Símbolos Nacionais Brasileiros


Os espaços livres públicos das províncias vistos como palcos de manifestações sociais, culturais e do teatro político do século XIX.


Ricardo José Brügger Cardoso - Doutorando em teatro

Em 1822, ano que marca oficialmente o movimento de independência de sua metrópole, o Brasil tinha uma população de aproximadamente cinco milhões de habitantes (Abreu (1997) afirma que desse montante, totalizavam-se perto de 800 mil índios, e que pelo menos um terço da população eram de escravos, desembarcados continuamente para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar e café, nas obras públicas e nos serviços domésticos, desde o início do século XIX) . Esta população, de acordo com as fontes históricas estudadas, tem sido considerada relativamente pequena, pois se encontrava dispersa num extenso território de mais de 7,5 milhões de quilômetros quadrados, permanecendo concentrada numa pequena faixa da costa atlântica de no máximo 300 quilômetros. Nesse período, o Rio de Janeiro era, além de capital, a maior cidade com cerca de 100 mil habitantes.

Figura 1 - Mapa do Brasil de 1830. Fonte: Bethell, 1989.

Ainda muito atrasado socialmente, até aquele momento, era possível se comprar escravos à vontade por preços relativamente módicos. Com a chamada "fronteira aberta" e uma oferta quase ilimitada de terra livre e de baixo custo; aliada a grande necessidade de trabalho braçal foram alguns dos motivos, da época, para se justificar que a escravidão tornara-se um aspecto tão essencial e característico da vida social e econômica, tanto rural quanto urbana em grande parte do território habitado.

Para alguns historiadores, o Brasil ainda não detinha concretamente uma unidade econômica, visto que não havia no país um sentimento coletivo de identidade nacional. A unidade mantida na transição de colônia portuguesa para a de império independente foi muito mais um teatro político e considerado por alguns especialistas uma ação visivelmente inconsistente (figuras 2, 3 e 4). A aliança de forças que havia produzido a independência do Brasil acabou por desintegrar-se na década seguinte. Na verdade, acredita-se que a independência que o Brasil obteve em 1822 foi incompleta: a presença de um príncipe português disposto a assumir a liderança desse movimento foi um fator decisivo para se garantir uma transição mais lenta do poder, se preservar uma estabilidade política e social, e se alcançar, por fim, uma unidade nacional.

Figura 2 - Cerimônia de aclamação popular de D. João VI pela elevação do Brasil a Reino Unido, ambientada pelo principal artista da Corte Portuguesa, J.B. Debret.
Fonte: Loyds Bank, 1987.
Figura 3 - Execução de Conspiradores, durante a Revolução de 1820, demonstrando outro tipo de espetáculo no espaço livre público das províncias. A.P.D.G.
Fonte: Loyds Bank, 1987
Figura 4 - Decoração urbana e teatral concebida por Debret, por ocasião da proclamação de D. Pedro I como Imperador, em 1822, Richard Bate. Fonte: Coleção Gilberto Ferrez, 1965.

A monarquia como instituição tinha um grande apelo popular e ainda era considerada, por muitos integrantes da elite nacional, um instrumento poderoso de unidade nacional e de estabilidade social (Bethell, 1997). Dom Pedro I era o único membro da Família Real que podia governar o Brasil, já que era considerado o herói da independência e que conseguia, de alguma maneira, atrair o entusiasmo popular. Entretanto, como bem assinalou Carvalho (1996), a dissolução arbitrária da Assembléia Constituinte em novembro de 1823, seguida pela promulgação de uma constituição em março de 1824 foram medidas definitivas para o rompimento do acordo entre Dom Pedro I e os setores importantes da classe dominante brasileira, não só no Sul, onde tivera os movimentos iniciais de independência, mas também no Norte, região de caráter mais conservador.
Ao que tudo indica, os principais personagens do cenário político brasileiro duvidavam desse comprometimento do imperador com o constitucionalismo e, além disso, receavam também sobre a sua verdadeira disposição de romper seus laços familiares e dinásticos com a Corte Portuguesa. Embora distintas Costa (1985) afirma que essas duas preocupações estavam interligadas e reforçavam-se mutuamente, pois as supostas convicções absolutistas de Dom Pedro I eram facilmente associadas, tanto pela elite brasileira quanto pelo povo, à proteção dos interesses de Portugal que ainda restavam no Brasil e, é claro, ao medo da re-colonização. O primeiro reinado de Dom Pedro I foi um período de tensão e conflito político constantes, que culminou com a sua abdicação, em abril de 1831( Nesse processo de disputas pelo poder, Carvalho (1996) atenta para o fato de que nem toda a elite nacional se voltou contra o imperador: muitos de seus membros foram cooptados como ministros, senadores, conselheiros de Estado; alguns foram comprados com títulos honoríficos. Durante o ano de 1825/1826, Dom Pedro concedeu 104 títulos de nobreza (em sua maioria, de barão e visconde), mais de dois terços de todos os títulos foram outorgados durante o Primeiro Reinado. Entre os partidários brasileiros de Dom Pedro I havia absolutistas, conservadores, muitos dos quais hesitavam em fazer-lhe oposição, no temor de que o próprio sistema monárquico fosse ameaçado.).

