
Este trabalho pretende analisar a articulação existente entre
história e inovação na performance da escola de samba Beija-Flor
de Nilópolis no desfile do ano de 2001.
A perspectiva de uma performance carnavalesco-histórica abordando a vinda
de uma sacerdotisa africana, como escrava para o Brasil. A passagem mística
pelo Oceano Atlântico e a sua obrigação de fundar e manter
seus conhecimentos mágicos na nova Terra relacionados com a releitura
dos elementos constitutivos de um desfile carnavalesco.
Utilizei como fonte da pesquisa um vídeo dos desfiles da Beija-Flor de
Nilópolis no ano de 2001, com a interação do público
e a sinopse do enredo para a descrição do desfile. Para a análise
da performance utilizei o artigo inédito, "Manhã, tão
Linda Manhã" do sociólogo Edson Farias sobre o desfile de
2001. Textos utilizados no curso "Inventando o Brasil" do Profº
Dr. Zeca Ligiéro sobre performance, além de fotos e reportagens
de jornais sobre o desfile da Beija-Flor de Nilópolis do ano de 2001,
também serviram como fonte.
A escolha do tema deve-se ao fato de criar a possibilidade de unir o campo de
estudo, performance, a um estudo histórico do século XIX, matriz
do curso, e também, a um estudo cultural, o desfile das escolas de samba
do Rio de Janeiro. Enfim, afirmar o caráter multidisciplinar da performance.
Dentre as performances processionais afro-brasileiras, o desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro é o que tem mais repercussão tanto dentro do país, quanto no exterior. A formação das escolas de samba como atualmente são conhecidas remontam a segunda década do século XX. "O ano de 1926 é, segundo Marília T. Barbosa e Lygia Santos, o nascimento das grandes escolas, que começaria com a fundação do conjunto Oswaldo Cruz, que mais tarde se transformaria em "Vai como pode" e finalmente Portela. Mas foi em 1928, que bloco "Deixa Falar" se intitulou "escola de samba", levando a fama de ser a primeira escola de samba. Participavam de sua fundação os bambas do Estácio, entre eles Ismael Silva, Baiaco, Brancura, Juvenal Lopes e Bide." Inicialmente o conjunto era formado por de 70 a 100 integrantes ocupando os vários segmentos da escola, tais como o abre alas, que traz o símbolo da escola, a comissão de frente, o mestre sala e a porta bandeira, as baianas e a bateria, além do "corpo da escola", brincantes travestidos em fantasias relacionadas ao enredo. Nos anos 60 e 70 do século passado ocorre o fenômeno de agigantamento das escolas. Elas passam a ocupar um espaço além da sua comunidade de origem tornando-se mega escolas. O espetáculo se redimensiona atingindo um público superior aos espectadores que vão assistir o desfile na passarela do samba. Através dos meios de comunicação de massa como rádio e televisão e agora no século XXI, pela internet o mega espetáculo afro-brasileiro atinge a todos os continentes criando admiradores e aficionados em todas as partes do mundo, ao mesmo tempo que mantém a tradição com os representantes da comunidade ocupando seus espaços.
"Na presença desta magia, turistas japoneses se transvestem de Carmen Miranda, alemães sambam como "pigmeus do bulevar", enquanto representantes das comunidades negras desenvolvem suas performances na bateria, na ala das baianas e nas das passistas, como porta-bandeiras e mestres-salas, garantindo a essência afro-brasileira da performance do samba" O desfile vai mudando paulatinamente, porém sua base permanece. "A estrutura da performance processional criada pelos mestres fundadores das escolas, permanece viva no carnaval mega do começo do novo milênio. O batuque-dança-canto, essa tríade poderosa, irradia e contagia a todos, entre dançarinos e espectadores que brincam, todos em atitude indistinta, como se fossem parte de um todo."
"Ao escolher a história de Agotime, a Beija Flor objetiva primordialmente processar a um resgate de importante parcela da história brasileira, já abordada em estudos, pesquisas, livros e ensaios de historiadores brasileiros, franceses e alemães, mas que ainda não foi incluída na História Oficial do Brasil" (Sinopse do enredo de 2001).
No ano de 2001 a Beija-Flor de Nilópolis entrou na Passarela do Samba
com o enredo "A Saga de Agotime - Maria Mineira Naê" . Baseado
em pesquisa desenvolvida pela Comissão de Carnaval a escola se propôs
a resgatar para a história do Brasil a trajetória de uma sacerdotisa
africana que cruzou o atlântico num Navio Negreiro e aqui em solo brasileiro
restaurou o culto ao voduns, da qual ela trazia ancestralmente os conhecimentos.
