
Pesquisa desenvolvida por José Roberto Lança, para o curso de
Performances Afro-Ameríndias do Programa de Pós-Graduação
- Mestrado em Teatro da Unuversidade do Rio de Janeiro.
Orientação do professor Zeca Ligiéro.

Figura 01
A congada da Lapa é uma manifestação cultural típica do Paraná e está relacionada ao culto à São Benedito, patrono espiritual da comunidade negra Lapeana. Essa festa é um pequeno exemplo da diversidade de culturas existentes no Paraná. O Sul do Brasil é geralmente, e erroneamente, associado à colonização agrícola deste século, especialmente à ligada a vinda de imigrantes europeus. Este pequeno estudo pretende dar conta de mostrar a riqueza cultural do Paraná pelo viés da cultura negra, acreditando ser esta performance uma bela demonstração de como pode haver construção cultural que seja multi-facetada pela associação de linguagens e não hegemônica decorrente da imposição oficial.

A cidade da Lapa está localizada nos Campos Gerais do Paraná.
Sua história, da maneira que se conhece oficialmente, começa com
os tropeiros oriundos da Serra do Mar em direção ao interior do
estado e a Sorocaba em São Paulo. A cidade foi chamada inicialmente de
Campos de Vera em homenagem ao avô do governador da Província do
Rio da Prata - D. Alvar Nuñes Cabeza de Vaca, indicado para tomar conta
das terras em nome do rei de Espanha. A cidade origina-se dos acampamentos de
tropeiros por volta de 1540, passando à condição de povoado
a partir do século XVII. A partir da construção da igreja
de Santo Antônio em 1769 a cidade passará a se chamar Santo Antônio
da Lapa.
No século XIX a cidade da Lapa é considerada um centro de comércio
importante, e na esteira do desenvolvimento a cidade recebe inúmeras
famílias "ilustres", que trazem junto seus agregados, entre
eles os antepassados do Seu Miguel Ferreira, atual Rei Congo.

figura 03
Neste período a cidade foi palco de algumas das batalhas internas mais importantes da história brasileira. A primeira delas, conhecida como Guerra do Contestado, é ainda pouco estudada no Brasil, mas trata-se da primeira grande revolução agrária que se tem notícia. A batalha parte de agricultores liderados por um "monge" chamado José Maria (na verdade ele não era padre e chamava-se Miguel Lucena). Contrários a política agrária do governo federal, que cedeu ao grupo que construía a estrada de ferro São Paulo/ Rio Grande o direito de vender à estrangeiros a terra originalmente pertencente a eles, o grupo entra em conflito contra as forças oficiais. Esta guerra na qual morreram aproximadamente vinte e cinco mil pessoas, guarda algumas semelhanças com a Guerra de Canudos, como o misticismo e o desejo da volta da monarquia absolutista. A Segunda grande batalha encampada na cidade ficou conhecida como O Cerco da Lapa. Trata-se da resistência das forças legalistas contra os revolucionários federalistas lideradas por Gumercindo Saraiva. Nesta batalha tomou parte principalmente o povo (os pobres prioritariamente) da Lapa somados aos militares republicanos.
Este é o contexto da cidade da Lapa no século XIX - guerras,
misticismo e desenvolvimento econômico, tendo como ponto culminante a
visita de D. Pedro II em 1880 acompanhado da imperatriz e de Conselheiros entre
eles o Conde D'Eu.
Atualmente a cidade tem 41.777 habitantes e sua principal atividade econômica
é a agricultura.
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figura 04
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figura 05
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A despeito da construção da Igreja de Santo Antônio e da instituição do santo como padroeiro, o culto a ordens paralelas sempre foi fértil na cidade. A crença em mitos como o Monge da Gruta e o culto a São Benedito transgridem a determinação oficial e criam movimentos culturais de grande intensidade popular. O primeiro cria o maior complexo turístico local e o segundo dá origem à construção do santuário à São Benedito - maior templo religioso da cidade - e às organizações em homenagem à São Benedito, entre elas a criação da Irmandade de São Benedito e o grupo de Congada.