Figura 5 - D. Pedro I com Pedro II ainda menino na sacada do Paço Imperial, em ato público, depois de abdicar do trono em 7 de abril de 1831. Fonte: Bolsa do Rio XXI, 2000.

O afastamento do poder dos grupos dominantes de Minas Gerais e de São Paulo e de alguns elementos no Rio de Janeiro, somado ao ódio popular aos portugueses e ao ressentimento militar, acabou por derrubá-lo. Nesse sentido, vale a pena destacar um importante fato histórico ocorrido na manhã de 6 de abril de 1831, quando o povo começou a se reunir em vários lugares públicos da capital e, ao fim da tarde, de três a quatro mil pessoas estavam concentradas no Campo de Santana, locus de reunião pública, desde os turbulentos eventos políticos de 1821/1822.

"... dois corpos de artilharia e um batalhão de granadeiros haviam se confraternizado com o povo e, em seguida, o próprio batalhão do imperador fez o mesmo. Embora não tivessem qualquer simpatia pelas idéias radicais, os oficiais brasileiros estavam dispostos a juntar-se ao movimento contra o imperador, nem que fosse pela exoneração definitiva dos oficiais portugueses. Já os soldados, em sua maioria negros e mulatos, compartilhavam das mesmas frustrações e descontentamentos vindos das camadas menos favorecidas da população urbana, dos quais eram em sua maioria oriundos. Na verdade, a maioria dos soldados vivia em piores condições, porque sofria freqüentes atrasos de pagamento, além de se expor à rígida disciplina militar". (Bethell, 1997).

Somente em 1831, portanto, é que o Brasil rompeu seus últimos laços com Portugal. E a partir daí, o Brasil pertenceu aos brasileiros ou, para ser mais preciso, à classe dominante brasileira. Em julho desse mesmo ano, quase toda a guarnição do Rio de Janeiro insurgiu-se e reuniu-se no Campo de Santana, confraternizando-se novamente com a multidão( Como bem assinalou Bethell (1997), as reivindicações tiveram um caráter quase que exclusivamente antiportuguês, com a deportação de 89 portugueses, a exoneração de muitos deles dos empregos públicos e a proibição por dez anos da entrada de imigrantes de Portugal.). Nesse ambiente de mudanças, é curioso notar mais uma vez a força daquele lugar: o genius loci de um espaço livre público que se transformara não apenas no novo centro urbano, mas também no palco principal dos acontecimentos políticos e sociais da cidade.

Numa descrição resumida dos principais conflitos urbanos da época, a Guerra dos Cabanos, em Pernambuco, foi considerada uma reação excepcional à abdicação de Dom Pedro I. Em quase todas as outras províncias as manifestações populares foram urbanas e antiportuguesas, semelhantes às que ocorreram no Rio de Janeiro, e variaram de intensidade de acordo com o tamanho da cidade e a força da presença portuguesa no governo e no comércio local (Chiavenato (1984) lembra, ainda, que das dezoito províncias brasileiras apenas o Piauí e Santa Catarina evitaram distúrbios de qualquer espécie) . De modo geral, a ordem pública foi menos afetada em Minas e nas províncias meridionais de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, já que não possuíam centros urbanos e portos importantes. O Pará foi o palco da primeira dessas revoltas provinciais, conhecida pelo nome de Cabanagem (Esse termo é derivado de cabanos, nome dado aos rebeldes, igual ao de Pernambuco (Chiavenato, 1984).).

