DONATE

Saudações

jp_inauguration_enc09_0030

Foto: Julio Pantoja

Da Diretora

O Instituto Hemisférico de Performance e Política é mais que um "lugar"— é uma prática. Ou, melhor ainda, uma série de práticas inter-relacionadas. O Instituto Hemisférico é uma rede de instituições, acadêmicos, artistas e ativistas das Américas que trabalham na interseção da "performance" e a "política" (ambas em sua definição mais ampla).

Partindo do campo interdisciplinário dos Estudos da Performance, tomamos as práticas corporais como nosso objeto de análise—desde o teatro, a dança, os esportes, as manifestações políticas e os rituais até a estética da vida cotidiana. E ao invés de ver as Américas como um lugar delimitado e circunscrito, o abordamos como um portal para articular as práticas compartilhadas durante séculos de migrações e movimentos diaspóricos na massa continental.

As identidades são muito mais flexíveis e relacionais que as fórmulas dos marcos nacionais dos "estudos de área" ou os chamados "estudos étnicos". Os acontecimentos e comportamentos que nos interessam são hemisféricos—não se podem pensar, nem analisar-se a partir de apenas um lugar. Não há nenhuma posição, nenhuma teoria única, que possa abarcá-los.

Nosso projeto depende de práticas coletivas que se reconfiguram continuamente, sem nenhum ponto de entrada privilegiado. Ao observar com um olhar crítico os repertórios de comportamentos vivos, expandimos o que figura como sabedoria e alternamos nossos mapas epistemológicos. Os conhecimentos novos requerem arquivos novos, ambientes de aprendizagem mais produtivos e metodologias críticas mais complexas. Da mesma maneira, nossas práticas coletivas geraram modelos de interação acadêmica mais interdisciplinares. Nosso projeto combina a comunicação eletrônica com o encontro face-a-face, a investigação com o ensino, os arquivos digitais de materiais das fontes primarias com a investigação de campo em comunidades locais, e entrelaçamos tudo através dos fóruns de discussão, que nos proporcionam uma plataforma para o debate contínuo.

Durante os últimos dez anos, os acadêmicos e os estudantes de uma ampla gama de disciplinas nas artes, nas humanidades e nas ciências sociais vêm colaborando através do Instituto Hemisférico para avançar nos seus projetos de investigação mediante grupos de trabalho, fóruns de discussão e projetos editoriais. Ministram aulas em conjunto, oferecendo aos estudantes um currículo de performance e política nas Américas desde o século XVI até o presente. Os professores com mais experiência assessoram os novos professores e os estudantes de pós-graduação. Os artistas nos fazem lembrar que a prática performática articula uma teoria, e que as intervenções teóricas também atuam no mundo.

Sem dúvida, todas estas interações e projetos de investigação requerem o apoio institucional de nosso quadro administrativo. As instituições-membros têm sido participantes ativas, e ao serem sedes dos Encontros e dos grupos de trabalho, nos têm permitido desenvolver cursos interinstitucionais e proporcionado redes de programação para facilitar que os artistas e os acadêmicos apresentem seu trabalhos em nossas universidades.

Este ano queremos agradecer à Universidad Nacional de Colombia por ser a sede do VII Encontro Internacional do Instituto Hemisférico, Cidadanias em cena. Dez dias fantásticos nos esperam para compartilhar nosso trabalho, nos escutarmos, discutirmos e desenvolvermos relações profissionais a longo prazo. Obrigada a todos e a todas por compartilharem seu talento e dedicação para que o Instituto Hemisférico seja uma prática tão produtiva e que os Encontros sejam eventos tão maravilhosos.

Diana Taylor

 


Da Marta Zambrano

Recebam o meu cordial "bem-vindos e bem-vindas" a Bogotá. A equipe coordenadora da Universidad Nacional espera que desfrutem a cidade, nosso campus e, acima de tudo, que este Encontro seja bem proveitoso para todos(as) e cada um(a) de vocês. Trabalhamos mais de um ano neste projeto coletivo de formação, pesquisa e difusão, com o objetivo de gerar novas reflexões e intervenções públicas sobre os temas que nos convocam para este evento.

