6- A Música Além da Música

Não nos parece justificável, em razão desta verdadeira “polifonia”, a crença até a pouco predominante de que a música indígena era “pobre” e desprovida de “variações melódicas”. Até os dias atuais há uma tendência em se considerar que a música brasileira tem muito pequena contribuição indígena, predominando a influência européia e africana. Isto talvez seja devido ao enorme contraste existente entre a cultura indígena e a civilização ocidental.

            A cultura indígena é caracterizada pela simplicidade. Diferentemente de nossos hábitos ocidentais, o índio não valoriza a posse, de objetos ou imóveis. Muitos acham que é necessário poder carregar consigo todos os seus pertences. Aparentemente, esta cultura é estendida ao campo da música, onde consideram desnecessária a utilização de muitas notas musicais, por exemplo. A música tem por princípio servir a comunidade, portanto não existe o conceito de virtuosismo, como ocorre na cultura ocidental. São muitas as diferenças.

Para se entender minimamente estas diferenças de referenciais, fundamentais para a compreensão do fenômeno “música” entre os índios, chamo a atenção para o processo de composição dos Xavantes:

Nesta tribo, descendente do grupo Jê, os compositores sonham com as músicas. Quando se trata de um adulto ele imediatamente comunica aos demais. No entanto, quando se trata de um adolescente (Wapté) é necessário que ele consiga aprovação dos anciãos para sua música. Ao sonhar com uma música, o Wapté acorda e passa a canta-la em voz baixa de forma a não acordar os demais. Canta sua canção centenas de vezes até não ter mais riscos de esquecer-se. Depois passa a ensaiar, adquirir firmeza na execução. O próximo estágio é reunir-se com seus colegas e ensinar-lhes sua canção. Passam então a ensaia-la em grupo, procurando para isto lugares escondidos dentro da mata de forma a manter a canção em segredo. Quando é chegado algum período de festas as músicas assim compostas e ensaiadas são apresentadas à tribo. Nesse momento é preciso que um índio velho aprove a canção, caso contrário ela deverá ser esquecida.

Não se trata de um festival, é antes um evento social no qual a tribo tem a oportunidade de aprender uma nova canção ou rejeitar. Assim assegura-se a inovação do repertório e, ao mesmo tempo, a preservação das raízes. Qualquer música que seja contrária às tradições será rejeitada.  Caso a música seja aprovada ela passa, imediatamente, a fazer parte do repertório da tribo. Passa a ser parte da identidade coletiva, não mais um sonho individual.

Neste processo é importante ressaltar que o “compositor” não apresenta nenhuma mágoa quando sua canção não é aprovada, trata-se antes de ter cumprido um papel social, muito mais do que qualquer orgulho estético. Por outro lado é surpreendente a ação do inconsciente na criação artística, de tal forma que a obra é fruto de uma cultura coletiva e deverá servir a esta mesma cultura que a originou. Para os Xavantes não há outra função para a música que não o estar a serviço da comunidade.

De certa forma a função social da música e a total inexistência de direitos de autoria (muito embora, até que tenham se esquecido naturalmente, sabem quem as compôs) são, aparentemente, marcas de todas as tribos indígenas brasileiras. Este mesmo espírito coletivo irá influenciar sobre-maneira a definição dos instrumentos por eles consagrados. Seus instrumentos musicais devem favorecer a socialização, sendo tocados sempre em conjunto. Devem também auxiliar a dança, mais: devem permitir que o índio toque e dance de forma integrada e, se possível, possa cantar ao mesmo tempo.

A integração da performance musical do índio Xavante, assim, é completa: ele com seus recursos corporais; ele com sua tribo e todos com a natureza da qual retiram seus sons. O ciclo é fechado com a lembrança dos ancestrais, presente no inconsciente do sonho e na aprovação dos anciãos, sem o que a música não se faz. 

Figura 9

Ao contrário da cultura européia, na dança indígena, o corpo sinaliza para a integração com a terra.

Tal proposta de integração parece fadada ao fracasso comercial, principalmente em nossa cultura consumista ocidentalizada, no entanto, no Brasil atual, algumas gravações conseguiram galgar um posto de destaque, agradando a um público cada vez maior. Quem sabe estas gravações estejam nos reeducando?

Talvez venham a comprovar que deve haver muito mais de “música” na “música”. Afinal, diante de tantas possibilidades, podemos falar apenas de notas, acordes e andamentos?

Obs. Contato para a aquisição de CDs de música indígena podem ser feitos pelo site:

http://www.funai.gov.br

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