A segunda rebelião, em ordem cronológica, foi de natureza totalmente diferente. Ficou conhecida pelo nome de Farroupilha, designação dada aos radicais após a abdicação de Dom Pedro I. Com mais de 100 mil habitantes, esse conflito ocorreu na província do Rio Grande do Sul (figura 6). Como no Pará, os escravos representavam mais ou menos 30% da população total dessa região, mas a estrutura social do Rio Grande do Sul era muito diferente da do restante do Brasil. As circunstâncias históricas da formação da província haviam provocado uma fusão entre o status de militar e o de proprietário rural e, ao que se sabe, a classe dominante militarizada exercia um controle quase total sobre a maior parte da sociedade daquela localidade.

Figura 6 - História em quadrinhos que conta de forma didática a Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul.
Fonte: Ruas e Colin, 1985.

A última revolta a explodir nesse período foi no Maranhão, semelhante à Cabanagem, mas numa escala menor de profundidade e violência. Seu campo de batalha estendeu-se ao sul da província do Maranhão, próximo à fronteira com o Piauí. A área fora colonizada, em sua maior parte, por pequenos fazendeiros e pequenos criadores de gado. De acordo com Janotti (1987), a revolta ficou conhecida pelo nome de Balaiada, devido ao apelido de "balaio" dado a um de seus chefes. Foi o movimento que se vinculou especificamente às reformas liberais e, de acordo com os registros históricos disponíveis, mais diretamente ligados ao Ato Adicional de 1834.
O desapontamento com o funcionamento, na prática, das reformas liberais de 1831-1834, sem contar com as inúmeras rebeliões ocorridas nas principais províncias do país, causou instabilidade e ameaçou tanto a ordem interna quanto a desejada unidade nacional, abrindo caminho por fim para um novo alinhamento das forças políticas e a criação de dois partidos: o Conservador e o Liberal. Tendências que dominariam o cenário político em todo o Segundo Reinado. Para Sodré (1998), a maior dificuldade daquele período era a de que as classes conservadoras, em geral, não tinham consenso sobre qual a melhor estrutura institucional que atenderiam seus interesses: em parte porque esses interesses não coincidiam totalmente, em parte porque muitos de seus membros (mais os fazendeiros do que os comerciantes) não estavam preparados para pensar em termos de governar por intermédio do Estado.
Segundo Marson (1981), a derrota da Revolta Praieira dos liberais em 1848-1849, ao lado talvez do declínio dos liberais em toda a Europa nesses anos, fortaleceu o governo conservador no Rio de Janeiro e consolidou o poder conservador em todo o Brasil. Na ocasião em que o Conde de Suzannet visitou o Rio de Janeiro no início dos anos de 1840, ele ficou impressionado com o ódio generalizado aos estrangeiros, em especial aos portugueses e ingleses; e com a facilidade com que se colocava sobre eles a culpa de todos os problemas do país. Tratava-se, portanto, de um ressentimento limitado a determinados setores da população. Mesmo deixando de lado as diferenças regionais e as profundas divisões sociais e raciais, há razões para se crer que ainda não existia uma concreta comunicação entre as províncias, havia pouca integração econômica e, sobretudo, nenhuma participação nas decisões políticas e de governo do país, que pudesse criar um senso positivo de identidade nacional.

"A classe comercial do Rio de Janeiro prosperou quando o negócio de café colocou os fazendeiros em contato com a economia internacional. No entanto, a mão-de-obra escrava ou livre; rural ou urbana, recebeu pouca coisa do aumento dessa riqueza. Para manter a dependência dos trabalhadores, os fazendeiros e os comerciantes combinaram de uma maneira sutil a força bruta com uma proteção benevolente. E para continuar no poder e, ao mesmo tempo, servir aos interesses dos fazendeiros e dos comerciantes, o governo do império acabou se tornando um instrumento dessa nova elite, na tentativa de se manter no controle político e social. Durante esses vinte anos, os líderes políticos conseguiram cooptar aqueles que anteriormente haviam se oposto à autoridade central, ao mesmo tempo em que se aproximavam, às vezes com relutância, de uma posição intermediária entre o conservadorismo e a reforma". (Bethell 1997).