Figura 06
A congada é um misto de festa religiosa, cívica e profana.
Religiosa porque de fato é uma homenagem à São Benedito,
realizada no ciclo natalino na qual só é permitida a participação
de devotos e é realizada com o consentimento e a benção
do padre. Cívica porque prevê na sua estrutura dramática
a resolução de um imbróglio diplomático entre dois
reinados africanos. Profana porque é realizada fora da igreja, permeada
por lutas coreográficas, cantos, declamações e música
percussiva.
figura 07
O ponto de partida de uma congada é o "caderno". Trata-se de um manuscrito passado de geração para geração desde 1935 - antes disso as evoluções e os textos eram passados por meio da tradição oral - e serve como roteiro de uma congada. Foi "herdado" por Miguel Ferreira, atual Rei Congo e serve para resolver querelas quanto ao desenvolvimento estrutural das evoluções ou de textos declamatórios de algum congo.
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figura 08
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figura 09
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O enredo de uma congada da conta de um mal entendido entre o Rei do Congo e a embaixada que representa a Rainha Ginga de Angola a respeito da primazia sobre a homenagem à São Benedito. A versão de Seu Miguel descreve o mal entendido relacionado a uma disputa pelo amor da Rainha entre o embaixador e o Rei. As evoluções são divididas em 12 partes: DESFILE INICIAL; FILA DO TRONO; DANÇA DOS FIDALGOS; A CHEGADA DA EMBAIXADA DA RAINHA DE ANGOLA; ENTRADA DO EMBAIXADOR; DECLARAÇÃO DE GUERRA; SEGUNDA GUERRA - LUTA ENTRE FIDALGOS DO CONGO E GENTE DE ANGOLA - PRISÃO DO EMBAIXADOR; CHEGADA DOS PRISIONEIROS À CORTE DO CONGO; PERDÃO REAL; ENTREGA DA EMBAIXADA; DESPEDIDA DO EMBAIXADOR DE ANGOLA; DESFILE FINAL DE CONFRATERNIZAÇÃO.
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Figura 10
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Figura 11
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Os Congos - assim são chamados os participantes da congada - são escolhidos entre os membros da comunidade negra da cidade da Lapa, de acordo com o nível de interesse e grau de parentesco com a família do Rei. É restrito a descendentes de africanos, não é permitida a participação de outras etnias, nem a presença de não devotos de São Benedito. Os papéis são distribuídos de acordo com o desenvolvimento do congo no grupo, obedecendo a uma evolução proporcional a hierarquia da congaga - da corte para os súditos: Rei, Rainha, Embaixador, Fidalgos, Duque, Cacique, Secretário, Guias, Conguinhos e músicos.
Figura 12
A congada ao longo do tempo sempre foi custeada pelo grupo dominante - em relação aos africanos e seus descendentes. Primeiramente pelos senhores da Casa Grande e atualmente - de maneira modesta, irregular e oportunista - pelo Estado. Na cidade da Lapa a congada é feita comunitariamente com alguma ajuda eventual do município. No ano desta pesquisa, de acordo com Miguel Ferreira, não haveria festa em virtude da falta de recursos para a reforma das roupas e despesas com transporte do material.
ALMEIDA, Claudio Alfredo. Levantamentos e Danças e Folguedos do Paraná.
Boletim da Comissão Paranaense de Folclore, 1980.
FERNANDES, José loureiro. Cadernos de Folclore - Congadas Paranaenses.
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FREITAS, Fátima. Congada. Secretaria da Cultura do Paraná,1997
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Leitura,2000.
GIARDELLI, Élsie da Costa. Ternos de Congos de Atibaia. RJ, MEC-Sec-
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MOCELLIN, Renato. Os Guerrilheiros do Contestado. SP, Ed. Do Brasil, 1989.
NEVES, Guilherme Santos. Cadernos de Folclore - Bandas de Congos. FUNARTE.
1980.
JORNAL GAZETA DO POVO. Popular or not Popular Caderno G, 20/02/2000,
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JORNAL GAZETA DO POVO. Potiguaras Resgatam Danças Antigas. 15/05/94,
Pag. 03.
