceu nos jardins da Cervejaria Guarda Velha (Foi uma das primeiras cervejarias do Rio de Janeiro. Ao seu lado havia um parque, onde as pessoas dançavam e onde aconteciam espetáculos de café-concerto. A cervejaria situava-se na rua da Guarda Velha, atual Treze de Maio, no Centro, próxima ao Teatro Municipal).
Para atrair a freguesia, a cervejaria instalou mesas e cadeiras em seus jardins, onde a cerveja marca "Barbante" era servida, em meio à música e espetáculos variados... "Na estréia havia uma enchente de público que ria, aplaudia, mas não pagava (...) depositava no pires que corria, tremoços e pontas de cigarro." (FREIRE: 2000: 29)

O segundo espetáculo foi As Aventuras de João Minhoca, já cobrando a entrada de 200 réis. O boneco negro, dançava, fazia mágicas, representava paródias, comédias, revistas, todas improvisadas, pois Baptista não escrevia seu repertório.

Baptista faz muito sucesso com seus bonecos, chegando inclusive a fazer uma turnê por algumas cidades brasileiras (Barra do Piraí, Vassouras, Juiz de Fora, Santos). Em Vassouras, os barões locais consideraram o boneco abolicionista e desrespeitoso em relação ao branco, e o espetáculo foi impedido de ser apresentado.

Alguns anos mais tarde, durante o período republicano, os bonecos do Baptista saem de cena, devido à cobrança dos impostos, à invasão do Teatro Guignol, famoso teatro de bonecos francês, que a partir de 1900 é introduzido do Rio de Janeiro nos parques públicos, fazendo parte da remodelação do Centro, promovida pelo prefeito Pereira Passos.

 

Figura 2
Imagem de João Minhoca
Jornal do Commercio 01/11/1883
Fundação Biblioteca Nacional
Figura 3
Jornal do Commercio 07/ 05/1882
Fundação Biblioteca Nacional

João do Rio - O fim de um símbolo

O escritor João do Rio escreveu esta crônica, uma última homenagem à Baptista, publicada pela primeira vez na Revista Kosmos, em 1905. Mais tarde, a crônica será incluída em seu livro Vida Vertiginosa, publicado em 1911, pela editora Garnier.

Julguei importante transcrevê-la porque ela apresenta muitas informações de quem teve a oportunidade de assistir às apresentações de Baptista e que soube com tanta sensibilidade valorizá-las.

No último garden-party de uma associação de caridade, eu percorria com a diretora da festa, dama de excessivas virtudes filantrópicas, os diversos divertimentos, quando, em afastado recanto, uma barraquinha afestoada de metim vermelho chamou a nossa atenção.

- É o Guignol, um autêntico mandado vir de Paris. Mas, não imagina, meu caro amigo, como tudo custa nesta horrível cidade. Não havia ninguém para mover as marionnettes. É crível?

Levantei as mãos para o céu, com o gesto de quem achava a falta clamorante e inacreditável. A senhora diretora animou-se:

- É porque que lhe digo. Só a muito custo é que conseguimos um velho tipógrafo, que fala várias línguas, julga ser um prodígio de graça e começou por não trabalhar com os bonecos vindos de Paris. É o jacobino das marionnnettes. Chama-se Baptista. Dizem que foi o criador do João Minhoca.

- Que diz, minha senhora? O João Minhoca por trás daqueles panos vermelhos e nós aqui sem ir admirar o alegre agitador da nossa meninice? Vossa Excelência há de permitir mas eu entro.

- Há lá dentro crianças e bonecos.

- As duas únicas criações de Deus que se pode amar sem receio.

Depois desta frase evidentemente amarga, mergulhei no metim. Era um canto do parque com grandes árvores verdes e bancos pintados. Ao fundo o teatrinho, na platéia um sonoro bando de crianças, meninas loiras com grandes chapéus e mitaines alvas, petizes enfardelados em roupas à marinheira, amas solenes de touca. Um riso jovial alegrava o ar.

- Que estão a representar? perguntei a um pequenita que trepara no banco para ver melhor.

- É o pretinho, respondeu ela, é o Minhoca...