Em meados de 1860, a Guerra do Paraguai estimulou, de certo modo, a produção industrial e os sentimentos patrióticos da população urbana em geral (figura 6, 7 e 8). O estímulo direto proveio da aquisição de material de guerra pelo governo, mas dois outros fatores não deixaram de dar sua contribuição: a inflação ocasionada pelos déficits do governo e a proteção irrefletida dada pelas tarifas gerais mais altas para financiar o esforço de guerra. Por tais motivos, os negociantes se queixavam de que o governo preferia, por exemplo, comprar uniformes importados de qualidade inferior ao invés de estimular a expansão da indústria brasileira. Ë curioso notar, neste fato, a teimosia congênita das elites dirigentes brasileiras de reter sistematicamente qualquer tipo de crescimento do mercado e da economia interna do país.

Figura 7 - Adeus e emoção no embarque do 1° batalhão de Voluntários do Rio de Janeiro, Henrique Fleiuss. Fonte: Carvalho, 1998.
Figura 8 - Desfile militar em 1° de março de 1870, depois da vitória sobre a Guerra do Paraguai, Ângelo Agostini. Fonte: Bolsa do Rio XXI, 2000.
Figura 9 - "Pátria", Pedro Bruno. Fonte: Ed. SENAC, 2000.

De acordo com Neves (1991), o positivismo e o verde-amarelismo foram idéias elaboradas em oposição à cúpula que comandava a guerra do Paraguai, gerando mais tarde a idéia de Ordem e Progresso, e a concretização do discurso ufanístico, o qual tinha suas origens na baixa oficialidade (figura 10). Sobre esse aspecto, em particular, Sodré (1998) destaca ainda que a alta oficialidade não era positivista, mas, ao contrário, extremamente ortodoxa. Nesse momento histórico, um grupo militar formado pela baixa oficialidade, assim como alguns intelectuais e profissionais oriundos das Escolas Militares, criaram então as bases do movimento republicano, cujo manifesto foi lançado em 5 de outubro de 1870, e que iria representar também a nova elite burguesa do país: os poderosos barões paulistas do café.

Figura 10 - Charge sobre as influências do positivismo no símbolo da bandeira nacional, F. M. Fonte: Junior, 1984

"A tomada de decisões econômicas centralizava-se cada vez mais nas cidades portuárias. Os comissários de café e outros comerciantes, banqueiros, industriais inexperientes, gerentes de companhias de seguro, agentes de empresas de navegação e burocratas de alto e baixo escalão, juntamente com o séqüito de lojistas, hoteleiros, advogados, médicos e professores, ocupavam as fileiras da classe alta e da classe média urbanas. Seus empregados ou escravos - estivadores, criados, operários da construção, carregadores de água, costureiras, caixeiros viajantes, contadores e balconistas - aumentavam ainda mais o conglomerado urbano". (Bethell, 1997).

Em 1872, a bibliografia disponível revela que a população da cidade do Rio de Janeiro alcançava mais de 250 mil habitantes, e tanto Recife quanto Salvador tinham mais de cem mil habitantes. Não eram cidades grandes pelos padrões internacionais, mas pareciam enormes em comparação com outras cidades brasileiras ou consigo mesma, em épocas anteriores. Grande parte da força de trabalho nesses centros urbanos em expansão era fornecida pelos escravos. Ainda em 1872, quando se obtiveram as primeiras estimativas oficiais, apenas um quinto da população livre era alfabetizada.
A cidade oferecia aos escravos, assim como aos homens livres, algumas oportunidades que não existiam na meio rural. O espaço público urbano permitia um pequeno crescimento na impessoalidade das relações humanas, maior mobilidade social e uma maior variedade de condutas aceitáveis. Para Pinsky (1989), havia mais liberdade no meio urbano, visto que os negros podiam criar e transmitir mais rapidamente seus costumes, língua, música, tradições familiares, ou seja, toda a complexidade de sua cultura. As criadas domésticas, embora vigiadas de perto, podiam desfrutar em seus passeios diários de momentos fugazes de liberdade; certamente, andavam pela cidade com mais familiaridade e menos restrição do que muitas de suas patroas reclusas pelos costumes restritivos de uma sociedade ainda predominantemente machista.
Mas olhando por um outro ângulo, faz-se necessário observar que os escravos lutavam não apenas contra senhores de carne e osso, mas também contra forças vagas, sinistras e impessoais. Uma alta cultura europeizada, e baseada em uma economia de exportação revelava uma incompreensível resistência em enfrentar as dilaceradoras implicações de uma realidade marcada pela opressão pessoal, vivenciada cotidianamente na fazenda ou mesmo nas ruas da cidade (figura 11 e 12). No tocante à participação da coletividade do povo negro, nesse período de mudanças e conflitos internos, vale registrar uma importante manifestação cultural comentada por Soares (1994), em que esse autor descreve a malta de capoeiras como uma unidade fundamental da atuação dos praticantes da capoeiragem, muitas vezes formada por três, vinte ou, até mesmo, cem indivíduos.