SITE http://www.paranacidade.org.br
SITE http://www.pr.gov.br/seec

Entrevista realizada em 18 de novembro de 2001 por José Roberto Lança,
Cristina Herrera e Janine Malanski (fotos) com o Sr. Miguel Ferreira, morador
da cidade da Lapa/PR, herdeiro como Rei Congo da Congada.
Como o senhor se chama ?
Eu sou Ferreira Fagundes, só que Fagundes por parte de mãe não se assina o Fagundes, só o Ferreira, daí não pegou o Fagundes, só por parte de pai.
Como é que a sua família chegou aqui na cidade da Lapa?
Como chegou?
É, porque a gente sempre vem de algum lugar.
Eu não sei como a minha família chegou, só sei dizer que eu nasci aqui e permaneço aqui, saí uns tempinho assim, mas só que eu saí e sempre tava ali na Lapa, né ? Parei uns tempos em São Mateus ali. Eu nasci lá no Monge.
O que é o Monge?
O Monge? O ponto turístico da Lapa.
Da gruta?
É a gruta, lá em cima. Então eu nasci lá. E nunca saí aqui da Lapa. E a minha família, a minha mãe eu não sei se ela nasceu aqui ou não, eu só sei dizer que ela casou aqui e daí ela não foi criada também pelos pais. Ela morou lá praqueles lado lá, Martins Dias, Tomás, aqueles lado de Santa Catarina lá do outro lado lá. Só sei que o meu pai e o meu avô eu não sei porque meu avô aqui, aqui todos o que a gente tem aqui, ele tinha um terreno o meu avô era um homem muito devoto, sabe ? Ele tinha uma capelinha aqui de São João, ele fazia novena. Isso aqui era um terreno bem grande então ele tinha uma porção de casa e daí tinha uma capela.
Aqui mesmo?
Aqui mesmo onde é a minha casa era a capela. E daí o meu avô trabalhava na prefeitura, naqueles tempo puxava carga e despois que ficou mais velho trabalhava com essas coisa assim, puxava lixo, ele tinha um carro grande. O meu avô não sei se ele nasceu aqui ou não, uns falam que ele veio aqui do Fecho, tem um lugarejinho aqui pra frente perto da Mariental . Então eles acham que o meu avô veio de lá mas a gente não sabe bem com certeza se é o vô ou a vó, a minha vó era Barbosa, eu não cheguei a conhecer ela acho que foi o vô ou a Vó.
Quando ele veio para cá ele veio pra trabalhar na lavoura ou já veio direto trabalhar na prefeitura?
Eu não sei porque era muito pequeno quando ele morreu eu devia ter uns onze anos mais ou menos.
Foi em que ano mais ou menos?
Que o meu avô é morto?
É.
Ah, faz uns 30 anos, mais do que 30.
O senhor está com quantos anos?
Tô com 45. É, eu tinha 6 anos quando eu entrei na Congada e daí uns tempo ele já faleceu.
O seu avô era quem trabalhava com a Congada, fazia a Congada, ou não?
É, isso aí já vem de avô, de bizavô e foi passando, né?
Mas veio da onde essa Congada?
A Congada, uma parte assim diz que veio da África, né? Tem uns verso uma rima ali que é africana, né? Mas ela foi feita em homenagem e louvor a São Benedito, uma festa que teve aqui e daí eles se reuniram e queriam fazer uma homenagem pra São Benedito e aí formaram esse grupo aí e formou-se a Congada e então portanto que ela é homenageado São Benedito. É um folclore mas não foi... o folclore ficou mas não assim então eles fizeram aquilo como uma homenagem e portanto eles nem roupa não tinham não, cada um doava uma coisa, vamos supor a senhora dava uma coisa, o senhor doava outra, um dava um calçado, outro dava uma jóia e primeiro... hoje a gente não usa porque não existe mais, mas as apresentação primeiro que nem o Príncipe, o Rei, essas parte mais... que tem um carguinho mais assim na Congada, então tudo o que eles usavam era negócio de ouro, era tudo emprestado mas não era bijuteria era coisa de emprestado pra eles vamos supor, que a maioria diz que era escravo daí cada senhor emprestava uma família emprestava uma família ía lá e emprestava uma parte de jóia e depois com o tempo eles foram se organizando mais e emprestava a espada de um a roupa de outro e foram formando. Só que hoje nós não temo ouro mas não emprestamo.