- Mademoiselle, corrigiu ao lado a nounou, Mademoiselle, diga direito. Estão a representar o Guarani.

Mas não era preciso a informação. Por trás de um árvore, vestido de índio, eu via a cara malandra e preta de João Minhoca, que espiava e fugia para tornar a espiar. Eu não sei por que, no riso das crianças, tão claro riso que mais parecia o trinado dos pássaros, comecei a rir como não ria há dez anos. Estava em cena um boneco branco. O boneco era o Aventureiro, e cantava a célebre canção com um burlesco tal, uma ironia tão disparatada, tão infantil que a pequenada toda gargalhava da obra do venerável Alencar e do venerável Carlos Gomes.

A canção era simplesmente inacreditável. Uma só voz roufenha, uma voz de ventríloquo grasnava casquinava as palavras com um fogo impetuoso.

Oh! Que graça!
Fazer nada
Estar na cama
Descansar!

A pequenada desfechava em palmas e o fantoche, duro, impassível, malandro, parecia ser o próprio a dizer todas as barbaridades do disparate.

De pastinhas, embonecado
Pela rua do sabão
Principiando nosso azeite
Bebendo vinho "bão".

E continuaria na impetuosidade da música se de repente João Minhoca, de um pulo, não lhe caísse em cima:

- Espanhol de uma figa vais ver o china-seco! Ceci não é para o teu beiço!

Havia rolo, havia apitos, havia gritos, as crianças enchiam o ar de timbres argentinos do seu riso. Em João Minhoca sorriam apenas esboçados, todos os instintos dos espectadores, e eu tive vontade de ir ao bastidor ver de perto esse símbolo irreverente.

João Minhoca foi absolutamente nacional nesta cidade de colônias e imitações. A arte de animar bonecos existiu sempre desde os mais remotos tempos. O homem devia ter reproduzido as próprias formas e os próprios gestos para ousar depois imaginar a dos deuses. Já nos hypogeus do Egito apareciam uns fantoches acompanhando a morte e, no vale do Nilo, sob a dinastia dos Tutmés os mecânicos que moviam os bonecos chamavam-se solenemente neurospathas. Em Atenas nos Teatros de Bacchus a arte sutil de fazer viver as angústias da vida por pequenos atores de madeira de tal modo agradava que até disso se fez um monopólio usufruído por Pothinos. Em Roma o segillionus e o imaguneula interpretavam nos bairros escuros cenas livres capazes de atordoar Plauto, e desde a Idade Média, em que o fantoche desce dos altares para representar os mistérios, cada povo, cada país tem o seu boneco, símbolo dos seus costumes. Todas as províncias da Itália arvoram esse fantoche com um nome diverso nas feiras dos puppi e dos bonifrates. Punch ridiculariza os ingleses depois de ser um dos puppets que representavam para a rainha Elisabeth as tragédias de Shakespeare, e a Alemanha mostra às crianças o Hanswurt como a Índia o Ranguin, a França Polichinelle e a Turquia Karagueuz, o depravado pai do teatro islâmico. Nós tivemos João Minhoca que foi a nossa vida no que ela tinha de pessoal - com as suas rasteiras, os negrinhos malandros, o calão, a ironia despreocupada, e, quando já nos habituávamos a perdê-lo também como temos perdido todas as tradições poeticamente inúteis, eu ia encontrar a face esperta do mariola, fazendo rir as crianças de hoje como fizera rir as de ontem!

Uma grande comoção prendia-me ao banco entre a álacre e cristalina jocundidade das crianças, mas, de súbito, duas bombas estouraram enchendo o palco minúsculo de fumo e quando o fumo se dissipou, ao clarão vermelho dos fogos de bengala eu vi João Minhoca de joelhos conduzindo Maricota para o infinito, entre as palmas verdes da palmeira. Tinha terminado o Guarani e o demônio preto de novo se perdia.
Fiquei na platéia deserta agora. Começava a chover. Vagarosamente o pano do teatro subiu e nessa quase escuridão apareceu a cara bonacheirona de um velho de óculos.

- É o senhor o inventor do João Minhoca?