O enredo conseguiu unir de forma inovadora história e tradição.
"O tema-enredo prenuncia a petulância. De início, cabe dizer:
a escolha de uma narrativa mítica, envolvida por uma atmosfera mística,
permitiu fundir história com o sobrenatural, algo adequado ao fundo sócio-antropológico
primado." Elementos expressivos de outras artes e campos de estudo foram
relidos e adaptados a performance processional beijaflorina afirmando seu caráter
tanto multidimensional quanto multidisciplinar. "O caráter épico
e dramatúrgico da narrativa já sublinha o tom do espetáculo.
Ao mesmo tempo, desloca o viés ideológico sobre os africanos escravizados
na América. Não se tratou de contar as agruras de mais uma negra,
ou folclorizando-a (como se fez com Chica da Silva), ao ser trasladada ao Brasil,
pelas vicissitudes da expansão mercantil européia. Igualmente
não se quis respaldar a cantilena de uma África Idílica,
pré-diáspora (no estilo do Ilê Ayê ou mesmo do Olodum).
A vertente deu primazia à formação de uma tradição
africana no Novo Mundo, para a qual conluíram episódios e forças
que se afinaram numa constelação histórica que fez da escravidão
o destino civilizatório de milhões de africanos e suas descendências.
E imprimiu ao devir dessa gente, as marcas paradoxais da dor conubiada com o
gesto largo da generosidade alegre, festiva, carnavalesca."
Na apresentação performática, o desfile, a escola ousou
e inovou, permitindo-se um tratamento teatral-operístico, refazendo as
possibilidades expressivas da performance carnavalesca. Utilizando elementos
tradicionais dos desfiles de escolas de samba, ressemantizou-os. "Certamente,
enredo (o tema central), alas fantasiadas, comissão de frente, bateria,
baianas, passistas, alegorias, destaques de luxo, enfim, peças cuja sintaxe
faculta a semântica do desfile-espetáculo estavam ali. A questão
era: e daí? Porque seu desfile pôs em xeque e suspendeu nossas
certezas, as fez prisioneiras daquele conjunto impactante, debruado sobre a
pista. Obrigando-nos a ir, nos olhos fisgados pelo que ali visavam, refazer
nossas expectativas a respeito do que seja escola de samba.."
"Olha
a Beija-Flor aí, gente... chora cavaco..." Neguinho da Beija-Flor
intérprete da escola, solta sua voz e inflama os componentes. A bateria
começa a marcar e a cada virada contagia a todos que já não
conseguem ficar parados. Estabelece-se a tríade fundamental do espetáculo
e de seus artistas anônimos: batuque, canto e dança. Inicia-se
o último desfile da noite de domingo. Já é madrugada de
segunda-feira. A passarela do samba continua cheia, pois é a Beija-Flor
de Nilópolis que fecha o desfile, logo é espetáculo na
certa.
O
sociólogo Edson Farias em seu texto "Manhã tão linda
manhã" descreve os principais momentos do desfile da azul e branco
de Nilópolis, que aqui transcrevemos.
"A comissão de frente. Catorze moças circundando uma outra,
a pantera - símbolo totêmico do vodum daometano, cujo ritual era
estilizado nos movimentos coreográficos e nas indumentárias dourado
e preto. De repente, as demais cobrem a felina e ela metamorfoseia-se em Agotime,
a heroína da trama."
'Logo
seguem pretas velhas, envergadas, cachimbo a boca e jogando búzios sobre
o asfalto. Como rapsodas, sinalizavam à tradição oral das
culturas africanas trazidas ao Brasil pelas mulheres da etnia mina gêgê,
as que repuseram o culto dos voduns entre nós e deixavam patente o teor
místico-narrativo do enredo."
"Com o
fito de encenar o momento da viagem até o Novo Mundo, uma ala composta
de 400 negros vestidos em palha e sisal desempenhava movimentos conceituados
em torno da conexão semântica entre mar e êxodo. As referências
ao livro de Pierre Verger - Fluxo e Refluxo - e à cena do exílio
na ópera Nabucodonossor, de Verdi, foram inspiradoras. Era impressionante
aquele cortejo - aliás, eis o nome desse setor dramático do desfile
- undante, tendo por cume um carro alegórico fundindo um navio negreiro
com o trono semovente de uma pantera. A proposta do enredo estava sintetizada
na congruência entre o perfil vertical da nave alegórica com aquela
lhe escudante massa humana horizontalmente coreografada. No corpo plástico
do coro orfeônico, a apresentação esteticamente estilizada
da mão-de-obra africana para a economia colonial; futuro e passado; destinação
e abertura; a resignação escrava e a invenção de
uma tradição negro-africana na América - da qual as escolas
de samba são um dos artefatos, subsídio do apelo à estima,
à reivindicação do reconhecimento e inclusão/ categorização
na universalidade humana, seminando identidades coletivas hoje louvadas como
fulcros libertários de prazer e à realização da
paz catártica, por exemplo."