É seu avô quem coordenava a Congada? O seu avô, seu bizavô? Quem é que organizava? Por que o senhor faz Congada hoje?
Por que eu faço? Porque o livro veio passado a ficar na minha mão. Que a gente tem um documento, livro da história escrito, né, da dança, de tudo como aconteceu. Então isso aí daí eles vão passando, né, daí tem um escolhido e daí eles vão escolhendo e daí o livro vai passando, o caderno né, de mão em mão. Eu tenho até o documento aí, é escrito né à mão, então eles escolhem uma pessoa no fim, vamos supor, ele fez parte quando era pequeno daí ele vai mudando, hoje ele entrou como Conguinho daí vai subindo, amanhã ele é Cacique e depois de amanhã ele vai passar pra Secretário e depois vai passar pra Príncipe, daqui a pouco tá com a turma de baixo vai ser o Embaixador. Que daí quando ele vai subindo assim de cargo ele já vai ficando mais antigo então vai se tornando uma pessoa mais... ele vai aprendendo mais o que existe no grupo, isso é a mesma coisa que um político ou um soldado, ele vai subindo e daí por intermédio daquela...aquele tempo que ele tá ali se o Rei hoje ele vai ficar doente ou não qué mais ou não pode mais daí vai dizer " ó, você vai ser o que vai " mas daí ele vai ter de escolher uma pessoa que goste, que seja responsável e que venha, bem dizer a maioria de isso aqui vem de família.
E qual é o seu cargo quando tem a Congada?
O meu cargo é o Rei.
É o Rei quem fica com o livro?
O Rei que fica com o livro.
E um dia o senhor vai passar esse livro pra outro menino, uma outra pessoa ?
É
(Mostro as fotos de Marcos Campos)
Quem são estas pessoas ? O senhor deve conhecer.
Essas foto aqui já são das nossa. Esse menino aqui é meu sobrinho.
Como ele se chama ?
Marco. Eu já chamo esse menino, só um segundinho. Esse menino aqui hoje tá mais grandinho um pouquinho. Essas foto aqui é mais ou menos 98, 99 que foi tirada aqui. Esse rapaz aqui é o Adilson, esse aqui é Fidalgo. Esse menino ele vem a ser Conguinho, ele tá só em volta dos tambor.
Conguinho é o início ?
É o início, isso, faz parte de baixo.
O senhor entrou com 6 anos como Conguinho ?
Não, eu entrei como Reizinho. Esse aqui é o meu irmão
que mora aqui do lado que é uma peça importante na Congada, é
o Embaixador. É esse aqui que comanda essa parte, esses menino aqui,
os Conguinhos. Daí ele tem três pessoa grande, três mais
adulto com ele, tem três Cacique que acompanha ele, esse é o Nei
Manoel.
O Embaixador tem a parte dele e eu tenho a minha parte, vamos supor, eu tenho
os Fidalgo e ele tem os Conguinho que são os soldado dele e eu tenho
os meu. Então ele vem de um reino e eu sou de outro, cada um tem um reinado.
Ele entra de um lado e eu sou de outro e daí acontecem as briga. Ele
entra no meu canto lá, querendo entrar na minha festa, querendo me tomar
a Rainha da ginga , que a Rainha não é de nenhum. Só faz
parte uma mulher.
Então a disputa é para ver quem fica com a rainha ?
É. Ele vem, ele quer levar a Rainha, porque a Rainha eles acham que era deles, né ? Daí ela vem e fica com o Rei e daí dá duas briga entre, na apresentação, dá duas guerra. Os soldado do Embaixador e os soldado do Rei. Só que daí...
Eu tava pensando errado então. Eu pensava que o Embaixador era da Rainha Ginga e vinha na verdade pra também prestar uma homenagem a São Benedito e aí eles brigavam pela primazia de quem fazia... de quem é que tinha mais direito de fazer a homenagem. Então eu tava errado.