- Sim, meu senhor, sim sou eu, ou antes fui. Olha que se molha. A festa acaba com chuva. Antes assim. Não me aborreço mais. É a última vez que trabalho. Entre.

Acedi ao convite. Convidava-me um artista que na sua ascendência tinha os nomes de Basoche e Pagotin, e nessa caixa de teatro eu iria decerto encontrar menos vaidade e menos pintura que nos teatros considerados sérios. Havia uma quase penumbra no pequeno espaço. Uma arca aberta deixava ver uma infinidade multicor de fatos de bonecos. Numa prateleira, arrumados e graves, o Aventureiro, Dom Diogo, Maricota e João Minhoca olhavam ser ver a treva que crescia.

- São estes os bonecos?

- Tenho doze: João Minhoca, Maricota, um galã, um velho, uma velha, a donzela, a sogra, satanás e a caveira.

- A caveira?

- Como é possível a vida sem a morte? Todos eles foram feitos em 1880 por um entalhador hábil. As cabeleiras fazia-as o Baptista a cinco mil réis, as roupas uma costureira dos teatros. São os restos do Teatro de João Minhoca, baiano da freguesia de Santo Antônio, além do Carmo. Vou dar tudo isso.

Sorriu com melancolia, atirou dentro da arca o Satanás.

- Já não se pode representar!

Eu me sentei no único banco vago.

- Escreveu o seu repertório, senhor Baptista?

- O meu repertório? Tolices, invenções para fazer rir as crianças, troças às peças em moda... para que? Tenho umas vinte peças: Os Milhões do Diabo, O Guarani, As Proezas de João Minhoca, Aída, A Defunta Viva, Drama no Alto-Mar, Os Huguenotes, O Marquês de Pombal, Os Piratas, Barbeiro de Sevilha, A Romã Encantada, Dona Joanita de Molho Pardo, Boccacio, A Cabana de Belém, Os Moedeiros Falsos. Talvez hoje não possa reproduzir as pilhérias do outro tempo. Fazia mágicas, comédias, óperas, representava revistas - só dizem que há volumes de teatro para criança. Nunca os li. O João Minhoca nasceu de um caso. O Recreio chamava-se, em 1880, Brasilian-Garden. Para o Brasilian-Garden chegara uma companhia de fantoches do senhor Lupi. Lupi tinha bonecos, mas não tinha vozes. Podia haver nesse tempo a senhora Pepa pronta a vestir todos os papéis de uma revista inteira mas o Fregoli era desconhecido. Um amigo do empresário inculcou-me: - Há na tipografia do Jornal um rapaz chamado Baptista que imita todas as vozes, assobios e sons de instrumentos. Aproveita-o. - Lupi mandou chamar-me, oferecendo dois mil réis por noite. - Nessa não caio, disse eu, ganho cinco no Jornal. Olhe, experimentemos uma noite. Se agradar paga-me o mesmo que o Jornal. Como eu ia nervoso e que sucesso! O teatro ficava repleto todas as noites e eu, ganhando apenas cinco mil réis, sentia na garganta a sensação de estar sendo explorado.

- Das sensações más é sempre a pior.

- Quando Lupi partiu levando os fantoches e a bolsa cheia, eu comecei a pensar. Fazer um teatro com bonequinhos brasileiros, arranjar uns tipos bons. Mas quem seria capaz de adiantar capitais para uma grande companhia de fantoches? Reduzi as proporções do desejo, reduzi-as a uma dúzia de bonecos de dois palmos. Quem moveria os bonecos? Eu. Quem escreveria as peças? Eu. Quem falaria? Eu. Um mês depois eu inventava João Minhoca, baiano da freguesia de Santo Antônio.

Não se pergunta ao gênio como chegou a conceber o prodígio. Diante do gênio, que modestamente falava, não lhe perguntei a concepção de João Minhoca. Disse-lhe apenas umas palavras simples.

- Eu aprecio muito os seus bonecos.