Figura 11 - "Negros que vão levar açoites", Ludwig & Briggs. Fonte: Ed. SENAC, 2000.  
Figura 12 - "Negro escravo com facão", George Lowenstern. Fonte: Ed. SENAC, 2000.

Segundo Soares (1994), a tradição literária do final do século XIX referia-se às maltas de capoeiras dos tempos da Corte, mencionando os nagoas e guaiamus. A malta era a forma associativa de resistência mais comum entre escravos e homens livres pobres no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX. Neste período, as maltas de capoeiras já se encontravam bastante sofisticadas, geograficamente, abarcando não apenas as igrejas - marco de referência da cidade colonial - mas igualmente seus bairros. O ponto de reunião das maltas eram suas escolas, praças, ruas e corredores (figura 13).

Figura 13 - Planta da cidade do Rio de Janeiro com o seu traçado urbano, em 1879, mostrando os principais prédios públicos em vermelho e as igrejas em preto, Luiz Schreiner. Fonte: Bolsa do Rio XXI, 2000.

Os cronistas, dessa época, reiteravam a rivalidade simbólica das duas maltas com seus emblemas, cores, signos, como expressão dessa luta pelo espaço urbano; e desse embate político das ruas utilizavam-se, inclusive, expressões marcadamente políticas de partidos: os Nagôs ou Nagoas - gente da nação nagô da costa dos escravos da África Ocidental. O branco era a cor dessa malta. As evidências apontam que os nagoas teriam relação com os africanos e baianos, seguidores da religião dos orixás. Já os Guaiamus seriam uma tradição nativa, crioula natural da terra, ligada aos escravos nascidos no Brasil. Na iconografia disponível, a única gravura que coloca frente a frente um nagoa e um guaiamu mostra, respectivamente, um negro e um mulato ou mestiço.

Em uma comparação entre a área do Paço Imperial (guaiamus) e o Campo de Santana (nagoas), é interessante notar que, enquanto o Paço, com seus prédios de administração pública, era o antigo centro e o símbolo do poder colonial, o Campo de Santana transformou-se, no início do século XIX, em seu oposto. Uma área não regulada da cidade, onde os escravos escapavam da vigilância de seus donos, e nas tardes de domingo podiam dançar as suas próprias músicas. Além disso, Soares (1994) observa também que os momentos de grandes concentrações populares na cidade eram oportunidades em que as maltas não perdiam para exibir suas habilidades públicas, muitas vezes resultando em conflitos violentos. Nos dias de festas religiosas e populares, e durante os desfiles militares, registravam-se maltas de vinte, cinqüenta ou cem homens, precedidos pelos caxinguelês (meninos de rua) que provocavam desordens e promoviam agressões em desfiles, festas e aglomerações.

Concernente às atividades artísticas da época, uma ópera encenada pela primeira vez exatamente ao término da Guerra do Paraguai revela, direta ou indiretamente, alguns aspectos da questão racial no país. António Carlos Gomes (1836-1896) baseou sua ópera num romance de José de Alencar (1829-1877) intitulado O Guarani. Ambientados no século XVI, o romance e a ópera glorificavam o nobre selvagem e a mistura racial entre os portugueses e os índios, mas ignorava a origem africana de grande parte da população brasileira. Na busca por uma mitologia que encaixasse temas brasileiros dentro de formas européias, a ópera tinha um libreto italiano e foi encenada primeiramente no Teatro La Scala de Milão, refletindo não apenas a afastamento estabelecido entre a classe dominante e as classes menos favorecidas da sociedade, mas também a alienação da intelectualidade em um país onde 80% da população adulta livre não sabiam ler nem escrever.