Homenagem não. A briga maior era por causa da Rainha, que ele vem , daí ele fica espiando a festa...Ele vem, desafia o Rei, obriga uma batalha né, numa parte ele faz um juramento lá pra cutuca o Rei mas daí no final acaba tudo em paz, daí fazem as pazes no final da apresentação.
Sempre acaba em paz, né ? Porque daí tudo mundo vai fazer as homenagens para São Benedito.
Fazem as homenagem e daí ele vai embora e termina tudo na paz.
As duas brigas são por causa da Rainha ?
Sim, as brigas, sempre a disputa é por causa da Rainha da Ginga. (Voltando a olhar as fotos) Esse daqui é um rapaz que trabalhava na prefeitura, já é aposentado, é o Secretário, se chama Benedito ele.
O Secretário faz parte da corte do Rei. O Embaixador tem uma corte ?
Tem. Ele tem o que chamam de Cacique e daí esses três é
a mesma coisa que o Rei, o Rei tem os Secretários que são o braço
forte dele.
Tem um menino tocando um instrumento. O senhor sabe quem tá tocando, ou não ?
Não dá pra ver o rosto dele.
Como é o nome do instrumento ? É atabaque ?
É tambor. O atabaque é diferente, ele é mais fininho e se bate em cima, não se bate com baqueta.
Não usa atabaque também ?
Não, na verdade é três tambor, agora nós temo dois só, tá lá em cima guardado. A gente usa dois tambor, violão, gaita de oito soco, rabeca não usamo porque não tem quem toque. A rabeca não existe, não tem... Antigamente quando tinha os mais antigo que sabia tocar, hoje acho que isso aí ninguém sabe tocar rabeca.
Violão, tambor, gaita...
É, uma gaitinha de oito soco, aquela bem marronchuquinha, bem pequenininha.
Eu queria voltar um pouco na história. A gente falou do menino aí eu lembrei da foto, porque eu tava muito curioso pra saber quem era o menino. Desde que eu peguei essa foto na mão eu tava muito curioso porque ele tá tão legal na foto e quando eu peguei o material não tinha quem é e é importante saber quem é.
É sobrinho meu.
Porque ele tá levando a bandeira de São Benedito, né ?
A bandeira ? Daí esse aí é o porta-bandeira que dança, por sinal ele dança no meio. Essa bandeira aqui ele tá do lado. Daí tem o porta-bandeira que a gente chama de Porta-Estandarte que dança no meio da ala assim é o que carrega a bandeira, também é meu sobrinho também. Quase a maioria é...
É parente.
Ô Marquinho ! Ô Marco ! Ô Marquinho, vem aqui um pouquinho. Tá ali na frente, tá sentado. (chega Marco) Entra aí.
Tudo bom ? Eu queria saber se você conhecia essa figura aqui. (Mostro a foto para Marco, que sorri)
(Para Marco) Quantos anos você tem ?
Treze.
E ali na foto você tinha...
Dez.
Marco do quê ?
Marco Ferreira.
(Novamente para seu Miguel) Voltando um pouco no assunto... quando o senhor começou, como era ? Sempre tinha representações quando o senhor era pequeno ? Seu avô era o Rei ?
Quando era o meu avô a gente se apresentava meio direto, nas festas de São Benedito... O dia que era festejado o Benedito era dia 26 de dezembro,nunca mudava, hoje tá mudado, hoje faz dia 30, faz dia 15, faz o dia que o padre quer. Só que o dia mesmo era 26 e nunca mudava esse dia 26, sempre era no dia 26 e nunca mudava, tanto fazia cair numa segunda, numa terça, numa quarta. Hoje, a hora que o padre achar que deve fazer que caia num domingo ele pode ser dia 30... esse ano vai ser dia 16 de dezembro...dia primeiro de ano...
Vocês vão participar dia 16 ?
Nós não vamo fazer.
Não vão ?
(...)