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"O rodopio das burrinhas do bumba-meu-boi e da
saia das baianinhas vestindo Mãe Catirina, personagem do mesmo
auto maranhanse, encerrou a apresentação, como se um tapete
bordado em verde e lilás."
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"Ao
final, meu rosto estava úmido e untoso; lágrimas sobre o suor
engordurado de uma feição álacre. E sem perceber, na mesma
corrente fraterna, enunciava: "É campeã!". Mantive a
bandeirola hastiada, ereta para ungir aquela massa que ia sumindo no horizonte
enquanto se dissolvia o ressoar da saga de Agotime."
"Queria que o tempo dobrasse sobre si e retornasse - queria
viver de novo aquela experiência. Mas o tempo havia cumprido a giratória
sobre o seu eixo: a falta, a ausência, abriu-nos para sonhar outra vez
e, talvez, fabular outra história."
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"A
ALA UNI-RIO foi criada em outubro de 1988, a partir de convite do carnavalesco
Joãozinho Trinta. Participou pela primeira vez no desfile mais significativo
e marcante dos últimos anos, o Carnaval dos Mendigos - Ratos e Urubus
Larguem Minha Fantasia. De lá pra cá, muitas plumas, lantejoulas
e idéias desfilaram pela Sapucaí e sempre a Beija-Flor e suas
alas inovando. A ALA UNI-RIO, que no seu início era formada por estudantes
da Escola de Teatro da Universidade do Rio de Janeiro -Uni-Rio- tem hoje como
objetivo e diferencial, unir o Rio. Unir o Rio e seus moradores, com sua principal
festa popular, a pessoas de outras cidades, estados e nacionalidades. Um grupo
grande que se encontra no carnaval do Rio para expressar suas semelhanças
e brilhar no maior espetáculo da Terra." (Texto de divulgação
da Ala Uni-Rio)

Fundada em 1988 a Ala Uni-Rio, organizada por André Luiz Porfiro foi criada com o intuito de desenvolver no desfile uma performance teatral, apoiando a idéia do enredo. No carnaval de 2001 desfilou com a fantasia "Máscaras da Feitiçaria".

FARIAS, Edson. Manhã, tão Linda Manhã. Artigo inédito,
2001.
FRIGÉRIO, Alejandro. Artes Negras: Uma perspectiva afrocêntrica,
Estudos Afro- asiáticos, n. 23, dezembro de 1992, p. 175-189.
LIGIÉRO, Zeca. A Perfomance afro-ameríndia. Texto apresentado
no I Encontro de Performance e Política das Américas, 2000.
LIGIÉRO, Zeca. Performances Processionais Afro-brasileiras. Texto
utilizado no Curso Inventando o Brasil da Universidade do Rio de Janeiro - Uni-Rio,
2001.
RODRIGUES, Jaime. Festa na Chegada: o tráfico e o mercado de escravos
no Rio de Janeiro, Negras Imagens, São Paulo: Editora da Universidade
de São Paulo, 1996, 93-115.
SINOPSE GERAL DO ENREDO A SAGA DE AGOTIME MARIA MINEIRA NAÊ. Comissão
de Carnaval da Beija-Flor de Nilópolis, 2000.
TEXTO DE DIVULGAÇÃO DA ALA UNI-RIO. Ala Uni-Rio da Beija-Flor
de Nilópolis, 2000.
www.grupointernet.com.br/beija-flor
www.liesa.com.br
www.samba.com.br
www.love-rio.com/samba
www.rio.rj.gov.br/riotur/rioportu/carnaval
UNIVERSIDADE DO RIO DE JANEIRO
CENTRO DE LETRAS E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEATRO
CURSO: INVENTANDO O BRASIL: IDENTIDADE, MEMÓRIA E PERFORMANCE
PROFESSORES: ZECA LIGIÉRO, MARTHA ULHÔA E GERALDO PRADO
ALUNO: ANDRÉ LUIZ PORFIRO
O DESFILE DA BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS NO ANO DE 2001. Uma Performance
carnavalesco-histórica
NOVEMBRO - 2001