- Toda a gente os apreciou! fez o velho. Eu entrei na Guarda-Velha. O Machado, dono da brasserie em que se tomava cerveja a sete vinténs o copo mais os tremoços cedeu-me grátis um canto do jardim. Eu anunciei Os Milhões do Diabo, e às 6 horas da tarde a Guarda-Velha apanhava uma enchente formidável. O Machado estava contente. Eu alugara um homem para pedir níqueis aos consumidores. O público riu a morrer, aplaudiu e depositou no prato tremoços e pontas de cigarro. Isto não serve, resmunguei cá comigo. No outro dia a mesma coisa. Então combinei com o Machado fazer uma separação pagando-se duzentos réis a entrada. Contratara a orquestra e anunciei. As Proezas de João Minhoca em que o negrinho dançava pela primeira vez no Rio uma dança depois famosa - o fandaguassu. Fiz nessa tarde sessenta e sete mil réis! E depois foi sempre assim. O dinheiro entrava-me pelas algibeiras. Dei para gastá-lo a rodo. Jogava, era roubado pelos cobradores, e, no fim para envergonhar os outros sérios, foi o João Minhoca o primeiro teatro que fardou os porteiros.

- Exemplo digno, que até hoje é mal seguido...

- O meu teatro tinha cartazes com desenhos e gente notável o foi ver. Uma vez, que João Minhoca cantava a Aída apareceram na platéia Castelmary, Robeso, Rossi, a Durand. Rossi saiu por último e quando o negrinho cantava a paródia da ária do último ato da ópera.
Adeus bananas e cajus.

Gritava na platéia, a rir: Per dio! Buffone questo Joon Minhoco... Oh! meu senhor, que vida de glória! As imitações apareceram logo, o Teatro Infantil, o Filomena Borges; mas caíram todos. Os jornais falavam de mim, os empresários célebres descompunham-me! Foi por essa ocasião que deixei a Guarda-Velha e parti para Petrópolis a dar espetáculos no salão do Hotel Bragança. O sucesso seguiu-me, o salão estava sempre cheio apesar de se cobrar caro porque a Câmara, a Coletoria e outras repartições esfolavam-me com os impostos. Um dia vieram-me dizer: Você deve convidar Sua Majestade. - O Imperador? para ver os meus pobres bonecos? Está maluco? Não vou. - Nessa mesma tarde apareceu o altíssimo Paiva: - Por que não vais convidar Sua Majestade? - Deus me livre! - Vai, é a praxe. Sua Majestade tem desejo de assistir ao espetáculo... Que fazer? Senti um aperto no coração não sei se de satisfação se de medo mas no outro dia fui ao palácio. Entrei pelo jardim, fui dar nos fundos do edifício e aí encontrei uma velha de olhar bondoso. - Por onde se fala com Sua Majestade? - Vai por ali, meu filho... Em meio do caminho encontrei um mordomo. - Sua Majestade? É por ali, disse ele. - Mas a velha que está no fundo do jardim diz que é por aqui. O mordomo abriu uma gargalhada. - A velha é Sua Majestade a Imperatriz...

- Baptista, a sua história é maravilhosa. Deve começá-la sempre como nas lendas encantadas. Era num país em que a soberana chamava nos jardins os humildes filhos...

- Eu conto a verdade. Quando o mordomo disse isto embarafustei pela primeira porta meio apatetado. Dei numa sala em que todos estavam de casaca e me mediam de alto a baixo. Eu estava envergonhadíssimo. Apareceu o Paiva, passou a mão pelo meu ombro e eu ouvi, enquanto todos se perfilavam, uma voz que bradava: - Sua Majestade! Na escada foi aparecendo o imperador. Eu tremia e recuava. Afinal murmurei colado à parede: - Tenho a subida honra de convidar Vossa Majestade a assistir ao meu espetáculo de bonecos.

- Sim, sim; terei prazer, fez o monarca com uma vozinha fina, passando adiante...

Desapareci e anunciei o espetáculo honrado com a augusta presença de SS.MM. e AA.II. Todo o corpo diplomático apareceu, depois de ter lido o anúncio.

- É a função desse corpo, Baptista.