Nós tamo fazendo umas mudança nos personagem. Que nem, esse
piá aqui era Reizinho, agora é Cacique, ele já vai aprender
outros lados e daí tem os pequeno que tão moço já
passaram pra parte de cima, vão ser Fidalgo. Daí até eles
aprender tudo os passo, nós tivemo só três ensaio com esses
mais novo, né ?
Então não dá mais tempo ?
Daí não vai, a gente não... não vamo querer ir lá passar vergonha, então temo que acertar tudo, porque sempre a apresentação, quando a gente faz, tá todo mundo ensaiadinho, não pode ter erro, né ? E daí pegar ansim pegar fazer uma coisa de imediato de uma hora para outra não consegue, né ?
Então esse ano não vai ter ?
Eu acho que não.
É o primeiro ano que não vai ter ou já aconteceu de em outros anos também...
Não, nós tivemo parado, ela ficou desativada um tempão. Ficou acho que uns dezessete ano. O que era o Rei, o Quintino, aconteceu uns negócio aí com ele, teve uns crime, uns negócio né ? Daí a gente... (ouve-se um estrondo) ôpa.
Falou dele... (risos)
Já começou a cair as coisa. Daí nós demo umas tirada fora e daí parou. Que todo mundo aqui fazia parte da Congada, quando a gente se retirou as coisa não conseguia mais, aí a gente retomou de vorta a coisa, aí começou a funcionar. Aí quando a família saiu, tem esse que morava aqui que era o meu irmão mais velho que era o Príncipe, também se retirou, hoje é morto faz 25 ano. Também as coisa funcionava porque ele era uma pessoa dedicada daí ele também se retirou-se daí deu aquela acabada daí não pôde, ficou 17 anos parada, depois que foi reativada.
Dezessete anos ? Daí quem resolveu reativar ? Foi o senhor quem encabeçou ?
A gente deu um começo e daí foi lutando porque na verdade hoje, não é querer eu me gabar ou coisa, mas primeiro eles corriam muito atrás das coisa, hoje nós não corremo mais, que nem eles corriam lá, iam pedir pros museu lá, pro quartel, pra todo mundo lá que a gente saía lá nesses pessoa mais antiga que tinha, os padre que tinham uns facaozinho que dava pra contar, hoje nós temo mais ou menos as nossas coisa tá tudo em dia, se precisar fazer uma apresentação... Eu queria fazer mas daí o outro meu irmão ele também eles não vão concordar muito. Nós ía fazer uma co'a roupa que nós temo aqui mesmo, com essas dos Conguinho. Eu tenho umas meio curta mas daí também entrando os menino menor pode ser que dê certo, né ? mas daí também eles não querem. Que seje no padrão que a gente tinha, né, que era tinha uma seda amassada e daí essas que nós tamo usando que nem dos piá ali é um cetim e isso aí dá uma lavada começa a encoier tudo, encoie tudo as blusa, as camisa, as camisola, tecido muito ruim que foi arranjado a vez passada. Agora, os Fidalgo em geral fazem uma parte melhor, não é aquela seda de antigamente mas já não precisou comprar.
Essa roupa que o senhor tá falando são essas que a gente vê nas fotos ?
Daqui a pouco eu vou mostrar pra você.
Então o seu problema hoje está nas roupas. Mas agora também não dá tempo de ensaiar.
A gente não vai fazer mais por causa que tá muito encima.
E o santo não fica brabo não, de não fazer a festa pro santo, ele não fica nervoso não ?
Não sei porque o santo não fica por causa que eu faço parte da Irmandade também, eu não faço parte só da Congada. Eu sempre vou de um jeito ou de outro eu vou lá no São Benedito, são duas parte, a parte da Irmandade e da Congada.
Por que escolheram São Benedito para homenagear por ocasião da Congada e não outro santo ?
Eu não sei, porque o padroeiro é Santo Antônio aqui na Lapa, mas só que a homenagem... por causa que existe muita gente devota, né ? Então eu acho que eles tinham que ter uma devoção muito forte e decerto eram muito ligado, apegado a São Benedito.
Isso aconteceu há muito tempo atrás ?