A partir da reflexão sobre as consequências da interseção entre o giro multicultural e as políticas neoliberais no continente americano, propusemos ao Instituto Hemisfério de Nova York trabalhar a confluência entre a performance e a política na encenação das demandas da cidadania. Expor uma aproximação sobre isso responde à necessidade de examinar, em paralelo, a crescente associação entre os direitos culturais e pertencimentos raciais, religiosos e sexuais com as demandas por justiça social. As demandas por reconhecimento do lugar da diferença, permitem escutar outras vozes e oferecem uma perspectiva privilegiada sobre estes assuntos.

De um lado, se manifiesta, com força, a inscrição de grupos coletivos e indivíduos que lutam por seus direitos culturais em categorias de cidadania cada vez mais amplas e mais fragmentadas. Enquanto nos espaços nacionais, a cidadania unitária e anônima se pluraliza com as cidadanias diferenciais, estas constringem e separam aqueles que as subescrevem em margens discretas que subordinam a inclusão social ao reconhecimento cultural. Do outro lado, as cidadanias transpassaram as fronteiras canônicas do estado-nação para interrogar os direitos dos migrantes, dos desterrados, dos bi ou tri nacionais e daqueles que carecem de uma nação. Nesses terrenos, a performatividade dos direitos culturais se faz pública em variados cenários e em permanente redefinição e luta.

A partir deste enfoque, chegamos a três eixos conceituais para este Encontro bianual que une ativismo, academicismo e arte: legados e memórias da cidadania, lutas pela cidadania e fronteiras da cidadania A partir daí, convidamos à expressão e à discussão da História e da atualidade das demandas por cidadania e pelo direito à memória. Também convocamos que consideremos as diversas formas de mobilização cidadã e a examinar a maneira pela qual se demandam os direitos culturais ou sociais e o lugar que eles ocupam na diferença e na desigualdade. Estas são discussões que percorrem o continente e se expressam de múltiplas formas, da Patagônia ao Círculo Ártico. No princípio, sem dúvida, tivemos presente a experiência colombiana, que propõe desafios proponentes conceituais, performáticos e políticos. A Colômbia é um país que subescreveu uma avançada legislação que outorga direitos culturais diferenciais para grupos coletivos étnicos, sexuais e religiosos, concede direitos territoriais aos povo indígena e afro e preconiza sua própria educação. Por sua vez, é um dos países de maior desigualdade do continente na distribuição da propriedade da terra e encabeça também as estatísticas mundias de duração de conflito armado e nas categorias de deslocamento forçado interno. Perante as histórias de restos mortais, violência e exclusão, eleva-se uma multidão de mobilizações sociais, passeatas com cores religiosas, mingas (grupos coletivos) indígenas e encenações de denúncia onde se encontram diversas estéticas, práticas de significação e iterações corporais iluminam novos caminhos possíveis e respostas alternativas ao autoritarismo e ao maniqueísmo que nos rodeia.

Mediante a estas propostas, buscamos contribuir à consolidação de redes já estabelecidas nos Encontros anteriores e à criação de novos laços de colaboração horizontal e hemisférica, um dos desafios na construção de uma cidadania global mais solidária e menos injusta que, entendo, é também um desafio que tem provocado as ações do Instituto Hemisférico.

É difícil citar todas as pessoas que contribuíram para a realização deste Encontro: são muitas, e embora algumas delas estejam incluídas nos créditos, quero agradecer a todos e a todas. Fico grata ao Instituto Hemisférico pela confiança que nos depositou. Devemos um reconhecimento à Universidad Nacional e em especial às cinco Faculdades (Ciências Humanas, Artes, Ciências Econômicas, Direito e Enfermagem) que acreditaram no projeto de um grupo interdisciplinar de docentes e que dispuseram de seus fundos e acompanhamento acadêmico para sua realização. Sem o apoio da Secretaría Distrital de Cultura e Turismo de Bogotá e da Direção de Artes do Ministério da Cultura, este evento não poderia ter sido realizado.

Marta Zambrano