Historicamente, acredita-se que a guerra expôs diversas tensões no seio da sociedade brasileira. A determinação do Brasil de continuar a guerra contra o Paraguai, depois que o território brasileiro foi abandonado pelas tropas paraguaias e de depor e matar López provocou uma profunda ansiedade nacional. Os líderes brasileiros justificavam sua ação com o argumento de que "precisavam levar a civilização àquele país bárbaro e libertar os paraguaios da tirania" (figura 14). Freqüentemente ridicularizavam o legado racial do Paraguai e insinuavam um conceito de supremacia branca. É possível que os políticos brasileiros duvidassem do grau de sua própria "civilização" e temessem comparações depreciativas com as nações européias com que se identificavam tão estreitamente. Os brasileiros estavam rodeados de escravos, mas experimentavam um crescente sentimento de culpa em relação à escravização. A feroz busca da guerra pelo Brasil parece ter sido uma oportunidade para se tentar resolver uma dúvida atormentadora em relação a si próprio.

Figura 14 - Charge, da época, com Chico Diabo atravessando uma lança no "monstro mais bárbaro e hediondo", Francisco Solano Lopes, destruído em sua própria pátria. Fonte: Ed. SENAC, 2000.

Em tese recentemente defendida para o doutoramento em História pela USP, Toral (2000) utilizou como fonte e metodologia de trabalho, uma rica pesquisa iconográfica, representada por algumas imagens da guerra, que destacam, sobretudo, a presença do soldado negro nos campos de batalha. Comenta, inclusive, que uma das ofensas do Paraguai em relação ao Brasil era afirmar que o exército brasileiro era um exército de escravos. Esse mesmo autor, também atenta para o fato de que muitos senhores mandavam seus escravos para a guerra em seu lugar. Há registros ainda de que os brancos pobres eram igualmente mandados para guerra, além evidentemente de se mandarem também os inimigos políticos do poder da época como "buchas de canhão", ou seja, eram todos soldados de frente de batalha.

Nesse contexto histórico de grande tensão social, Toral (2000) lembra que a Guerra do Paraguai também trouxe à tona alguns conflitos já existentes no seio das forças armadas brasileiras. A classe fundiária, ao criar, em 1831, uma guarda nacional na qual seus membros eram os oficiais, tomara medidas para garantir seu domínio sobre os instrumentos públicos de força. Como medida centralizadora, o gabinete conservador decidira, em 1850, que todos os oficiais da guarda nacional não mais seriam eleitos, mas nomeados. Todavia, essas nomeações continuaram a contemplar quase que exclusivamente os grandes fazendeiros. Era muito comum, naquele período, o filho de família rica comprar um cargo do exército, ou seja, ele entrava para o exército porque tinha dinheiro, pagando para se tornar um oficial sem nunca ter servido ao exército. De acordo com esse mesmo autor, era daí que surgiria, portanto, a patente do coronel nordestino, quando um usineiro comprava a sua patente no exército ou na marinha para ter o seu título de coronel.

Posteriormente, abriu-se nas academias militares uma carreira para o talento daqueles que não podiam arcar com a dispendiosa educação secundária, necessária para ingressar numa faculdade de Direito nem contar com os devidos contatos. Foram plantadas, assim, as sementes do futuro desenvolvimento de uma certa hostilidade de classe entre oficiais militares e políticos civis, embora elas só tenham vindo a florescer a partir da década de 1880. No período anterior à Guerra do Paraguai, os oficiais militares de patente mais alta ainda provinham geralmente de famílias da elite ou mantinham estreitas relações com elas. Caxias, como bem destacou Graham (1997), era irmão de importante financista do império e foi um líder político conservador atuante, tendo sido eleito para o Senado em 1845, e participou de três gabinetes, duas vezes como primeiro ministro. Como líder político, defendeu os interesses da classe dominante de fazendeiros e senhores de escravos. Mas os oficiais mais jovens, em postos de nível médio, especialmente os que obtiveram promoções rápidas durante a guerra, não tinham a mesma familiaridade de Caxias com os poderosos.