É, no tempo lá que eles fizeram decerto fizeram homenagem a São Benedito só por causa que devia de ter algum que devia ser muito católico, muita devoção a São Benedito. Então quem sabe se por causa que aqui, não sei, no dia da festa a gente vê, vem muita gente de muitos local que faz promessa, tudo, então vem pagar a promessa aqui.
Participa como Conguinho ?
Não, ele paga promessa na hora da procissão.
Quando vai chegando a comitiva do Rei ?
Não, daí sem a Congada.
Durante a festa, independente da Congada ?
Depois da festa de tarde tem a novena de São Benedito e depois tem a procissão. Então eu faço parte de uma parte que puxa a procissão, eu faço parte da Bandeira, eu sou o Capitão da Bandeira de São Benedito, a gente puxa. Então já aconteceu várias vezes, vários anos que também veio daquele tempo, nessa parte ali sempre uma ou duas pessoa que sempre gostam de ajudar a carregar mais pegada assim na bandeira. Que a bandeira ela tem um formato assim que ela solta duas ponta assim, ela se a gente arma ela e daí tem uma ponta aqui e outra aqui e sempre a gente gostou de carregar com duas criança, tanto faz um menino ou dois menino e uma menina, vai um aqui e outro aqui e a gente vai no meio mas sempre entre esses dois menino daí sempre tem mais duas, três pessoa que vão, a gente no dia da procissão escolhe dois menino que façam parte da Congada pra eles ajudar a carregar a bandeira, né ? Que a bandeira é meia pesada e daí é bom que assim ajuda a segurar mas sempre no meio desses menino sempre aparece um ou dois adulto, é mulher ou é homem, tudo que ajuda e daí tão pagando promessa.
Mesmo que não tenha Congada tem essa festa ?
A festa tem, a procissão sempre tem.
A Irmandade de São Benedito a que o senhor disse que faz parte, o que é essa Irmandade ? É quem faz a festa ou não tem nada a ver, é outra coisa ?
É também homenageado São Benedito na Irmandade. A Irmandade foi formada assim que eu não sei se existia já uma condição antes ou não da Igreja. Que hoje a Irmandade também tá meia de fora, que hoje quem comanda a Igreja nem o padre não é, é uma comissão que tem aí, às vezes o padre nem sabe o que vai acontecer lá, a comissão já fez qualquer coisa, que é tudo por intermédio da comissão. Então a Irmandade eu acho que foi criada assim pra ajudar a levantar Igreja. Que a Igreja era uma capelinha depois quando se formou-se a igreja grande e depois com o tempo se formou-se essa Irmandade e a Irmandade toda vida ajudou a Igreja em toda as parte, era numa limpeza ou era numa barraca.
E é a irmandade quem promove a festa ?
Hoje é organizada pela comissão. A Irmandade sempre... os irmão sempre tão no meio, seja lá com a comissão ou seja com o padre ou seja pra eles, mas sempre tem umas pessoa trabalhando.
A conversa segue sem gravação, enquanto Seu Miguel nos mostra
a indumentária dos congos.
Fim.
Imagem 01 - Estante da casa de Miguel Ferreira com coroas de rei e rainha.
Imagem 02 - Cidade da Lapa vista do mirante da Gruta do Monge.
Imagem 03 - Detalhe de espada do período imperial usada pelo Rei Congo.
Imagem 04 - Igreja de São Benedito.
Imagem 05 - Miguel Ferreira e a bandeira de São Benedito.
Imagem 06 - Carlos Ferreira 08 anos, conguinho.
Imagem 07 - Miguel com " caderno ".
Imagem 08 - Nei manoel de embaixador com 03 caciques.
Imagem 09 - Conguinhos.
Imagem 10 - Senhor Adilson de fidalgo.
Imagem 11 - Senhor Benedito e Senhor Nei Manoel.
Imagem 12 - Senhor Miguel com coroas de Rei Congo.
Imagem 13 - Beto Lanza e Senhor Miguel.
Fotos 01, 02, 03, 04, 05, 07, 12 e 13 - Janine MalansKi
Fotos 06, 08, 09, 10 e 11 - Marcos A. Campos