Que noite! O trono tinha sido armado em caixões cobertos de veludo, a orquestra era composta dos três irmãos Alberti. Eu imaginava um monólogo de João Minhoca: Viagem à Volta do Mundo no Balão Júlio César. A Imperatriz quando falei de Nápoles começou a rir. O Imperador, a princípio conteve-se mas depois sorriu. Que lhe dizer mais? Estaria recompensado do valor que me apregoavam apenas com a sua presença.

Anoitecera de todo, o Baptista acendera uma vela. Fora a chuva tamborinava nas plantas.

- E depois? indaguei.

- Depois vim para o Polytheama no verão de 1883, estreando com o Drama no Alto-mar e comecei as tournées. Em quatro anos, fora todas as ladroeiras de que era vítima, tive de lucro cento e cinqüenta contos. Comecei as viagens pela Barra do Piraí, percorri Minas, São Paulo, Rio de Janeiro. Em Santos, no Rink, os camarotes de seis mil réis, eram vendidos por cem, em Juiz de Fora as cadeiras custavam dois mil réis, em Vassouras João Minhoca foi tomado por abolicionista. Os barões de Cananéia, Amparo e Massambará julgaram que o negrinho pregava o desrespeito ao branco e mandaram os escravos impedir o espetáculo. Com o dinheiro de João Minhoca montei um estabelecimento comercial e arruinei-me. Quando quis recomeçar, na República, os bonecos pagavam tantos impostos como os teatros sérios e a invasão estrangeira, o guignol aparecera. Mas eu contei a minha história! É como um testamento. João Minhoca deu hoje o seu último espetáculo. Já não tenho voz, já não tenho graça...

Agarrou Maricota, o Aventureiro, Dom Diogo, atirou-os com fúria à arca. Só João Minhoca, reluzente como um deus africano, ficara, João Minhoca que resumira a vida de uma cidade, na rasteira, no namoro, na política, no teatro, na chalaça, João Minhoca capoeira, fidalgo, inventor de balões, abolicionista! Baptista pegou-o com raiva.

- E tu também!

Atirou-o sobre os outros. O boneco parecia rir. Fechou a arca. Sentou-se como querendo esmagar com o próprio peso o seu teatro e o imperecível riso de João.

- Duas frases eu as guardo até hoje desse período de glória. A primeira escreveu-a Luiz de Castro, o urso branco, no Jornal: - O João Minhoca é a salsaparilha de nosso teatro!

- Hoje seria preciso um depurativo mais forte.

- A outra disse-me o Imperador, à beira do Piabanha: - O seu teatro, Baptista, é muito interessante. Volto a vê-lo hoje.

- Esses dois homens guardavam a clara inteligência dos helenos, meu pobre amigo. Só os espíritos grandemente raros compreendem a sutileza dos símbolos populares.

Mas a minha frase não foi ouvida. Um cavalheiro elegante, de guarda-chuva a pingar, irrompera:

- Oh! Homem, ainda aqui? Precisamos fechar o jardim. Os seus bonecos custam, a despir-se. Safa!

Depois dando comigo:

- Aposto que esteve a falar do imperador e a atacar o Guignol. Esse Baptista! Meu caro despache os seus bonecos. No Rio já não temos nem rasteiras nem moleques. Despache os bonecos e vá dormir.

Baptista sorria, endireitando os óculos. Eu saíra para a escuridão da noite. E sempre me pareceu sob a chuva, que o céu chorava, na indiferença obtusa daquela festa elegante, a morte irreparável do boneco símbolo da nossa vida e da alegria das crianças de ontem...

Bibliografia

AMARAL, Ana Maria. Teatro de formas animadas. São Paulo: Edusp, 1993.

FILHO, Hermilo Borba. Fisionomia e espírito do mamulengo. Rio de Janeiro: INACEM, 1987

FREIRE, Susanita. O fim de um símbolo: Theatro João Minhoca Companhia Authomatica. Rio de Janeiro: Achiamé, 2000

KOSHIBA, Luiz; PEREIRA, Denise Manzi Frayze. História do Brasil. São Paulo: Atual, 1993. p.241-242.

LUIZ EDMUNDO. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis. Rio de Janeiro: IHG, 1932.