Todavia, a sua imagem de herói já vem sendo questionada há algum tempo pela historiografia, que lhe atribui responsabilidade por atos de extrema violência nas campanhas que chefiou. A violência do ato de Caxias não foi, contudo, um caso isolado. Tratava-se, na verdade, de uma estratégia de guerra, já que para o Brasil e para a Inglaterra era necessário que o Paraguai, um exemplo de nação democrática bem sucedida, fosse destruído. O comportamento de Caxias também não era um caso particular, mas, sim, um padrão da elite brasileira que ocupava os altos cargos do oficialato. A impunidade e a quase hereditariedade do oficialato garantiam a manutenção desse tipo de ação. Nesse sentido, algumas pesquisas mais recentes mostram que entre os sobressaltos que derrubaram o imperador, revela-se mais uma mancha na reputação do mandante da operação, Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro.

"Os corpos sem vida são lançados do navio. São dezenas de marinheiros mortos, ou mesmo, toda tripulação. Cada corpo que cai nas caudalosas águas do Rio Paraná soma um pouco mais de morte à guerra que ceifa a população do Paraguai e que produz baixas também no Brasil, Argentina e Uruguai. Em seis anos de conflito, entre 1864 e 1870, foram mortos 35 mil brasileiros e 231 mil paraguaios, mais da metade da população do país. Logo, o Rio Paraná fica cheio de corpos boiando, que são levados pela correnteza. Mas soldados ainda, mesmo mortos, seguem matando. Dentro deles, oculta uma ameaça, uma arma militar letal: o cólera, o mal que havia dizimado a tripulação da fragata Itapiru. A doença agora estava sendo usada pelo comando brasileiro para matar os inimigos. Não apenas os guerreiros, mas a população civil em suas casas". (Montello, 1985).

Ao final dos oitocentos, já nos primeiros anos da República, a população ainda iria presenciar novos casos de barbáries comandadas pela elite militar brasileira como em Canudos, no sertão nordestino (figura 15). E, ao mesmo tempo, iria assistir igualmente suntuosos espetáculos cívicos e políticos ao ar livre, encenados com toda a pompa e entusiasmo patriótico, nos principais espaços livres públicos da capital (figuras 16, 17 e 18). Aliás, essa herança de brutalidade e covardia acabou por se tornar uma das principais marcas das forças militares não só do Brasil, mas de praticamente todas as Repúblicas Sul-americanas, ainda por muitos anos.

Figuras 15 - Sertanejas do Arraial de Canudos presas pelo Exército Brasileiro, já em 1899. Fonte: Ed. SENAC, 2000.

 

Figura 16 - Arco do Triunfo para a posse do Presidente Prudente de Morais, em 15 de novembro de 1894. Fonte: FUNARTE, 1989.
Figura 17 - Desfile Militar, durante os festejos da posse, em 1894. Fonte: FUNARTE, 1989.

 

Figura 18 - Desfile Militar em homenagem ao general Júlio Rosa, com expressiva participação popular no Campo de São Cristóvão, em 11 de agosto de 1899, Marc Ferrez. Fonte: FUNARTE, 1989.


O que se pode concluir dos estudos e textos apresentados sobre as transformações no Brasil, ocorridas durante o século XIX, é que a construção de uma nação independente se deu de forma incompleta e, sem menosprezar a complexidade dos fatos e acontecimentos sociais, políticos e culturais do país, essas transformações foram superficiais e desarmônicas. A impressão que fica desses fatos, de um passado ainda muito recente, permite-nos refletir talvez sobre a responsabilidade e acuidade relegada às oligarquias nacionais, até os dias de hoje. Talvez, ali, naquele período de cem anos de muita efervescência, o país tenha perdido a chance de criar e consolidar uma nação verdadeiramente singular. A visão limitada e egoísta da elite brasileira que, historicamente, vem mantendo seus herdeiros no controle do poder político e econômico do país, não desejam ou ainda não conseguiram enxergar as nítidas potencialidades de uma nação, de um povo e de uma cultura tão ricas e exuberantes.

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